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sábado, janeiro 10, 2015

Nossa casa, minha vida - Visite um apartamento decorado



Um visitante menos avisado pode ser levado a pensar que em "Nossa casa, minha vida - Visite um apartamento decorado" Nelson Leirner tenha ultrapassado a linha tênue sobre a qual sua obra (tão bem) sempre se equilibrou e pendido para o panfletário - menos ambiguidade, mais crítica.
Leirner criou um apartamento modelo, sem ter um modelo desses apartamentos como guia. Usou matérias da imprensa para criar sua obra. De fato, reduzir a recriação de uma "moradia popular", na Sala Inglesa da Fundação Eva Klabin, a lençol de poliéster, paredes coloridas, flores de plástico e TV sintonizada na Globo pode soar como a negação de todo o processo de politização(?) em cena no Brasil atual.
Além disso, o excesso de cuidado e a arrumação asséptica dos objetos vibram mais como cenário, eliminam a vida do lugar, como a paisagem vazia vista pela falsa janela. Tudo é frio, sem viço, apesar do colorido. O uso de imagens religiosas poderia negar também o neo-pentecostalismo em expansão no Brasil. Mas a Bíblia está lá. Ocupa a mesma casa, entre Iemanjá e Maria.
Penso que Leirner desloca o "quarto dos fundos" para o centro da "casa-grande". Ou, ainda, tomando a metáfora da boneca russa matrioshka, utilizada pelo curador do projeto Respiração, Marcio Doctors, podemos dizer que o apartamento criado por Leirner é a boneca do centro, a com bigode, a estranha, o estanque.
Fica evidente a opressão da casa-apêndice dentro daquela casa-museu. Porém, igual a essa, aquela também guarda coleções. Diferentes, mas movidas pelo mesmo gesto: guardar para contar (nossa) história. É esse contraste o que me interessa. É aí que reside a ironia. Leirner desarma as situações de classe, os mecanismos de consagração do circuito das artes, daquilo que é, ou pode ser, colecionável.
Por fim, a Sala Inglesa e o apartamento popular brasileiro estão no mesmo nível de voz e de valor estético e social. É a arte dialogando com a tal horizontalidade evocada pelas ruas.

quarta-feira, dezembro 10, 2014

Timon de Atenas


Primaveras. Occupy. Jornadas de junho. A ética bamba que limita esquerda e direita. Resistências e concessões. Consumismo. A hipocrisia das primeiras capas de jornais. Moralismo. Artista e burguesia. Alcebíades e senadores. Sexo e dinheiro. Está tudo concentrado nessa montagem de Timon de Atenas. Atenas é aqui, ali. É hoje. De brinde, Vera Holtz é o protagonista e Tonico Pereira é Apemantus. Shakespeare é agora: "A generosidade que faz deuses, quebra os homens".

quinta-feira, novembro 06, 2014

Há mundo por vir?

Tencionar as potências e as fragilidades do desejo (vontade e impossibilidade), desse desejo direcionado ao saber, o que já é em si uma ação política, me parece, é o que define a vida moderna. Mas isso pode ser expandido ao nosso tempo.
É por aí que leio a contundente beleza terrível de um capítulo como o “Um mundo de gente”, do livro Há mundo por vir?, de Déborah Danowski e Eduardo Viveiros de Castro. Estar na travessia entre a irreversibilidade do feito e o desejo de fazer parece nos constituir.
Concluí o livro com a sensação de que urge falharmos mais como homem para podermos onçar, como no conto rosiano “Meu tio o Iauaretê”. Querer ser homem, diferenciando-nos ao máximo dos outros animais, parece, tem nos levado ao colapso. Antes tivéssemos querido ser onça. Ou jabuti.

Miss violence

Só digo uma coisa: se você ainda não viu, procure ver "Miss violence". O filme tematiza a ferrugem patriarcal. E o quão cúmplices todos nós somos na manutenção dessa ferrugem. A cumplicidade, aliás, é matéria formal do filme, já que vira e mexe as personagens parecem confrontar a passividade do espectador. Filmaço seco e denso.

segunda-feira, setembro 08, 2014

Beije minha lápide

Jô Bilac consegue equilibrar em seus textos para teatro o humor e a firmeza na crítica dos comportamentos humanos contemporâneos, sempre calcado na retomada de certa ironia nelson-rodriguiana. Mas tendo a melancolia como ingrediente principal. Melancolia resultado e promoção de interdições das relações interpessoais.
Já em "Beije minha lápide" o que fica do texto de Bilac é o texto de Oscar Wilde. Os diálogos, os monólogos, as imagens, tudo é leitura de Wilde. A toda hora a mesma sensação de colagem, citação, reminiscência, fragmentos de textos.
Sendo um elogio à vida e à obra de Oscar Wilde, a interdição está materializada na cela-redoma de vidro que separa a personagem Bala (Marco Nanini) da liberdade, num duplo da redoma que separa a lápide de Wilde dos beijos de seus fãs no cemitério de Paris. Bala está preso por ter efetivamente quebrado o vidro em torno do túmulo do escritor irlandês. Também escritor, Bala é duplo de Wilde, parece estar escrevendo (ou encenando) o seu "De profundis". Ambos presos por colocarem em xeque as regras do jogo de xadrez que a vida é.
Para a eficácia da encenação, trabalha a direção correta e inspirada de Bel Garcia. Além das presenças de Carolina Pismel, Júlia Marini e Paulo Verlings. Atores da Cia. Teatro Independente que não se intimidam com a coadjuvância de suas personagens.
Posto que os tempos são outros, se Bala não está preso por sodomia, a personagem questiona as identidades socialmente aprovadas e as falsas ideias de liberdades individuais que nos cercam.  Por fim, melancolicamente, "Beije minha lápide" tematiza a liberdade. Estende-se sobre ela, desdobrando-se em efeitos e causas.

sexta-feira, agosto 15, 2014

Haicai do Brasil

Haroldo de Campos escreveu que "o haicai funciona como uma espécie de objetiva portátil, apta a captar a realidade circunstante e o mundo interior, e a convertê-la em matéria visível". Forma poética de origem japonesa, de Guilherme de Almeida a Paulo Leminski, passando por Drummond, Millôr e pelo próprio Haroldo, entre tantos outros, o haicai foi abrasileirado, ou, como diria Oswald, deglutido, apropriado. A reflexão filosófica nele contida passou a tematizar a natureza do país, as líricas brasileiras, colocando rimas e dispensando muitas vezes a métrica tradicional (três versos de cinco, sete e cinco sílabas poéticas).
Na antologia "Haicai do Brasil", Adriana Calcanhotto consegue criar um bom e diverso panorama de nossa criação de haicais. Destaque para a presença de André Vallias, cujo potente e imanente rigor sintético pode ser percebido nas suas poesias visuais, e Glauco Mattoso, poeta que tem exercitado as formas fixas para criar, haja vista sua extensa produção de sonetos.
Porém, como as antologias são sempre objetos "incompletos", sempre coletâneas afetivas de quem as organiza, não posso deixar de sentir a falta de Saulo Mendonça, na minha humilde opinião, um dos grandes haicaístas brasileiros em atividade de criação. Calcanhotto poderia ter pesquisado um pouco mais, até porque "Haicai do Brasil" já figura como indispensável à estante de quem estuda, lê ou cria/inventa poesia.


segunda-feira, agosto 11, 2014

Fake

A ironia é uma figura de linguagem, é um recurso estético. Não é zombaria vã, riso sem razão. Ser irônico é dizer algo e pensar o oposto. Portanto, a ironia requer sofisticação, trabalho rigoroso com as palavras e, principalmente, requer que o interlocutor esteja preparado e disposto ao jogo linguístico, caso contrário a ironia não funciona. Sua eficácia está na quebra da linearidade do pensamento de quem ouve/lê. Creio que Machado de Assis, com sua lírica mordaz, seja o maior exemplo da aplicação da ironia, no desmantelamento das máscaras burguesas.
Escrevo isso a fim de chamar atenção para o narrador de Fake, de Felipe Barenco. É impressionante o modo como o autor consegue sustentar a autoironia - a dessacralização de si, com humor e tragicidade na medida exata - ao longo de todo o livro. Esse artifício permite a abordagem de temas complexos, cotidianamente banalizados na superficialidade dos programas televisivos, tais como: sexualidade, iniciação do jovem na vida adulta, HIV, relação entre pais e filhos, amor. O autor faz isso proliferando no texto uma pletora de referências literárias, teatrais, musicais, culturais que, de tão bem urdidas, soam como suas, do narrador em primeira pessoa.
A narrativa supostamente linear tem torneios no tempo e cortes bruscos, conferindo a conexão entre os pequenos episódios que compõem o texto. Cada personagem entra e sai de cena na hora exata. Não há floreios desnecessários. Desses que empesteiam os livros direcionados aos "jovens leitores".
Irônico e conversando diretamente com o leitor, Téo descreve como tornou-se aquilo que é: literatura. "Por favor, não repita meus erros em casa. Todos eles foram cometidos por um profissional", escreve no "Selfie" que abre o livro. A narrativa corre leve exatamente porque Barenco estrutura o texto com consultas esporádicas e providenciais ao leitor. Criando nós e contatos. Afinal, será aquele que lê quem dará (ou não) veracidade aos acontecimentos.
A orelha avisa que Fake "faz parte da literatura YA (young adult)", mas não se iludam, Felipe Barenco, em seu primeiro romance, escreve com o rigor e a naturalidade de quem exercita a escrita há tempos.

domingo, maio 25, 2014

Praia do futuro



Praia do futuro é um filme para avisados. Avisados de que o abandono é o fundamento da existência. Se Wagner Moura não tivesse feito o fatídico Capitão Nascimento, certamente, Praia do futuro não teria a repercussão que está tendo. Posto que a maioria dos comentários e indignações versa no entorno das possibilidades da sexualidade do tal capitão.
Dentro do quadro da filmografia de Karim Aïnouz, diretor de Madame Satã (um dos melhores filmes já feitos no Brasil), Praia do futuro é um bom filme. Estende as pesquisas de câmera feitas por Karim em O céu de Suely e desdobra as tópicas de O abismo prateado, por exemplo.
Perturbados com as cenas de tensão sexual entre as personagens de Wagner Moura e Clemens Schick, muitos espectadores perdem a oportunidade de ver em cena a doçura e a força do uso do abandono como procedimento fílmico. A câmera ora parece está abandonada, ora parece abandonar as personagens, misturando sujeito e objeto, forma e conteúdo.
Sendo "criatura do que vejo", como anotou Octavio Paz, a insalubridade da praia do futuro - lugar de bênção e maldição - quer mesmo é impregnar-se no espectador. Causar desconforto no confronto. Karim coroa tal procedimento ao fechar o filme com o título invertido. Ou seja, a ideia não é olhar a praia do futuro de-fora, como um-outro apartado de-mim, mas de-dentro, como um se, uma possibilidade de ser.
Falei em tensão. Sim, há mais tensão que tesão na relação entre Donato e Konrad: O macho cearense e o macho alemão. Onde o desejo? A língua? A macheza? A morte? O mar? O sol? O frio? O silêncio. É no silêncio e no interdito, ou no não-dito, que as personagens de Karim vivem. Do "aquaman" que foge de seu lugar para viver aquilo que ele é (um salva-vidas em busca do próprio salvamento: "aqui nessa cidade subaquática eu não preciso mergulhar para me sentir livre", diz) ao irmão pródigo que constrói a vida tendo a mágoa como alicerce. Abandonar não é esquecer. Lidar com tais diferenças é o que fazem as personagens serem como são. E é preciso anotar que sabemos muito pouco sobre cada uma delas. O filme exige a montagem de um quebra cabeça e na maioria das vezes as peças não se encaixam. Para o bem e para o mal do próprio filme.
Para mim, Praia do futuro é um filme sobre Ayrton, vivido pelo brilhante Jesuíta Barbosa. Tal e qual o Aquiles homérico, que passa a maior parte da narrativa ausente da Ilíada, Ayrton é o motor do filme. Tudo o que acontece, principalmente nas frestas não exibidas da história de Donato, é uma preparação para o retorno da personagem de Jesuíta: é a odisseia particular desse o que alimenta todas as lutas corporais vividas pelo melancólico irmão Donato. Cada qual experimenta o medo de se afogar de modo singular, mas complementar. E isso é recolhido na longa sequência final.
Os ângulos do triângulo amoroso criado por Karim não convergem, assim como as cenas sobrepostas, assim como o tempo que escorre longe dos olhos do espectador. Por fim, é na beleza da fotografia - no contraponto entre a luz brilhante do trópico, quando o diretor faz uma citação à obra de Alair Gomes, e a luz fechada da Alemanha, que influencia nos corpos e nas ações das personagens - que Karim encontra a cor exata para exibir gente viva, desolada e brilhando na noite. Se "o futuro já começou", resta saber quando viver o presente.

segunda-feira, janeiro 20, 2014

Ricardo III

Ao despojarem a peça shakespeariana de toda pompa circunstancial, Gustavo Gasparani e Sergio Módena criam um Ricardo III singular e não menos potente. O investimento na lucidez vocal de Gasparani faz a peça exigir imaginação e pensamento do público. E só por isso já mereceria atenção, pois nos leva a "ver aquilo que não vemos": eis o golpe da arte.
Porém, aliados a isso, é preciso destacar os jogos cênicos desenvolvidos por um Gasparani ora comentador, e, por isso, próximo ao espectador, porque "humano", ora ator desdobrado num elenco de personagens grandiosas e diversas.
Ao final, o Ricardo que na parte III de "Henrique VI", também de Shakespeare, diz "posso sorrir e assassinar enquanto sorrir; posso gritar 'Contente!' aos que atormentam meu coração; posso molhar meu rosto com lágrimas hipócritas e compor minha face para todas as ocasiões! Afogarei mais marinheiros do que a sereia; matarei mais admiradores do que o basilisco, representarei o papel de orador tão bem quanto Nestor, enganarei mais astutamente do que Ulisses e tomarei outra Tróia como um Sínon. Sou capaz de acrescentar cores ao camaleão, de lutar em metamorfoses como Proteu, de enviar à escola o sanguinário Maquiavel" apresenta-se por inteiro diante de nós.

domingo, janeiro 05, 2014

12 anos de escravidão

O filme 12 anos de escravidão fala das coisas do Brasil e seu racismo antigo intacto. Mostra que autonomia não rima com liberdade. Ou, como cantam Wisnik e Mautner: "A liberdade é bonita, mas não é infinita! Eu quero que você me acredite, a liberdade é a consciência do limite. E o resto, me entenda, é desconcentração de renda!". Deixa a pergunta: até quando tanto horror perante os céus?

segunda-feira, dezembro 30, 2013

Sons de 2013

 
Lista aleatória dos sons que (me) tocaram em 2013 e continuarão (me) tocando depois da virada:
- Batuk Freak: Carol Koncá
- Soluços: Alice Caymmi e Cadu Tenorio
- Contra Nós Ninguém Será: Edi Rock
- Atento aos Sinais: Ney Matogrosso
- Malagueta, Perus e Bacanaço: Thiago França
- Praia: Mariano Marovatto
- Água Lusa: Jussara Silveira
- Aquário: Tono
- Francis e Guinga: Francis Hime e Guinga
- Se Apaixone Pela Loucura do Seu Amor: Felipe Cordeiro
- Passo Elétrico: Passo Torto
- O Glorioso Retorno de Quem Nunca Esteve Aqui: Emicida

domingo, dezembro 22, 2013

Um estranho no lago

Acho que nunca vi um filme de grande circuito, mesmo europeu, tratar o nu masculino de forma tão naturalizada, com ângulos nada convencionais, pouco glamourosos e não valorativos da pose, quanto o despretensioso L'inconnu du lac (Um estranho no lago), de Alain Guiraudie. A progressiva implosão do paraíso é muito bem armada sobre as dicotomias tesão e tensão, desejo e instinto de preservação. O mais interessante, porém, para mim, está na pluralidade das personagens. Num lugar onde todos parecem ir à procura de sexo anônimo, cada um consegue apresentar singularidades que o distingue dos outros. E é neste jogo entre indivíduo e comunidade que reside a beleza ética e estética do filme.

sábado, dezembro 21, 2013

Cazuza - pro dia nascer feliz

Que faltam ousadia e coragem no enfrentamento de nossos mitos, isso todos nós sabemos. O excessivo suposto "respeito" ao mito, mata a potência do mito. Quando será que deixaremos de ler a obra de Cazuza apenas como mera expressão de recalque de uma rebeldia adolescente e investiremos naquilo que leva alguns críticos a comparar Cazuza a Rimbaud, por exemplo?
Os experimentos de ritmos - rock e blues; guitarra e tamborim - e de temas - "dor de corno" e sofisticação poética - ficam sempre obscurecidos pelos repetidos causos da vida de um artista obstinado à overdose de vida. Confundem-se "o espírito jovem", ser jovial, aberto ao novo com a crença de que só um pós-adolescente e imaturo poderia viver a vida que Cazuza viveu até a morte. Opta-se por cristalizá-lo como garoto-toddy, negando o seu erotismo no couro em brasa.
Creio que a obra de Cazuza fala, e toda obra deve falar, por si. Portanto, por que o contato com essa obra precisa ser sempre mediada por um discurso-narrador organizador? Basta ler as biografias e assistir aos filmes e espetáculos em sua homenagem para perceber o controle do imaginário cobrindo a personagem com luzes brandas e apolíneas. Tudo o que o artista rejeitou. "Um homem deve procurar a fruta que foi proibida", cantou.
Estes senões me servem para comentar o musical Cazuza - pro dia nascer feliz. Como um artista que enfrentou de dentro a imposição da vida burguesa - dizendo: "Eu sou da geração do desbunde. Nunca tive saco pra milico, desfile, gente com medo. Todo mundo ficava parado, mudo, anestesiado. Não dava pra fingir que não tinha nada. Pra mudar alguma coisa, a gente teve que gritar, se drogar. Ir pra rua, enfrentar nossa própria fraqueza. Era uma maneira de não se render, e não ficar careca, careta" - pode ter a trajetória contada como se se tratasse simplesmente de mais um "rebelde da MPB"? Cazuza não era o ingênuo-alegre como teimam em mostrar. Leitor voraz de poesia e ouvinte de canção popular, ele cantou que é preciso "criar a partir do feio / enfeitar o feio até o feio seduzir o belo", num gesto de quase eco a Adorno que escreveu que "na história da arte, a dialética do feio absorve também a categoria do belo em si". A obra de Cazuza transitou pelos extremos, entre a libertação do viver e o amor livre: "Cada aeroporto é um nome num papel" e "Viver a liberdade, amar de verdade, só se for a dois".
Colar as canções às situações da "vida real" do artista é reduzir sua força criativa. Claro que entendo o apelo pop e comercial que há nisso, mas é triste e paralisante ver como a visceralidade é substituída pela plasticidade do conforto dominical. Essa ânsia por certa beleza organizadora faz com que não apenas Cazuza e sim todos que gravitaram ao redor do sol que ele é, sejam risonhamente caricaturizados. Tornar as canções reféns da vida é mais fácil. E mais desrespeitoso também.
Não nego o apuro técnico do ator transfigurado no ídolo-artista-poeta. No entanto, colocar na voz da mãe encenada de Cazuza a tarefa de narrar a vida do filho - roubando deste a vocalização de canções como "Codinome beija-flor" e "Poema" - é, além de renunciar a voz própria do artista, transformá-lo num "galã bombardeado com balas de hortelã". No fim, tudo se transforma em apenas mais um divertimento simpático para dias mornos. E mais uma vez a complexidade da obra e do artista fica de fora.

segunda-feira, dezembro 16, 2013

Incêndios

Há uma questão ética movendo a trama de Incêndios, peça de Wajdi Mouawad. Já após o contundente filme de Denis Villeneuve tive discussões acaloradas com amigos sobre a tal ética: Nawal Marwan tinha o direito de só após sua morte revelar a verdade aos filhos gêmeos Jeanne e Simon? Nawal transferiu para eles, sem chance de amenidades, uma dor que pertencia a ela?
Tendo a tentar entender a atitude de Nawal. A violência de saber que o filho que lhe foi tirado ainda bebê é o estuprador que a violentou e a torturou na prisão e, ainda por cima, é o pai do filhos gêmeos que ela acreditava estarem mortos é algo tão assustadoramente insuportável - e o filme de Villeneuve instaura isso nos climas que cria - que o silêncio solapa a "mulher que canta". Criar os filhos do filho-estuprador: como julgar o silêncio de Nawal?
As perguntas são: os filhos precisavam saber a verdade? Até então eles acreditavam que o pai estava morto e nunca tinham ouvido falar de um irmão, portanto, poderiam continuar vivendo sem o peso da verdade. Ou não? Como diz o pressuposto cristão, a verdade liberta. Será? Não estarão os gêmeos aprisionados para sempre a uma não-conversa com a mãe? O direito à verdade é maior do que as consequências que ela pode trazer? Ou mentiras sinceras interessam à manutenção da saúde?
O segredo do espectro de Nawal trunca o lugar de viver, rouba a vida dos filhos, do mesmo modo que o espectro do rei-pai de Hamlet interdita o principado deste. A questão ética se mantêm acesa na montagem de Aderbal Freire-Filho e, creio, assim como no filme, guardadas as devidas diferenças impostas pela linguagem, funda o motor estético. Vide o claustrofóbico cenário, o figurino correto e as boas atuações. Se no filme temos a cena da revelação via marca na pele a la Ulisses de Homero, na peça temos Marieta Severo no papel da mãe: mulher-sereia que canta e pensa, e quanto mais sofre mais bonito canta, como um assum preto.

domingo, novembro 17, 2013

Elysium

Assistindo a Elysium entendi o silêncio da imprensa e da "inteligência" brasileiras sobre o filme.
Tá tudo lá: da batalha que Obama tem enfrentado contra os republicanos que não querem a ampliação do acesso à saúde pela população mais carente à revolta popular contra a concentração de riqueza. Controle do imaginário, biopoder, biopolítica são alguns dos temas que circulam o filme de Neill Blomkamp, mesmo diretor do excelente District 9.
Claro, tudo embalado com a típica ação grandiloquente hollywoodiana-estadunidense, mas nem por isso menos cru e ferino diante da atual situação em que vivemos e pela qual muitos tem sido criminalizados por dizer não ao horror do descarte do humano em nós.
Fiquei realmente positivamente surpreso e impactado com Elysium, da capacidade sensível de captar e condensar as tais "vozes das ruas" ao diagnóstico desencantado do futuro.

domingo, agosto 25, 2013

Upstream color

Upstream color é um filme de sensações. Há tempos eu não assistia a um filme tão empenhado em usar os sentidos. É no jogo dos sentidos que a "narrativa" se constrói. Utilizando o instigante livro/projeto Walden, de Henry Thoreau, e suas reflexões sobre a condição humana, como núcleo duro da trama, o diretor Shane Carruth rediscute perspectivas tais como o uso do corpo como casa e a casa como aquecedora dos afetos; os empreendimentos para fazer do sujeito o centro da discussão; o questionamento sobre o que é riqueza; a propriedade e o excesso de bens, de trabalho, de luxo; a natureza derivada da cultura versus a natureza dada do selvagem... As experiências de Thoreau sobre a tese de que a civilização moderna aperfeiçoa as casas, mas não o "a si mesmo" do sujeito" são trabalhadas dentro de uma ecologia fílmica do estado selvagem: contemplação, limitação das necessidades, obrigações e dívidas. Ao invés do som ao redor, o som de dentro.
Porém, o mais impactante é a completa ausência de ilustração facilitadora, até porque, seguindo sua inspiração filosófica, a vida é algo experimental, sem sentido definitivo. O espectador entra e sai do filme cheio de dúvidas. Até mesmo o diretor, posto que sugere a "morte" do pensamento que lhe inspirou. Por exemplo, se Thoreau sugere uma "pobreza voluntária" do filósofo, em Upstream Color a pobreza vem de forma involuntária. No filme, participar da experiência não é uma escolha posta às personagens, mas a imposição de um ciclo.
Como sabemos, para Thoreau, o que diferencia o filósofo do selvagem é que enquanto este tem uma vida simples e não complexa, aquele tem uma vida simples mais muito complexa, ou complexificada. A partir disso, ao final, algumas perguntas: se a habitação deve espelhar quem a construiu, numa era do crescimento das intervenções cirúrgicas, como estamos nos refletindo por aí? E até que ponto, pelo medo da liberdade, estamos sempre envolvidos em falsas relações?

terça-feira, julho 30, 2013

O testamento de Maria

"Meu corpo é feito tanto de sangue e ossos quanto de memória", p 10.
Sou leitor da literatura ficcional e ensaística de Colm Tóibín há tempos. Creio poder constatar: "O testamento de Maria" é um livro primoroso, ápice de requinte, delicadeza e "olho livre", de uma rara condensação entre forma e conteúdo, amoral - naquilo que isso implica destemor e vontade. Virei a madrugada lendo, sem parar. E ao terminar, quantos pensamentos!
No mais, as palavras de Edmund White traduzem bem o que senti: "Este é um livro curto, mas denso como um diamante. É tão trágico quanto uma Pietá espanhola, mas completamente herético. Tóibín consegue preservar toda a dignidade de Maria sem endossar os mitos que se acumularam em torno dela".

sábado, julho 13, 2013

Los Amantes Pasajeros

Para quem, como eu, acompanha a "linha evolutiva" da filmografia de Pedro Almodovar, "Los Amantes Pasajeros" soa estranho à primeira vista. Acho mesmo que Almodovar tinha uma boa ideia mas a perdeu ao longo da história. A ausência de um núcleo duro direcionando o roteiro rompe com as tramas extremamente bem urdidas presentes nos filmes mas recentes do cineasta.
Porém, distanciando-se, em segunda mirada, podemos perceber que os tipos tão bem criados e tratados por Almodovar para causar "pane no sistema" estão todos ali: nas filigranas - do texto ácido às situações aparentemente soltas.
Por exemplo, em "Los Amantes Pasajeros" Almodovar escamoteia a sátira à crise econômica da Espanha na absurdidade das ações das personagens. Ora, o avião não está indo para o México por acaso. Também não é à toa que os passageiros da classe econômica são dopados com sonífero, enquanto os da classe executiva são excitados e entretidos pelos comissários de bordo. Nem a popização da religião e a estetização da sexualidade se misturam por mero preciosismo fílmico. É o Almodovar de sempre. Talvez voltando ao começo para indicar retornos e recuos necessários à afirmação da continuidade.
"Los Amantes Pasajeros" é, talvez, o filme mais queer/camp/gay do Almodovar; rende boas risadas, bons momentos de auto-críticas e isso é bom demais.

segunda-feira, julho 01, 2013

Maracanã: de aldeia a ilha



(...) Belo Monte... Pinheirinho... Terena... Munduruku... Kaiowá... Aldeia Maracanã... Maré... Orquestrada pelos governos, sob os aplausos de quem se esforça para manter a invisibilidade das culturas indígenas, a polícia reafirmou sua truculência ao enxotar os índios que ocupavam a Aldeia Maracanã, no entorno do famoso estádio de futebol. Enquanto uma parte emparedava manifestantes e imprensa, outra parte da polícia expulsava de um prédio público um grupo de índios de várias etnias que ali se reuniram e moravam há tempos. Voltei para casa transtornado, tamanha a minha impotência diante do violento absurdo. 1500? Não, 2013.
Coniventes, alguns perguntavam: "Por que as regras da cidade não podem ser aplicadas aos índios?". Em contrapartida, outras perguntas me vinham à mente: "o que se odeia no índio"? O que se odeia nas culturas africanas? Era o Maracanã em pleno processo de "civilização", desta vez, tendo como colonizadora a FIFA, com seus padrões higienistas.
Não tenho o menor interesse por jogo de futebol, mas entendo, respeito e admiro a beleza de quem vibra, torce, tem um time para chamar de seu e usa o futebol como escape contra o cotidiano vazio. Voltando de SP, sobrevoo o Maracanã iluminado, "objeto-sim resplandecente", e me emociono. Isso também é Brasil. Morando na esquina do estádio, acompanhei, dia após dia, as regras de assepsia sendo implantadas. É o preço que se paga por sediar a Copa do Mundo. É?
O elogio cego dos civilizados embasbacados com a luxuosidade do estádio restaurado a altos custos não tardou para ser contraposto à realidade fora do Maracanã, da ilha. E quem ousasse protestar era violentamente reprimido, sob a autorização dos jornalões do país. Dizendo "não à repressão", grande parte da população se agitou e, finalmente, legitimou os manifestos levantando bandeiras das mais diversas vontades. O enxame difuso tomou as ruas.
"Pacíficas", "ordeiras" e "fotogênicas" para os padrões de nossa TV, enquanto o jogo não começava, as manifestações eram válidas. Mas bastou a bola rolar em campo, bastou a TV voltar todos os seus olhos para os pés dos jogadores e os confrontos recomeçavam com a polícia "dispersando" a multidão inconformada, limpando as ruas para assegurar a saída de quem pagou para assistir ao jogo.
Eis a potencialização do sonhar ilhas, as esferas protetoras do sonho civilizatório construtor da ponte que "me" separa do "outro". Deslumbrados com as ofertas paradisíacas da ilha, os alunos de uma colega minha de profissão perguntam se "favelado é cidadão". 1500? Não, 2013. Fora da ilha, outros (adultos) deslumbrados perguntam por que não tirar o direito de voto daqueles que recebem o "bolsa família". E as remoções compulsórias se espalham pela cidade. Isso também é Brasil.
Na "grande final", o narrador esportivo diz na TV que o Maracanã agora "é de primeiro mundo", reafirmando nosso "complexo de colonizado", tão disseminado no imaginário coletivo pelas recorrentes comparações midiáticas entre nós e a Europa, ou os EUA. Dentro da ilha, Fred faz um belo e brasileiro gol macunaímico, de oportunidade. Fora da ilha, a fumaça de gás de pimenta empesteia o ar. Dentro da ilha, brasileiros que nem eu, ora dançarinos, protestam em plena festa da FIFA, erguem cartazes, ora, a cada gol, um jogador corre para o abraço do torcedor. Antropofagicamente, sujam a festa asséptica que a FIFA quer impor. Roubam a festa para os de fora da ilha.
Dentro da ilha: "a grandeza épica de um povo em formação [cantando o Hino Nacional] nos atrai, nos deslumbra e estimula", no entanto, os rostos em close não negam a limpeza étnica, a acentuação das diferenças entre classes. Fora da ilha: um sistema de mobilidade urbana caduco e ineficiente. E uma ação incompreensível, porém, reflexo de nós mesmos, da polícia no Complexo da Maré: só para mostrar "como é que pretos, pobres e mulatos, e quase brancos quase pretos de tão pobres são tratados". Fora da ilha, a lenta luta diária é o regime.
Moradores da Rocinha e do Vidigal nos lembram de que a "a polícia que joga bomba de borracha no asfalto é a mesma que invade a favela com balas letais". Na TV, o consultor de segurança dá a dica, confirmando a atrocidade: "Fuzil deve ser utilizado em guerra, em operações policiais em comunidades e favelas. Não é uma arma para se utilizar em área urbana".
O que faremos com a ilha quando a FIFA devolvê-la de volta? Símbolo do país, o Maracanã-ilha se separou do Brasil-continente, à revelia deste. Fora da ilha, à margem do perímetro de 3 km desenhado pela FIFA, os índios da Aldeia Maracanã continuam com a bandeira em punho pela paz sem fronteiras. E as perguntas vêm: É tão difícil entender que o Complexo-da-Maré e o Complexo-do-Maracanã não são partes de países distintos? Por que o Caveirão que aterroriza os moradores das favelas e periferias vira "atração turística" quando instalado como forma de intimidação nas proximidades do estádio? Por que é tão difícil entender que a posição afirmativa dos índios da Aldeia Maracanã é emblema da resistência contra a violência diária perpetrada por políticos eleitos com o nosso voto? O voto, este mais importante instrumento de luta que temos, além do corpo e da voz – da vida.