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sexta-feira, dezembro 14, 2007

Feliz Natal

Achei na internet, há alguns dias, este cartum e pensei que seria um bom mote para o texto que queria escrever para o Natal aqui no blog. Afinal, “presépio vivo tem todos os dias”. Guardei. Hoje sentei para escrever, mas as idéias não vinham e o texto não saía.
Para me inspirar procurei um CD que me remetesse ao clima harmônico dessa época, mas acabei revezando ora o novo CD de Arnaldo Antunes, onde ele recria “Qualquer coisa”, de Caetano Veloso, ora o excelente CD solo de Fernanda Takai, feito de canções do repertório de Nara Leão.
Acho oportuno dizer que estudei 11 anos em colégio de freiras, o que revela como esta data sempre teve um significado especial na minha educação. Educação cristã, de menino-bonzinho e bem-comportado. Mas a gente cresce, entra em contato com outras culturas, pensamentos, filosofias, teorias, práticas... amadurece. E, ao amadurecer, a gente vai deixando de querer ser "bonzinho", acaba não tendo mais aquela empolgação de mudar o mundo e percebe que o grande barato é apenas ser. Isso dá uma liberdade incrível.
Enfim, na minha infância, Natal, entre outras coisas, era um dia para se usar uma roupa nova, feita por uma costureira simpática do interior. Por isso resolvi também dar uma ao blog. Gosto da imagem de lâmpadas que se apagam e se acendem. Metáfora das novas idéias, do transitório e das coisas que iluminam, ou se deixam iluminar, dando espaço para a descoberta daquilo que estava no escuro, ou encoberto.Mas o texto natalino não saía e, ainda pensando no que escrever, fiquei navegando pelas notícias on line.
Parei na história de Ferruccio Silvestro (foto), garoto de 19 anos, espancado no último dia 30 de novembro após sair de uma boate. Os acusados – um deles menor – classe média, se apresentaram à polícia. O quê vai acontecer? A mídia vai explorar ao máximo, enquanto a matéria render, e pronto. É sempre assim, não? A preocupação forjada e a passionalidade. Mas, a mídia é feita de empresas que objetivam lucros, não esqueçamos.
Fui conferir os comentários dos leitores à notícia, e me assustei quando li: “Tem que apanhar mesmo, não respeitam ninguém, estava na rua vindo do trabalho um traste desse me cantou só não voltei para dar um esculacho pq tava com pressa.”
Arnaldo Antunes cantava no CD: “Socorro! Alguma alma mesmo que penada, me empreste suas penas já não sinto amor, nem dor, já não sinto nada...” e isso aumentou minha consternação diante de tamanha falta de... de... De que mesmo? A voz mono de Arnaldo responde: de “uma emoção pequena, qualquer coisa que se sinta... Tem tantos sentimentos deve ter algum que sirva”.
Para mim, cada vez que a mídia usa a expressão "opção sexual", agrava ainda mais a questão. Deveriam falar também em opção social para falar dos pobres, opção racial para falar dos negros, opção visual, para os cegos, opção motora, para os paraplégicos e por aí vai. Enquanto isso, uma deputada européia protesta contra o enforcamento de gays no Irã e é ridicularizada por alguns veículos de imprensa.
Mas tem também aqueles que agrediram uma doméstica na rua porque “pensaram” que ela era uma prostituta. Ou seja, se de fato fosse podia esfolar e matar, né? É bem aquela nossa mentalidade: “Aquilo com o qual eu não sei lidar (em mim), eu excluo, ignoro, mato”.
E teve também o caso do torcedor que foi espancado até a morte só porque era de um time adversário aos agressores. Etc, etc, etc... Isso sem falar nas “violências silenciosas” (talvez piores). Tem violência para tudo que é tipo e gosto. Gosto? Sim, ou não concordamos que quem pratica tais atos sente prazer?
Psicanalistas já afirmaram que estamos revelando uma crescente intolerância à dor e à frustração. Percebo como reflexo ou resultado disso, a busca por alternativas rápidas e descartáveis de prazer. A exaltação do EU aqui e agora, sem privações. Muitas são as causas e impensáveis são as conseqüências.
Mas nada do tal texto sair. Continuei navegando, ainda na busca de uma inspiração positiva e feliz, e cheguei ao blog do amigo Tiago+. Aí minha estupefação foi completa quando li incrédulo que ele havia sido espancado por três rapazes, alterados pela droga, que lhe pediram dinheiro, em um parque de São Paulo.
Quantos de nós ainda seremos agredidos? Ouço Fernanda Takai cantando “não sei pra onde vou, não sei se vou ou vou ficar, pensei não quero mais pensar, cansei de esperar”. Até quando ficaremos apenas lendo e assistindo a tudo como se não fosse conosco? Eu sei, esta pergunta já virou simplesmente uma questão de retórica.
Sem dúvidas essas não eram as imagens nem os temas que eu queria para o nosso Natal. Por fim, sem ter nem saber o que escrever, lembro de um verso de Caetano que resume tudo aquilo que minha esperança no Ser Humano ainda indica:

“Eu não espero pelo dia em que todos os homens concordem,
apenas sei de diversas harmonias bonitas possíveis sem juízo final”.

Aí estão duas excelentes palavras para um texto “diversidade” e “harmonia”, mas depois de tudo, mesmo acreditando no uso delas, não tenho ânimo para escrevê-lo. É isso. Feliz Natal!

PS: Este texto é dedicado a Rogério Pita, que saiu de cena este ano. Companheiro de anos do amigo Marcus Aurélio. Travessia – esta palavra é só pra dizer e diz.

sexta-feira, dezembro 07, 2007

Briga de Espadas e Muito Grito

Como comentei no rodapé anterior, aconteceu a 15ª edição do Festival de Cinema e Vídeo da Diversidade Sexual, aqui no Rio. Além do merecido destaque dado ao grupo carioca Dzi Croquettes (foto), que nos anos 70 inspirou uma geração de artistas no Brasil com sua atitude, essa edição demonstrou a maturidade de um evento que se consolidou como um dos mais importantes do gênero.
A referência oriental foi o mote do Festival. Desde o discutível slogan “brigas de espada como você nunca viu”, passando pelo delicado filme de abertura, Spider Lilies, até o catálogo em formato de mangá. Aliás, começar o Festival com um filme de temática lésbica foi muito interessante, porque as meninas sempre fizeram queixas sobre o exíguo espaço que elas têm em eventos como esse.
A diversidade de filmes e de t
emáticas, sempre sobre o viés da sexualidade, é o que mais chama atenção para o Festival do Mix Brasil, cuja competente direção geral é de Suzy Capó. A mostra “Desbunde Total”, por exemplo, trouxe os excelentes documentários The Cockettes (grupo que inspirou o nosso Dzi Croquettes) e Os Doces Bárbaros. a “Retrô-Erótiko” reuniu os filmes americanos Nigths in Black Leather, do ícone Peter Berlin (foto), Pink Narcissus e All Male Mash Up, sempre tematizando o ambiente criativo da época do desbunde.
Quanto ao ineditismo dos filmes... Alguns deles já tinham estado na programação do Festival de Cinema do Rio e, além disso, em tempos de
banda larga, fica difícil ser inédito. Mas o esforço do Festival é exemplar. Até porque o evento vai além da mera exibição de filmes. Serve para manter em discussão esse tipo de estética.
Já entre os curtas chamou atenção a qualidade das produções. Destaco , do brasileiro Felipe Sholl, Gay Zombie, Possessão, Cowboy Forever, o trash Kali ma e VGL-Hung, entre outros.
Todas as noites entre 21h e 0h o foyer do Cine Palácio (palco dos longas, enquanto que a CAIXA Cultural abrigava os curtas) recebia um Dj diferente para fazer o povo ferver. Aliás, no dia 05 foi a festa de lançamento da 2ª edição da Revista Junior. Ainda não li toda, mas está visivelmente superior a anterior. Sinal de que experiência gera maturidade que gera
qualidade.
Mas a festa maior é sempre o esperado Show do Gongo, comandado por Marisa Orth. A fila da entrada virou pela rua ao lado. “Foi o melhor Show do Gongo da história dos shows do Gongo no Rio de Janeiro”, comentava-se. E foi sensacional mesmo. A platéia estava impossível, houve quase uma unanimidade nos aplausos, gritos, vaias e gongadas, e Marisa estava simplesmente perfeita, com sua franqueza e afetação própria para o momento.
Tirando o júri, formado por Ciro Barcellos (dos Dzi Croquettes), o ator Thiago Mendonça e as atrizes Mel Lisboa e Zezeh Barbosa, que não teve nada de interessante para acrescentar.
O curta premiado foi merecidamente A Drag a Gozar, de Kiko César, com a participação da impagável Thália Bombinha no papel da drag. Uma homenagem à obra do cineasta Humberto Mauro, A Velha A Fiar, de 1964.
Aliás, não estaria na hora de dividir o Show do Gongo por categorias? Não dá pra julgar comparativamente um vídeo amador (a maioria) com uma produção de alto nível técnico (e artístico, porque não?) como A drag a gozar. Fica a observação, mas foi uma noite memorável.
No balanço final, ficam os parabéns aos 15 anos deste Festival que com esforço e competência leva a questão da diversidade sexual para vários lugares.

TEATRO EM DIA II

Assistimos à brilhante performance de Edwin Luisi - “Eu sou minha própria mulher”, na apaixonante história de Charlotte Mahlsdorf, uma mulher no corpo de um homem, Lothar Berfeld. História real de um travesti que enfrentou as atrocidades de Hitler de roupão vermelho e colar de pérolas. Texto e interpretação impecáveis. Vale a pena curtir este delicado e elegante espetáculo.
Depois foi a vez do grandioso “
7 - o musical”. Muito bom e merece as críticas que tem recebido, porém achamos um tanto cansativo a duração de algumas cenas, além de alguns anacronismos. Situações que poderiam ser resolvidas de maneira mais rápida se estendem, talvez para justificar o gênero musical. Mas é um belo espetáculo, desde os figurinos até as performances dos atores.
E fomos arrebatados pelo sensacional “
Cada Um Com Seus Pobrema”, de Marcelo Médici. Ele vive um ator em seu camarim e leva ao palco alguns personagens. Destacamos o Último Mico-leão-dourado do Mundo (gay), Mãe Jatira (vidente que incorpora o espírito da Branca de Neve) e Smurfete (drogada e prostituída). Longe dos estereótipos, ele constrói com versatilidade e inteligência cada uma das personagens, que parecem surgir do contato direto com o mundo. Incrível!!!

terça-feira, novembro 27, 2007

Teatro em dia 1

Neste fim de semana começou aqui no Rio a campanha “Teatro para todos”. Com espetáculos teatrais em preços mais acessíveis. Aproveitei para comprar ingressos para algumas peças que faz tempo que queria ver, mas os preços não deixavam.
A primeira foi Minha Mãe É Uma Peça. O espetáculo retrata a rotina repleta de dilemas e situações cômicas vividas por Dona Hermínia, uma mãe “normal”, como outra qualquer. Mas é exatamente no gancho da normalidade de “ser mãe” que se sustenta o enredo da peça. Os excessivos cuidados e as broncas em relação aos filhos são o mote para a maior parte do monólogo encenado pelo ator Paulo Gustavo, que também assina o texto, segundo ele, inspirado em sua própria mãe. Porém não se trata de uma biografia, alerta o autor-ator.
O monólogo já foi visto por 100 mil espectadores e continua a encher o Teatro dos Quatro, na Gávea. Daí minha curiosidade, atiçada ainda pelo fato da crítica comentar sempre muito bem. A temática é o grande trunfo, pois causa identificação imediata com o espectador. Difícil não relembrar ao menos uma passagem da relação com nossas mães. Por exemplo: em uma determinada hora, ela diz: "Esse menino não sabe o que é um copo de água desde os 12 anos, só quer saber de Coca-Cola!", ou ainda “Essa menina abre a geladeira pra pensar o que vai pegar”. Situações assim levam o público às gargalhadas.
Vale muito a pena conferir e rir de si mesmo.

A segunda foi Farsa. Um espetáculo que reúne 4 textos curtos de 4 grandes autores: Os Faladores, de Cervantes – em torno da volúpia verbal de dois tagarelas incorrigíveis; O Urso, de Tchekhov – sobre as desavenças e o enlace entre um rude fazendeiro e uma suspirosa viúva; O Médico Saltador, de Molière – que fala das impagáveis peripécias de um criado para promover a união do patrão com a sua amada e Os Ciúmes de um Pedestre, de Martins Pena - conta as artimanhas de um fogoso vizinho e de um jovem enamorado para ludibriar o terrível capitão-do-mato que, para seguir tranqüilo em suas andanças atrás de escravos fugidos, mantém sempre trancafiadas a mulher e a filha.
Cada história requer uma atmosfera e é absolutamente bem apresentada. O conjunto dos textos resulta em uma comédia deliciosa encenada pela excelente Bianca Byington, Cláudia Ohana, Luciana Braga, Mário Borges, Sérgio Marone e o sensacional Marcos Breda. Impossível não destacar o excelente trabalho vocal e corporal de Breda e Borges, ambos impecáveis.
Com o objetivo de entreter e provocar risos, a farsa busca humor basicamente em atividades físicas, ritmo acelerado, violência e efeitos visuais. Neste item destaca-se o figurino criado por Coca Serpa, e
m contraste às cores discretas do cenário de Hélio Eichbauer, que lembra antigas gravuras.
O espetáculo em cartaz no Teatro SESC Ginástico, com direção de Luiz Arthur Nunes, tem dinâmica harmoniosa com os textos, com marcas impensáveis e soluções muito engraçadas. Um espetáculo grandioso e arrebatador em tudo.

E a terceira foi o monólogo estrelado por Zezé Polessa, Não sou Feliz, Mas tenho Marido. Aliás, o que esperar de um espetáculo que tem cenário de Gringo Cardia, direção de movimento de Débora Colker, figurino de Alexandre Herchcovitch, iluminação de Maneco Quinderé e direção de Victor Garcia Peralta? Que seja, no mínimo, perfeito. E é!
Zezé Polessa está impecável nesta adaptação do livro homônimo da jornalista argentina Viviana Gómez Thorpe. A atriz demonstra concentração e maturidade tais que quem vê a naturalidade da representação, não imagina o trabalho para conseguir o perfeito clima de intimidade apresentado.
Viviana (Zezé), uma mulher casada há 27 anos, está lançando seu livro Não sou feliz, mas tenho marido, e em entrevista confessa: “sou romântica”, o que dá o tom da encenação. O romantismo faz com que a personagem não perca nunca a fé no casamento, mesmo passando por todas as confusões e frustrações - sempre vistas pela ótica do humor - de qualquer relação. O texto chama atenção pela forma bem-humorada de tematizar o delicado equilíbrio entre a comunhão com o outro e a preservação da individualidade. Imperdível!

Semana que vem comento as outras peças que já comprei ingresso. Aliás, quem estiver no Rio, corra e compre também. É a oportunidade de por seu teatro em dia.

RODAPÉ

De 29/11 a 06/12 acontece a 15ª edição do Mix Brasil – Festival de Cinema e Vídeo da Diversidade Sexual, aqui no Rio. Um dos grandes destaques da programação de 2007 é a homenagem ao grupo carioca Dzi Croquettes, criado no início dos anos 1970, inspirado no projeto norte-americano The Cockettes e no movimento gay off-Broadway. As sessões acontecerão nos cinemas da Caixa Cultural e no Cine Palácio. Vale a pena conferir! Mas adianto, é melhor seguir os títulos originais dos filmes, pois as traduções são assombrosamente toscas, inapropriadas e apelativas.
Vinheta: http://br.youtube.com/watch?v=eWVACsvp5qE
Programação: http://www.mixbrasil.org.br/

quarta-feira, novembro 21, 2007

Admirável Velho Som Novo

Faz tempo que não vou a uma boate. Mais por falta de paciência com a música, o ambiente fechado e a aglomeração de gente do que por qualquer outro motivo. Há uma massificação de comportamento nestes ambientes para o que, sinceramente, não tenho mais paciência. Mas neste feriado, em um destes “acasos” da vida, descobri na web o trabalho de um DJ que atende pelo curioso código(?) 440. Na verdade estou falando do DJ e produtor cultural Juliani Marzani, ou simplesmente “DJ 440”.
Ele já participou e produziu diversas festas no eixo Olinda-Recife e interior do Estado de Pernambuco, terra que sempre nos proporciona tantos trabalhos decisivos para nossa cultura musical. Dentre os quais Luiz Gonzaga, Alceu Valença, Otto, Mangue Beat... para citar alguns. Trabalhou ainda em alguns dos principais bares e espaços pernambucanos: Toca da Joana, Mad Pub, Boratcho, Capitão Lima, Novo Pina, Xinxim da Baiana, Fundaj, Mercado Eufrásio Barbosa, Centro Luis Freire, entre outros. Além de conceber e comandar o projeto “Terças do Vinil”, que tem o objetivo de reunir adoradores, colecionadores, vendedores do velho bolachão, além da troca de informações musicais.
Desde 1997 ele desenvolve uma incessante pesquisa de ritmos e musicalidades diferentes, sempre dialogando e trocando figurinhas com outros DJ’s e músicos. Tudo isso para agregar e enriquecer seus trabalhos em apresentações ao vivo ou em seus mixtapes desenvolvidos de forma conceitual. Além disso, também elabora trilhas musicais e participa de diversos eventos de moda.
O trabalho de DJ 440 está fundamentalmente centrado em sonoridades brasileiras do passado, presente e futuro, passeando pelo Samba-Rock, Drum´n Bossa e Mangue Beat ou flertando com Ragga/Dance Hall, Funky e o Hip-Hop. A esta “viagem musical” ele deu o nome de “Sambalogic”, em uma tentativa de traduzir o seu estilo.
Mais que isso, com seu trabalho, DJ 440 mostra que é possível ser antenado com o presente e com a moderna tecnologia, sem deixar de visitar, e mesmo “atualizar”, sons e ritmos que foram sempre barrados nos dance-clubs. Um importante trabalho de resgate de elementos de nossa cultura que podem deixar de existir por falta de consciência crítica e histórica de muitos.
Seus mixes e remixes são resultado de um aprimorado e consciente trabalho de pesquisa, que chega a ser assustador. O som de DJ 440 constata que é possível fazer “som de pista” sem ser uma mera cópia ou uma débil repetição de fórmulas importadas. As soluções encontradas a partir da mistura, diria antropofagia, dos próprios sons, ritmos e canções pesquisados é muito superiores a maioria dos sons de DJ’s badalados do eixo Rio-São Paulo. Mas fica uma dúvida: o seu trabalho agradará aos que não tem conhecimento de música popular e da infinidade de soluções que esse tipo de música pode resultar? Não importa.
Atualmente o DJ-440 se encontra em fase de divulgação nacional de seus mixtapes, distribuídos pela internet em seu website, entre outros canais de distribuição. Portanto, deixo aqui alguns lugares onde é possível obter mais informações sobre o DJ 440:

●web: www.dj440.com.br
●blog: http://dj440.multiply.com
●myspace: www.myspace.com/dj440
●fotos: www.flickr.com/photos/dj440

DJ 440 é isso Sambalogic! Farinha Electro! Correria!

RODAPÉ:

Sempre prometo que não vou ler críticas e matérias sobre um filme que estou interessado antes de assisti-lo. Porém não resisto. Li tudo que me caiu nas mãos sobre "O Passado", o mais recente filme de Hector Babenco, com Gael Garcia Bernal. Vi até entrevista com os dois juntos na TV. Enfim, fiquei empolgado com tantas coisas que críticos, ensaístas, jornalistas, etc conseguiram tirar do filme. Não via a hora de assistir esta que já me parecia a produção mais interessante do ano. Até que parei de ler sobre e fui ao cinema, me encontrar com o filme real. A essa altura não preciso dizer - está implícito - que fiquei um tanto decepcionado com o que vi. Tal como em Piaf, Hino ao Amor (título absurdo!), parece que vi cenas que ninguém viu. Ou não vi as cenas que todo mundo viu. Se em Piaf o retrato é de uma histérica que berra o tempo todo, em "O Passado", duas das três personagens femininas principais são caricaturas da ciumenta de camisa-de-força. Em resumo: personagens com apenas 2 dimensões. E não há nada mais brochante do que ver seres humanos reduzidos ao preto&branco.

terça-feira, novembro 13, 2007

Apenas o fim do mundo

“Devemos conservar no centro do nosso mundo o lugar das nossas incertezas, o lugar da nossa fragilidade, das nossas dificuldades em dizer e ouvir” Jean-Luc Lagarce

A peça “Apenas o Fim do Mundo” em cartaz na CAIXA Cultural do Rio de Janeiro é muito mais do que o depoimento de um filho que volta ao lar, depois de anos afastado, para contar de sua doença incurável e da morte próxima. Encenada pela Companhia Brasileira de Teatro, de Curitiba, e dirigida por Marcio Abreu, ela traz uma aguda e pontual reflexão sobre a capacidade de identificar o que realmente é importante na vida.
Assistimos ao confronto do protagonista Luiz com a família, entrecortado por flashes em que o personagem vai resgatando na memória todas as fases da descoberta da doença. Diante das reações que sua presença impõe nos parentes, Luiz encerra sua visita sem ter conseguido dizer nada, tamanha é a dimensão das aproximações e afastamentos nas relações e revelações que se desenrolam. O fracasso de sua intenção evoca o fracasso nosso de cada dia, mas escancara portas, o que talvez seja mais importante, para vitórias cotidianas impensadas.
Temas como ausência, morte, amor, desamor, medo, ressentimento que permitiriam, em mãos erradas, resultar sobrecarregados de tintas escuras, ao contrário, mesmo emocionando bastante, são apresentados com uma leveza bastante delicada. Há a lágrima e o riso. A emoção é atingida exatamente pela maturidade fluida da magnífica interpretação dos atores. Sem dúvidas, resultado de um exaustivo trabalho de pesquisa sobre o texto.
Aliás, o texto do francês
Jean-Luc Lagarce foi o que mais me encantou. Cada frase, palavra e sílaba parecem ter sido (re)pensadas a mais não poder para se encaixarem na hora certa, no lugar certo e na emoção certa de cada atuação. A dicção primorosa dos atores, em especial de Rodrigo Ferrarini e Rodrigo Bolzan, permite que a platéia absorva todas as filigranas do refinado texto.
Quando do lançamento da peça, em Paris, falou-se muito de uma obra autobiográfica o que foi rejeitado depois pelos críticos, mas há sim um paralelo com a vida do próprio Lagarce. Ele escreveu a peça logo após descobrir que tinha AIDS. Autor de poucos textos, ele que ainda foi ator, diretor e editor é hoje - pouco mais de 10 anos após sua morte, em 1995 - um dos autores contemporâneos mais montado na França.
Sem dúvida, a escrita de Lagarce é delicada, sofrida e dolorosa, mas fala dos conflitos permanentes com a alteridade e da dor do não-dito. Transforma assuntos localizados em incômodos universais com maestria, como convém a um bom escritor. A impressão que tenho é a de que esta peça poderia ser encenada em qualquer lugar que conseguiria atingir objetivos semelhantes.

Ainda estão no elenco Christiane de Macedo, Giovana Soar, responsável pela tradução do texto, Lori Santos e Simone Spoladore. O espaço cênico elaborado por Marcio Abreu e Nadja Naira é minimalista, apenas” a sala de visitas da casa, com os móveis se movimentando pela manipulação dos próprios atores, tencionando o desconforto da presença do “visitante”, voltando a nossa atenção principalmente para os atores e a palavra, ou a busca exata dela. É a comunicação entre os personagens, ou a sua falta, o que importa.
Reafirmo: a encenação é exemplar. Os atores sorveram tudo o que podiam a respeito de Jean-Luc Lagarce (foto ao lado), autor que merecerá minha melhor atenção. As atuações parecem empenhadas em captar a sinceridade e sofisticada simplicidade do texto, provocando na alma o desejo de ser um ser melhor e de entender “o lugar da nossa fragilidade” individual e das “nossas dificuldades em dizer e ouvir”. Um lindo espetáculo!

RODAPÉ:

Está em cartaz no Rio um filme que evoca o caráter de divertimento puro que certo tipo de cinema nos traz. Planet Terror, de Robert Rodriguez (Sin City, Balada do Pistoleiro, etc) foi lançado no último Festival do Rio e é quase um trash-movie. Mas não se engane: é um mix, muito bem humorado, de inúmeras referências dos filmes dos anos 70. Com direito até um falso trailler de um filme fictício chamado Machete. Planet Terror foi exibido nos USA em programa duplo com Death Proof, de Quentin Tarantino, sob o nome de Grindhouse. Aqui pagaremos duas vezes para assistir a mesma coisa. Mas vale a pena.

quarta-feira, novembro 07, 2007

Festival Internacional de Animação Erótica

O 2º FIAERio – Festival Internacional de Animação Erótica está acontecendo de 06 a 08 de novembro de 2007 no Cine Odeon BR. O Festival, que pretende receber o que há de "mais quente", provocante e divertido na produção de animações para adultos com temática erótica, tem na programação 02 longas metragens e 49 filmes em curta metragem de animação de diversas partes do mundo, todos com a temática do erotismo e afins.
Bom lembrar que a 1ª edição do Festival aconteceu ano passado no Cine Íris. Este cinema é um patrimônio histórico do Rio de Janeiro, foi inaugurado em 1919, a arquitetura é uma síntese dos estilos arquitetônicos do início do século, com predominância do art-nouveau. Hoje o cinema exibe filmes eróticos e pornográficos.
A edição passada causou muitos comentários em diversos países, o que certamente ampliou a presença de diretores estrangeiros na nova edição.
Na programação do Odeon estão sendo apresentados projetos desenvolvidos em diferentes técnicas. Enquanto “Sand”, do americano Peter Sluska, usa stop-motion (técnica em que figuras feitas de massa são animadas quadro a quadro), “O baile”, da brasileira Viviane Valadares, abusa da pesquisa de linguagens, por exemplo.
Porém, a pretensão de provocar fica restrita a poucos curtas. Dentre os quais destaco o divertidíssimo “Bikini”, do sueco Lasse Person, com a história de um jovem que “sai do armário” ao usar, literalmente, o biquíni de bolinha amarelinha de sua mãe e seduzir dois salva-vidas.
Além do ótimo “Sand” em que um macaquinho se deixa iludir por uma macaquinha feita de areia e manifesta sua pulsão sexual. Este curta em particular me chama a atenção para a metáfora de muitas de nossas relações diárias. Algumas simplesmente se desvanecem no ar, como areia que escapa entre os dedos e não nos damos conta de que, desde o início, elas eram assim: fluidas, ou líquidas, como preferem alguns teóricos da modernidade. Outras, e isso o macaquinho expressa bem, tentamos dar forma, ou prende-las a um molde, a todo custo, por mais conscientes, ou não, que sejamos de suas fragilidades. Mas essa é uma análise muito singular para um filme que pretende ser “apenas” engraçado, e consegue.
Outro que chama atenção, pela temática, é “Instinct”, do francês Fréderick Venet, com a história de amor entre um homem e sua gata. Ele a imagina como mulher, mas ela continua selvagem como um animal. O que toca também na relação entre os humanos e seus “animais domésticos”.
E há ainda o americano e interessante “Teat beat of sex”, de Signe Baumane, com palestras sobre sexo oferecidas “por uma especialista no assunto”. Ilário.
O público é quem pontua as animações que são exibidas. As mais bem votadas serão anunciadas na festa de premiação que acontece no último dia do festival, nas categorias "Mais Quente", "Desejo Nacional" e "Desejo Internacional".
Para mim, fica a impressão de que a reprise em tela grande do excelente longa “Wood & Stock – Sexo, orégano e rock’n’roll”, de Otto Guerra, é o melhor do FIAERio deste ano. Além do mais, com tantas parcerias e com o apoio cultural da Playboy TV, For Man e Sex Hot, o Festival merecia maior divulgação e melhor produção.

RODAPÉ:

Saiu o tão aguardado sétimo disco da Nação Zumbi, a banda mais influente dos anos 90 – “Fome de Tudo”. Jorge Du Peixe, vocalista da banda que já foi comandada por Chico Scienci, explicou que “a fome percorre o disco em várias músicas”. Apesar da referencia este é um dos primeiros discos que eles gravam sem um conceito fixo. Sem a quantidade de samplers do disco anterior, "Futura", o novo trabalho tem 12 faixas bastante “orgânicas”. A produção é do norte-americano Mario Caldato Jr, responsável por quase todos os discos do Beastie Boys, além dos artistas brasileiros Marcelo D2 e Bebel Gilberto. Destaco “Carnaval”, “Toda surdez será castigada” e “A culpa”. Mas ficam na mente os versos da faixa-título: "a fome tem uma saúde de ferro / Forte como quem come" e de “Olimpo”: "todos os dias nascem deuses / alguns melhores e alguns piores do que você”.

quinta-feira, novembro 01, 2007

Lendo Clarice e ouvindo Cazuza

Estão à venda o CD e o DVD Barão Vermelho – Rock In Rio 85, com o registro da famosa apresentação da banda na primeira edição daquele festival. Além disso, em um debate semana passada aqui no Rio, Ezequiel Neves, descobridor da banda, anunciou o lançamento do livro Por que a gente é assim, biografia do Barão, escrita por ele juntamente com o jornalista Rodrigo Pinto e o baterista do grupo, Guto Goffi, com lançamento previsto para o final de novembro.
Sempre que se fala de Barão Vermelho lembro de Cazuza. Esta semana, por exigências acadêmicas, reli A hora da estrela, de Clarice Lispector e fiquei pensando nas semelhanças temáticas entre sua escrita e as letras de Cazuza. Pesquisei um pouco e descobri que A descoberta do mundo, livro de crônicas de Clarice, era o livro de cabeceira de Cazuza. Bingo!
Penso que para entender a produção de Clarice e Cazuza seja preciso investigar o contexto histórico no qual elas estão inseridas. Eles são intérpretes de um mundo cada vez mais veloz, com a urgência das informações e da fragmentação do ser humano. De uma sociedade que se torna cada vez mais escrava da imagem.
Donos de uma sensibilidade por vezes mórbida e de uma aparente insatisfação com o mundo, eles tematizam insistentemente as peripécias do “ser-no-mundo”.
Clarice e Cazuza fazem das dúvidas inconfessáveis a matéria-prima de suas obras, desmascarando a si próprios. Rompem com o equilíbrio do cotidiano a partir do momento em que questionam as verdades estabelecidas. Colocam em discussão a visão de um mundo múltiplo e que nos perturba exatamente pelas várias opções de resolução para uma questão interior e individual. Ao mesmo tempo em que percebem que nenhuma resposta satisfaz. Temos tantas opções que não sabemos o que fazer. Escolhe-se tudo. Escolhe-se nada.
Buscar a verdade é um desejo pontual de todos nós. Uns encontram a duras penas, outros a perseguem por toda a vida, porém a idéia de uma verdade maior, relacionada a nossa própria origem, incomoda muito. Quanto às verdades “menores”, o que se percebe em Clarice e Cazuza, é que qualquer acontecimento pode ser o detonador de verdades. Basta lembrar o caso da personagem G. H. diante de uma barata, ou ainda, Rodrigo S. M. diante de Macabéa. É preciso estar atento. Ou não? São as verdades que nos acham?
Há, e cada vez mais isso se agrava, a falta de paradigmas. “Meus heróis morreram de overdose, meus inimigos estão no poder”, ou ainda, “as ilusões estão todas perdidas, os meus sonhos foram todos vendidos”. É este ser, atormentado pelas descobertas de algumas verdades e sentindo-se só diante da necessidade de enfrenta-las, quem atravessa grande parte das letras de Cazuza. Estar no mundo e vivenciar seus paradoxos atormenta. Há uma urgência em viver o agora, pela ausência de perspectivas futuras.
Voltando a Clarice, Macabéa é um exemplo desse “ser-fraturado”, rompendo com a ordem das coisas quando, sendo virgem, admira Marilyn Monroe, símbolo sexual. O equilíbrio entre tradição e o embate com essa tradição paira sobre a única certeza de que não existe uma verdade única. A verdade é construída de acordo com a ocasião e as escolhas que cada um de nós fazemos. Daí que “raspas e restos, pequenas poções de ilusão e mentiras sinceras me interessam”. Isto é, diante da falta de uma verdade universal, “mentiras sinceras” nos ajudam a continuar lutando pela vida.
Nenhum dos dois têm medo e pudores ao tratar da normalidade de seus receios e erros diante da vida, pois viver, estar vivo, já é um grande feito e redime qualquer culpa. Fica claro que o que interessa a Clarice e a Cazuza não são os indivíduos em si, mas a paixão que os domina, a inquietação que os conduz, a existência que os subjuga. Por isso, enquanto Clarice dizia que “os fatos são sonoros mas entre os fatos há um sussurro. É o sussurro o que me interessa.”, Cazuza afirmava que “há um incêndio sobre a chuva rala”. Cabe a cada um de nós sentir pra entender. Ou não.


RODAPÉ:

Sob curadoria de André Vallias, Friedrich W. Block e Adolfo Montejo Navas, está em cartaz Poiesis – Poema / entre pixel e programa, com vinte e sete poetas, de onze países, mostrando com quantos bytes, letras e números, formas e sons se faz um poema hoje, no mundo das novas tecnologias. Entre os artistas estão Augusto de Campos, Adriana Calcanhotto, Arnaldo Antunes, Lenora de Barros e Ricardo Aleixo. A exposição fica até 2 de dezembro no Oi Futuro, Rio de Janeiro. Imperdível!

terça-feira, outubro 23, 2007

Um Gringo em exposição

Sob a curadoria de Heloisa Buarque de Hollanda e Eva Doris Rosental, está em cartaz só até dia 04 de novembro, no Centro Cultural Correios, no Rio, a exposição “Gringo Cardia de Todas as Tribos”.
Trata-se na verdade de um portfolio de quase três décadas da produção de Gringo Cardia, designer gráfico, cenógrafo, arquiteto, diretor de arte, diretor de videoclipes, de teatro, de desfile de moda, entre outras atividades.
Gringo Cardia de Todas as Tribos” conta o percurso deste artista multimídia, desde suas inspirações às realizações nas artes cênicas, na dança – com a sempre parceira Deborah Colker, além da Intrépida Trupe –, na música, no cinema, em vídeo, design, design gráfico, videografismo, moda e TV.
A mostra reúne maquetes, clipes e vídeos, capas de discos, figurinos, fotografias e peças gráficas.
A exposição dedica um espaço especial a uma amostragem dos mais de 50 videoclipes assinados por Gringo, junto com suas criações em videografismo.
Já o núcleo da arte da periferia reúne seus trabalhos junto ao AfroReggae, à Central Única das Favelas (CUFA), ao Hutúz, e à escola Spectaculu, de arte e tecnologia – dirigida junto com a atriz Marisa Orth – e que integra cerca de 350 alunos adolescentes que aprendem computação gráfica, vídeo, fotografia, design gráfico e consciência crítica.
O gaúcho Gringo Cardia, hoje com 50 anos, começou a desenhar cartazes, convites e programas para o show business no final de 1970. Desde então, passaram pela sua íris de muitos arcos centenas de eventos e artistas. Maria Bethânia, Marisa Monte, Chico Buarque, Rita Lee, Xuxa, Skank, Carlinhos Brown, Lulu Santos, Marina Lima, entre outros. Mais de 100 peças de teatro tiveram cenário assinado por ele.
Na moda, dirigiu e cenografou desfiles, na São Paulo Fashion Week e no Fashion Rio. Destaco ainda em seu currículo o luxuosíssimo Museu das Telecomunicações no Rio de Janeiro, instalado no prédio da Oi Futuro.
Se a contemporaneidade é realmente marcada pelo produto das inter-relações de diversas mídias, essencialmente visuais: a televisão, o vídeo, o cinema, o DVD, a música, a telefonia, o rádio, os jornais e revistas impressas, a fotografia, a internet, o plasma, a arte de Gringo Cardia exemplifica e tematiza bem isso. Mas há sempre uma nostalgia por traz de sua obra, basta atentar para suas inspirações. Unir clássico e ultra-moderno, cult e pop é o que se percebe como meta do artista.
É, sem dúvida, uma oportunidade excelente de observar não só o produto final, mas todo o processo de feitura das obras, a partir das influências e matrizes, deste designer da linguagem visual.
Vale muito a pena conferir.
Lembrando: só até 04 de novembro. Não perca tempo!

RODAPÉ:
Está em cartaz nos cinemas desde sexta-feira “Superbad”, do mesmo diretor de “O virgem de 40 anos”. O filme tem sido aclamado como a melhor comédia do ano. Até o bonequinho de O Globo está aplaudindo de pé. Aliás, o "crítico" confundiu o estilo rapper do jovem americano de hoje falar com o estilo de Woody Allen... Porém, longe de todos os confetes midiáticos, que tão bem entendemos, e mesmo com um elenco desempenhando bem os razoáveis papéis que lhe cabem, o filme não passa de apenas mais uma comédia sobre o quão é desconcertante ser jovem. E no saldo final, apenas proporciona umas poucas risadas.

quinta-feira, outubro 11, 2007

Festival do Rio 2007

Adaptações e comentários sobre a sinopse oficial de alguns filmes que assisti no Festival de Cinema do Rio 2007:
Amor e outros desastres
- Jacks é uma jovem americana alegre e cheia de energia. Ela mora em Londres e trabalha na revista de moda Vogue. Hiperativa, não pára de falar e tem como especialidade arranjar “pares perfeitos” para seus amigos próximos: Tallulah, caçadora neurótica de homens e Peter, gay aspirante a escritor, com quem ela divide apartamento. Jacks se gaba de ter o melhor radar para gays da cidade e faz de Peter o principal objeto de suas tramas casamenteiras. Quando o atraente Paolo começa a trabalhar no estúdio da revista como assistente do fotógrafo, Jacks decide armar para juntar os dois. Um filme despretensioso, mas que surpreende com as questões que aborda.
Antes que eu esqueça - Pierre é um escritor de 58 anos, portador do vírus da Aids, que vive na mais completa solidão. Preso ao passado, não consegue inspiração para escrever. Tentando furar o bloque
io criativo, ingere remédios em série. Nesse estado, ele descobre que seu antigo companheiro faleceu. Nos dias seguintes, desesperado, precisará enfrentar a polícia, a família, as doenças, e, com velhos amigos, lembrar da juventude perdida. Com a ajuda de um gigolô, no entanto, Pierre fará um esforço final para realizar suas últimas fantasias. O filme mostra o quão deprimente pode chegar a existência do ser humano.
Grindhouse (dois filmes): Planet Terror - O casal de médicos William e Dakota Block é surpreendido no hospital por uma multidão de homens e mulheres cheios de feridas e mutilações, que vagam com um suspeito olhar perdido. Entre eles está Cherry, uma dançarina de boate cuja perna foi arrancada num ataque noturno. Com uma metralhadora no lugar da perna decepada, ela vai liderar, acompanhada por El Wray, um exército de inválidos assassinos. Eles avançarão sobre a cidade, deixando poucos desesperados sobreviventes num planeta de terror. Filme duplo realizado a quatro mãos com Quentin Tarantino. Death proof
- Ao cair da noite, Jungle Julia, a DJ mais sexy de Austin, pode enfim se divertir com as suas duas melhores amigas. As três garotas saem noite adentro, atraindo a atenção de todos os freqüentadores masculinos dos bares e boates do Texas. Mas nem toda a atenção é inocente. Cobrindo de perto seus movimentos, está Stuntman Mike, um rebelde inquieto e temperamental, que se esconde atrás do volante do seu carro indestrutível. Filme realizado em parceria com Robert Rodriguez. Imperdível! Ambos.
Jihad do amor - Muhsin Hendricks é um imã sul-africano condenado por assumir publicamente a sua homessexualidade. No Egito, onde ser gay é ilegal, o jovem Mazen é obrigado a fugir depois de ser preso e torturado por estar numa boate gay no momento em que esta foi invadida pela polícia. Uma mãe muçulmana na Turquia aceita o casamento lésbico de sua filha mais velha. Quatro gays iranianos fogem de seu país e buscam asilo no Canadá. Estas e outras histórias formam um painel que, pela primeira vez, explora a complexa relação entre o Islã e a homossexualidade, em um documentário muito bem acabado.
La Leon - Álvaro leva uma vida humilde numa ilha remota da Argentina. A pesca e o corte de cana-de-açúcar são suas únicas fontes de renda. Sua inclinação homoerótica o torna tão estranho a este ambiente quanto o seu amor pelos livros. A única ligação entre a ilha e o continente é o pequeno barco El León, comandado pelo marinheiro Turu, que vê em Álvaro uma ameaça aos valores da pequena comunidade. O conflito entre os dois provará que a agressividade de Turu é apenas um modo de esconder a sua própria confusão emocional. A fotografia paga o filme, apesar de sua confusa narrativa.

L’avie em rose - A vida da grande Edith Piaf foi sempre uma batalha. Abandonada pela mãe, foi criada pela avó, dona de um bordel na Normandia. Dos três aos sete anos de idade, fica cega, recuperando-se milagrosamente. Mais tarde vive com o pai alcoólatra, a quem abandona aos 15 anos para cantar nas ruas de Paris. E
m 1935 é descoberta por um dono de boate e neste mesmo ano grava seu primeiro disco. A vida sofrida é coroada com o sucesso internacional. Fama, dinheiro, amizades, mas também a constante vigilância da opinião pública. Altos e baixos da voz que marcou gerações. As idas e vindas do enredo, na pretensão de ser moderno, atrapalha a transmissão dos fatos.
O acompanhante - Carter Page III tem um trabalho bastante atípico. Ele vive de acompanhar senhoras da elite de Washington a óperas, jantares e jogos de cartas. Por isso, quando Lynn Lockner, a esposa de um senador, encontra seu amante morto, é a Carter que ela pede ajuda. Para protegê-la, ele diz ter sido a pessoa que descobriu o corpo. Mas esse gesto de bondade tornará Carter o maior suspeito do assassinato. De repente, ele se vê preso numa rede de intrigas e rumores. Abandonado pelos amigos, só resta a Carter correr contra o tempo e tentar provar sua inocência. Apesar de previsível, o filme tem boas atuações.
Olhe para mim, querido - Através dos depoimentos de Stephen Frears, Gus Van Sant, François Ozon entre outros, é revelada a trajetória do cinema gay nas últimas décadas, desde a sua emergência até a sua tomada de consciência como gênero consolidado. Diretores como Pedro Almodóvar, Ang Lee e Derek Jarman, com as suas expressões cinematográficas particulares e personagens inovadores, transformaram o cinema e os hábitos do público. Trechos de filmes que se tornaram marcos do cinema gay e do cinema como um todo são encenados e
projetados em cenários como um cinema pornô ou um banheiro público masculino. Imperdível e certamente torna-se uma antologia para o gênero, pós-AIDS.
Shortbus - Vários jovens de Nova York encontram-se num salão infame e underground chamado Shortbus, onde se deparam com situações cômicas e trágicas envolvendo amor, música, política e sexo. Sofia é a terapeuta sexual que nunca teve um orgasmo e por isto fingiu durante anos para seu marido, Rob. Ela conhece Severin, uma dominatrix que tenta ajudá-la. Entre os clientes de Sofia está o casal gay James e Jamie, que começa uma relação aberta com Ceth. O filme sugere uma forma de diminuir a pressão pós-ataques terroristas de 2001 e assim reconciliar melhor as pessoas. Na minha opinião, o melhor filme do Festival.
The notorious Bettir Page - Bettie nasceu numa família interiorana, muito religiosa. Decidida a mudar de vida, a jovem partiu rumo à Nova York. Um dia, passeando pela praia, encontrou um fotógrafo amador, e aceitou fazer algumas poses despretenciosas. Sua beleza e sensualidade chamaram atenção, e Bettie iniciou uma carreira de modelo fotográfica. Rapidamente tornou-se uma das mais famosas pin-up’s do país, esbanjando alegria e erotismo. Mas, em 1955, um senador americano iniciou uma dura investigação sobre a influência da pornografia na juventude do país. E Bettie acabou sendo transformada num exemplo de imoralidade. Maravilhoso, mas muito comportado, até porque foi feito pela HBO.
Tropa de Elite - No Rio de Janeiro de 1997, Nascimento é um capitão do BOPE, a Tropa de Elite da Polícia Militar. Ele é indicado para comandar uma operação que combaterá o tráfico de drogas no morro do Turano. Isso porque o Papa visitará o país e vai dormir uma noite na casa do cardeal-arcebispo perto dali. Chefiando uma missão que lhe parece absurda, Nascimento procura um substituto. É quando os policiais Neto e Matias entram para a corporação. O primeiro se destaca pela coragem, o segundo pela inteligência e ambos pela honestidade. Se pudesse reunir todas essas qualidades num homem só já teria achado o seu candidato. Haja vista tanto barulho por nada, em torno do filme, vale a pena ver.
Zoofilia
- Em 2 de julho de 2005, um homem de Seattle foi deixado, quase morto, às portas de um hospital, com perfuração no cólon. Logo em seguida, os detetives descobriram, perto dali, uma fazenda vazia, onde um grupo secreto de zóofilos, formados por homens vindos dos quatro cantos do planeta, costumava manter relações sexuais com cavalos da raça garanhão árabe. Na fazenda, a polícia ainda descobriu centenas de fitas de video, com imagens registrando as experiências. Explorado pela imprensa de forma sensacionalista, o incidente chocou a sociedade. Com uma boa matéria na mão, o documentário se perde ao exagerar nos limites entre ficção e realidade.

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RODAPÉ: Está no Rio a famosa e divertida "Cow Parade", maior evento de arte de rua do mundo. Mas bem que por aqui poderia se chamar "Cow Zona Sul Parade", pois apenas duas ou três vaquinhas, dignaram-se visitar outras áreas da cidade maravilhosa.

terça-feira, setembro 25, 2007

Adoro odeio!

O primeiro texto que escrevi aqui foi “Duas doses de Caetano”. Trata da minha feliz possibilidade de poder assistir a duas apresentações, em um curto espaço de tempo, de um dos maiores artistas brasileiros contemporâneos. O show em questão era Cê, lançado agora, em cd e dvd, ao vivo.
Diferentemente do disco Prenda minha, que registra o show sobre o cd Livro, com ausência total de canções do disco de estúdio, Cê ao vivo, gravado na Fundição Progresso, aqui no Rio, traz, em 17 faixas, o registro de palco de grande parte das músicas do original.
Há sempre uma inquietação, por parte dos críticos, quando um cantor lança um disco ao vivo feito sobre o show de um disco em estúdio. Particularmente, penso que, se por um lado temos o monstro do comercialismo banalizante, temos também o calor da música registrada fora do estúdio, com a recepção direta do público.
Tais trabalhos podem proporcionar ainda as revisitações de repertório. No caso
de Cê ao vivo, Caetano pinçou “Nine out of tem” e “You don’t konw me”, do paradigmático disco Transa, de 1972, “Um Tom” (1997), dedicado agora ao maestro Jacques Morelenbaum, “O homem velho” (1984), “Como dois e dois” (1971) - finalmente gravada por ele, “Sampa” (1978) e “Desde que o samba é samba” (1992), ambas com arranjos atualíssimos, “London London” (1971) e “Fora da ordem” (1991).
Das releituras não autorais ele trouxe apenas a contagiante “Chão da praça” (1978), de Moraes Moreira e Fausto Nilo e a delicada “Ilusão à toa” (1959), de Johnny Alf. Do trabalho em estúdio, a certeira “Outro”, a introspectiva “Minhas lágrimas”, a sincera “Homem”, a híbrida e subjetiv
a “Odeio” – adoro odeio, a melancólica “Não me arrependo” e a pesada “Rocks”.
Destaco a canção “Amor mais que discreto”, escrita na primeira pessoa, única inédita e que dialoga intertextualmente com “Ilusão à toa”. Segundo Caetano, em entrevista a Rolling Stone, a canção é sobre “dois caras curtindo o sexo deles”. Mais que isso, é sobre um homem velho e o amor, quase platônico, por um jovem. Sobre isso o cantor disse que “aquele modelo grego do homem com um adolescente é um arquétipo na cabeça da gente”, e disparou: “sou velho, então já posso pensar nessa perspectiva”.
Os versos “você é bonito o bastante / complexo o bastante / bom o bastante / pra tornar-se ao menos por um instante / o amante do amante / que antes de te conhecer / eu não cheguei a ser” dão a dimensão objetiva e melancólica da letra. É a voz de alguém que muda completamente sua expectativa de vida diante do novo, do amor.

No cd ele mostra que continua fiel à tradição do rock, mas trocando os dilemas mais simples de adolescente pelos mais complexos, vividos por um sexagenário exalando uma dura sexualidade masculina. Mesmo quando trata o tema do amor homoerótico. “A mim esse tema sempre interessou, é um tema meu. Não entro em ambiente nenhum sem meus temas principais. Não iria deixar isso de fora”, concluiu o assunto, sem levantar bandeira, como sempre.
Caetano já deu voz a diversos tipos. Dentre eles, a voz do indivíduo sexualmente ambíguo, ou em dúvida quanto a sua sexualidade, está representada na letra da canção “Eu sou neguinha?”. Há ainda “Ele me deu um beijo na boca”, “Nosso estranho amor”, “Gatas extraordinárias”, “Escândalo”, “O namorado”, entre outras. A presença do tema do homoerotismo, das mais diferentes formas, sempre esteve presente na obra de Caetano.

Capa da Rolling Stone de agosto, aquela em que se supôs, devido à sempre competente especulação midiática, ele apareceria fotografado nu, Caetano está sempre em foco com suas afirmações e questionamentos, por mais que discordemos, repletos da consciência de quem observa de perto o Brasil.
O som de Cê ao vivo, que resulta das amarras das guitarras de Pedro Sá, da bateria de Marcelo Callado e do baixo e piano de Ricardo Dias Gomes, é o registro exato de um som viscera
l, “feliz e mau como um pau duro”.
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RODAPÉ: Com o objetivo de divulgar o importante movimento cultural que tem lugar na Zona da Mata de Pernambuco, aconteceu, no dia 20 de setembro último, o Rio Pernambuco.com com apresentações de Mestre Zé Duda e o Terno do Maracatu Estrela de Ouro de Aliança, dividindo o palco do Teatro Nelson Rodrigues com Jorge Mautner e Nelson Jacobina. Os dois, além de interpretarem músicas próprias, algumas do cd Eu não peço desculpa, que Mautner divide com Caetano, se uniram no número final ao grupo de maracatu de Mestre Zé Duda e fizeram “Maracatu atômico” (1973). Esta se tornou a canção-manifesto do movimento Manguebeat nos anos 90. O resultado foi uma apresentação indescritível, de beleza e riqueza artística.

terça-feira, setembro 18, 2007

A “Capricho” gay?

Já está nas bancas desde a última sexta-feira (14/09) a revista Junior. Dirigida pelo competente André Fischer, também diretor do MixBrasil, maior site GLS do país.
A expectativa era grande. Depois da orfandade deixada pela Sui Generis, que até hoje é a referência para este tipo de publicação, seria de esperar que a nova revista oferecesse novos olhares sobre o universo gay, se é que existe mesmo um universo paralelo. Mas a primeira impressão, no passar das folhas – rápido e ainda na rua - foi a de folhear uma Capricho, agora gay. Até truque da pele perfeita tinha. Porém, um olhar mais cuidadoso revela que Junior é mais que isso.
A revista não decepciona, ela cumpre seu objetivo. Está cheia de gente bonita, divertida e jovem. Só não se percebe nenhuma inovação no discurso da corpolatria, aliás matéria de um bom dossiê na revista.
Como diz o editorial, assinado por Fischer, a revista é “assumida sem ser militante e sensual sem ser erótica”. No entanto, a afirmação de que quem faz a revista conhece “bem de perto as especificidades da ‘comunidade’ gay no Brasil” é, no mínimo, equivocada. Gera incômodo (de um modo negativo) esta visão reducionista da questão.
O nome da revista já sugere o que será encontrado dentro dela, mas é questionável que as “especificidades” gays, no Brasil, se limitem à vida noturna, música,
corpo e afins.
As fotos têm um trabalho muito cuidadoso e correto, sem falsos pudores. Destaque para a bela foto do bailarino Marco Silva e as 12 páginas com o modelo da capa, Lucas Pitioni.
As matérias em geral são curtas, sem aprofundar as questões, porém não é certamente a proposta ser uma versão gay de Piauí, Bravo ou Cult. Ainda assim merecem atenção o texto de Hermano Silva “Boys wanna dance” - depoimentos sobre a descoberta da paixão pela dança, a relação com os pais, sonhos e inspirações de alguns bailarinos -, o dossiê “(H)alter-ego”, e o texto de Tino Monetti sobre o trabalho do polêmico Bruce LaBruce.
Comentários no orkut previam que
Junior seria uma fonte de informação para quem busca alternativa à cultura de massa e uma antecipadora de tendências. Mas cabe perguntar: mostrar uma repetição de corpos com perfil idêntico, apresentar produtos da indústria cultural, prontos para serem jovialmente consumidos, mesmo em estado de distração, não é cair na massificação débil e dependente?
É interessante, como exemplo disso, ler a matéria de depoimentos de quatro homens, de 20/30/40/50 anos. O de 25 anos revela que não gosta de malhar, "mas me disciplino”; o de 32 conclui que “é nítida a mudança no meu rosto depois que comecei a trabalhar menos, sair mais, me divertir mais”; o de 42 diz malhar “cinco vezes por semana," ... "ajuda a relaxar, além de ser um ótimo ambiente para socializar”; e o de 56 afirma “que o corpo já não funciona da mesma maneira. Mas isso não quer dizer que não funcione bem”. Perceber essa linearidade e unificação de pensamento em gerações distintas é assustador.
Se a proposta de agora é atingir, com linguagem fluida, o jovem-gay-moderno,
Junior parece cumprir seu papel. Porém, falta e sobra muita coisa. A cultura, por exemplo, como em muitas outras revistas e jornais, é erroneamente reduzida às matérias de comportamento e entretenimento.
Salvaguardadas as aspas e comentários críticos, que aqui só querem ser construtivos, há que se parabenizar quem faz a revista, haja vista as dificuldades envolvidas. Vale a pena conferir este baby que nasce com pretensões de gente grande.
Que venha o segundo número para que se possa acompanhar seu crescimento.

terça-feira, setembro 11, 2007

Entre o rural e o experimental

Compositor de “Parque industrial”, quinta faixa do disco-manifesto Tropicália (1968), Tom Zé sempre fez da fusão entre consciência política e experimentação estética, aliada ao deboche incorreto, característica de suas composições. A letra citada, por exemplo, sarcasticamente forja a comemoração do avanço industrial no Brasil.
Naquele mesmo 68, estréia disco solo e, talvez por não se render aos apelos mercadológicos, começa a se isolar, afastando-se dos outros tropicalistas. Em 1973 lança Todos os olhos, em que o olho fotografado na irreverente capa, afrontando a censura, é uma bola de gude colocada na cavidade de um ânus. Após este período, amarga o ostracismo. Sua obra passa a ser tida como difícil e aberta apenas aos iniciados, passando a circular mais nos ambientes acadêmicos e lugares "alternativos".
Só nos anos 90, ele teve seu trabalho (re)descoberto por David Byrne, que comprou o cd Estudando o samba, seu melhor trabalho, numa loja do Rio. Tom Zé, sempre de fora dos domínios centrais, vive certa popularidade. É o período da Europa e dos Estados Unidos conhecerem ele. Porém, ainda assim, não abre mão do protesto social.
A verdade é que Tom Zé consegue sobreviver ao desgaste do termo “experimental” de forma irônica e sábia. Ele tira proveito mesmo dos erros embarcando, e levando junto seus ouvintes, numa viagem de pura abertura de fronteiras, onde a especulação parece ser o objetivo.
Sempre perturbando fãs e críticos, em 2000 ele lança Jogos de Armar, disco que recria “Asa Branca” e “Pisa na fulô” e que é a radicalização de seus experimentos com sons e instrumentos sonoros. O disco foi censurado nas rádios por causa de versos como, “Ah, puta que pariu / Bate estaca, bate rock”. Contradição de um país que em rap, funk e afins estrangeiros ou nossos, ouve-se ''fuck your mother, fuck your father, fuck your mind'', analisou Tom Zé, na época.
Agora é a vez de Danç-Êh-Sá - Dança dos Herdeiros do Sacrifício, disco aparentemente distante do seu processo criativo, pois as sete faixas não contam com a especialidade do compositor: letra. Há um instrumental vigoroso, acompanhado de vocalizações que brincam com sons. A referência no título ao sacrifício das nações negras para a formação das américas está bastante tematizada nos resultados sonoros do disco.
Tom Zé revelou que o cd foi concebido depois de saber o resultado de uma pesquisa da MTV, na qual se aponta a tendência para o hedonismo, o consumismo e a irresponsabilidade social dos jovens contemporâneos. Aliado a isso, a afirmação de Chico Buarque de que a canção está morta. Há, portanto, a busca de comunicação com esses jovens, que apontaram um certo desprezo pelas letras e a preferência pela música eletrônica.
O show homônimo ao disco, apresentado este fim de semana aqui no Rio, pelo DJ TãoZé - mais uma graça à música eletrônica - é cansativo para quem está acostumado com o Tom Zé letrista, mas agrada por mostrar a irreverência de sua vitalidade e capacidade de criação e performance. Aliás é esta performance que proporciona a aproximação com o público. O trânsito livre entre erudito e popular, resultado de sua formação na Escola de Música da Universidade Federal da Bahia, e entre os mitos gregos e as chagas sociais atuais são a marca do show desse artista com inacreditáveis 70 anos de vida.

O carinho pelo Nordeste, rural e artesanal, também está presente no show, especialmente no olhar agudo da letra “O pib da pib” – "A prostituição infantil barata / É a criança coitadinha do Nordeste / Colaborando com o Produto Interno Bruto / E esse produto enterra bruto" – canção do cd Jogos de Armar. Aliás é quando interpreta as canções deste disco que surge uma clara resposta do público, até então apenas "protocolarmente participativo".
No show, Tom Zé é acompanhado por músicos afinadíssimos com seu atual projeto pessoal. Danç-Êh-Sá, combinação de experimento e artesanato sonoros, não é o melhor trabalho de Tom Zé, nem tem a pretensão de sê-lo, mas evidencia a continuidade no seu processo de aprofundamento e originalidade de nossa música.
Por fim, mesmo sem letras, Danç-Êh-Sá fala demais.

quarta-feira, setembro 05, 2007

Encontro com o pop João Cabral

A fim de promover a antologia O artista inconfessável, de João Cabral de Melo Neto, lançada há poucos dias pelo selo Alfaguara, da Editora Objetiva, o jornal O Globo reuniu ontem, em seu auditório, Ferreira Gullar, Bráulio Tavares e Eucanaã Ferraz, com mediação de José Castello, em um debate sobre a vida e a obra do poeta.
Entre outras coisas questionou-se a idéia do artista que se “confessa” em sua obra, algo que Cabral sempre lutou veementemente contra. Para ele, poesia era o trabalho do exercício com a palavra. E a palavra era tida como pedra ou faca sem cabo. Para o semioticista Roman Jakobson, “a linguagem deve ser estudada em toda a variedade de suas funções” e parece ter sido este o propósito de Cabral.
A mim incomoda bastante esta análise do texto pelo viés psicanalítico, proposta pela nova antologia do poeta. Buscar soluções para as questões textuais na vida dele é deixar de lado a especificidade do objeto artístico e cair na má crítica, ou na crítica limitada. Fazer isso, por vezes, corro
o risco de dizer, é constatar a incompetência crítica diante da obra.
Contemporaneamente, vemos um número cada vez maior de leituras com este objetivo de encontrar o artista dentro da obra. Penso que seja uma busca de ressuscitar o autor, e numa leitura mais ampla o indivíduo, perdido em meio à fragmentação moderna e “pós-moderna”, e que teve sua morte constatada principalmente pelos filósofos Foucault e Barthes.
Mas, voltando à poesia de João Cabral, com sua gramática única, ela não se deixa fruir livremente. Não há como entrar no universo cabralino e sair da mesma forma, pois nele reside aquilo que o crítico inglês Ezra Pound já definiu como Literatura, ou seja, trabalho com a linguagem carregada de sentido a mais não poder. E isso não é discurso do meio acadêmico, como vem afirmando Inez Cabral, filha do poeta. A dificuldade na interpretação da poesia de Cabral é constatada por qualquer um que se detenha sobre ela.

João Cabral torna possível, pela arquitetura de seus poemas, uma ruptura radical dos versos, que no Brasil viviam à sombra do simbolismo e da retórica pomposa. Com sua concisão, desprezo ao enfeito e ao sentimentalismo barato e com sua limpeza de estilo, ele cria leitores de poesia ou, pelo menos, desperta nos leitores já existentes novas consciências do fazer literário.
Avesso ao lírico e à música, pois, segundo ele, a música “desarruma” os sentidos e ele temia esta “falta de controle”, Cabral coloca seu leitor na crise do não-reconhecimento com a mensagem. Ele entorta a linguagem para não deixar que ela frua, para exigir mais do leitor. Esta tentativa atual, de tentar facilitar a leitura de sua obra através do viés autobiográfico, pode aniquilar todo o "Projeto João Cabral" de fazer poesia.
Recordo o texto “Direito à literatura”, do mestre de todos que trabalham com as Letras no Brasil, Antônio Cândido, com a sugestão, tomo aqui a liberdade de interpretá-la, de que todo artista, como diz a canção, “tem de ir aonde o povo está”, porém, esse “baixar o nível”, no intuito de ficar mais fácil e atingir um número maior de público, subestima e provoca a estagnação intelectual desse mesmo público. Cabral, ao contrário, convida o público para dentro do seu universo, elevando o nível e instigando o leitor.
Fica a pergunta de resposta fácil: A poesia de João Cabral emociona? Sim. Mesmo ao revés dele, há quem vá às lágrimas. Mas emociona pela arquitetura, pela transpiração sobre a palavra cuidadosamente pensada e calculada, pela beleza de seus jogos semânticos.

Em resumo: João Cabral não é um poeta fácil, pois ele é daqueles artistas que criam leitores, leitores conscientes de que a Literatura acontece quando o poeta consegue usar a linguagem em benefício da própria linguagem, transformando e colocando ela em movimento.
Se a proposta de agora é promover o descobrimento de sua obra, pela facilidade e comodidade da leitura puramente autobiográfica, se, como afirmou sua filha, a “guerra atual” é mostrar que João Cabral de Melo Neto é pop, no sentido de consumo fácil, desejo sorte aos atuais e futuros críticos de arte.

quarta-feira, agosto 29, 2007

Sobre "Women in art" (ver post anterior)

Da Madona medieval às deusas greco-romanas, renascentistas.
Dos retratos de nobres damas barrocas e musas românticas às mulheres comuns do realismo.
Do rosto impressionista que começa a esvanecer ao traço modernista que reduz a figura às linhas básicas... Temos a impressão de ver, através dos séculos, várias expressões de uma mesma mulher. Quando assistimos ao vídeo focando nossa atenção
nos olhos das pinturas que vão se sucedendo, o convencimento é ainda mais forte. Parece que ela apenas muda de posição, de penteado, de roupa. Uma hora um pouco mais corada pelo verão, outras vezes pálida pelo inverno. Mas é sempre ela. Sempre ele: o feminino.
Daí que ao final somos tentados a imaginar que o vídeo não trata apenas da mulher, mas da própria arte. Temos as várias pontas de uma mesma estrela: a Arte.
Este é o toque de gênio do vídeo. Não se trata de nos deixar fascinados com o apuro técnico de quem mesclou, com sensibilidade e gosto, tantos exemplos de obras cujo tema é a mulher. Esta é
apenas a ponta do iceberg.
Na verdade, este video nos mostra didaticamente, do jeito que a maioria daqueles artistas
(mesmo os mais recentes) jamais puderam enxergar, que a arte é um processo contínuo. Ele começou lá na parede das cavernas e continua até hoje, neste mesmo instante em que você lê este texto, no ateliê de algum artista em algum lugar deste planeta. Um processo que tem uma unidade, sem rupturas, mesmo quando uma época, ou um estilo, ou ainda uma escola de arte, diz querer romper e negar a anterior.
O pro
cesso de criação de agora nunca mata o que o precedeu. O vídeo mostra que criar não é destruir, mas sim absorver, digerir, desmontar e remontar, (re)codificar, transcender...
Uma
conclusão me inquieta. A arte não trata apenas de problemas subjetivos, como muitos críticos e teóricos afirmam, mas sim de linguagem. O inferno da arte está justamente no conteúdo. Ou seja, na verdade, a arte é forma e competência.
Outra idéia (já mencionada mais acima) nos remete a questão da tecnologia e da reprodução da obra de arte, assuntos caros a Walter Benjamin e outros frankfurtianos. Não deixa de ser instigante perceber que só com o uso de alta tecnologia (digitalização, técnicas de morphing, etc) é que podemos notar essa proximidade que provavelmente escapou a todos os autores das obras que desfilam naquele video. Talvez, depois da dessacralização da obra de arte com o advento da sua reprodução e banalização, estejamos perto de ver a sacralização da tecnologia como o oráculo de nosso tempo.