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segunda-feira, junho 16, 2008

Falsa Verdade

Clarice Lispector dizia que “os fatos são sonoros, mas entre os fatos há um sussurro” e era o sussurro o que lhe interessava. Cazuza cantou que “há um incêndio sobre a chuva rala”. Ambos, falam da posição de quem percebe que por trás das aparências há algo para ser revelado. De certa forma, esta busca por conhecimento é o motor da própria existência humana. Desde muito cedo, percebemos que descobrir gera prazer.
Um exemplo disso está no papel
que a atriz Cate Blanchett interpreta no filmeIndiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal”, atualmente em cartaz nos cinemas. A personagem, que poderia resultar numa vilã como tantas outras, tem em sua seqüência final uma sugestão simplesmente espetacular. Irina Spalko (Blanchet) é uma oficial soviética que deseja dominar o mundo, não pelo poder das armas, mas através de uma força maior que tudo. A ânsia pelo saber total, pelo conhecimento desmesurado, pelo igualar ao divino, leva a oficial a uma experiência de transcendência, em que, inebriada e extática, descobre algo muito além do que um humano está preparado para suportar.
Uma interessante passagem da mitologia grega narra a história da jovem Sêmele que, incitada pela ciumenta Hera, pede que Zeus, de quem é uma das amantes, se mostre em todo o seu esplendor, sem ter consciência de que a um mortal é impossível tamanha revelação. O resultado tem proporções trágicas. Sêmele tem o corpo fulminado e reduzido a pó pelas luzes radiantes que emanam de Zeus.
Obviamente, as motivações das duas são bem diferentes, além do intrínseco e humano desejo de acesso ao desconhecido. Superficialmente, podemos pensar que, enquanto Irina Spalko acredita que os segredos da Caveira de Cristal possam ajudá-la a dominar o mundo, Sêmele é “apenas” um joguete nas mãos de Hera, "a mais excelsa das deusas".

O conhecimento, como acesso à verdade, é um ponto de vista.
O objeto do saber estará sempre em relação com o sujeito que o observa. A verdade, assim, torna-se humana, logo, falível, escorregadia, adaptável e, vez por outra, perigosa.
Levantar o véu do encoberto parece ser arriscado, talvez por isso “mentiras sinceras” sejam interessantes. Mas fica sempre a inquietante dúvida lançada por Riobaldo, person
agem criado por Guimarães Rosa em “Grande Sertão: Veredas”: “Como é que se pode gostar do verdadeiro no falso?”.
Vale a pena assistir ao filme e sair pensando nestas questões que o cinema, vira e mexe, consegue tratar tão bem com os recursos e efeitos especiais próprios da linguagem cinematográfica.


* Texto publicado no jornal A União/PB em 16/06/2008.

Entre outros, ouvi, vi e li, por estes dias:

* CD Banda Larga Cordel (Gilberto Gil) – Força da cultura nordestina, numa “linguagem de feira”, projetada e condensada com a força quântica. Percepção otimista do não-lugar do ser humano diante das esferas espaciais do mundo de hoje. "Não grude não", por exemplo, tematiza a efemeridade das relações. "Olho mágico" é sexualidade bruta, com melodia manhosa. E “Despedida de solteira”, que recupera a malícia de “Xote das meninas”, não pára de rolar no meu celular. Todo o CD é muito gostoso de ouvir e de cantar.
* Filme
The other Boleyn girl – Primeiro: o título em português "A Outra" diz muito pouco da história; segundo: qualquer pessoa que conheça um tiquinho de história sabe que o boa pinta Eric Bana fica muito longe do perfil fanfarrão de Henrique VIII; e por aí vai...
* Livro
Passagem pra vida, de Overland Airton – Esta autoficção foi o primeiro livro que li sobre o tema da AIDS. Achei num sebo e reli agora. Apesar de sérios problemas na construção da narrativa, além de incoerências cronológicas, etc, o livro aborda a "volta por cima", ou não, na solidão de quem se descobre portador do HIV e me impactou ainda depois de tanto tempo do lançamento, 1992.

2 comentários:

Moreira disse...

Leo, como é bom lê-lo. Quanta erudição, quanta informação. Me deu vontade de rever os mitos. Que tanto estive próximo e agora distante... abraço!

Unknown disse...

Adorei a agudeza de suas observações, seu senso crítico é impecável! Deu até vontade de ver o filme!
Parabéns, Léo!!!