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quarta-feira, dezembro 31, 2008

2000inove

Agradeço aos que acompanharam, de várias formas, o blog Mirar & Ver em 2008.
Dividimos bons momentos juntos...
Renovo o desejo e a vontade de que as relações se fortaleçam em 2009.
Afinal, juntos somos mais fortes!

quinta-feira, dezembro 18, 2008

Nós Barrocos

Apesar das controvérsias ainda hoje é possível perceber como o barroco exerce poder sobre o gosto e o estilo de vida dos brasileiros. Esse “poder” está em exposição na mostra "O barroco no popular e o popular no barroco", na CAIXA Cultural-RJ.
Sob curadoria da antropóloga Gisele Catel e da historiadora Cristina Ávila, a exposição apresenta, entre outras possibilidades, o barroco, com sua linguagem sinestésica, como “a arma ideal da colonização para a dominação de novas terras e novos povos”. Os fiéis eram arrebatados pelo deslumbre visual das peças e ritos religiosos. Tudo era motivo de festa naquele período. Não muito diferente de hoje, como observa Affonso Ávila no livro “Circularidade da ilusão” (2004).
Através da mostra observamos que, desde as exóticas pérolas baroquias – encontradas no século XVI pelos portugueses e que terminaram por dar nome ao estilo – até as procissões, cavalhadas, congados, maracatus e carnaval, o barroco é a explosão de alegria e resposta antropofágica. Affonso Ávila vai além e afirma que “o choque entre fantasia e realidade no discurso poético e literário do barroco” está presente tanto na “ludicidade artesanal” quanto na “ludicidade tecnológica da era da informática”.
De fato, a liberdade barroca nos permitiu construir a forma de vida que adotamos para o nosso país e a nossa identidade. Quando a “baroquia” se metamorfoseia em “barroca”, para nomear toda arte bizarra e irregular, ao mesmo tempo, cria o “vigor e a criatividade exuberante presentes em todas as formas da arte popular”, como sugerem as curadoras.
Entre as peças da mostra merece destaque o colar de pérolas baroquias criado por Antonio Bernardo e um altar de umbanda, consagrado pela Tenda Espírita Pai Jerônimo. Acerca deste último as curadoras lembram que “a convergência entre as religiões africanas e o catolicismo foi facilitada pelo fato das duas tradições serem fortemente ancoradas em suportes materiais e visuais de impacto sensorial profundo”. Para elas “a mão do povo é guiada pelo barroco que impregna cada gesto de artista e artesãos nos quatro cantos do país”. País que tem a fusão do sacro e do profano como marca de sua arte e estilo de vida.
Em tempo, cabe prestarmos mais atenção não somente ao barroco histórico, mas às suas repercussões e contribuições para nossa cultura, repleta de prazeres, labirintos e nós.

Texto Publicado no Jornal A União-PB 13/12/2008

Entre outros, ouvi, vi e li, por estes dias:

= Show Sticky And Sweet Madonna – Muita tecnologia, imagens lindas nos telões, equipamento de som impecável (até para ajudar a voz sofrida da cantora)... tudo incrivelmente profissional e impecável. Quando ela cantou 'Like A Prayer' todo mundo foi ao delírio... Ver aquele povo todo, Maracanã lotado, banhado de chuva, suor e luz é indescritível!.
= Peça Inveja dos Anjos – Texto, cenografia e iluminação excelentes do grupo de Teatro Armazém. A boa direção só poderia ter exigido menos gritos "dramáticos" dos atores. Fundição Progresso-RJ.
= Peça Quartet – Com um texto tão complexo, confesso que fiquei com receio de assistir a uma encenação feita por dois irmãos (Beth Goulart e Paulo Goulart Filho), mas o resultado é incrivelmente impactante. Teatro Leblon-RJ
= Peça 2 p/viagem - Despretensiosa peça encena pelos jovens Miguel Thiré e Mateus Solano que agrada o público em busca de risos fáceis. Bom trabalho de voz e corpo no teatro. Teatro Cândido Mendes-RJ
= Peça Clandestinos - João Fonseca acertou em cheio na escolha do elenco. Todos interpretando (entre ficção e realidade) a saga de jovens talentos (personagens interessantes) que vêm para o Rio de Janeiro em busca de fama. Teatro da Glória-RJ.

sexta-feira, dezembro 12, 2008

André Masseno

A discussão sobre qual é a dose de ficção no real e vice-versa é algo que sempre gera muita controvérsia. Ainda mais em um contexto em que a tecnologia cada vez mais interfere nas narrativas e na arte. Os textos autobiográficos ou autoficcionais proliferam, a arte performática ganha força, com manifestação soberana do livre-arbítrio. Ao encontro disso os limitem que separam um gênero artístico de outro são cada vez mais tênues e os críticos encontram cada vez mais dificuldades para analisá-los ou defini-los.
De fato, como ressaltou o cineasta Peter Greenaway, semana passada no Rio de Janeiro, os performers, como pintores sensibilizados com o cenário ao redor, conseguem agir no cruzamento entre o compromisso criador ficcional e a clara consciência da dimensão psicológica. A aproximação entre performance e artes plásticas vem da certeza de que nem uma das duas se preocupam com o público. Ou seja, durante a sua existência, ambas existem como um todo fechado, com começo, meio e fim.
Assim, chamo atenção para a obra de André Masseno, artista contemporâneo que sabe trabalhar com humor e crítica uma arte em permanente auto-(re)visão. Seu trabalho une informação visual e a palavra escrita, questionando o cotidiano real.
Em seu recente espetáculo “Outdoor Corpo Machine”, por exemplo, ele aprofunda sua pesquisa sobre movimento e gênero. Tematiza e tenciona as imagens midiáticas do corpo masculino e em dado momento da performance seu corpo apresenta as várias possibilidades de posições do boneco Ken (aquele da Barbie). Masseno não representa nenhuma personagem, apresenta ele mesmo, seu humor e seu intenso desejo de ir fundo nas coisas, com sua experiência enquanto indivíduo e artista queer. Sabedor de que nenhum resumo dá conta da vida, ele faz de sua apresentação um todo instantâneo.
Para o crítico Pierre Restany o “fetichismo da ação [comum em nossos dias] se inscreve na perspectiva lógica de um procedimento extremista, tanto mais desejosa de ir ao fundo das coisas quanto se proíbe qualquer compromisso criador mais clássico em paralelo”.
André Masseno vem desenvolvendo um instigante projeto de se despir em cena para questionar o instantâneo da vida. Ele entende que não há um repertório exterior ao performer, além da sua própria percepção da pluralidade da vida e sabe usar isso muito bem.

Texto Publicado no Jornal A União-PB 29/11/2008

Entre outros, ouvi, vi e li, por estes dias:

= Musical A Noviça Rebelde – Maravilhoso!
= Exposição O Barroco no Popular e o Popular no Barroco – Mostra com muito bom gosto o período histórico e as ressonâncias do Barroco no Brasil. Imperdível! Caixa Cultural-RJ.
= Encontro Internacional de Palhaços Anjos do Picadeiro 7 – Boa mostra de como a arte do riso inocente (as vezes nem tanto) sobrevive.

sexta-feira, novembro 28, 2008

Tom na Bossa

Depois de Estudando o samba (1976) e Estudando o pagode (2005), Tom Zé aproveita as comemorações dos 50 anos da Bossa Nova e acaba de lançar seu disco assumidamente mais cantável: Estudando a bossa – Nordeste Plaza.
Nesse trabalho, ele dá seqüência ao uso da fusão entre consciência política e experimentação estética, aliado ao deboche “incorreto”, característico de suas composições. De fato seu trabalho é uma “obra aberta”, ou melhor, in progress.
Estudando a bossa, faz um passeio por referências ao contexto histórico do “surgimento” do movimento. Passa pela histórica gravação de “Chega de saudade” feita por Elizeth Cardoso. E deságua nos desdobramentos pós Bossa Nova.
Não é preciso dizer que a batida do violão de João Gilberto atravessa todo o disco. Um disco limpo, sem os ruídos e desperdícios comuns à música “doideca” de Tom Zé. Ele buscou a sofisticação e clareza típica do estilo sob estudo. Mas engana-se quem pensa que é um disco fácil. Há inúmeras referências, ora claras, como quando ele cita diretamente fatos ou personagens, ora obscuras, como quando faz reminiscência a trechos e acontecimentos. Enfim, tudo que foi base para o surgimento daquela estética.
O “barquinho” de Bôscoli & Menescal é substituído pelo “vapor de cachoeira” que não navega mais no mar e aparece no cancioneiro popular da Bahia. Aliás, Tom Zé sugere que se a Bossa Nova surgiu com o “ventríloquo” João Gilberto, foi Mãe Menininha quem a amamentou, e faz a ponte do Bonfim à Guanabara. Obalalá. Bela aula sobre como as curvas do Rio de Janeiro inspiraram poetas, músicos e arquitetos da época.
Mas Tom Zé não “rende graças”, ao contrário, destrona o cânone. Ironiza na canção “O Céu Desabou” todo o rebuliço que o movimento causou, e lembra que se a Bossa Nova atraiu os olhos do mundo para o Brasil, o país continua a ter Buenos Aires como capital. Versa sobre temas caros aos bossanovistas como o sol, a praia e o mar. Esboça o “quase silêncio” característico das interpretações de João Gilberto, o “cara do bim bom”. E, se nas canções o amor ainda era interdito, apesar da Bossa Nova ter tentado romper com a “fossa” e os bolerões, tratando de temas solares, hoje, nas letras de Tom Zé, o amor manda recado por email.
Aparentemente longe de seu processo criativo, Tom Zé aprofunda seus estudos sobre nossa música. É o bárbaro estudando o fino, antropofagicamente, na eterna e lenta luta.

Texto Publicado no Jornal A União-PB 15/11/2008

Entre outros, ouvi, vi e li, por estes dias:

= Filme Linha de passe – Walter Salles encontrou o tom mais que perfeito, aliado a fotografia e atuações ímpares, para apresentar o avesso de nossas questões nacionais.
= Filme Baby Love – Um bom filme-pipoca-gay. Dentro do melhor "padrão hétero" de enguadrar as relações homoafetivas, o filme traz bons temas para discussão.
= Filme Ensaio sobre a cegueira – Boa adaptação para o texto de Saramago. Um tanto holywoodiano demais, mas com resultado bacana.
= Livro Tim Maia, O som e a fúria – Nelson Motta narra com muito humor as loucuras do saudoso e grande Tim Maia. E é por isso que vale a leitura: pelo personagem.

sexta-feira, novembro 07, 2008

Outros Mares

O que fazer durante um surto psicótico? Adriana Calcanhotto usou o momento para escrever um livro. “Saga Lusa - O relato de uma viagem” foi lançado esta semana do Rio, juntando literatura à sofisticada obra musical da cantora e compositora.
Escusado dizer que o livro foi escrito em Portugal. Calcanhotto o escreveu compulsivamente para se “manter no mundo real”, durante o surto, na turnê de “Maré”.
O livro não é um amontoado de palavras sem nenhuma idéia, como se poderia esperar de uma pessoa surtada. Como queria, ela conseguiu “fazer do limão uma limonada” e as muitas horas de escrita foram devidamente lapidadas. O resultado é a ilusão de “tempo real” das sensações, aliado ao humor e à ironia da cantora. Aliás, a epígrafe do livro não poderia ser outra senão "A alegria é a prova dos nove(s)", frase de Oswald de Andrade.“Saga Lusa” é também uma oportunidade para quem gosta de conhecer a vida pessoal dos artistas. Adriana deixa a timidez de lado e escreve bastante sobre si. E é aí que mora o barato do livro. Resguardada pelo tal surto psicótico, ela delira e trabalha, com certo êxito, a discussão muito atual da “ressurreição” do sujeito/autor dentro da obra. Sem abrir mão do uso de algumas máscaras. Ora Ofélia, ora Medéia, ora Hamlet, ora Alice. Tudo na busca de melhor registrar o tempo interior da narradora em primeira pessoa.
A narrativa não-linear, apesar do fluxo contínuo de pensamentos, é atravessada por textos, letras de músicas e poemas. Num país que ignora sua cultura, é confortante ter alguém que não se furta de apontar suas referências e constrói bem o diálogo entre elas.
“Saí do Brasil exaurida como sempre saio, porque deixo uma casa funcionando, são cheques que não acabam mais, providências, recomendações, Susana de cama, com uma gripe fortíssima, uma cachorra machucada (...), enfim, embarquei pra Lisboa sonhando em desmaiar durante o vôo.” As frases longas e as digressões contrastam com a compositora que nas letras, e na postura artística, sempre primou pela economia, onde “menos é mais”. Ela própria tenta se “retratar” e diz que é “uma pessoa educada”, que não escreve textos “massudos daquele jeito, nem para os amigos íntimos".
“Saga Lusa é um livro agradável de ler. Escrita despretensiosa, feita para “salvar” sua escritora, alguém que sabe valer-se de finos artifícios e mantém o leitor a salvo de uma tormenta de palavras.

Texto Publicado no Jornal A União-PB 01/11/2008

Entre outros, ouvi, vi e li, por estes dias:

= Peça Assim com Rose – Boa adaptação de três contos de Mário de Andrade. Atuações, cenário e trilha sonora em sintonia com a obra do escritor.
= Exposição Hüzün de Carlos Vergara – Sobreposições de fotografias tiradas na Turquia. Sobre o cruzamento das imagens, manipuladas digitalmente, aplicação de técnicas em 3D com o resultado 3D. Resultado visual incrível!
= Exposição Nova Arte Nova – Imperdível amostragem do que está sendo produzido na arte contemporânea. Artistas jovens, mas com trabalhos consistentes e de qualidade. O estranhamento e as dúvidas acompanham o visitante o tempo todo, como importante sensor para pensar os rumos da arte. CCBB-RJ.
= Curtindo o Festival Panorama de Dança 2008 Aproveitando tudo! A curadoria do evento teve muito cuidado e acerto ao tentar montar um panorama do que está sendo feito de mais significativo nas pesquisas com o corpo no mundo. Últimos dias, só até 09/11.
= Curtindo o Curta Cinema 2008 – Festival internacional de curtas. Sessões grátis. Só até 09/11.
= De olho no FIAE (Festival Internacional de Animação Erótica) – Boa e diversificada programação, com temas para todas as taras e gostos. Começou ontem e vai até 14/11 no MAM-RJ.

sexta-feira, outubro 31, 2008

Festival Panorama de Dança 2008

Meu roteiro:

30/10 - Umwelt - Cie. Maguy Marin (França). Depois de cinco anos, a companhia volta ao Rio com um espetáculo inspirado em textos de Beckett. O mote é a falta de sentido para a existência humana. As ausências também são tema. Clique AQUI para ver uma palhinha.
31/10 - A Glimpse Of Hope - Deja Donne (Itália). O olhar feminino do mundo nos últimos 50 anos.
01/11 - H3 - Grupo de Rua de Niterói (Brasil). A técnia hip-hop e suas interseções com a cena contemporânea.
04/11 - Qwerty - A.P.I. (Japão). A fusão de corpos reais e projetados.
05/11 - Império, Love to Love You, Baby - Ricky Seabra (Brasil). Discussão irônica sobre as influências culturais dos EUA no mundo.
06/11 - Accords - Thomas Hauert (Bélgica). Relação entre corpo e som.
07/11 - We Failed to Hold this Reality in Mind - Impure Company (Noruega). Música, movimentos e imagens da cultura iraniana para confrontar o público.

Indico:

31/10 - Ritornelo - Renato Vieira Cia. de Dança (Brasil). Como já escrevi aqui no Mirar & Ver, este é o melhor espetáculo de dança que já assisti.
01-02-08-09/11 - Manual de Instruções - Cia. Dani Lima (Brasil). O espetáculo explora a relação entre a esfera pública e a privada. Destaque para a presença de André Masseno.

Mais informações no site do Festival:
www.panoramafestival.com

quinta-feira, outubro 23, 2008

Romance na PB

Vastos são os recursos imagéticos que o interior do Nordeste, em especial da Paraíba, empresta ao cinema feito pelo diretor Guel Arraes. Seja como cenário para roteiros versando sobre as intermitências do sertão (“Auto da compadecida”), seja pela paisagem natural. Desta vez temos a oportunidade de ver o deslumbrante “Lajedo de Pai Mateus”, formação rochosa de Cabaceiras-PB, em “Romance”, novo filme de Arraes.
O filme apresenta a história de um diretor de teatro, Pedro (Wagner Moura), que se apaixona por Ana (Letícia Sabatella), uma atriz que escolhe para viver o papel de Isolda, da lenda “Tristão e Isolda”. O conflito começa quando, pelo sucesso no teatro, Ana vira “estrela de TV”. Anos mais tarde, Pedro cria um especial-de-fim-de-ano para a TV, sobre a lenda celta, tendo a paisagem paraibana como cenário.
A sempre atual discussão sobre as diferenças entre representar na TV, no teatro e, claro, no cinema é uma das questões centrais que atravessam o filme. Ponto resumidamente bem tensionado pela personagem de Andréa Beltrão (empresária de Ana) quando pergunta: "por que representar para 300 pessoas, se você pode representar para 30 milhões?".
A outra questão que direciona o roteiro passa sobre a representação do amor na dramaturgia e na vida real. É assim que Pedro e Ana tentam encontrar uma nova forma de amar, menos trágica e mais livre. Mas sem perder a emoção. Lançando-se na dialética da paixão imortal versus representação amorosa.

“Romance” se estrutura a partir de citações, referências e colagens de outras obras. Porém, se noutros filmes do diretor era possível identificar um “fôlego barroco” a partir de imagens sobrepostas e de filmes-dentro-do-filme, agora os artifícios intertextuais partem de textos literários e suas interpretações. Arraes alicerça o discurso das personagens dialogando com “Romeu e Julieta” e “Cyrano de Bergerac”, entre outros, decisivos para a construção do imaginário do amor romântico.
O resultado impressiona, não apenas por materializar os diálogos entre tais textos, mas por fazê-lo numa linguagem acessível para qualquer público. Se nos primeiros minutos do filme tudo soa como um vídeo-clip para o tema da ópera “Tristão e Isolda”, do compositor Richard Wagner, as teses levantadas ao longo do filme rendem boas discussões sobre o amor nos dias atuais, sem se perder nas falsas e fãs representações.

Texto Publicado no Jornal A União-PB 18/10/2008

Entre outros, ouvi, vi e li, por estes dias:

= Show Marina Lima & Banda – A qualidade do som dos shows de Marina continua impecável e sempre atualizada.
= Show Ana Canãs – Ela tem excelente presença de palco e certa competência vocal. Precisa apenas encontrar um estilo próprio e exagerar menos no prolongamento de algumas notas.
= Exposição Corpo Humano Real e Fascinante – Inquietante e assustadora. Museu Histórico Nacional-RJ.
= Exposição Arte e Música – Maravilha de ver como a música pode estar conectada com outras linguagens artísticas. Caixa Cultural-RJ.
= Dança Ritornelo – Dentre todos os espetáculos de dança que já vi, este é o melhor. A consciência técnica e corporal dos bailairinos impressiona. A coreografia dialoga com o que há de mais atual na filosofia e literatura.
= Lendo História Sexual da MPB – Trabalho de fôlego que Rodrigo Faour desenvolveu sobre a evolução do amor e do sexo na nossa música popular. Estou devorando o livro e suas quase 600 páginas, com sua escrita acessível.
= Espetáculo Vida e Morte de Eloá – Desculpem, mas com a espetacularização do fato, com um enterro que a mídia quase comparou ao de Ayrton Senna e com camisas sendo vendidas com o rosto da jovem a R$15... Isto é ou não é um espetáculo?

terça-feira, outubro 14, 2008

Maratona Festival do Rio 2008

Entre outros vi:

Chris & Don = Documentário sobre a vida do artista Don Bachardy e seu relacionamento com o famoso escritor Christopher Isherwood (autor dos textos que deram origem a Cabaret e Adeus Berlim, por exemplo). O filme é narrado, em sua grande parte, por Bachardy e tem cenas bem cuidadas com imagens dos dois - realizada pelos próprios Chris e Don nos anos de 1950. Destaque para as animações feitas a partir de desenhos íntimos trocados entre os dois durante a relação.

O homem que engarrafava nuvens
= O documentário-musical apresenta a vida e a obra do compositor, advogado, deputado federal e criador das leis de direito autoral, Humberto Teixeira, "o doutor do baião", como denominou Luiz Gonzaga, seu parceiro em muitas canções. O filme tem depoimentos importantes para o entendimento da evolução de nossa música. Não fosse o egotrip da filha de Teixeira, a atriz Denise Dumont, o filme seria perfeito.

Se nada mais der certo
= Cauã Reymond em eficiente atuação. Destaque para a personagem andrógina de Caroline Abras (trabalho incrível). A densidade do papel de João Miguel. E atuação sempre inquietante de Milhem Cortaz, agora como um travesti.

De repente, no inverno passado = Trata da reação da Igreja, de políticos e da sociedade italiana contra os direitos de união civil entre homossexuais italianos, a partir da visão de um casal gay que sai com uma câmera pelas ruas, entrevistando políticos e sociedade civil. As respostas são de assustar. Eles se dão conta de que vivem em uma bolha. Interessante para pensar nas nossas esferas de controle e proteção particulares.

Verônica
= Andréa Beltrão vive a professora/protagonista que dá nome ao filme. Certo dia, a professora descobre que os pais de um de seus alunos foram assassinados e o menino está sendo seguido pelo tráfico e pela polícia corrupta. Assim, ela decide proteger o garoto e salvar a própria vida, que andava sem graça. O filme tem excelentes cenas de ação e é uma oportunidade de ver a atriz num papel distante da comédia. Muito bom perceber que já somos capazes de criar um thriller policial tão bom!

Vingança = Apresenta a história de um jovem (Eron Cordeiro) do interior do Rio Grande do Sul que se vê envolvido numa trama em busca do homem que violentou sua noiva. A partir deste mote, o diretor Paulo Pons direciona o olhar do expectador para os jogos entre o sentimento de ira e a real natureza da personalidade de Miguel (Cordeiro). Só do meio para o fim do filme, quando os personagem mostram suas faces, é que a história ganha fôlego. Até então, o argurmento se arrasta por cenas dispensáveis. Mas vale a pena conferir o filme.

Paulo Gracindo, O bem amado = Paulo Gracindo (1911-1995) foi um dos atores mais populares do país. Através de depoimentos de colegas e amigos e de um rico material, o filme trata da trajetória do ator, com todas as dificuldades enfrentadas por uma vida dedicada à arte.

A guerra dos Rocha = Ary Fontoura reforça seu importante e competente trabalho como ator. O filme é mais um "cinema pipoca" do Jorge Fernando, em que três filhos vivem em pé de guerra sobre quem deve ficar com a mãe (Fontoura). Só vale mesmo pela atuação de Fontoura, no mais o roteiro é confuso e as atuações (não todas) são caricatas e estereotipadas.

Palavra (En)Cantada = De Helena Solberg o filme é fundamental para quem estuda ou pretende estudar poesia. Ele trata da aproximação entre letra e melodia, ou seja, da canção, e tenta desmistificar, a partir de argumento, tanto de teóricos, quanto de artistas a distinção entre poesia e letra de música.

Rinha = Filme com cenas reais traz à tona a polêmica sobre as lutas clandestinas em um contexto de festa regada a álcool, drogas, sexo e muitos dólares, em que ricos pagam para pobres lutarem. Filme denso, com cenas fortes e humor negro interesante. Interessante para perceber como certos conceitos hierárquicos continuam fortes na nossa sociedade.

Feliz Natal = A estréia de Selton Mello como diretor prova que ele soube tirar excelente proveito de seus trabalhos como ator. "Lavoura Arcaica", por exemplo. Com fotografia a la Antonioni, o filme "Feliz Natal" apresenta um homem que decide retornar à capital após muitos anos e encontra sua complicada família, emaranhando por recordações e problemas complexos. O filme exige atenção do público, pois tudo fica no campo da subjetividade. Nenhuma informação é dada gratuitamente.

A Erva do Rato = Baseado em dois contos de Machado de Assis - "A Causa Secreta" e "Um Esqueleto", Júlio Bressane cria um clima claustrofóbico sobre a relação de Ele (Selton Mello) e Ela (Alessandra Negrini). De textos ditados por Ele e copiados por Ela a relação passa à fotos eróticas dela que são roídas por um rato. Ele vai a loucura, enquanto Ela tem tesão. O filme causou desconforto diante de cenas em que Ele tira fotos de Ela nua em posições "ginecológicas".

Pan-Cinema Permanente = Documentário que tem como eixo temático o poeta Waly Salomão, artista que se manifestava em múltiplas direções. O filme tenta seguir, com sucesso, uma proliferação de meios para apresentar uma personalidade que sempre procurou romper a fronteira entre realidade e ficção.

terça-feira, outubro 07, 2008

Dois cantos-flash

Susan Sontag escreveu que uma “fotografia é, antes de tudo, um modo de ver. Não é a visão em si mesma”. Tal afirmação ecoa fundo em quem se propõe a observar que na vida não existe uma foto final ou total. Cada qual procura “tornar presente” os recortes íntimos que o atravessamento de tudo nos impõe. Como flashes semi-cortantes.
Estas reflexões são inevitáveis se percebermos os novos discos de Marcelo Camelo e Frejat como fotografias íntimas do universo ao redor destes dois artistas, e como a realidade suporta olhares diferentes.
Em seu primeiro trabalho solo desde que o grupo Los Hermanos entrou em recesso, Marcelo Camelo faz de “Sou” um registro da solidão. A doce solidão que estimula uma profusão de experimentos – letras e ritmos – que se misturam à própria voz do cantor. A certa altura ele diz “solidão, foge que eu te encontro”, intensificando o processo do discurso noturno de quem se questiona sobre o que fez com a liberdade moderna.
“Sou” vibra tão próximo do ouvinte que se tem a sensação de estarmos no lugar onde Camelo “melancolicamente” compõe, por exemplo, o delicado carimbó “Menina bordada”. Mesmo quando ouvimos a marchinha “Copacabana” é a solidão do trabalho e a saudade de outros carnavais o que se impõe como estrutura semântica.
Oposto a isso, em certa medida, temos “Intimidade entre estranhos”, terceiro disco solo de Frejat. Nele o tema central das letras é a dialética entre o “controle remoto” e a verdade. Ou seja, é o registro de um ser que fica dividido entre a fantasia e o “cheiro de fumaça dos carros” e entre a segurança e o desejo de ver além do perigo.
Como já vinha fazendo, Frejat parece acompanhado por uma musa que guia e inspira seu canto, ora para letras engajadas - “Eu só queria entender”, ora para a indefinição de papéis nas relações afetivas - “Farol. Mas não ultrapassa isso e mantém sua postura de “rapaz bem comportado” longe do Barão Vermelho.
Num mundo onde tudo parece já estar etiquetado, nomeado e mapeado, em que nos resta apenas reconhecer as coisas, uma foto pode estar querendo apenas dizer que “algo” também é possível. Se assim for, “Sou” e “Intimidade entre estranhos” são dois cantos-flash (não opostos, mas distintos) da certeza de que a vida se faz nas anotações do dia-a-dia de um mundo absurdo, onde a lei de causa e efeito perdeu sentido.

Texto Publicado no Jornal A União-PB 04/10/2008

Entre outros, ouvi, vi e li, por estes dias:


Comentário sobre os filmes, semana que vem!

quinta-feira, setembro 25, 2008

Missas paralelas

Entre as muitas homenagens ao centenário de morte de Machado de Assis, destaco o lançamento do livro “Capitu mandou flores”, organizado por Rinaldo de Fernandes, em que quarenta escritores brasileiros recriam textos machadianos. Dentre eles merece atenção o conto “Juca”, de Amador Ribeiro Neto, que já havia sido publicado em uma esgotada antologia de contos, intitulada “O amor com olhos de adeus”. Com o novo livro, o público tem a oportunidade de ler o “canto paralelo”, construído sobre referências, fragmentos e reminiscências da obra machadiana.
Mais do que um diálogo entre textos, “Juca” é uma interpretação crítica e atualizadora de “Missa do galo”. Ele mantém praticamente a mesma estrutura inicial do conto de Machado. Enquanto o jovem Nogueira de “Missa” vai à capital para os “estudos preparatórios”, o narrador de “Juca” também é um jovem que se desloca do interior para a cidade grande, porém para fazer compras de fim de ano e ver um pouco de teatro.
Os narradores apresentam ao leitor dissimulações, que encobrem a objetividade das histórias, dando um tom de incerteza aos fatos. Como os dois contos são rememorações, há passagens que tentam transparecer “lapsos de memória”, devido à distância temporal dos fatos. Assim, logo se percebe que os supostos esquecimentos são intencionais, uma vez que existe algo que ambos os narradores preferem esconder.
Nogueira concentra sua narrativa na figura sedutoramente ambígua de Conceição, esposa do escrivão Menezes que o hospeda. Em “Juca” a história é focada no diálogo entre o narrador e o tio deste, um cara “muito legal”, mas que “tinha uma coisa meio misteriosa na sua vida”. Entretanto, a ambigüidade presente na personagem feminina de “Missa do galo” e no tio de “Juca” nada mais é do que uma idéia forjada pelos narradores. As intenções e os sentidos das palavras vão além do que está escrito.
É provável que o ponto central dos textos seja a transição para a vida adulta e o despertar do desejo, registrados pelo olhar dos narradores que começam a perceber no outro, muito mais do que a “segunda mulher do escrivão” ou o “tio muito legal”.
Através de um texto sofisticado, onde não há imitação ou negação, Ribeiro Neto constrói a narrativa que homenageia o conto machadiano, mesmo que de forma enviesada, introduzindo acentos novos numa obra que ainda se oferece como importante referência para a produção literária que se faz hoje.

Texto Publicado no Jornal A União-PB 20/09/2008

Entre outros, ouvi, vi e li, por estes dias:

= Ópera La BohèmeAo optar pelo uso de projeções de quadros impressionistas como cenário, a direção, mesmo com a atuação de solistas competentes, desviou a atenção do público. Uma pena!
= Exposição Rubens e seu Ateliê de Gravuras – Oportunidade de ver as gravuras deste artista barroco, nos diversos
âmbitos temáticos de uma obra cheia de dobras e detalhes. A mitologia greco-romana e a alegoria, bem como o retrato, a paisagem, as séries históricas e a ilustração. Até 19/10 no Centro Cultural dos Correios.
= CD Sou (Marcelo Camelo) – Primeiro disco solo do ex Los Hermanos retoma projeto inicial do grupo. Experiência com a guitarra, mistura de gêneros... Um trabalho "noturno" em que a solidão arrasta o eu-lírico por sonoridades e paisagens diversas.
= CD Intimidade entre estranhos (Frejat) – Terceiro disco solo de Frejat soa como mais do mesmo. Apesar do excelente mote - as paredes de papel que nos cercam, as esferas individuais que são insistentemente estouradas - o som e as letras, que vez por outra grudam no ouvido, dão continuidade às baladas dos discos anteriores, sem grandes novidades.
= Dança Meu Prazer (Márcia Milhazes) – O sobrenome deveria dizer muito, mas a irmã da artista plástica Beatriz Milhazes apresenta um espetáculo confuso, sem direção, em que quatro bailarinos repetem os mesmos "movimentos" do início ao fim do espetáculo ao som de músicas deslocadas.
= Dança Q'eu Isse (Rui Moreira) – Em uma atuação maravilhosa o excelente Rui Moreira incorporava no palco a força da tradição e da história afro. Muito distante de levantar bandeira, a coreografia - unida à luz correta e a trilha sonora (de Milton Nascimento) - emocionaram pela consciência técnica dos bailarinos.

sexta-feira, setembro 12, 2008

Trois

Há situações em que a emoção tende a se sobrepor ao senso crítico. Digo isso para tentar “justificar” meu deslumbramento sobre o show de Caetano Veloso e Roberto Carlos, no Teatro Municipal do Rio de Janeiro. Passados alguns dias, ainda guardo todas as sensações. O espetáculo celebrou os 50 anos da bossa nova com repertório visitando a obra de Antonio Carlos Jobim. Não deu pra segurar. Durante a apresentação, as lágrimas rolaram algumas vezes. Eu sabia que estava presenciando um grande momento. E foi muito mais que isso.
Quando apagaram as luzes e abriram as cortinas do belo teatro, ao som da “ouverture” da trilha sonora de “Orfeu da Conceição”, lá estavam três representantes de significativos momentos de nossa música popular. Jobim (em espírito) e a bossa nova, Roberto e a Jovem Guarda, Caetano e a Tropicália. Um delicioso "ménage à trois".
Roberto Carlos mostrou desenvoltura impecável. Atitude de rei. Contrastando com Caetano que algumas vezes, já havia reparado em outros shows, passa a impressão de estar pouco a vontade no palco. Mas foi lindo vê-lo cantar “Caminho de pedra”, o quase aboio de Jobim, que já teve um primoroso registro na voz de Elizeth Cardoso.


A platéia, onde predominavam fãs de Roberto, permaneceu acesa o tempo todo. Ouvir os dois cantando juntos “Samba do avião” me fez lembrar os meus primeiros dias de morada aqui no Rio. E emendaram “Tereza da praia”, fazendo com graça o diálogo dos amigos apaixonados pela mesma mulher.
Belíssimo também foi o acompanhamento de uma competente orquestra de cordas, sob regência dos maestros Jaques Morelembaum e Eduardo Lage. Além de músicos exclusivos para cada um dos dois artistas e a presença pontual de Daniel Jobim no piano. O cenário de Daniela Thomas, inspirado nos traços de Oscar Niemeyer, cumpriu sua função sem afetação e a direção de Monique Gardenberg e Felipe Hirsch foi correta.
Dias depois li matéria em jornal apontando “deslizes” na atuação de Caetano, como entradas atrasadas em algumas músicas. Penso que, com sua “dicção de camaleão”, como já apontou Luiz Tatit, há mais estilo que propriamente erro no seu cantar.
Ia esquecendo. Não senti nenhum cheiro de “naftalina”, como sugeriram os “críticos” de dois jornais de São Paulo. Enfim, como sabemos, falar mal gratuitamente do trabalho de artistas como Caetano e Roberto ainda alimenta o ego de alguns. Fazer o que?

* Texto publicado no jornal A União PB 06/09/2008

Entre outros, ouvi, vi e li, por estes dias:

= Peça A última gravação de Krapp e Ato sem palavras 1 – Oportunidade de ver Sergio Britto interpretando, mais uma vez, textos de Samuel Beckett. São duas atuações bens distintas, num mesmo espetáculo, mas sempre sobre a angústia de algo que se perdeu, ou que está se perdendo. A paixão de Britto pelo teatro é perceptível em cada gesto - sempre mínimo, mas cheio de significação. No teatro do Oi Futuro.
= Peça Contando Machado de Assis – O excelente ator José Mauro Brant presenta um trabalho despretencioso, pautado na contação do conto "Missa do galo" e capítulos de "Mariana", de Machado de Assis. Brant sabe apagar do expectador, com sua leitura singular dos textos machadianos e sua qualidade como intérprete, qualquer espectativa de um grande espetáculo. Tudo é meticulosamente lançado às entrelinhas, bem ao gosto do autor. Teatro de Arena da Caixa Cultural.
= Peça Monstra – Sob direção de Jorge Fernando, Patricya Travassos apresenta um texto próprio numa peça que, sem dúvida, renderá uma longa temporada. O texto trata das "dores e delícias" de ser mulher na contemporaneidade, mas é mais que isso. Travassos tem sacadas inteligentes que agradam em cheio o público. Demonstração de que o tema ainda rende bons trabalhos. Teatro dos Quatro.
= Peça Aux pieds de la lettre – O fabuloso grupo de teatro gestual Dos a Deux apresenta um trabalho consistente de interpretação, pesquisa e montagem de um verdadeiro espetáculo teatral, em que o corpo do ator é segundo a segundo testado, desfeito e remontado diante do público. Teatro Nelson Rodrigues.

sexta-feira, setembro 05, 2008

Um dia com Madonna

Sabe aquela história “não critique ninguém, pois você não sabe onde seus pés tropeçarão”? Sempre achei um absurdo alguém enfrentar filas de horas e horas para comprar ingresso de show, jogos... Mas, como vivemos para fazer e desfazer nossas certezas decidi enfrentar o ritual que é garantir um lugar no show que Madonna fará no Maracanã.
Tudo começou ainda na madrugada de domingo para segunda quando tínhamos a feliz ilusão de fazer a compra pela internet. Resultado: depois de um tempo enorme na frente do computador efetuando a compra, vimos o valor ser debitado no cartão, mas o site da Tickets for fun (nunca esquecerei este nome), responsável pelo (des)serviço, resolveu travar e não registrou a compra.
Amanheceu e novas tentativas, agora para reclamar do débito indevido. Nada! Foi aí que tomei a decisão. Ir para a fila que desde o dia anterior já era grande. Cheguei por volta de 9h. A aflição era geral. As notícias de pane no site já rolavam por alí. Com água, toddynho e biscoito passatempo(!) na mochila, além de livros, revistas e jornais – que quase não foram abertos – me sentei atrás de meus companheiros de jornada. Aos poucos nos conhecemos, constatando semelhanças de gostos etc. e tal. Hoje em dia é tão difícil passar um dia todo ao lado de alguém, que agradeço aos céus por ter ficado perto de pessoas legais de fato.
Antes de chegar à fila, porém, passei por um casal de idosos que caminhavam na manhã fria. Quando me aproximei, a senhora falava em voz alta que “se fosse para ver Jesus ninguém enfrentaria uma fila dessas”. Pensei “isso foi comigo”, mas estava tão descontraído, já olhando as bibas, travas, caricatas e afins, que nem olhei para trás.
A fila foi uma pré-festa. Muitos descolados, mauricinhos, patricinhas... Diversas tribos, modos e jeitos particulares de “ser fã” de Madonna. Gente que não poupa brilho para sair de casa, gente que não dispensa o preto. Gente que gesticula, gente que fica quieto. Todos tendo que se servir de biscoito globo e guaravitão para enganar a barriga.
A certa altura uma moça exclamou: “Nossa, que rapaz bonito! Será que ele é hétero?” Um de meus colegas respondeu com a pérola do dia: “Aqui você só vai encontrar gay ou cambista, minha querida”. Há controvérsias.
Ao longo do dia os colegas de fila buscavam notícias, e iam a todo instante conferir o tamanho da multidão atrás de nós, e assim nos distraímos de lembrar a enorme distância que nos separava da bilheteria – aberta às 11h, com os ingressos de alguns setores já quase esgotados. Desespero. Apreensão. Alguém mais alterado dá um chilique. Pronto, será que seria tudo tempo perdido? Desisto disto e vou embora? Olhei para uma trava montada a poucos metros de mim, toda digna de salto XV, maquiagem impecável e cabelo louro escovado, no sol a pino. Pensei, “vou até o fim”.
Mas como loucura pouca é bobagem, o nonsense mesmo foi saber que alguns sabidos estavam, literalmente, alugando os idosos que passavam na rua. Em instantes apareceram avô de um, tio de outro. E as bibas mais afoitas logo começaram a desafiar as velhinhas que provassem serem fãs da Madonna. “Quero ver cantar Vogue!”, gritavam desesperadas aquelas que tinham virado a noite ali na calçada. Um colega sugeriu que alugássemos uma cadeira de rodas. Idéia rechaçada, afinal somos seres do bem.
Muitas coisas rolaram, ou pelo menos ficamos sabendo que rolaram, pois de onde estávamos era difícil distinguir ficção de realidade. Ainda mais depois de quase doze horas, sol, ventania, sem almoço, vontade de ir ao banheiro... Claro que houve um revezamento para as necessidades de cada um, mas o cansaço era violento.
Resumindo: Era quase 22h, quando saímos da fila COM OS INGRESSOS. Fomos todos felizes e em bando tomar o metrô. Já não sentia minhas pernas. Minha cabeça estava leve. Minha barriga (eu ainda tinha barriga?). Ainda vi ao longe a amiga toda digna, ainda no seu salto XV, maquiagem e cabelo impecáveis.
Fiz o sacrifício. Passei pelo ritual. Espero ser recompensado. Isto é, se a mãe de David, Rocco e Lourdes não cancelar (toc, toc, toc), já que a turnê termina aqui na América do Sul e a cinquentona pode estar exausta. Se bem que, como aventou outro coleguinha de fila, com a distância que vamos ficar do palco, poderiam até mandar uma trava-dublê no lugar dela que ninguém saberia distinguir mesmo. Prometo contar aqui, depois de 14 de dezembro, tudo que rolar na fila de entrada pro show e no show, óbvio.

terça-feira, agosto 26, 2008

Somos bronze

No momento em que escrevo este texto ainda não é possível conversar sobre qualquer assunto sem mencionar a palavra Pequim (ou Beijin, para os puristas). Dominando 100% da mídia, o fenômeno olímpico tem aspectos bastante interessantes a serem observados e que revelam muito de nós brasileiros.
Não é segredo para ninguém que gostamos de nos gabar como “os melhores” nisso e naquilo. Desde o grupinho que joga pelada no campinho de terra até a seleção brasileira, todos são “os melhores”. Daí a graça de se comemorar medalhas de bronze como se fossem recordes mundiais, enquanto, por exemplo, o lutador sueco Ara Abrahamian joga fora o seu bronze. “Eu não preciso dessa medalha”, disse o atleta.
A imagem do ginasta Diego Hipólito se desculpando pela não-conquista-olímpica nos causa um sentimento misto de pena, constrangimento e frustração. Desde então ele não pára de se desculpar e dizer que não consegue dormir. Afinal ele “era” nosso herói. E precisamos de heróis (!).
Daiane dos Santos – depois de atingir seu máximo de exposição na mídia, desapareceu de tal forma que poucos sabiam de sua presença em Pequim – também não conquistou medalha. Será que acontecerá com Diego o mesmo que aconteceu com ela? Ou seja, basta deixar de ganhar para ser afastado dos noticiários?
E, por falar em mídia, as Olimpíadas mostraram que nada fica mais velho repentinamente do que uma primeira página de jornal. Terça-feira, dia 19, as bancas amanheceram com fotos de Ronaldinho Gaúcho sorridente. Exemplo de superação. A retomada do craque. Rumo ao campeonato inédito. Uma porção de frases ufanistas que ficaram vazias e caducas poucas horas depois, naquela mesma manhã de confiante glória, com a derrota por 3 a 0 para Argentina. Mas somos mesmo inclinados ao exagero momentâneo. E isso não é uma crítica, apenas uma constatação. A fila anda. E a fila de “heróis” parece que anda mais rápida por aqui.
Antes de encerrar o texto quero me unir aos admiradores de Dorival Caymmi, que soube acalentar como ninguém, com a simplicidade de gênio, quem vive distante de sua terra natal. Quando a “porta do sol” me falta, por exemplo, palmeiras altas “mandam um vento a mim. Assim: Caymmi”, como diz o verso de Caetano. Pois suas canções se encaixam no lugar universal onde a saudade e a melancolia gostosa fazem morada.

Texto publicado no jornal A União-PB, 23/08/2008

Entre outros, ouvi, vi e li, por estes dias:
= Filme O Procurado (Wanted) – O manjado roteiro sobre um cara fracassado que se descobre o escolhido para "salvar" o mundo é retomado aqui com seqüências dignas de Bond e Matrix. Mas o filme quer ser mais que isso. Mostra o homem perdido no emaranhado dos fios do destino, literalmente. Cine-pipoca com diversão garantida.
= Show 50 anos de bossa nova – Caetano Veloso e Roberto Carlos no Teatro Municipal do Rio, em homenagem a Tom Jobim. Preciso escrever alguma coisa?
= Exposição Art Breaks: a MTV e a cultura visual contemporânea – Reunião das vilhetas que fizeram sucesso no canal. É uma volta no tempo, para quem viveu a "geração MTV". Tem coisas dignas de visita, como a sessão em que as vinhetas tiram sarro da própria MTV e dos que a consomem. No Oi Futuro até 31/08.
= Exposição Travessias Cariocas – Na Caixa Cultural-RJ, uma mostra coletiva que aponta como questões semelhantes atravessam a obra de diferentes artistas. A poética da especulação estética ainda permanece aberta. Pena que muitos pararam em pontos já radicalmente e com eficiência tratados por Duchamp. Agora soam como pesquisas desgastadas. Até 28/09.
= Livro Engenharia Erótica (Hugo Denizart) – Cuidadosa reunião de depoimentos e fotografias sobre os travestis do Rio de Janeiro. Com respeito, mas sem falsos pudores, Denizart apresenta, num belo jogo de luz e sombras, como é a vida de quem tem um "corpo montado".

quarta-feira, agosto 13, 2008

A Carmen de Ná

Ná Ozzetti apresentou no Rio um show em que visita o repertório de Carmem Miranda, que, segundo ela, é uma referência fundamental em sua carreira. O resultado não poderia ser melhor. Amadurecida que é no trato de repertório do nosso cancionista popular, a cantora nos presenteia com um espetáculo minimalista, que não perde de vista os balangandãs daquela que, com sua dicção ágil e uma malícia quase ingênua, “inventou” o modo de cantar o samba.
Carmen Miranda, como escreveu Caetano Veloso, representa para nós um “misto de orgulho e vergonha”, cuja biografia vai contra “nossos anseios de bom gosto e identidade nacional”. O fato é que quase tudo o que se faz em arte no Brasil passa pelo que ela nos deixou. A portuguesa nascida em Marco de Canaveses é, ainda nas palavras de Caetano, nossa “caricatura e radiografia”. Ela condensa em si signos que tensionam a nossa “brasilidade” ao máximo e intensifica isso pondo em xeque as questões do que podemos chamar de “Nacional”.
Voltando ao espetáculo de Ná, quanto ao figurino, a alternativa encontrada para estabelecer melhor balanceamento entre as canções é um vestido longo preto. Os balangandãs ficam por conta das várias pulseiras coloridas que ornamentam seus braços inquietos, que jamais caem no caricato.
Importa chamar atenção para este fato: a não imitação. Óbvio que é impossível cantar “Boneca de piche”, por exemplo, sem as afetações personalíssimas doadas por Carmen à canção. Mas são expressões faciais, vocais e gestuais que Ná Ozzetti soube captar com sofisticação e sensibilidade.
As canções mais populares, e são muitas que ainda permanecem em nossa lembrança, mostraram o acerto do roteiro. A platéia não deixou dúvidas da satisfação com a qualidade do repertório, da voz e dos arranjos apresentados. Aliás, o quarteto que acompanha Ná Ozzetti é um elemento importante para o sucesso do show. Muito semelhante ao que acontecia entre Carmen e o seu Bando da Lua, os músicos do show também dialogavam com Ná não só tocando, mas também cantando.
O show “Ná Ozzetti canta Carmen Miranda” mostra como se dá a transposição do sentido da mestiçagem e da hibridização na arte de Carmen. O cuidado musical e vocal do espetáculo mostra uma abordagem original sobre a complexidade da sua obra.

Texto publicado no jornal A União-PB, 09/08/2008

Entre outros, ouvi, vi e li, por estes dias:

= Peça Bent – Mostra como atores inexperientes e um texto mal trabalhado transformam uma história densa, como é a da situação dos gays no período nazista, em tiradas risíveis, no pior sentido da expressão.
= Peça Uma janela em Copacabana – Quando não há mais como enrolar o espectador, a peça acaba. Sem nenhuma explicação ou sentido.
= Espetáculo Arlequim no Inferno – Enrico Bonavera, ator italiano, interpreta o personagem título - Arlequim - que vai com Orfeu ao inferno buscar Eurídice. Um quase monólogo em que Bonavera, usando máscaras de Donato Sartori, dá um show de consciência e trabalho corporal e vocal. O triste é comparar com os atores do Brasil. Mais preocupados em transformar seus corpos em coisas rígidas, travadas e "malhadas" do que prepará-los para o ofício do teatro.

sexta-feira, agosto 01, 2008

Olho cego

No som toca “Olho mágico”, canção do novo CD de Gilberto Gil, “Banda Larga Cordel”. Os primeiros versos dizem “você quer ver um piolho no pêlo da minha púbis”. A letra é um diálogo entre alguém que quer esmiuçar a vida de outra pessoa, como se este estivesse no “big brother”, e esta pessoa reage indignada.
“Quer meu álbum de retratos / Remexer minha gaveta / Arrumar o meu armário / Refazer meu guarda-roupa”, canta Gil, para logo a seguir responder “Que saco, que saco! / Como se isso fosse um jeito / De você bisbilhotar meu silêncio / Ou minha festa”.
Gil mostra ao longo da canção o quanto os estereótipos dos “reality shows”, na tentativa de atenderem à diversidade social e cultural, acabam por reduzir seus participantes a indivíduos “vivendo algo patético ou trágico”.
Penso que, o jogo com o EU, levado ao extremo no mundo virtual, não escapa dos jogos do ilusionismo e da ficção assumida como tal. Pensar o contrário é ingenuidade. A perscrutação da vida íntima não é autêntica, pois qualquer tentativa de “documentar” a intimidade faz com que ela deixe de existir e tudo soa forjado e falso.
O sujeito da canção quer uma relação longe da evasão de privacidade que o outro tenta impor, em que os dois, sendo “um” juntos, possam manter suas individualidades e diz “você pensa que eu estou fora de moda / porque ainda considero a solidão”.
Ora, considerar a solidão, num momento em que tudo é visto-em-tempo-real-por-todos, é no mínimo desafiador para o outro, e mesmo para o sujeito imerso neste pensamento coletivo. Solidão definitivamente não combina com o exibicionismo de nosso tempo.
A letra de Gil sugere ainda que desejamos ver além do que o olho sensível permite. Daí criar um “olho mágico”, que filma “tudo o tempo inteiro”. “Estou me dando todo”, diz a letra. Mas, o outro não percebe, cego que está, paradoxalmente, no contexto.
Não restam dúvidas de que os avanços tecnológicos jogam novas luzes sobre questões do passado e de sempre. No momento em que discutimos qual será o futuro das relações interpessoais diante da interconectividade, o novo trabalho de Gilberto Gil lança sobre tais (in)definições um olhar otimista, sem perder de vista o olho crítico.

Texto publicado no jornal A União-PB, 26/07/2008

Entre outros, ouvi, vi e li, por estes dias:

= Filme Batman – O coringa, como todos supuseram, rouba a cena. E desta vez, sem sua caverna escura (agora ele tem uma ultra-iluminada) a escuridão está imbricada no interior das incertezas de Batman. Imperdível!
= Exposição Ilustrando em Revista – Amostra de ilustrações que marcaram as publicações da Editora Abril. A riqueza das técnicas e estilos são o grande lance da exposição que ocupa o Centro Cultural da Justiça Federal até 31/08.
= Show Ná Ozzetti canta Carmen Miranda – Longe de querer estilizar Carmen, Ná cantou o nosso maior ícone com toda a consciência crítica possível. Tema para meu próximo texto.
= Mostra Cine LGBT (Homenagem ao escritor Caio Fernando Abreu) – Enquanto filmes, "Dama da noite" de Mário Diamante, "Sargento Garcia" de Tutti Gregianin e "Aqueles dois" de Sérgio Amon têm suas qualidades. Uma pena que muito pouco do imaginário de Caio Fernando Abreu tenha sido captado pelos diretores.

segunda-feira, julho 14, 2008

Perversos são os outros

Semana passada tive a oportunidade de assistir a uma palestra da historiadora e psicanalista francesa Elisabeth Roudinesco num auditório da UERJ, superlotado, com pessoas sentadas até ao redor da mesa.
Abordando o tema “Perversão e homossexualidade”, Roudinesco traçou o percurso da perversidade na história, mostrando como a questão sempre esteve ligada ao sexo e ao desejo homoerótico, já que neste tipo de relação não há a procriação, considerada a séculos nas culturas predominantes (incluindo religiões) a “finalidade sublime” do sexo.
Mas para a psicanalista, a perversão de fato são as relações onde há a negação do outro enquanto sujeito. Nesse sentido ela destaca o pedófilo como “o grande perverso” de nossos tempos, uma vez que ele nega ao seu “objeto de desejo” o direito de escolha. Sublinhando a relatividade na questão, Roudinesco lembra que quase todos os crimes que levaram o Marques de Sade à prisão não seriam considerados tão graves hoje.
Formada também em Letras, a historiadora usou exemplos de textos literários, citando, entre outros, o livro “O Retrato de Dorian Gray”, de Oscar Wilde. Para ela, uma fábula sobre o extremo da perversão, pois mostra alguém bonito e bom metamorfosear-se completamente. Mesmo sendo avesso à “análise psicanalista” da obra literária, não pude deixar de me impressionar pelas lúcidas questões que Elisabeth lança sobre os personagens de Genet, Proust e Wilde, como exemplo da perversidade da linguagem e a forma “perversa” que a utilizamos para realização do desejo nosso de cada instante.
Por fim, Roudinesco, que veio ao Brasil lançar seu 11º livro "A Parte Obscura de Nós Mesmos - Uma História dos Perversos", e foi uma das estrelas da FLIP, destacou a importante contribuição dos grupos gays e das “liberdades” pós 60 para impor aos psicanalistas o estudo de tais temas. Penso que para todas as áreas do saber.
Assim, longe da “incompetência crítica” apontada pertinentemente por Daniel Sampaio, sem sua coluna no jornal A União, em alguns comentários sobre literatura, Elisabeth Roudinesco alertou contra o medo de lidar com o “diferente” e o “novo”, indicando o estudo para além da mediocridade diante da complexidade da existência.
Se eu pudesse resumir as investigações da historiadora sobre perversão em poucas palavras, relembraria uma frase de Jean-Paul Sartre que diz: “admiro como alguém pode mentir pondo a razão do seu lado”. Mas não posso, não devo fazê-lo, isso não acontece.

* Texto Publicado no Jornal A União 12/07/2008.

Entre outros, ouvi, vi e li, por estes dias:

= Filme Wall.E – Filme para adulto com técnica impecável. Difícil não se apaixonar pelo robô que tem um desenho gráfico tão parecido com o E.T. de Spielberg. Prestar atenção aos créditos, finais. Ainda aí é possível perceber o cuidado com que o filme foi concebido.
= Exposição Mulheres Reais – A exposição que ocupou a Casa França-Brasil é, sem dúvidas, uma das melhores que já vi. Tudo era incrivelmente pensado e interligado. Os criadores conseguiram (re)compor ambientes que colocavam o visitante "dentro" do tempo da família real aqui no Brasil.
= Até dia 20/07 tem Anima Mundi, aqui no Rio.

quinta-feira, julho 03, 2008

A Novela Educa

Nasci no final de 1978, por isso não tenho noção do impacto da estréia naquele ano de “Dancin’Days”, considerada como obra-prima de Gilberto Braga. Conto isso porque, em depoimento ao Museu da Imagem e do Som, semana passada, Braga revelou que foi aí “a primeira vez que a elite se viu na TV” (!).
Muito a propósito, li no programa de uma série de encontros promovida pelo Centro Cultural Banco do Brasil do Rio de Janeiro, intitulada “Eu vejo novela”, que “de um gênero alienante, a telenovela brasileira evoluiu e trouxe para suas tramas as contradições sociais”.
Pergunto-me se quando incorpora o “real” a novela deixa de ser alienante mesmo e em que medida isso é positivo para a obra. Pois, se querem afirmar a novela como gênero artístico digno de análises acadêmicas, como está no programa da série do CCBB, penso que seja importante primeiro definir qual é o objeto artístico da novela.

Particularmente, não tenho a resposta, caro leitor. Mas, por hora, cabe lembrar Sergei Eisenstein quando disse que não é refletindo a realidade tal como ela é que se conseguem os melhores efeitos em arte.

Voltando a questão inicial, pergunto-me se o Brasil se vê nas telenovelas, como sugeriu Gilberto Braga. Ou, o que é mais difícil de responder, se o Brasil precisa se identificar nas novelas que nossas emissoras produzem.

Como exemplo, recentemente esteve no ar uma novela, pretensamente realista, que tratava o chefe de uma milícia de favela (onde todos se vestiam bem e tinham casas até mesmo luxuosas) como figura digna de exemplo social, interpretada pelo ator principal da produção. No mesmo momento em que os jornais mostravam a batalha sangrenta que ocorre nas favelas do Rio entre seus moradores carentes, milicianos e polícia. Já, noutro canal, temos uma novela sobre mutação humana que, longe de ser “apenas” alienante, afronta a nossa inteligência.

Penso, porém, que cada povo cria suas necessidades estéticas e, como profissional de Letras, percebo que a novela é o maior referencial de literatura no Brasil, senão o único, para grande parte da população. Assim, feita para educar ou não, a novela educa e são essas contradições que fazem da novela um objeto que merece a atenção da academia, além da pluralidade de enfoques, que diz muito da nossa cultura.


* Texto publicado no jornal A União/PB em 28/06/2008.


Entre outros, ouvi, vi e li, por estes dias:

+ Filme HulkDesta vez o verdão mais parece um kingkong, que anoitece no Brasil e amanhece na Quatemala, correndo. Destaque para a presença de Lou Ferrigno, que fez o "Hulk" da série de TV e aparece como porteiro de um edifício, numa rápida seqüência do filme.
+ Show Comportamento Geral (Daniel Gonzaga) – Na tentativa de "recriar Gonzaguinha no palco", Daniel cai na diluição vocal e em interpretações pra lá de "coladas" no estilo do pai.
+ Livro A utopia brasileira e os movimentos negros (Antonio Risério) O autor faz uma interpretação apurada, aprofundada e iluminadora do chato "politicamente correto" que impera nos nossos dias. Ele mostra como, quando querendo ser policitamente corretos, cometemos graves inadaptações de conceitos e atitudes, pela simples falta de conhecimento da história. Imprescindível!

terça-feira, junho 24, 2008

Guernica 3D

O vídeo abaixo é um trabalho de animação espetacular
que faz uma leitura comovente do quadro em 3 dimensões.




“A existência do mundo só se justifica como fenômeno estético”
(Nietzsche, A Origem da tragédia).

Entre outros, ouvi, vi e li, por estes dias:

= Filme Get Smart (Agente 86) – O filme é hilário. Tem seqüências incríveis, dignas do agente 007. Além de inúmeras referências e citações de outros filmes, como Borat, por exemplo.
= CD Sam Sparro (Sam Sparro) – O novo queridinho dos antenados apresenta um trabalho sólido e de consciência crítica sobre a música de hoje. Com samples e referências de Prince, entre outros, o cd é um achado imperdível. O vídeo de "Black and Gold" está no YouTube (http://www.youtube.com/watch?v=eHuebHTD-lY). Vale a pena conferir!
= Exposição Mar de homens (Roberto Linsker) – Excelentes fotografias sobre o dia-a-dia de pescadores de diversos lugares do Brasil. Linsker capta momentos de extremo lirismo em meio à rusticidade da vida dos homens do mar. Na Caixa Cultural - RJ, até 27/07.
= Show Ciranda do mundo (Fênix) – Este pernambuco que já rodou o mundo brinda o público com um belo espetáculo de voz e perfórmance. Pena que os registros de sua voz em cd digam muito pouco de sua presença no palco.

segunda-feira, junho 16, 2008

Falsa Verdade

Clarice Lispector dizia que “os fatos são sonoros, mas entre os fatos há um sussurro” e era o sussurro o que lhe interessava. Cazuza cantou que “há um incêndio sobre a chuva rala”. Ambos, falam da posição de quem percebe que por trás das aparências há algo para ser revelado. De certa forma, esta busca por conhecimento é o motor da própria existência humana. Desde muito cedo, percebemos que descobrir gera prazer.
Um exemplo disso está no papel
que a atriz Cate Blanchett interpreta no filmeIndiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal”, atualmente em cartaz nos cinemas. A personagem, que poderia resultar numa vilã como tantas outras, tem em sua seqüência final uma sugestão simplesmente espetacular. Irina Spalko (Blanchet) é uma oficial soviética que deseja dominar o mundo, não pelo poder das armas, mas através de uma força maior que tudo. A ânsia pelo saber total, pelo conhecimento desmesurado, pelo igualar ao divino, leva a oficial a uma experiência de transcendência, em que, inebriada e extática, descobre algo muito além do que um humano está preparado para suportar.
Uma interessante passagem da mitologia grega narra a história da jovem Sêmele que, incitada pela ciumenta Hera, pede que Zeus, de quem é uma das amantes, se mostre em todo o seu esplendor, sem ter consciência de que a um mortal é impossível tamanha revelação. O resultado tem proporções trágicas. Sêmele tem o corpo fulminado e reduzido a pó pelas luzes radiantes que emanam de Zeus.
Obviamente, as motivações das duas são bem diferentes, além do intrínseco e humano desejo de acesso ao desconhecido. Superficialmente, podemos pensar que, enquanto Irina Spalko acredita que os segredos da Caveira de Cristal possam ajudá-la a dominar o mundo, Sêmele é “apenas” um joguete nas mãos de Hera, "a mais excelsa das deusas".

O conhecimento, como acesso à verdade, é um ponto de vista.
O objeto do saber estará sempre em relação com o sujeito que o observa. A verdade, assim, torna-se humana, logo, falível, escorregadia, adaptável e, vez por outra, perigosa.
Levantar o véu do encoberto parece ser arriscado, talvez por isso “mentiras sinceras” sejam interessantes. Mas fica sempre a inquietante dúvida lançada por Riobaldo, person
agem criado por Guimarães Rosa em “Grande Sertão: Veredas”: “Como é que se pode gostar do verdadeiro no falso?”.
Vale a pena assistir ao filme e sair pensando nestas questões que o cinema, vira e mexe, consegue tratar tão bem com os recursos e efeitos especiais próprios da linguagem cinematográfica.


* Texto publicado no jornal A União/PB em 16/06/2008.

Entre outros, ouvi, vi e li, por estes dias:

* CD Banda Larga Cordel (Gilberto Gil) – Força da cultura nordestina, numa “linguagem de feira”, projetada e condensada com a força quântica. Percepção otimista do não-lugar do ser humano diante das esferas espaciais do mundo de hoje. "Não grude não", por exemplo, tematiza a efemeridade das relações. "Olho mágico" é sexualidade bruta, com melodia manhosa. E “Despedida de solteira”, que recupera a malícia de “Xote das meninas”, não pára de rolar no meu celular. Todo o CD é muito gostoso de ouvir e de cantar.
* Filme
The other Boleyn girl – Primeiro: o título em português "A Outra" diz muito pouco da história; segundo: qualquer pessoa que conheça um tiquinho de história sabe que o boa pinta Eric Bana fica muito longe do perfil fanfarrão de Henrique VIII; e por aí vai...
* Livro
Passagem pra vida, de Overland Airton – Esta autoficção foi o primeiro livro que li sobre o tema da AIDS. Achei num sebo e reli agora. Apesar de sérios problemas na construção da narrativa, além de incoerências cronológicas, etc, o livro aborda a "volta por cima", ou não, na solidão de quem se descobre portador do HIV e me impactou ainda depois de tanto tempo do lançamento, 1992.

quinta-feira, junho 05, 2008

Traçando Três Travestis*

Caetano Veloso estreou dia 14 de maio, no Rio de Janeiro, no estilo “work in progress” poundiano, seu “Obra em Progresso”, que resultará em um novo cd, até o final do ano.
Entre canções conhecidas e inéditas como “Cor amarela”, “Perdeu” e “Por quem”, Caetano –impulsionado pelos recentes acontecimentos que envolveram um certo “fenômeno” – apresentou, voz e violão, o seu pouco conhecido frevo “Três travestis”. A canção composta em 1977 para Ney Matogrosso, mas só registrada em 1982 por Zezé Motta, numa afetada e divertida interpretação, com suas rimas em /is/ e /a/, saiu do esquecimento e virou febre na internet.
Na letra, Caetano cria uma cadeia metonímica de significantes para traçar a imagem de três travestis que se expõem numa praça qualquer. Ele explora as especificidades do travesti como figura da noite e como produto de exportação do Brasil. Diz o final da letra: “Três travestis / Três colibris de raça / Deixam o País / E enchem Paris de graça”.
Ao relacionar o corpo montado do travesti – figura que ameaça, mina e trinca nossa perspectiva arcaica de sociedade – à figura do colibri, Caetano dialoga com a trilogia que o escritor franco-cubano Severo Sarduy escreveu sobre o tema da transexualidade, “Cobra”, “Maitreya” e “Colibri”.
Nas três novelas, Sarduy demonstra sua noção de escritura como “travestimento”. Os planos de intertextualidade, ou seja, a interação entre diferentes linguagens textuais, são análogos aos planos de intersexualidade.
Se em “Cobra”, ele leva suas personagens ao submundo territorial e agressivo da transexualidade, mas também ao universo dos rituais budistas, com uma sobreposição de questões e imagens contemporâneas, em “Maitreya” Sarduy aprofunda as referências budistas e apresenta um “Buda do futuro”, resultado de uma complexa condensação de significantes. Já em “Colibri” o escritor mergulha numa zona decadente da Cuba pré-revolucionária, onde vive a personagem-título do livro, um dançarino de cabaré que seduz, pelo hibridismo sexual, os freqüentadores da casa.
Na criação neobarroca de Sarduy cada palavra parece ter uma imagem como suporte. Os registros do espaço erotizado que o travesti ocupa vão do escatológico ao puro lirismo. A coexistência de significantes masculinos e femininos, de uma “mulher com falo”, arranha a imagem do macho, “esse travesti al revés”, como definiu Sarduy, em seu livro de ensaios “Escrito sobre un cuerpo”.
Tanto a trilogia sarduyana, quanto o frevo de Caetano mostram como um tema cheio de arestas insuspeitadas pode servir à criação artística, sem panfletarismos ou moralismos, ambos esterilizantes.

* Texto publicado no jornal A União/PB em 31/05/2008.

Entre outros, ouvi, vi e li, por estes dias:

= Filme The Chronicles of Narnia: Prince Caspian – Um espetáculo de elementos cenográficos e efeitos especiais.
= CD Francisco, Forró y Frevo (Chico César) – Com alguns elementos interessantes aqui e acolá, o novo trabalho soa como “mais do mesmo”.
= Exposição A Bahia de Jorge Amado – Fotografias de Marcel Gautherot, José Medeiros e Edu Simões, entre outros, do excelente acervo do Instituto Moreira Sales, criam o imaginário ideal para a obra do escritor de Gabriela, cravo e canela, livro que está completando 50 anos.
= Livro O sol e a morte, de Peter Sloterdijk – Em forma de diálogo, o livro serve como introdução à obra e ao pensamento do autor de Crítica da Razão Cínica e de A Mobilização Infinita. Além de revelar as motivações existenciais e metafísicas da investigação para compor a sua trilogia das Esferas.