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quinta-feira, outubro 11, 2007

Festival do Rio 2007

Adaptações e comentários sobre a sinopse oficial de alguns filmes que assisti no Festival de Cinema do Rio 2007:
Amor e outros desastres
- Jacks é uma jovem americana alegre e cheia de energia. Ela mora em Londres e trabalha na revista de moda Vogue. Hiperativa, não pára de falar e tem como especialidade arranjar “pares perfeitos” para seus amigos próximos: Tallulah, caçadora neurótica de homens e Peter, gay aspirante a escritor, com quem ela divide apartamento. Jacks se gaba de ter o melhor radar para gays da cidade e faz de Peter o principal objeto de suas tramas casamenteiras. Quando o atraente Paolo começa a trabalhar no estúdio da revista como assistente do fotógrafo, Jacks decide armar para juntar os dois. Um filme despretensioso, mas que surpreende com as questões que aborda.
Antes que eu esqueça - Pierre é um escritor de 58 anos, portador do vírus da Aids, que vive na mais completa solidão. Preso ao passado, não consegue inspiração para escrever. Tentando furar o bloque
io criativo, ingere remédios em série. Nesse estado, ele descobre que seu antigo companheiro faleceu. Nos dias seguintes, desesperado, precisará enfrentar a polícia, a família, as doenças, e, com velhos amigos, lembrar da juventude perdida. Com a ajuda de um gigolô, no entanto, Pierre fará um esforço final para realizar suas últimas fantasias. O filme mostra o quão deprimente pode chegar a existência do ser humano.
Grindhouse (dois filmes): Planet Terror - O casal de médicos William e Dakota Block é surpreendido no hospital por uma multidão de homens e mulheres cheios de feridas e mutilações, que vagam com um suspeito olhar perdido. Entre eles está Cherry, uma dançarina de boate cuja perna foi arrancada num ataque noturno. Com uma metralhadora no lugar da perna decepada, ela vai liderar, acompanhada por El Wray, um exército de inválidos assassinos. Eles avançarão sobre a cidade, deixando poucos desesperados sobreviventes num planeta de terror. Filme duplo realizado a quatro mãos com Quentin Tarantino. Death proof
- Ao cair da noite, Jungle Julia, a DJ mais sexy de Austin, pode enfim se divertir com as suas duas melhores amigas. As três garotas saem noite adentro, atraindo a atenção de todos os freqüentadores masculinos dos bares e boates do Texas. Mas nem toda a atenção é inocente. Cobrindo de perto seus movimentos, está Stuntman Mike, um rebelde inquieto e temperamental, que se esconde atrás do volante do seu carro indestrutível. Filme realizado em parceria com Robert Rodriguez. Imperdível! Ambos.
Jihad do amor - Muhsin Hendricks é um imã sul-africano condenado por assumir publicamente a sua homessexualidade. No Egito, onde ser gay é ilegal, o jovem Mazen é obrigado a fugir depois de ser preso e torturado por estar numa boate gay no momento em que esta foi invadida pela polícia. Uma mãe muçulmana na Turquia aceita o casamento lésbico de sua filha mais velha. Quatro gays iranianos fogem de seu país e buscam asilo no Canadá. Estas e outras histórias formam um painel que, pela primeira vez, explora a complexa relação entre o Islã e a homossexualidade, em um documentário muito bem acabado.
La Leon - Álvaro leva uma vida humilde numa ilha remota da Argentina. A pesca e o corte de cana-de-açúcar são suas únicas fontes de renda. Sua inclinação homoerótica o torna tão estranho a este ambiente quanto o seu amor pelos livros. A única ligação entre a ilha e o continente é o pequeno barco El León, comandado pelo marinheiro Turu, que vê em Álvaro uma ameaça aos valores da pequena comunidade. O conflito entre os dois provará que a agressividade de Turu é apenas um modo de esconder a sua própria confusão emocional. A fotografia paga o filme, apesar de sua confusa narrativa.

L’avie em rose - A vida da grande Edith Piaf foi sempre uma batalha. Abandonada pela mãe, foi criada pela avó, dona de um bordel na Normandia. Dos três aos sete anos de idade, fica cega, recuperando-se milagrosamente. Mais tarde vive com o pai alcoólatra, a quem abandona aos 15 anos para cantar nas ruas de Paris. E
m 1935 é descoberta por um dono de boate e neste mesmo ano grava seu primeiro disco. A vida sofrida é coroada com o sucesso internacional. Fama, dinheiro, amizades, mas também a constante vigilância da opinião pública. Altos e baixos da voz que marcou gerações. As idas e vindas do enredo, na pretensão de ser moderno, atrapalha a transmissão dos fatos.
O acompanhante - Carter Page III tem um trabalho bastante atípico. Ele vive de acompanhar senhoras da elite de Washington a óperas, jantares e jogos de cartas. Por isso, quando Lynn Lockner, a esposa de um senador, encontra seu amante morto, é a Carter que ela pede ajuda. Para protegê-la, ele diz ter sido a pessoa que descobriu o corpo. Mas esse gesto de bondade tornará Carter o maior suspeito do assassinato. De repente, ele se vê preso numa rede de intrigas e rumores. Abandonado pelos amigos, só resta a Carter correr contra o tempo e tentar provar sua inocência. Apesar de previsível, o filme tem boas atuações.
Olhe para mim, querido - Através dos depoimentos de Stephen Frears, Gus Van Sant, François Ozon entre outros, é revelada a trajetória do cinema gay nas últimas décadas, desde a sua emergência até a sua tomada de consciência como gênero consolidado. Diretores como Pedro Almodóvar, Ang Lee e Derek Jarman, com as suas expressões cinematográficas particulares e personagens inovadores, transformaram o cinema e os hábitos do público. Trechos de filmes que se tornaram marcos do cinema gay e do cinema como um todo são encenados e
projetados em cenários como um cinema pornô ou um banheiro público masculino. Imperdível e certamente torna-se uma antologia para o gênero, pós-AIDS.
Shortbus - Vários jovens de Nova York encontram-se num salão infame e underground chamado Shortbus, onde se deparam com situações cômicas e trágicas envolvendo amor, música, política e sexo. Sofia é a terapeuta sexual que nunca teve um orgasmo e por isto fingiu durante anos para seu marido, Rob. Ela conhece Severin, uma dominatrix que tenta ajudá-la. Entre os clientes de Sofia está o casal gay James e Jamie, que começa uma relação aberta com Ceth. O filme sugere uma forma de diminuir a pressão pós-ataques terroristas de 2001 e assim reconciliar melhor as pessoas. Na minha opinião, o melhor filme do Festival.
The notorious Bettir Page - Bettie nasceu numa família interiorana, muito religiosa. Decidida a mudar de vida, a jovem partiu rumo à Nova York. Um dia, passeando pela praia, encontrou um fotógrafo amador, e aceitou fazer algumas poses despretenciosas. Sua beleza e sensualidade chamaram atenção, e Bettie iniciou uma carreira de modelo fotográfica. Rapidamente tornou-se uma das mais famosas pin-up’s do país, esbanjando alegria e erotismo. Mas, em 1955, um senador americano iniciou uma dura investigação sobre a influência da pornografia na juventude do país. E Bettie acabou sendo transformada num exemplo de imoralidade. Maravilhoso, mas muito comportado, até porque foi feito pela HBO.
Tropa de Elite - No Rio de Janeiro de 1997, Nascimento é um capitão do BOPE, a Tropa de Elite da Polícia Militar. Ele é indicado para comandar uma operação que combaterá o tráfico de drogas no morro do Turano. Isso porque o Papa visitará o país e vai dormir uma noite na casa do cardeal-arcebispo perto dali. Chefiando uma missão que lhe parece absurda, Nascimento procura um substituto. É quando os policiais Neto e Matias entram para a corporação. O primeiro se destaca pela coragem, o segundo pela inteligência e ambos pela honestidade. Se pudesse reunir todas essas qualidades num homem só já teria achado o seu candidato. Haja vista tanto barulho por nada, em torno do filme, vale a pena ver.
Zoofilia
- Em 2 de julho de 2005, um homem de Seattle foi deixado, quase morto, às portas de um hospital, com perfuração no cólon. Logo em seguida, os detetives descobriram, perto dali, uma fazenda vazia, onde um grupo secreto de zóofilos, formados por homens vindos dos quatro cantos do planeta, costumava manter relações sexuais com cavalos da raça garanhão árabe. Na fazenda, a polícia ainda descobriu centenas de fitas de video, com imagens registrando as experiências. Explorado pela imprensa de forma sensacionalista, o incidente chocou a sociedade. Com uma boa matéria na mão, o documentário se perde ao exagerar nos limites entre ficção e realidade.

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RODAPÉ: Está no Rio a famosa e divertida "Cow Parade", maior evento de arte de rua do mundo. Mas bem que por aqui poderia se chamar "Cow Zona Sul Parade", pois apenas duas ou três vaquinhas, dignaram-se visitar outras áreas da cidade maravilhosa.

terça-feira, setembro 25, 2007

Adoro odeio!

O primeiro texto que escrevi aqui foi “Duas doses de Caetano”. Trata da minha feliz possibilidade de poder assistir a duas apresentações, em um curto espaço de tempo, de um dos maiores artistas brasileiros contemporâneos. O show em questão era Cê, lançado agora, em cd e dvd, ao vivo.
Diferentemente do disco Prenda minha, que registra o show sobre o cd Livro, com ausência total de canções do disco de estúdio, Cê ao vivo, gravado na Fundição Progresso, aqui no Rio, traz, em 17 faixas, o registro de palco de grande parte das músicas do original.
Há sempre uma inquietação, por parte dos críticos, quando um cantor lança um disco ao vivo feito sobre o show de um disco em estúdio. Particularmente, penso que, se por um lado temos o monstro do comercialismo banalizante, temos também o calor da música registrada fora do estúdio, com a recepção direta do público.
Tais trabalhos podem proporcionar ainda as revisitações de repertório. No caso
de Cê ao vivo, Caetano pinçou “Nine out of tem” e “You don’t konw me”, do paradigmático disco Transa, de 1972, “Um Tom” (1997), dedicado agora ao maestro Jacques Morelenbaum, “O homem velho” (1984), “Como dois e dois” (1971) - finalmente gravada por ele, “Sampa” (1978) e “Desde que o samba é samba” (1992), ambas com arranjos atualíssimos, “London London” (1971) e “Fora da ordem” (1991).
Das releituras não autorais ele trouxe apenas a contagiante “Chão da praça” (1978), de Moraes Moreira e Fausto Nilo e a delicada “Ilusão à toa” (1959), de Johnny Alf. Do trabalho em estúdio, a certeira “Outro”, a introspectiva “Minhas lágrimas”, a sincera “Homem”, a híbrida e subjetiv
a “Odeio” – adoro odeio, a melancólica “Não me arrependo” e a pesada “Rocks”.
Destaco a canção “Amor mais que discreto”, escrita na primeira pessoa, única inédita e que dialoga intertextualmente com “Ilusão à toa”. Segundo Caetano, em entrevista a Rolling Stone, a canção é sobre “dois caras curtindo o sexo deles”. Mais que isso, é sobre um homem velho e o amor, quase platônico, por um jovem. Sobre isso o cantor disse que “aquele modelo grego do homem com um adolescente é um arquétipo na cabeça da gente”, e disparou: “sou velho, então já posso pensar nessa perspectiva”.
Os versos “você é bonito o bastante / complexo o bastante / bom o bastante / pra tornar-se ao menos por um instante / o amante do amante / que antes de te conhecer / eu não cheguei a ser” dão a dimensão objetiva e melancólica da letra. É a voz de alguém que muda completamente sua expectativa de vida diante do novo, do amor.

No cd ele mostra que continua fiel à tradição do rock, mas trocando os dilemas mais simples de adolescente pelos mais complexos, vividos por um sexagenário exalando uma dura sexualidade masculina. Mesmo quando trata o tema do amor homoerótico. “A mim esse tema sempre interessou, é um tema meu. Não entro em ambiente nenhum sem meus temas principais. Não iria deixar isso de fora”, concluiu o assunto, sem levantar bandeira, como sempre.
Caetano já deu voz a diversos tipos. Dentre eles, a voz do indivíduo sexualmente ambíguo, ou em dúvida quanto a sua sexualidade, está representada na letra da canção “Eu sou neguinha?”. Há ainda “Ele me deu um beijo na boca”, “Nosso estranho amor”, “Gatas extraordinárias”, “Escândalo”, “O namorado”, entre outras. A presença do tema do homoerotismo, das mais diferentes formas, sempre esteve presente na obra de Caetano.

Capa da Rolling Stone de agosto, aquela em que se supôs, devido à sempre competente especulação midiática, ele apareceria fotografado nu, Caetano está sempre em foco com suas afirmações e questionamentos, por mais que discordemos, repletos da consciência de quem observa de perto o Brasil.
O som de Cê ao vivo, que resulta das amarras das guitarras de Pedro Sá, da bateria de Marcelo Callado e do baixo e piano de Ricardo Dias Gomes, é o registro exato de um som viscera
l, “feliz e mau como um pau duro”.
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RODAPÉ: Com o objetivo de divulgar o importante movimento cultural que tem lugar na Zona da Mata de Pernambuco, aconteceu, no dia 20 de setembro último, o Rio Pernambuco.com com apresentações de Mestre Zé Duda e o Terno do Maracatu Estrela de Ouro de Aliança, dividindo o palco do Teatro Nelson Rodrigues com Jorge Mautner e Nelson Jacobina. Os dois, além de interpretarem músicas próprias, algumas do cd Eu não peço desculpa, que Mautner divide com Caetano, se uniram no número final ao grupo de maracatu de Mestre Zé Duda e fizeram “Maracatu atômico” (1973). Esta se tornou a canção-manifesto do movimento Manguebeat nos anos 90. O resultado foi uma apresentação indescritível, de beleza e riqueza artística.

terça-feira, setembro 18, 2007

A “Capricho” gay?

Já está nas bancas desde a última sexta-feira (14/09) a revista Junior. Dirigida pelo competente André Fischer, também diretor do MixBrasil, maior site GLS do país.
A expectativa era grande. Depois da orfandade deixada pela Sui Generis, que até hoje é a referência para este tipo de publicação, seria de esperar que a nova revista oferecesse novos olhares sobre o universo gay, se é que existe mesmo um universo paralelo. Mas a primeira impressão, no passar das folhas – rápido e ainda na rua - foi a de folhear uma Capricho, agora gay. Até truque da pele perfeita tinha. Porém, um olhar mais cuidadoso revela que Junior é mais que isso.
A revista não decepciona, ela cumpre seu objetivo. Está cheia de gente bonita, divertida e jovem. Só não se percebe nenhuma inovação no discurso da corpolatria, aliás matéria de um bom dossiê na revista.
Como diz o editorial, assinado por Fischer, a revista é “assumida sem ser militante e sensual sem ser erótica”. No entanto, a afirmação de que quem faz a revista conhece “bem de perto as especificidades da ‘comunidade’ gay no Brasil” é, no mínimo, equivocada. Gera incômodo (de um modo negativo) esta visão reducionista da questão.
O nome da revista já sugere o que será encontrado dentro dela, mas é questionável que as “especificidades” gays, no Brasil, se limitem à vida noturna, música,
corpo e afins.
As fotos têm um trabalho muito cuidadoso e correto, sem falsos pudores. Destaque para a bela foto do bailarino Marco Silva e as 12 páginas com o modelo da capa, Lucas Pitioni.
As matérias em geral são curtas, sem aprofundar as questões, porém não é certamente a proposta ser uma versão gay de Piauí, Bravo ou Cult. Ainda assim merecem atenção o texto de Hermano Silva “Boys wanna dance” - depoimentos sobre a descoberta da paixão pela dança, a relação com os pais, sonhos e inspirações de alguns bailarinos -, o dossiê “(H)alter-ego”, e o texto de Tino Monetti sobre o trabalho do polêmico Bruce LaBruce.
Comentários no orkut previam que
Junior seria uma fonte de informação para quem busca alternativa à cultura de massa e uma antecipadora de tendências. Mas cabe perguntar: mostrar uma repetição de corpos com perfil idêntico, apresentar produtos da indústria cultural, prontos para serem jovialmente consumidos, mesmo em estado de distração, não é cair na massificação débil e dependente?
É interessante, como exemplo disso, ler a matéria de depoimentos de quatro homens, de 20/30/40/50 anos. O de 25 anos revela que não gosta de malhar, "mas me disciplino”; o de 32 conclui que “é nítida a mudança no meu rosto depois que comecei a trabalhar menos, sair mais, me divertir mais”; o de 42 diz malhar “cinco vezes por semana," ... "ajuda a relaxar, além de ser um ótimo ambiente para socializar”; e o de 56 afirma “que o corpo já não funciona da mesma maneira. Mas isso não quer dizer que não funcione bem”. Perceber essa linearidade e unificação de pensamento em gerações distintas é assustador.
Se a proposta de agora é atingir, com linguagem fluida, o jovem-gay-moderno,
Junior parece cumprir seu papel. Porém, falta e sobra muita coisa. A cultura, por exemplo, como em muitas outras revistas e jornais, é erroneamente reduzida às matérias de comportamento e entretenimento.
Salvaguardadas as aspas e comentários críticos, que aqui só querem ser construtivos, há que se parabenizar quem faz a revista, haja vista as dificuldades envolvidas. Vale a pena conferir este baby que nasce com pretensões de gente grande.
Que venha o segundo número para que se possa acompanhar seu crescimento.

terça-feira, setembro 11, 2007

Entre o rural e o experimental

Compositor de “Parque industrial”, quinta faixa do disco-manifesto Tropicália (1968), Tom Zé sempre fez da fusão entre consciência política e experimentação estética, aliada ao deboche incorreto, característica de suas composições. A letra citada, por exemplo, sarcasticamente forja a comemoração do avanço industrial no Brasil.
Naquele mesmo 68, estréia disco solo e, talvez por não se render aos apelos mercadológicos, começa a se isolar, afastando-se dos outros tropicalistas. Em 1973 lança Todos os olhos, em que o olho fotografado na irreverente capa, afrontando a censura, é uma bola de gude colocada na cavidade de um ânus. Após este período, amarga o ostracismo. Sua obra passa a ser tida como difícil e aberta apenas aos iniciados, passando a circular mais nos ambientes acadêmicos e lugares "alternativos".
Só nos anos 90, ele teve seu trabalho (re)descoberto por David Byrne, que comprou o cd Estudando o samba, seu melhor trabalho, numa loja do Rio. Tom Zé, sempre de fora dos domínios centrais, vive certa popularidade. É o período da Europa e dos Estados Unidos conhecerem ele. Porém, ainda assim, não abre mão do protesto social.
A verdade é que Tom Zé consegue sobreviver ao desgaste do termo “experimental” de forma irônica e sábia. Ele tira proveito mesmo dos erros embarcando, e levando junto seus ouvintes, numa viagem de pura abertura de fronteiras, onde a especulação parece ser o objetivo.
Sempre perturbando fãs e críticos, em 2000 ele lança Jogos de Armar, disco que recria “Asa Branca” e “Pisa na fulô” e que é a radicalização de seus experimentos com sons e instrumentos sonoros. O disco foi censurado nas rádios por causa de versos como, “Ah, puta que pariu / Bate estaca, bate rock”. Contradição de um país que em rap, funk e afins estrangeiros ou nossos, ouve-se ''fuck your mother, fuck your father, fuck your mind'', analisou Tom Zé, na época.
Agora é a vez de Danç-Êh-Sá - Dança dos Herdeiros do Sacrifício, disco aparentemente distante do seu processo criativo, pois as sete faixas não contam com a especialidade do compositor: letra. Há um instrumental vigoroso, acompanhado de vocalizações que brincam com sons. A referência no título ao sacrifício das nações negras para a formação das américas está bastante tematizada nos resultados sonoros do disco.
Tom Zé revelou que o cd foi concebido depois de saber o resultado de uma pesquisa da MTV, na qual se aponta a tendência para o hedonismo, o consumismo e a irresponsabilidade social dos jovens contemporâneos. Aliado a isso, a afirmação de Chico Buarque de que a canção está morta. Há, portanto, a busca de comunicação com esses jovens, que apontaram um certo desprezo pelas letras e a preferência pela música eletrônica.
O show homônimo ao disco, apresentado este fim de semana aqui no Rio, pelo DJ TãoZé - mais uma graça à música eletrônica - é cansativo para quem está acostumado com o Tom Zé letrista, mas agrada por mostrar a irreverência de sua vitalidade e capacidade de criação e performance. Aliás é esta performance que proporciona a aproximação com o público. O trânsito livre entre erudito e popular, resultado de sua formação na Escola de Música da Universidade Federal da Bahia, e entre os mitos gregos e as chagas sociais atuais são a marca do show desse artista com inacreditáveis 70 anos de vida.

O carinho pelo Nordeste, rural e artesanal, também está presente no show, especialmente no olhar agudo da letra “O pib da pib” – "A prostituição infantil barata / É a criança coitadinha do Nordeste / Colaborando com o Produto Interno Bruto / E esse produto enterra bruto" – canção do cd Jogos de Armar. Aliás é quando interpreta as canções deste disco que surge uma clara resposta do público, até então apenas "protocolarmente participativo".
No show, Tom Zé é acompanhado por músicos afinadíssimos com seu atual projeto pessoal. Danç-Êh-Sá, combinação de experimento e artesanato sonoros, não é o melhor trabalho de Tom Zé, nem tem a pretensão de sê-lo, mas evidencia a continuidade no seu processo de aprofundamento e originalidade de nossa música.
Por fim, mesmo sem letras, Danç-Êh-Sá fala demais.

quarta-feira, setembro 05, 2007

Encontro com o pop João Cabral

A fim de promover a antologia O artista inconfessável, de João Cabral de Melo Neto, lançada há poucos dias pelo selo Alfaguara, da Editora Objetiva, o jornal O Globo reuniu ontem, em seu auditório, Ferreira Gullar, Bráulio Tavares e Eucanaã Ferraz, com mediação de José Castello, em um debate sobre a vida e a obra do poeta.
Entre outras coisas questionou-se a idéia do artista que se “confessa” em sua obra, algo que Cabral sempre lutou veementemente contra. Para ele, poesia era o trabalho do exercício com a palavra. E a palavra era tida como pedra ou faca sem cabo. Para o semioticista Roman Jakobson, “a linguagem deve ser estudada em toda a variedade de suas funções” e parece ter sido este o propósito de Cabral.
A mim incomoda bastante esta análise do texto pelo viés psicanalítico, proposta pela nova antologia do poeta. Buscar soluções para as questões textuais na vida dele é deixar de lado a especificidade do objeto artístico e cair na má crítica, ou na crítica limitada. Fazer isso, por vezes, corro
o risco de dizer, é constatar a incompetência crítica diante da obra.
Contemporaneamente, vemos um número cada vez maior de leituras com este objetivo de encontrar o artista dentro da obra. Penso que seja uma busca de ressuscitar o autor, e numa leitura mais ampla o indivíduo, perdido em meio à fragmentação moderna e “pós-moderna”, e que teve sua morte constatada principalmente pelos filósofos Foucault e Barthes.
Mas, voltando à poesia de João Cabral, com sua gramática única, ela não se deixa fruir livremente. Não há como entrar no universo cabralino e sair da mesma forma, pois nele reside aquilo que o crítico inglês Ezra Pound já definiu como Literatura, ou seja, trabalho com a linguagem carregada de sentido a mais não poder. E isso não é discurso do meio acadêmico, como vem afirmando Inez Cabral, filha do poeta. A dificuldade na interpretação da poesia de Cabral é constatada por qualquer um que se detenha sobre ela.

João Cabral torna possível, pela arquitetura de seus poemas, uma ruptura radical dos versos, que no Brasil viviam à sombra do simbolismo e da retórica pomposa. Com sua concisão, desprezo ao enfeito e ao sentimentalismo barato e com sua limpeza de estilo, ele cria leitores de poesia ou, pelo menos, desperta nos leitores já existentes novas consciências do fazer literário.
Avesso ao lírico e à música, pois, segundo ele, a música “desarruma” os sentidos e ele temia esta “falta de controle”, Cabral coloca seu leitor na crise do não-reconhecimento com a mensagem. Ele entorta a linguagem para não deixar que ela frua, para exigir mais do leitor. Esta tentativa atual, de tentar facilitar a leitura de sua obra através do viés autobiográfico, pode aniquilar todo o "Projeto João Cabral" de fazer poesia.
Recordo o texto “Direito à literatura”, do mestre de todos que trabalham com as Letras no Brasil, Antônio Cândido, com a sugestão, tomo aqui a liberdade de interpretá-la, de que todo artista, como diz a canção, “tem de ir aonde o povo está”, porém, esse “baixar o nível”, no intuito de ficar mais fácil e atingir um número maior de público, subestima e provoca a estagnação intelectual desse mesmo público. Cabral, ao contrário, convida o público para dentro do seu universo, elevando o nível e instigando o leitor.
Fica a pergunta de resposta fácil: A poesia de João Cabral emociona? Sim. Mesmo ao revés dele, há quem vá às lágrimas. Mas emociona pela arquitetura, pela transpiração sobre a palavra cuidadosamente pensada e calculada, pela beleza de seus jogos semânticos.

Em resumo: João Cabral não é um poeta fácil, pois ele é daqueles artistas que criam leitores, leitores conscientes de que a Literatura acontece quando o poeta consegue usar a linguagem em benefício da própria linguagem, transformando e colocando ela em movimento.
Se a proposta de agora é promover o descobrimento de sua obra, pela facilidade e comodidade da leitura puramente autobiográfica, se, como afirmou sua filha, a “guerra atual” é mostrar que João Cabral de Melo Neto é pop, no sentido de consumo fácil, desejo sorte aos atuais e futuros críticos de arte.

quarta-feira, agosto 29, 2007

Sobre "Women in art" (ver post anterior)

Da Madona medieval às deusas greco-romanas, renascentistas.
Dos retratos de nobres damas barrocas e musas românticas às mulheres comuns do realismo.
Do rosto impressionista que começa a esvanecer ao traço modernista que reduz a figura às linhas básicas... Temos a impressão de ver, através dos séculos, várias expressões de uma mesma mulher. Quando assistimos ao vídeo focando nossa atenção
nos olhos das pinturas que vão se sucedendo, o convencimento é ainda mais forte. Parece que ela apenas muda de posição, de penteado, de roupa. Uma hora um pouco mais corada pelo verão, outras vezes pálida pelo inverno. Mas é sempre ela. Sempre ele: o feminino.
Daí que ao final somos tentados a imaginar que o vídeo não trata apenas da mulher, mas da própria arte. Temos as várias pontas de uma mesma estrela: a Arte.
Este é o toque de gênio do vídeo. Não se trata de nos deixar fascinados com o apuro técnico de quem mesclou, com sensibilidade e gosto, tantos exemplos de obras cujo tema é a mulher. Esta é
apenas a ponta do iceberg.
Na verdade, este video nos mostra didaticamente, do jeito que a maioria daqueles artistas
(mesmo os mais recentes) jamais puderam enxergar, que a arte é um processo contínuo. Ele começou lá na parede das cavernas e continua até hoje, neste mesmo instante em que você lê este texto, no ateliê de algum artista em algum lugar deste planeta. Um processo que tem uma unidade, sem rupturas, mesmo quando uma época, ou um estilo, ou ainda uma escola de arte, diz querer romper e negar a anterior.
O pro
cesso de criação de agora nunca mata o que o precedeu. O vídeo mostra que criar não é destruir, mas sim absorver, digerir, desmontar e remontar, (re)codificar, transcender...
Uma
conclusão me inquieta. A arte não trata apenas de problemas subjetivos, como muitos críticos e teóricos afirmam, mas sim de linguagem. O inferno da arte está justamente no conteúdo. Ou seja, na verdade, a arte é forma e competência.
Outra idéia (já mencionada mais acima) nos remete a questão da tecnologia e da reprodução da obra de arte, assuntos caros a Walter Benjamin e outros frankfurtianos. Não deixa de ser instigante perceber que só com o uso de alta tecnologia (digitalização, técnicas de morphing, etc) é que podemos notar essa proximidade que provavelmente escapou a todos os autores das obras que desfilam naquele video. Talvez, depois da dessacralização da obra de arte com o advento da sua reprodução e banalização, estejamos perto de ver a sacralização da tecnologia como o oráculo de nosso tempo.

terça-feira, agosto 21, 2007

Women in art

Mesmo com o texto novo desta semana, "A 'Bubble' que nos protege", não pude deixar de compartilhar este vídeo, que será comentado depois aqui no blog. Merece ser assistido quantas vezes você puder. É realmente imperdível. Aumente o som, aperte o play e viaje.

O link para mandar para os amigos é: http://br.youtube.com/watch?v=nUDIoN-_Hxs

quinta-feira, agosto 16, 2007

A "bubble" que nos protege

Depois de emocionar com o belo e sutil Delicada relação (Yossi & Jagger), de 2002, o diretor israelense Eytan Fox, apresenta-nos The Bubble, em cartaz no Brasil desde 17 de agosto.
Mais do que uma história de amor entre um israelense e um palestino, o novo longa de Fox tem forte teor pacifista, sendo o mais político dos seus filmes, mas longe do planfletarismo.
The Bubble (Ha-Buah no original), com estréia internacional no Festival de Cinema de Toronto 2006, mostra a história de Noam (Ohad Knoller), que mora na moderna Tel Aviv, e de Ashraf (Yousef 'Joe' Sweid), da Cisjordânia palestina. Uma história de amor impossível de não ser afetada pela política. Talvez por isso o título preliminarmente pensado para ser "Romeo and Julio", tenha sido trocado. Para refletir melhor os acontecimentos em Israel.
A história dos dois começa quando Noam, soldado do Exército Israelense, dando plantão numa fronteira, conhece o palestino Ashraf. Há um corte na narrativa e a história continua com Noam já em Tel Aviv com os companheiros de quarto, o irônico Yali (Alon Friedman), gerente de um café, e a bela Lulu (Daniela Virtzer), vendedora em loja de essências para banho. A construção das personagens aponta para a maturidade e consciência crítica de cada um dos atores.
Bubble, “bolha” em português, pode ser a metáfora tanto de Tel Aviv, cidade que parece isolada do resto de Israel, quanto da república onde vivem os três amigos. Além das inquietações individuais de cada um.
A história de Noam e
Ashraf poderia terminar com a simples troca de olhares. Porém, Ashraf é obstinado e, tendo encontrado os documentos que o outro deixou cair num incidente na fronteira, busca e encontra Noam. Este, decepcionado com o Exército, trabalha agora numa loja de CD. A partir de então, os amigos de Noam passam a ajuda-los neste “amor explosivo”, outra metáfora que é filigranamente trabalhada ao longo do filme, até a cena final.
Com sua situação ilegal em Israel, Ashraf acaba sendo "adotado" pelos amigos de Noam e vai trabalhar com nome falso, como garçom, do café que Yali é gerente. Destaque para a trilha sonora do café, como “Aganju”, na voz de Bebel Gilberto. Uma metáfora para um país “que canta e é feliz”?
Os quatro amigos, mais outros jovens, organizam uma festa rave pela paz. “Vamos dançar em vez de matar", grita Lulu ao distribuir flyers pelas ruas de Tel Aviv. A rave é um sucesso, tendo bebida e ecstasy como combustível.
No entanto, a ilegalidade de Ashraf é descoberta, fazendo-o sentir a tensão entre judeus e árabes. Ele foge, para desespero de Noam, que auxiliado pelos amigos de quarto, vai atrás do amado.
As ações do filme são entrecortadas por cenas líricas, como num momento em que todos os personagens estão num bar e, ao piano, um crooner (Ivri Lider, responsável pela trilha sonora do filme) interpreta “The man I love”, de George Gershwin e Ira Gershwin, ou quando a irmã de Ashraf, sem aceitar que o irmão seja gay, nega-lhe uma dança, durante o casamento dela, e por cenas que revelam fundamentalismos, extremismos e separações. A câmera em movimento, os flashbacks de um passado harmônico e os cortes certeiros de Fox são a prova de sua competência.
A direção e o roteiro trabalham de mãos dadas o tempo todo, aliados de uma fotografia precisa. Todavia na parte final o diretor se perde. Numa tentativa desnecessária – haja vista o excelente papel que o roteiro de Gal Uchovsky vinha desempenhando até então – de chocar, ou mesmo de tentar finalizar a história por um viés romântico-utópico, Fox descarrila o filme.
Mesmo assim, o conjunto da obra não fica prejudicado. A mensagem do amor que rompe fronteiras físicas e espirituais, a busca por soluções de questões históricas e políticas através da arte e da festa, a supremacia da paz sobre os preconceitos e a intenção de instigar à saída da “bolha” individual em que cada um de nós nos fechamos - tudo isso costurado por imagens e diálogos que funcionam - são bem trabalhadas.
Previsível, mas imperdível para qualquer público.

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A pré-estreia, no Brasil aconteceu durante o 11º Festival de Cinema Judaico de São Paulo e contou com a presença de Eytan Fox e do ator Ohad Knoller.

segunda-feira, agosto 13, 2007

Brasil como Brasil

Depois de passar por Berlim, Londres, Chicago e Nova York, sob a curadoria de Carlos Basualdo, a exposição Tropicália: Uma revolução na cultura brasileira [1967 – 1972] chega ao Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro.
A exposição apresenta a Tropicália como um momento cultural original, envolvendo as áreas de arte plástica, música, literatura, arquitetura, teatro, cinema e moda. Buscando ainda mostrar as ressonâncias desse período nas novas gerações de artistas nacionais e estrangeiros.
Há 40 anos Hélio Oiticica apresentava a instalação Tropicália um ambiente em forma de labirinto com plantas, areia, araras, um aparelho de TV e capas de Parangolé – dentro da exposição Nova Objetividade Brasileira, no mesmo MAM.
O nome Tropicália, por sugestão do cineasta Luís Carlos Barreto que viu a exposição de Oiticica, virou o título -
após alguma relutância - de uma música de Caetano Veloso. No ano seguinte, 1968, sai o LP Tropicália: ou Panis et Circenses, considerado o disco manifesto, abrindo o brilhante momento de diálogo entre vanguarda e subdesenvolvimento. É o momento das imitações cômicas e os "arremedos" da história, e as experiências na linguagem como uma forma de colocar em xeque o ufanismo ingênuo de então.
Inaugurado por Caetano Veloso, o Tropicalismo tem também Gilberto Gil, Gal Costa, Tom Zé, Os Mutantes e Nara Leão, como figuras centrais, acompanhadas ainda pelo maestro e arranjador Rogério Duprat e os letristas Capinan e Torquato Neto.
Celso Favaretto, no livro Tropicália: alegoria, alegria, aponta outubro de 1967, data do III Festival da MPB Record de São Paulo, a que concorreram "Alegria, Alegria", de Caetano e "Domingo no parque", de Gilberto Gil, como a época em que começa a proposta tropicalista.
Difícil de ser definida, Tropicália foi essencialmente a idéia e a tentativa de repensar a identidade brasile
ira e a arte no Brasil, em meio à agitação política e a uma ditadura repressiva, através da antropofagia cultural. Para Zé Celso Martinez Corrêa, em entrevista a O Globo, “só a antropofagia nos une. A filosofia de Oswald supera o grande impasse do mundo, o racismo, o fundamentalismo. E o multiculturalismo, que parece progressista, mas segue a filosofia do ‘cada macaco no seu galho’, setorizando gays, índios...”.
Zé Celso tem importância histórica no movimento como diretor da montagem de O rei da vela, baseada em texto de Oswald de Andrade, cuja tela feita para o cenário da peça, por Hélio Eichbauer à la Carmem Miranda, também está em exposição. A famosa tela foi usada por Caetano como capa para o disco Estrangeiro, de 1989, entre outros exemplos, numa demonstração de que conceitualmente as idéias tropicalistas norteariam sua carreira como compositor e cantor.
Na exposição, através de vídeos, verifica-se o comportamento tropicalista. Interessante perceber que, apropriando-se dos recursos tecnológicos, os tropicalistas conseguiram burlar a ideologia vigente, através do discurso alegórico, realizando uma crítica consciente e não-alienada. Alguns críticos julgaram e ainda julgam os tropicalistas como alienados, posto que não eram abertamente engajados nos movimentos políticos de esquerda.
Os visitantes de Tropicália: Uma revolução na cultura brasileira [1967 – 1972], além de interagir nas instalações Tropicália e Éden e com os Parangolés de Oiticica, podem ver trabalhos de Lygia Clark, Antonio Dias, Lygia Pape, Nelson Leirner, Lina Bo Bardi, cartazes de filmes de Glauber Rocha e Joaquim Pedro de Andrade e capas de discos tropicalistas.
É possível ver ainda as coloridíssimas roupas da Rhodia e obras concretas e neoconcretas, de Augusto de Campos (primeiro defensor crítico do Tropicalismo) e Ferreira Gullar.
Também está exposta a polêmica bandeira criada por Oiticica com a frase "seja marginal, seja herói", homenagem ao bandido Cara de Cavalo morto pela polícia em 68, e usada por Caetano nos shows. Após uma apresentação na Boate Sucata, um juiz não só proibiu o show, como fechou a boate e dias depois justificou a prisão de Caetano.
Os tropicalistas responderam aos apelos das posições regressivas da esquerda. Universalizaram a MPB com a incorporação de guitarras elétricas e o rock, modernizando a cultura brasileira de forma geral. Não esquecendo a influência pop, tendo Abelardo Chacrinha Barbosa como referência maior.
O fim do momento Tropicalista começou com a prisão e exílio de Caetano e Gil. Porém, ao que tudo indica, se a escravidão permanecerá como característica nacional do Brasil, como afirmou Joaquim Nabuco, em contrapartida, ou paralelo a isso, a antropofagia tropicalista permanecerá nos unindo e nos caracterizando.
O cantor Ney Matogrosso e a vanguarda paulistana do final dos anos 70, que incluía Arrigo Barnabé, Itamar Assumpção e o Grupo Rumo beberam na fonte tropicalista. Seus “acordes dissonantes” ainda ressoam hoje, num mundo cada vez mais interativo, com o advento da internet, seja pela liberdade criativa da Nação Zumbi e o movimento Mangue Beat, seja pelo experimentalismo de Marcelo D2 a "procura da batida perfeita".
Tropicália: Uma revolução na cultura brasileira [1967 – 1972] fica em cartaz até 30 de setembro, expondo o avesso de um país onde o luxo e o lixo, o erudito e o popular... não são opostos, mas "a face de uma mesma fazenda" (C. V.).

Para quem se interessa pelo assunto sugiro a leitura do livro Verdade Tropical que é, acredito, a melhor fonte sobre este período.

terça-feira, agosto 07, 2007

O cheiro do fosso

Um elenco liderado por Fernanda Torres e Wagner Moura está fazendo muita gente rir nas salas de cinema. Em cartaz desde 20 de julho “Saneamento básico, o filme”, longa do diretor e roteirista Jorge Furtado, conta a história de um grupo de moradores de Linha Cristal, uma cidadezinha no interior do Rio Grande do Sul.
Sem dinheiro para construir uma fossa para solucionar os problemas de saneamento da cidade, Marina (Fernanda Torres) e seu marido Joaquim (Wagner Moura) descobrem que existe uma verba pública de R$10 mil destinada à premiação de um vídeo de ficção. Mesmo sem saber sequer o que significa ficção, decidem fazer o vídeo para solucionar o problema do mau-cheiro. A partir desse mote o que se vê na telona é uma sucessão de atuações impecáveis.
Além de Fernanda e Wagner, estão no elenco Camila Pitanga (Silene – irmã de Marina que sonha em fazer sucesso como atriz), Lázaro Ramos (dono de uma produtora de vídeo na cidade vizinha), Bruno Garcia (Fabrício – namorado de Silene e aspirante a prefeito da cidade), Paulo José (Otaviano – pai de Marina e desiludido com a política) e Tonico Pereira (Antônio – empreiteiro e amigo de Otaviano).
Um monstro de luvas verdes, uma mocinha com aspirações de estrela e as precariedades de uma filmagem caseira são os ingredientes saborosos dessa mistura de atores talentosos. Embora o enredo seja conduzido pela obstinada Marina e seu marido, cada personagem tem seu peso bem distribuído e, ao longo do filme, vamos percebendo como o cinema muda todas as relações inter-pessoais.
É interessante assistir a um elenco que acostumamos ver interpretando papéis de cariocas, numa paisagem totalmente diferente. Diferente inclusive de grande parte dos filmes nacionais que nos últimos anos têm gravitado entre sudeste e nordeste.
Mas além do humor, que perpassa todos os seus 112 minutos de duração, a história desse filme-dentro-do-filme desenvolve-se sobre a questão: o Brasil tem dinheiro para cultura e não tem para o esgoto? Isto é: o dinheiro está sendo bem empregado ou o modelo de se fazer cultura no Brasil, só se preocupa com os fins? As interrogações passam pelas polêmicas leis de renúncia fiscal que financiam quase 100% da produção nacional, entre outras questões. O longa de Furtado não dá as respostas, mas sugere.
O filme acaba sendo uma ode inteligente e bem-humorada ao cinema e a cultura em geral, problematizando o fazer cultura num país como o Brasil, com tantas deficiências básicas em vários setores essenciais.

segunda-feira, julho 30, 2007

1000!!!

Filho quase rebelde do Transitar, blog que divido com meus amigos-irmãos Sílvia e Jânsen, nesse fim de semana o Mirar & Ver registrou sua milésima visita, em sete meses de existência. Isso iria passar despercebido, mas...
Antenado com a idéia de que quantidade não resulta em qualidade, quero agradecer aos leitores que acompanham - desde o início e aos que foram chegando e também aos que entraram e saíram - este meu particularíssimo exercício de escrever, paixão mais que íntima.
Certamente, este espaço não existiria sem o retorno que recebo dos amigos-leitores, que sempre deixam comentários, seja no Orkut, via e-mail, ou aqui mesmo.
É sintomática que a 1000ª visita tenha sido feita
pelo Henrique. Seu blog, meu amigo, é um norte!
Escrever, para mim, como já expus algumas vezes, é um exercício de aprendizagem interior, de catarse, de aprimoramento do Eu-Humano e do Eu-Crítico. Daí o subtítulo do blog : Medindo Dias.
Mas escrever doe, principalmente com o passar do tempo. Tempo que me amadurece e me torna mais autocrítico, mais inquieto com minhas faltas e mais consciente de minhas responsabilidades diante da vida.
Porém, a vontade e o desejo do exercício teimam em ser mais forte que eu.
Não posso deixar de registrar que este espaço, sem dúvida alguma, não manteria sua chama acesa sem as revisões lúcidas, sem a maioria das fotos aqui postadas e sem o apoio singular do meu par Carlos.
Caro leitor, vamos continuar,
Mirando e vendo, como nos propõe Riobaldo em Grande Sertão: Veredas.
Muito grato.
(...)

terça-feira, julho 24, 2007

O quinto mandamento

Está em cartaz no Centro Cultural Dejair Cardoso, na Lapa, a peça “Não matarás”, de Dejair Cardoso. Às pessoas que gostam de gêneros definidos uma advertência logo de início: não se sabe ao certo se assistimos a uma tragédia ou a uma comédia. O diretor acrescenta a esta indefinição traços de thriller e humor negro. Essa quantidade de possibilidades expressa bem a indefinição do texto, que no fim das contas é mais uma abordagem sobre a pedofilia dentro de uma instituição católica.
O passado de um padre pedófilo retorna com força total quando um de seus “coroinhas”, já crescido, exige uma reparação financeira pelos danos psicológicos causados pelo relacionamento com o padre. Este, por sua vez, aproveita a presença, na cidade, de um matador de aluguel e o contrata para livrar-se do chantagista.
O jogo, que vai levando às sucessivas descobertas, é um pálido reflexo de questões psicológicas que poderiam ser mais bem aproveitadas. Não traz revelações que sejam realmente significativas. E a peça acaba sendo mais do tipo de veículo para atores.
A encenação é simples. O cenário, até por causa do espaço minúsculo do Centro Cultural, é extremamente pequeno, restringindo-se apenas a uma escrivaninha, no que se sugere a sacristia, onde o padre recebe ora o chantagista, ora o matador, ora ambos. A luz é correta, funciona nas tentativas de criar os momentos de dramaticidade dos atos.
Há uma Bíblia, em um dos lados do palco, mencionada várias vezes durante os diálogos, dando respaldo ao título da peça. O livro é um dos aspectos mais originais, pois é nele, ou sobre o que ele representa, que se sustentam as certezas do matador de aluguel, o sentimento de culpa e as dúvidas do padre e a revolta do coroinha crescido. Ou seja, a crítica é sobre o porquê da
instituição que condena o homoerotismo, ser a mesma que fecha os olhos para o que acontece internamente
Os atores – Francisco Alves, Elcio Monteze, Daniel Moragas – ocupam ao máximo os mínimos espaços oferecidos, mas de algum modo fica faltando motivação para as aproximações e os afastamentos, por causa das instruções que vêm do texto.
“Não matarás” possivelmente foi escrita para despertar algum tipo de reflexão, mas esta idéia é abortada, tanto pelo exagero da caracterização do coroinha em busca de vingança, quanto pelo matador que monta a personagem de homem-mau utilizando “caras e bocas”. O que leva a soar como falsas algumas falas. Certamente, são atores que ainda estão criando a carga de experiência necessária de palco, indispensável para que a peça viva.
O estereotipo do gay efeminado e promíscuo é reforçado seja pelo padre, que se diverte em saunas, na capital, seja pelo ex-coroinha, em suas falas e atitudes.
Sabe-se hoje em dia, que já não é mais preciso, em qualquer arte cênica, a confirmação da inclinação homoerótica de uma personagem através de recursos como “rebolados” e “voz afetada”. Obviamente isso exerce a função de gerar o riso, ou a identificação, com a platéia, mas, e ao mesmo tempo, subestima essa mesma platéia, deixando o conjunto e o resultado óbvios demais.
Apesar dos pontos fracos vale a pena assistir à peça. É um esforço (bem sucedido, sob alguns aspectos) de manter na cidade uma opção para o público gay. Ele, como qualquer outro público, quer “comida, diversão e arte”. O que vemos, em geral, é um circuito muito restrito de opções de entretenimento, fora às relacionadas ao sexo e dança, claro. Parabéns ao Centro Cultural Dejair Cardoso pela coragem de fugir deste “arroz com feijão”.

terça-feira, julho 17, 2007

Para não dizer que não falei do PAN

Ninguém agüenta mais este assunto. Até por que a TV quando quer enfiar algo na mente dos desavisados ela sabe como fazê-lo. Mas eu não poderia deixar de dar minhas impressões, pelo menos, sobre a abertura do evento.
Pelo ritmo que as obras vinham sendo feitas, parecia que não ia dar certo, porém o PAN tá aí, rolando numa boa. Mesmo com os problemas de infra-estrutura ao redor dos locais de competição. Nada incomum em eventos deste porte, em que os problemas são jogados para debaixo do tapete. Mas quero falar da festa. Afinal é isso que importa.

Muito além das vaias orquestradas por uma oposição, que só se mostra oposição desta forma infantil, e ampliada pela imprensa tendenciosa contra o presidente Lula, a cerimônia de abertura do PAN, no Maracanã, foi uma amostra muito feliz da diversidade e capacidade da criação artística do Rio, quiçá do Brasil.
Amplio pro Brasil, pois estiveram presentes artistas de vários lugares.
O instigante Cordel do Fogo Encantado – de Pernambuco, o conterrâneo Chico César – da Paraíba, a linda e inteligente Adriana Calcanhotto – do Rio Grande do Sul, a animada Daniela Mercury – de Salvador, o multi Arnaldo Antunes – de São Paulo, etc e tal.
Aliás, depois de todo aquele auê, que se formou sobre a letra do hino do PAN, de Arnaldo e Liminha, a música acabou cumprindo sua função. A galera do Maraca viveu a energia de estar ali e cantou junto a tal letra tão criticada.

A festa, idealizada pela carnavalesca Rosa Magalhães – carnaval e esporte têm mesmo laços estreitos por aqui –, assim como a letra do hino, apresentou a mistura de referências mitológicas, tanto do universo dos jogos quanto da história da formação do Rio e do Brasil.
Gostei muito do que vi. Apesar de estas cerimônias terem sempre um “q”
déjà vu. E, convenhamos, prestando atenção na pira, ela mais parece um estandarte de carro alegórico.

Enfim, eu, que nunca havia entrado no Maracanã, fiquei deslumbrado com a grandiosidade da festa de cores brasileiras e com a beleza de ver aquele mundo de gente cantando, aplaudindo...
Sim, alguns vaiam, fazer o que? Sempre há os que levam o comportamento de casa pra praça. Estamos num país democrático.


segunda-feira, julho 09, 2007

Me sentindo em casa

Na noite do dia 29 de julho do ano passado, ou seja, há quase um ano, acontecia, como acontecerá este ano, a Festa de Nossa Senhora das Neves, na capital paraibana. É a festa da padroeira, mas marca também o aniversário da cidade. Eu, ainda morador da minha terrinha, fui assistir, na rua, ao show de Renata Arruda, pela primeira vez, e gostei do que vi.
Renata começou cantando no Coral Universitário da Paraíba. Em seguida, aos 19 anos, mudou-se para Brasília onde deu início à carreira.
Em 1991, ela se mudou para o Rio e dois anos depois estava lançando o primeiro CD. Deste então tem emplacado algumas canções no mercado nacional.
A paraibana foi elogiada publicamente pela "divina" Elizete Cardoso que, após assisti-la num
a apresentação com Altamiro Carrilho, disse: “Esta menina cantou como as cantoras deveriam cantar. Ela não somente cantou com a voz, ela cantou com a voz, com o corpo e com a alma”.
Neste domingo (08/07/07), fomos assisti-la na Sala Baden Powell, em Copacabana, aqui no Rio de Janeiro. Foram apenas três apresentações tendo, a cada noite, convidados como Ney Matogrosso e Os Cariocas .
Dirigida por Lúcia Veríssimo, e acompanhada por três músicos, entre eles um baterista também paraibano, Renata interpretou, sempre cheia de paixão e tesão, canções que falam fundo aos conterrâneos dela, como: Roendo Unha (Gonzagão e Luis Santa Fé) e Espumas ao Vento (Accioly Neto).
Ainda marcada pela pegada firme de violão, marca do mais recente CD, Renata apresentou canções de seu próximo trabalho, mescladas a músicas já conhecidas, e intercalando-as com textos de sua autoria. Aliás, conforme anunciou, seu próximo disco será o mais autoral.
Particularmente prefiro-a apen
as como intérprete, ainda que eventualmente carregue nas tintas em algumas interpretações. É uma ótima experiência ver seu show. Renata - pela figura, pela presença, e pela entrega - é uma cantora de palco.

Elba Ramalho, a convidada da noite de domingo, entrou em cena após uma introdução percursiva remetendo, os ouvidos mais atentos, aos sons e ritmos do sertão nordestino.
Elba criou empatia imediata com o público, interpretando Chão de giz (Zé Ramalho), e depois acompanhando Renata em Roendo Unha. Voltou no biz para, sem instrumento algum, cantar De volta pro aconchego (Dominguinhos e Nando Cordel). A anfitriã, que assistiu o solo sentada na beira do palco, acompanhou a platéia nos aplausos.
E foi em meio a muitos aplausos que Elba disse: “Somos duas mulheres paraibanas, mulher-macho, guerreiras como nossas mães”. Salve Elba!
Como qualquer cantora antes do lançamento de um novo disco, Renata ficou mais à vontade quando tocou músicas de seu repertório já conhecido. Nessas horas se estabelecia a comunhão com a platéia, o coro e a marcação de palmas.
So pra ser minha mulher (Erasmo Carlos e Ronnie Von), Tudo seu cabe em mim (Renata Arruda e Dana Costa), Ouça (Maysa), Sangue Latino (João Ricardo e Paulinho Mendonça), Ninguém Vai Tirar Você de Mim (Edson Ribeiro e Hélio Justo) e Como nossos pais (Belchior), foram acompanhadas pelo público.
Destaco a engraçada letra de Soberano desprezo (Bráulio Tavares), feita sobre pequenos poemas-piada, com os versos “Sabe o que é que você é meu amor? / É um dente doente que se arranca de peixeira pra parar de sentir dor
É claro, senti falta do calor de minha gente cantando junto a cada canção interpretada, mas o público da Baden Powell não fez feio.
Ver aquelas duas mulheres, saídas lá de cima (como dizem por aqui), mostrando o que é que a Paraíba tem, lavou minh’alma e me emocionou.
Relembrei muito e muitos. Há pessoas, lugares e momentos que nenhuma peixeira arranca de nossas lembranças, nem queremos, na verdade.
O que quero é em breve ter meu olhar dando uma festa ao chegar por lá. Por enquanto, fico cá roendo unhas. "Desenhos que a vida vai fazendo / Desbotam alguns, uns ficam iguais".

quarta-feira, julho 04, 2007

Herança e Cenas de uma história

Num país como o nosso, com dimensões continentais, e que se constrói com base em uma cultura cada vez mais visual e imagética, a busca por meios de comunicação que abranja a maior quantidade de diversidades possíveis, com qualidade, parece quase impensável.
Porém, creio que a TVE Brasil, por todos os esforços visíveis na sua grade de programas, procura entender e apresentar a educação e a cultura em um sentido plural.
A história dessa “resistência” ao comercial e ao facilmente digerível foi registrada em dois livros lançados ontem no Espaço Cultural TVE Brasil/Rádio MEC, no Rio Janeiro.

Sob a pesquisa, organização e edição da jornalista Liana Milanez, os livros Rádio MEC – Herança de Um Sonho e TVE Brasil – Cenas de Uma História, além de recuperar as trajetórias das duas mais importantes emissoras públicas do Brasil, trazem também algumas fotografias e documentos históricos.
Entre as imagens destaco uma de 1982, com o encontro de dois grandes atores, no programa Os Astros, apresentado por Grande Otelo, entrevistando Ítalo Rossi. (Como eu gostaria de ter assistido a tal programa, e a muitos outros como o Patati-Patatá, Canto Conto... momentos, do tempo da delicadeza, dos quais só tenho notícias através de registros como estes.).
Durante a cerimônia, discursaram Franklin Martins, Ministro Chefe da Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República, e Luiz Paulo Conde, secretário de Cultura do Governo Sérgio Cabral Filho/RJ. Ambos elogiaram a importante atuação das emissoras Rádio MEC e TVE Brasil frente à preservação e manutenção da qualidade na comunicação.
Entre os convidados, estavam presentes aqueles que fizeram e fazem esta história acontecer, como: Bia Bedran, do
Canto Conto; Leda Nagle, apresentadora do Sem Censura, Michel Melamed, antenadíssimo e excelente com o seu Re[corte] Cultural; Sergio Britto, pelo seu programa sobre arte, a atriz Julia Lemmertz, que apresenta o Revista do Cinema Brasileira, etc, etc.
Entre esses ainda aponto a presença de Fernanda Montenegro, com a merecida honraria de sempre. Emocionante vê-la conversando com o Sergio Britto, relembrando “causos” das emissoras homenageadas.
Os livros trazem muitas histórias e curiosidades importantes para a formação da nossa memória cultural. Verdadeiras lutas já foram travadas, seja contra a censura, seja a favor da consciência ética. O programa Sem Censura, que entrou no ar logo depois d
a abertura política, numa clara referência ao fim da censura, como o próprio nome informava, procurou ser um exemplo disso.
Questiona-se muito a qualidade da programação da TV, no Brasil, o que me faz recordar a famosa frase de Groucho Marx:

Acho que a televisão é muito educativa. Todas as vezes que alguém liga o aparelho, vou para a outra sala e leio um livro

Concordo (em partes), pois quando a TV, através do uso da imagem, oferece ferramentas para o conhecimento, suje a educação. E quero crer que, com a missão, que deveria ser da comunicação pública em geral, de unir cultura e educação, buscando na tradição os rumos e as raízes para as ações do presente, a TVE Brasil e a Rádio MEC continuarão fazendo da herança de um sonho (de Roquette-Pinto e Tude de Souza) as matérias para as cenas de nossa história.