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quarta-feira, setembro 05, 2007

Encontro com o pop João Cabral

A fim de promover a antologia O artista inconfessável, de João Cabral de Melo Neto, lançada há poucos dias pelo selo Alfaguara, da Editora Objetiva, o jornal O Globo reuniu ontem, em seu auditório, Ferreira Gullar, Bráulio Tavares e Eucanaã Ferraz, com mediação de José Castello, em um debate sobre a vida e a obra do poeta.
Entre outras coisas questionou-se a idéia do artista que se “confessa” em sua obra, algo que Cabral sempre lutou veementemente contra. Para ele, poesia era o trabalho do exercício com a palavra. E a palavra era tida como pedra ou faca sem cabo. Para o semioticista Roman Jakobson, “a linguagem deve ser estudada em toda a variedade de suas funções” e parece ter sido este o propósito de Cabral.
A mim incomoda bastante esta análise do texto pelo viés psicanalítico, proposta pela nova antologia do poeta. Buscar soluções para as questões textuais na vida dele é deixar de lado a especificidade do objeto artístico e cair na má crítica, ou na crítica limitada. Fazer isso, por vezes, corro
o risco de dizer, é constatar a incompetência crítica diante da obra.
Contemporaneamente, vemos um número cada vez maior de leituras com este objetivo de encontrar o artista dentro da obra. Penso que seja uma busca de ressuscitar o autor, e numa leitura mais ampla o indivíduo, perdido em meio à fragmentação moderna e “pós-moderna”, e que teve sua morte constatada principalmente pelos filósofos Foucault e Barthes.
Mas, voltando à poesia de João Cabral, com sua gramática única, ela não se deixa fruir livremente. Não há como entrar no universo cabralino e sair da mesma forma, pois nele reside aquilo que o crítico inglês Ezra Pound já definiu como Literatura, ou seja, trabalho com a linguagem carregada de sentido a mais não poder. E isso não é discurso do meio acadêmico, como vem afirmando Inez Cabral, filha do poeta. A dificuldade na interpretação da poesia de Cabral é constatada por qualquer um que se detenha sobre ela.

João Cabral torna possível, pela arquitetura de seus poemas, uma ruptura radical dos versos, que no Brasil viviam à sombra do simbolismo e da retórica pomposa. Com sua concisão, desprezo ao enfeito e ao sentimentalismo barato e com sua limpeza de estilo, ele cria leitores de poesia ou, pelo menos, desperta nos leitores já existentes novas consciências do fazer literário.
Avesso ao lírico e à música, pois, segundo ele, a música “desarruma” os sentidos e ele temia esta “falta de controle”, Cabral coloca seu leitor na crise do não-reconhecimento com a mensagem. Ele entorta a linguagem para não deixar que ela frua, para exigir mais do leitor. Esta tentativa atual, de tentar facilitar a leitura de sua obra através do viés autobiográfico, pode aniquilar todo o "Projeto João Cabral" de fazer poesia.
Recordo o texto “Direito à literatura”, do mestre de todos que trabalham com as Letras no Brasil, Antônio Cândido, com a sugestão, tomo aqui a liberdade de interpretá-la, de que todo artista, como diz a canção, “tem de ir aonde o povo está”, porém, esse “baixar o nível”, no intuito de ficar mais fácil e atingir um número maior de público, subestima e provoca a estagnação intelectual desse mesmo público. Cabral, ao contrário, convida o público para dentro do seu universo, elevando o nível e instigando o leitor.
Fica a pergunta de resposta fácil: A poesia de João Cabral emociona? Sim. Mesmo ao revés dele, há quem vá às lágrimas. Mas emociona pela arquitetura, pela transpiração sobre a palavra cuidadosamente pensada e calculada, pela beleza de seus jogos semânticos.

Em resumo: João Cabral não é um poeta fácil, pois ele é daqueles artistas que criam leitores, leitores conscientes de que a Literatura acontece quando o poeta consegue usar a linguagem em benefício da própria linguagem, transformando e colocando ela em movimento.
Se a proposta de agora é promover o descobrimento de sua obra, pela facilidade e comodidade da leitura puramente autobiográfica, se, como afirmou sua filha, a “guerra atual” é mostrar que João Cabral de Melo Neto é pop, no sentido de consumo fácil, desejo sorte aos atuais e futuros críticos de arte.

quarta-feira, agosto 29, 2007

Sobre "Women in art" (ver post anterior)

Da Madona medieval às deusas greco-romanas, renascentistas.
Dos retratos de nobres damas barrocas e musas românticas às mulheres comuns do realismo.
Do rosto impressionista que começa a esvanecer ao traço modernista que reduz a figura às linhas básicas... Temos a impressão de ver, através dos séculos, várias expressões de uma mesma mulher. Quando assistimos ao vídeo focando nossa atenção
nos olhos das pinturas que vão se sucedendo, o convencimento é ainda mais forte. Parece que ela apenas muda de posição, de penteado, de roupa. Uma hora um pouco mais corada pelo verão, outras vezes pálida pelo inverno. Mas é sempre ela. Sempre ele: o feminino.
Daí que ao final somos tentados a imaginar que o vídeo não trata apenas da mulher, mas da própria arte. Temos as várias pontas de uma mesma estrela: a Arte.
Este é o toque de gênio do vídeo. Não se trata de nos deixar fascinados com o apuro técnico de quem mesclou, com sensibilidade e gosto, tantos exemplos de obras cujo tema é a mulher. Esta é
apenas a ponta do iceberg.
Na verdade, este video nos mostra didaticamente, do jeito que a maioria daqueles artistas
(mesmo os mais recentes) jamais puderam enxergar, que a arte é um processo contínuo. Ele começou lá na parede das cavernas e continua até hoje, neste mesmo instante em que você lê este texto, no ateliê de algum artista em algum lugar deste planeta. Um processo que tem uma unidade, sem rupturas, mesmo quando uma época, ou um estilo, ou ainda uma escola de arte, diz querer romper e negar a anterior.
O pro
cesso de criação de agora nunca mata o que o precedeu. O vídeo mostra que criar não é destruir, mas sim absorver, digerir, desmontar e remontar, (re)codificar, transcender...
Uma
conclusão me inquieta. A arte não trata apenas de problemas subjetivos, como muitos críticos e teóricos afirmam, mas sim de linguagem. O inferno da arte está justamente no conteúdo. Ou seja, na verdade, a arte é forma e competência.
Outra idéia (já mencionada mais acima) nos remete a questão da tecnologia e da reprodução da obra de arte, assuntos caros a Walter Benjamin e outros frankfurtianos. Não deixa de ser instigante perceber que só com o uso de alta tecnologia (digitalização, técnicas de morphing, etc) é que podemos notar essa proximidade que provavelmente escapou a todos os autores das obras que desfilam naquele video. Talvez, depois da dessacralização da obra de arte com o advento da sua reprodução e banalização, estejamos perto de ver a sacralização da tecnologia como o oráculo de nosso tempo.

terça-feira, agosto 21, 2007

Women in art

Mesmo com o texto novo desta semana, "A 'Bubble' que nos protege", não pude deixar de compartilhar este vídeo, que será comentado depois aqui no blog. Merece ser assistido quantas vezes você puder. É realmente imperdível. Aumente o som, aperte o play e viaje.

O link para mandar para os amigos é: http://br.youtube.com/watch?v=nUDIoN-_Hxs

quinta-feira, agosto 16, 2007

A "bubble" que nos protege

Depois de emocionar com o belo e sutil Delicada relação (Yossi & Jagger), de 2002, o diretor israelense Eytan Fox, apresenta-nos The Bubble, em cartaz no Brasil desde 17 de agosto.
Mais do que uma história de amor entre um israelense e um palestino, o novo longa de Fox tem forte teor pacifista, sendo o mais político dos seus filmes, mas longe do planfletarismo.
The Bubble (Ha-Buah no original), com estréia internacional no Festival de Cinema de Toronto 2006, mostra a história de Noam (Ohad Knoller), que mora na moderna Tel Aviv, e de Ashraf (Yousef 'Joe' Sweid), da Cisjordânia palestina. Uma história de amor impossível de não ser afetada pela política. Talvez por isso o título preliminarmente pensado para ser "Romeo and Julio", tenha sido trocado. Para refletir melhor os acontecimentos em Israel.
A história dos dois começa quando Noam, soldado do Exército Israelense, dando plantão numa fronteira, conhece o palestino Ashraf. Há um corte na narrativa e a história continua com Noam já em Tel Aviv com os companheiros de quarto, o irônico Yali (Alon Friedman), gerente de um café, e a bela Lulu (Daniela Virtzer), vendedora em loja de essências para banho. A construção das personagens aponta para a maturidade e consciência crítica de cada um dos atores.
Bubble, “bolha” em português, pode ser a metáfora tanto de Tel Aviv, cidade que parece isolada do resto de Israel, quanto da república onde vivem os três amigos. Além das inquietações individuais de cada um.
A história de Noam e
Ashraf poderia terminar com a simples troca de olhares. Porém, Ashraf é obstinado e, tendo encontrado os documentos que o outro deixou cair num incidente na fronteira, busca e encontra Noam. Este, decepcionado com o Exército, trabalha agora numa loja de CD. A partir de então, os amigos de Noam passam a ajuda-los neste “amor explosivo”, outra metáfora que é filigranamente trabalhada ao longo do filme, até a cena final.
Com sua situação ilegal em Israel, Ashraf acaba sendo "adotado" pelos amigos de Noam e vai trabalhar com nome falso, como garçom, do café que Yali é gerente. Destaque para a trilha sonora do café, como “Aganju”, na voz de Bebel Gilberto. Uma metáfora para um país “que canta e é feliz”?
Os quatro amigos, mais outros jovens, organizam uma festa rave pela paz. “Vamos dançar em vez de matar", grita Lulu ao distribuir flyers pelas ruas de Tel Aviv. A rave é um sucesso, tendo bebida e ecstasy como combustível.
No entanto, a ilegalidade de Ashraf é descoberta, fazendo-o sentir a tensão entre judeus e árabes. Ele foge, para desespero de Noam, que auxiliado pelos amigos de quarto, vai atrás do amado.
As ações do filme são entrecortadas por cenas líricas, como num momento em que todos os personagens estão num bar e, ao piano, um crooner (Ivri Lider, responsável pela trilha sonora do filme) interpreta “The man I love”, de George Gershwin e Ira Gershwin, ou quando a irmã de Ashraf, sem aceitar que o irmão seja gay, nega-lhe uma dança, durante o casamento dela, e por cenas que revelam fundamentalismos, extremismos e separações. A câmera em movimento, os flashbacks de um passado harmônico e os cortes certeiros de Fox são a prova de sua competência.
A direção e o roteiro trabalham de mãos dadas o tempo todo, aliados de uma fotografia precisa. Todavia na parte final o diretor se perde. Numa tentativa desnecessária – haja vista o excelente papel que o roteiro de Gal Uchovsky vinha desempenhando até então – de chocar, ou mesmo de tentar finalizar a história por um viés romântico-utópico, Fox descarrila o filme.
Mesmo assim, o conjunto da obra não fica prejudicado. A mensagem do amor que rompe fronteiras físicas e espirituais, a busca por soluções de questões históricas e políticas através da arte e da festa, a supremacia da paz sobre os preconceitos e a intenção de instigar à saída da “bolha” individual em que cada um de nós nos fechamos - tudo isso costurado por imagens e diálogos que funcionam - são bem trabalhadas.
Previsível, mas imperdível para qualquer público.

***

A pré-estreia, no Brasil aconteceu durante o 11º Festival de Cinema Judaico de São Paulo e contou com a presença de Eytan Fox e do ator Ohad Knoller.

segunda-feira, agosto 13, 2007

Brasil como Brasil

Depois de passar por Berlim, Londres, Chicago e Nova York, sob a curadoria de Carlos Basualdo, a exposição Tropicália: Uma revolução na cultura brasileira [1967 – 1972] chega ao Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro.
A exposição apresenta a Tropicália como um momento cultural original, envolvendo as áreas de arte plástica, música, literatura, arquitetura, teatro, cinema e moda. Buscando ainda mostrar as ressonâncias desse período nas novas gerações de artistas nacionais e estrangeiros.
Há 40 anos Hélio Oiticica apresentava a instalação Tropicália um ambiente em forma de labirinto com plantas, areia, araras, um aparelho de TV e capas de Parangolé – dentro da exposição Nova Objetividade Brasileira, no mesmo MAM.
O nome Tropicália, por sugestão do cineasta Luís Carlos Barreto que viu a exposição de Oiticica, virou o título -
após alguma relutância - de uma música de Caetano Veloso. No ano seguinte, 1968, sai o LP Tropicália: ou Panis et Circenses, considerado o disco manifesto, abrindo o brilhante momento de diálogo entre vanguarda e subdesenvolvimento. É o momento das imitações cômicas e os "arremedos" da história, e as experiências na linguagem como uma forma de colocar em xeque o ufanismo ingênuo de então.
Inaugurado por Caetano Veloso, o Tropicalismo tem também Gilberto Gil, Gal Costa, Tom Zé, Os Mutantes e Nara Leão, como figuras centrais, acompanhadas ainda pelo maestro e arranjador Rogério Duprat e os letristas Capinan e Torquato Neto.
Celso Favaretto, no livro Tropicália: alegoria, alegria, aponta outubro de 1967, data do III Festival da MPB Record de São Paulo, a que concorreram "Alegria, Alegria", de Caetano e "Domingo no parque", de Gilberto Gil, como a época em que começa a proposta tropicalista.
Difícil de ser definida, Tropicália foi essencialmente a idéia e a tentativa de repensar a identidade brasile
ira e a arte no Brasil, em meio à agitação política e a uma ditadura repressiva, através da antropofagia cultural. Para Zé Celso Martinez Corrêa, em entrevista a O Globo, “só a antropofagia nos une. A filosofia de Oswald supera o grande impasse do mundo, o racismo, o fundamentalismo. E o multiculturalismo, que parece progressista, mas segue a filosofia do ‘cada macaco no seu galho’, setorizando gays, índios...”.
Zé Celso tem importância histórica no movimento como diretor da montagem de O rei da vela, baseada em texto de Oswald de Andrade, cuja tela feita para o cenário da peça, por Hélio Eichbauer à la Carmem Miranda, também está em exposição. A famosa tela foi usada por Caetano como capa para o disco Estrangeiro, de 1989, entre outros exemplos, numa demonstração de que conceitualmente as idéias tropicalistas norteariam sua carreira como compositor e cantor.
Na exposição, através de vídeos, verifica-se o comportamento tropicalista. Interessante perceber que, apropriando-se dos recursos tecnológicos, os tropicalistas conseguiram burlar a ideologia vigente, através do discurso alegórico, realizando uma crítica consciente e não-alienada. Alguns críticos julgaram e ainda julgam os tropicalistas como alienados, posto que não eram abertamente engajados nos movimentos políticos de esquerda.
Os visitantes de Tropicália: Uma revolução na cultura brasileira [1967 – 1972], além de interagir nas instalações Tropicália e Éden e com os Parangolés de Oiticica, podem ver trabalhos de Lygia Clark, Antonio Dias, Lygia Pape, Nelson Leirner, Lina Bo Bardi, cartazes de filmes de Glauber Rocha e Joaquim Pedro de Andrade e capas de discos tropicalistas.
É possível ver ainda as coloridíssimas roupas da Rhodia e obras concretas e neoconcretas, de Augusto de Campos (primeiro defensor crítico do Tropicalismo) e Ferreira Gullar.
Também está exposta a polêmica bandeira criada por Oiticica com a frase "seja marginal, seja herói", homenagem ao bandido Cara de Cavalo morto pela polícia em 68, e usada por Caetano nos shows. Após uma apresentação na Boate Sucata, um juiz não só proibiu o show, como fechou a boate e dias depois justificou a prisão de Caetano.
Os tropicalistas responderam aos apelos das posições regressivas da esquerda. Universalizaram a MPB com a incorporação de guitarras elétricas e o rock, modernizando a cultura brasileira de forma geral. Não esquecendo a influência pop, tendo Abelardo Chacrinha Barbosa como referência maior.
O fim do momento Tropicalista começou com a prisão e exílio de Caetano e Gil. Porém, ao que tudo indica, se a escravidão permanecerá como característica nacional do Brasil, como afirmou Joaquim Nabuco, em contrapartida, ou paralelo a isso, a antropofagia tropicalista permanecerá nos unindo e nos caracterizando.
O cantor Ney Matogrosso e a vanguarda paulistana do final dos anos 70, que incluía Arrigo Barnabé, Itamar Assumpção e o Grupo Rumo beberam na fonte tropicalista. Seus “acordes dissonantes” ainda ressoam hoje, num mundo cada vez mais interativo, com o advento da internet, seja pela liberdade criativa da Nação Zumbi e o movimento Mangue Beat, seja pelo experimentalismo de Marcelo D2 a "procura da batida perfeita".
Tropicália: Uma revolução na cultura brasileira [1967 – 1972] fica em cartaz até 30 de setembro, expondo o avesso de um país onde o luxo e o lixo, o erudito e o popular... não são opostos, mas "a face de uma mesma fazenda" (C. V.).

Para quem se interessa pelo assunto sugiro a leitura do livro Verdade Tropical que é, acredito, a melhor fonte sobre este período.

terça-feira, agosto 07, 2007

O cheiro do fosso

Um elenco liderado por Fernanda Torres e Wagner Moura está fazendo muita gente rir nas salas de cinema. Em cartaz desde 20 de julho “Saneamento básico, o filme”, longa do diretor e roteirista Jorge Furtado, conta a história de um grupo de moradores de Linha Cristal, uma cidadezinha no interior do Rio Grande do Sul.
Sem dinheiro para construir uma fossa para solucionar os problemas de saneamento da cidade, Marina (Fernanda Torres) e seu marido Joaquim (Wagner Moura) descobrem que existe uma verba pública de R$10 mil destinada à premiação de um vídeo de ficção. Mesmo sem saber sequer o que significa ficção, decidem fazer o vídeo para solucionar o problema do mau-cheiro. A partir desse mote o que se vê na telona é uma sucessão de atuações impecáveis.
Além de Fernanda e Wagner, estão no elenco Camila Pitanga (Silene – irmã de Marina que sonha em fazer sucesso como atriz), Lázaro Ramos (dono de uma produtora de vídeo na cidade vizinha), Bruno Garcia (Fabrício – namorado de Silene e aspirante a prefeito da cidade), Paulo José (Otaviano – pai de Marina e desiludido com a política) e Tonico Pereira (Antônio – empreiteiro e amigo de Otaviano).
Um monstro de luvas verdes, uma mocinha com aspirações de estrela e as precariedades de uma filmagem caseira são os ingredientes saborosos dessa mistura de atores talentosos. Embora o enredo seja conduzido pela obstinada Marina e seu marido, cada personagem tem seu peso bem distribuído e, ao longo do filme, vamos percebendo como o cinema muda todas as relações inter-pessoais.
É interessante assistir a um elenco que acostumamos ver interpretando papéis de cariocas, numa paisagem totalmente diferente. Diferente inclusive de grande parte dos filmes nacionais que nos últimos anos têm gravitado entre sudeste e nordeste.
Mas além do humor, que perpassa todos os seus 112 minutos de duração, a história desse filme-dentro-do-filme desenvolve-se sobre a questão: o Brasil tem dinheiro para cultura e não tem para o esgoto? Isto é: o dinheiro está sendo bem empregado ou o modelo de se fazer cultura no Brasil, só se preocupa com os fins? As interrogações passam pelas polêmicas leis de renúncia fiscal que financiam quase 100% da produção nacional, entre outras questões. O longa de Furtado não dá as respostas, mas sugere.
O filme acaba sendo uma ode inteligente e bem-humorada ao cinema e a cultura em geral, problematizando o fazer cultura num país como o Brasil, com tantas deficiências básicas em vários setores essenciais.

segunda-feira, julho 30, 2007

1000!!!

Filho quase rebelde do Transitar, blog que divido com meus amigos-irmãos Sílvia e Jânsen, nesse fim de semana o Mirar & Ver registrou sua milésima visita, em sete meses de existência. Isso iria passar despercebido, mas...
Antenado com a idéia de que quantidade não resulta em qualidade, quero agradecer aos leitores que acompanham - desde o início e aos que foram chegando e também aos que entraram e saíram - este meu particularíssimo exercício de escrever, paixão mais que íntima.
Certamente, este espaço não existiria sem o retorno que recebo dos amigos-leitores, que sempre deixam comentários, seja no Orkut, via e-mail, ou aqui mesmo.
É sintomática que a 1000ª visita tenha sido feita
pelo Henrique. Seu blog, meu amigo, é um norte!
Escrever, para mim, como já expus algumas vezes, é um exercício de aprendizagem interior, de catarse, de aprimoramento do Eu-Humano e do Eu-Crítico. Daí o subtítulo do blog : Medindo Dias.
Mas escrever doe, principalmente com o passar do tempo. Tempo que me amadurece e me torna mais autocrítico, mais inquieto com minhas faltas e mais consciente de minhas responsabilidades diante da vida.
Porém, a vontade e o desejo do exercício teimam em ser mais forte que eu.
Não posso deixar de registrar que este espaço, sem dúvida alguma, não manteria sua chama acesa sem as revisões lúcidas, sem a maioria das fotos aqui postadas e sem o apoio singular do meu par Carlos.
Caro leitor, vamos continuar,
Mirando e vendo, como nos propõe Riobaldo em Grande Sertão: Veredas.
Muito grato.
(...)

terça-feira, julho 24, 2007

O quinto mandamento

Está em cartaz no Centro Cultural Dejair Cardoso, na Lapa, a peça “Não matarás”, de Dejair Cardoso. Às pessoas que gostam de gêneros definidos uma advertência logo de início: não se sabe ao certo se assistimos a uma tragédia ou a uma comédia. O diretor acrescenta a esta indefinição traços de thriller e humor negro. Essa quantidade de possibilidades expressa bem a indefinição do texto, que no fim das contas é mais uma abordagem sobre a pedofilia dentro de uma instituição católica.
O passado de um padre pedófilo retorna com força total quando um de seus “coroinhas”, já crescido, exige uma reparação financeira pelos danos psicológicos causados pelo relacionamento com o padre. Este, por sua vez, aproveita a presença, na cidade, de um matador de aluguel e o contrata para livrar-se do chantagista.
O jogo, que vai levando às sucessivas descobertas, é um pálido reflexo de questões psicológicas que poderiam ser mais bem aproveitadas. Não traz revelações que sejam realmente significativas. E a peça acaba sendo mais do tipo de veículo para atores.
A encenação é simples. O cenário, até por causa do espaço minúsculo do Centro Cultural, é extremamente pequeno, restringindo-se apenas a uma escrivaninha, no que se sugere a sacristia, onde o padre recebe ora o chantagista, ora o matador, ora ambos. A luz é correta, funciona nas tentativas de criar os momentos de dramaticidade dos atos.
Há uma Bíblia, em um dos lados do palco, mencionada várias vezes durante os diálogos, dando respaldo ao título da peça. O livro é um dos aspectos mais originais, pois é nele, ou sobre o que ele representa, que se sustentam as certezas do matador de aluguel, o sentimento de culpa e as dúvidas do padre e a revolta do coroinha crescido. Ou seja, a crítica é sobre o porquê da
instituição que condena o homoerotismo, ser a mesma que fecha os olhos para o que acontece internamente
Os atores – Francisco Alves, Elcio Monteze, Daniel Moragas – ocupam ao máximo os mínimos espaços oferecidos, mas de algum modo fica faltando motivação para as aproximações e os afastamentos, por causa das instruções que vêm do texto.
“Não matarás” possivelmente foi escrita para despertar algum tipo de reflexão, mas esta idéia é abortada, tanto pelo exagero da caracterização do coroinha em busca de vingança, quanto pelo matador que monta a personagem de homem-mau utilizando “caras e bocas”. O que leva a soar como falsas algumas falas. Certamente, são atores que ainda estão criando a carga de experiência necessária de palco, indispensável para que a peça viva.
O estereotipo do gay efeminado e promíscuo é reforçado seja pelo padre, que se diverte em saunas, na capital, seja pelo ex-coroinha, em suas falas e atitudes.
Sabe-se hoje em dia, que já não é mais preciso, em qualquer arte cênica, a confirmação da inclinação homoerótica de uma personagem através de recursos como “rebolados” e “voz afetada”. Obviamente isso exerce a função de gerar o riso, ou a identificação, com a platéia, mas, e ao mesmo tempo, subestima essa mesma platéia, deixando o conjunto e o resultado óbvios demais.
Apesar dos pontos fracos vale a pena assistir à peça. É um esforço (bem sucedido, sob alguns aspectos) de manter na cidade uma opção para o público gay. Ele, como qualquer outro público, quer “comida, diversão e arte”. O que vemos, em geral, é um circuito muito restrito de opções de entretenimento, fora às relacionadas ao sexo e dança, claro. Parabéns ao Centro Cultural Dejair Cardoso pela coragem de fugir deste “arroz com feijão”.

terça-feira, julho 17, 2007

Para não dizer que não falei do PAN

Ninguém agüenta mais este assunto. Até por que a TV quando quer enfiar algo na mente dos desavisados ela sabe como fazê-lo. Mas eu não poderia deixar de dar minhas impressões, pelo menos, sobre a abertura do evento.
Pelo ritmo que as obras vinham sendo feitas, parecia que não ia dar certo, porém o PAN tá aí, rolando numa boa. Mesmo com os problemas de infra-estrutura ao redor dos locais de competição. Nada incomum em eventos deste porte, em que os problemas são jogados para debaixo do tapete. Mas quero falar da festa. Afinal é isso que importa.

Muito além das vaias orquestradas por uma oposição, que só se mostra oposição desta forma infantil, e ampliada pela imprensa tendenciosa contra o presidente Lula, a cerimônia de abertura do PAN, no Maracanã, foi uma amostra muito feliz da diversidade e capacidade da criação artística do Rio, quiçá do Brasil.
Amplio pro Brasil, pois estiveram presentes artistas de vários lugares.
O instigante Cordel do Fogo Encantado – de Pernambuco, o conterrâneo Chico César – da Paraíba, a linda e inteligente Adriana Calcanhotto – do Rio Grande do Sul, a animada Daniela Mercury – de Salvador, o multi Arnaldo Antunes – de São Paulo, etc e tal.
Aliás, depois de todo aquele auê, que se formou sobre a letra do hino do PAN, de Arnaldo e Liminha, a música acabou cumprindo sua função. A galera do Maraca viveu a energia de estar ali e cantou junto a tal letra tão criticada.

A festa, idealizada pela carnavalesca Rosa Magalhães – carnaval e esporte têm mesmo laços estreitos por aqui –, assim como a letra do hino, apresentou a mistura de referências mitológicas, tanto do universo dos jogos quanto da história da formação do Rio e do Brasil.
Gostei muito do que vi. Apesar de estas cerimônias terem sempre um “q”
déjà vu. E, convenhamos, prestando atenção na pira, ela mais parece um estandarte de carro alegórico.

Enfim, eu, que nunca havia entrado no Maracanã, fiquei deslumbrado com a grandiosidade da festa de cores brasileiras e com a beleza de ver aquele mundo de gente cantando, aplaudindo...
Sim, alguns vaiam, fazer o que? Sempre há os que levam o comportamento de casa pra praça. Estamos num país democrático.


segunda-feira, julho 09, 2007

Me sentindo em casa

Na noite do dia 29 de julho do ano passado, ou seja, há quase um ano, acontecia, como acontecerá este ano, a Festa de Nossa Senhora das Neves, na capital paraibana. É a festa da padroeira, mas marca também o aniversário da cidade. Eu, ainda morador da minha terrinha, fui assistir, na rua, ao show de Renata Arruda, pela primeira vez, e gostei do que vi.
Renata começou cantando no Coral Universitário da Paraíba. Em seguida, aos 19 anos, mudou-se para Brasília onde deu início à carreira.
Em 1991, ela se mudou para o Rio e dois anos depois estava lançando o primeiro CD. Deste então tem emplacado algumas canções no mercado nacional.
A paraibana foi elogiada publicamente pela "divina" Elizete Cardoso que, após assisti-la num
a apresentação com Altamiro Carrilho, disse: “Esta menina cantou como as cantoras deveriam cantar. Ela não somente cantou com a voz, ela cantou com a voz, com o corpo e com a alma”.
Neste domingo (08/07/07), fomos assisti-la na Sala Baden Powell, em Copacabana, aqui no Rio de Janeiro. Foram apenas três apresentações tendo, a cada noite, convidados como Ney Matogrosso e Os Cariocas .
Dirigida por Lúcia Veríssimo, e acompanhada por três músicos, entre eles um baterista também paraibano, Renata interpretou, sempre cheia de paixão e tesão, canções que falam fundo aos conterrâneos dela, como: Roendo Unha (Gonzagão e Luis Santa Fé) e Espumas ao Vento (Accioly Neto).
Ainda marcada pela pegada firme de violão, marca do mais recente CD, Renata apresentou canções de seu próximo trabalho, mescladas a músicas já conhecidas, e intercalando-as com textos de sua autoria. Aliás, conforme anunciou, seu próximo disco será o mais autoral.
Particularmente prefiro-a apen
as como intérprete, ainda que eventualmente carregue nas tintas em algumas interpretações. É uma ótima experiência ver seu show. Renata - pela figura, pela presença, e pela entrega - é uma cantora de palco.

Elba Ramalho, a convidada da noite de domingo, entrou em cena após uma introdução percursiva remetendo, os ouvidos mais atentos, aos sons e ritmos do sertão nordestino.
Elba criou empatia imediata com o público, interpretando Chão de giz (Zé Ramalho), e depois acompanhando Renata em Roendo Unha. Voltou no biz para, sem instrumento algum, cantar De volta pro aconchego (Dominguinhos e Nando Cordel). A anfitriã, que assistiu o solo sentada na beira do palco, acompanhou a platéia nos aplausos.
E foi em meio a muitos aplausos que Elba disse: “Somos duas mulheres paraibanas, mulher-macho, guerreiras como nossas mães”. Salve Elba!
Como qualquer cantora antes do lançamento de um novo disco, Renata ficou mais à vontade quando tocou músicas de seu repertório já conhecido. Nessas horas se estabelecia a comunhão com a platéia, o coro e a marcação de palmas.
So pra ser minha mulher (Erasmo Carlos e Ronnie Von), Tudo seu cabe em mim (Renata Arruda e Dana Costa), Ouça (Maysa), Sangue Latino (João Ricardo e Paulinho Mendonça), Ninguém Vai Tirar Você de Mim (Edson Ribeiro e Hélio Justo) e Como nossos pais (Belchior), foram acompanhadas pelo público.
Destaco a engraçada letra de Soberano desprezo (Bráulio Tavares), feita sobre pequenos poemas-piada, com os versos “Sabe o que é que você é meu amor? / É um dente doente que se arranca de peixeira pra parar de sentir dor
É claro, senti falta do calor de minha gente cantando junto a cada canção interpretada, mas o público da Baden Powell não fez feio.
Ver aquelas duas mulheres, saídas lá de cima (como dizem por aqui), mostrando o que é que a Paraíba tem, lavou minh’alma e me emocionou.
Relembrei muito e muitos. Há pessoas, lugares e momentos que nenhuma peixeira arranca de nossas lembranças, nem queremos, na verdade.
O que quero é em breve ter meu olhar dando uma festa ao chegar por lá. Por enquanto, fico cá roendo unhas. "Desenhos que a vida vai fazendo / Desbotam alguns, uns ficam iguais".

quarta-feira, julho 04, 2007

Herança e Cenas de uma história

Num país como o nosso, com dimensões continentais, e que se constrói com base em uma cultura cada vez mais visual e imagética, a busca por meios de comunicação que abranja a maior quantidade de diversidades possíveis, com qualidade, parece quase impensável.
Porém, creio que a TVE Brasil, por todos os esforços visíveis na sua grade de programas, procura entender e apresentar a educação e a cultura em um sentido plural.
A história dessa “resistência” ao comercial e ao facilmente digerível foi registrada em dois livros lançados ontem no Espaço Cultural TVE Brasil/Rádio MEC, no Rio Janeiro.

Sob a pesquisa, organização e edição da jornalista Liana Milanez, os livros Rádio MEC – Herança de Um Sonho e TVE Brasil – Cenas de Uma História, além de recuperar as trajetórias das duas mais importantes emissoras públicas do Brasil, trazem também algumas fotografias e documentos históricos.
Entre as imagens destaco uma de 1982, com o encontro de dois grandes atores, no programa Os Astros, apresentado por Grande Otelo, entrevistando Ítalo Rossi. (Como eu gostaria de ter assistido a tal programa, e a muitos outros como o Patati-Patatá, Canto Conto... momentos, do tempo da delicadeza, dos quais só tenho notícias através de registros como estes.).
Durante a cerimônia, discursaram Franklin Martins, Ministro Chefe da Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República, e Luiz Paulo Conde, secretário de Cultura do Governo Sérgio Cabral Filho/RJ. Ambos elogiaram a importante atuação das emissoras Rádio MEC e TVE Brasil frente à preservação e manutenção da qualidade na comunicação.
Entre os convidados, estavam presentes aqueles que fizeram e fazem esta história acontecer, como: Bia Bedran, do
Canto Conto; Leda Nagle, apresentadora do Sem Censura, Michel Melamed, antenadíssimo e excelente com o seu Re[corte] Cultural; Sergio Britto, pelo seu programa sobre arte, a atriz Julia Lemmertz, que apresenta o Revista do Cinema Brasileira, etc, etc.
Entre esses ainda aponto a presença de Fernanda Montenegro, com a merecida honraria de sempre. Emocionante vê-la conversando com o Sergio Britto, relembrando “causos” das emissoras homenageadas.
Os livros trazem muitas histórias e curiosidades importantes para a formação da nossa memória cultural. Verdadeiras lutas já foram travadas, seja contra a censura, seja a favor da consciência ética. O programa Sem Censura, que entrou no ar logo depois d
a abertura política, numa clara referência ao fim da censura, como o próprio nome informava, procurou ser um exemplo disso.
Questiona-se muito a qualidade da programação da TV, no Brasil, o que me faz recordar a famosa frase de Groucho Marx:

Acho que a televisão é muito educativa. Todas as vezes que alguém liga o aparelho, vou para a outra sala e leio um livro

Concordo (em partes), pois quando a TV, através do uso da imagem, oferece ferramentas para o conhecimento, suje a educação. E quero crer que, com a missão, que deveria ser da comunicação pública em geral, de unir cultura e educação, buscando na tradição os rumos e as raízes para as ações do presente, a TVE Brasil e a Rádio MEC continuarão fazendo da herança de um sonho (de Roquette-Pinto e Tude de Souza) as matérias para as cenas de nossa história.

terça-feira, junho 26, 2007

Pré-pós-tudo-bossa-band (em CD e DVD)

Desde o seu primeiro trabalho, quando ainda assinava Zélia Cristina, Zélia Duncan tem demonstrado a consciência e o engajamento com a palavra cantada e mesmo com a palavra escrita, usando por vezes recursos eletrônicos de última geração, sem perder de vista a tradição.
Complicado? Para ela parece que não, pois são nesses contatos (ou seriam entre-lugares?) entre clássico e contemporâneo, Deus e Diabo, dor e elegância que se cria a atmosfera do disco Pré-pós-tudo-bossa-band.
Este trabalho de Zélia é um exemplo de como ser lúcido, sem ser politicamente chato. Longe do panfletarismo, o disco mistura o "mundo inteiro" e apresenta da primeira a derradeira canção – termo usado aqui no sentido definido pelo crítico e teórico Luiz Tatit, para quem o compositor é um malabarista equilibrando letra e melodia – um instigante projeto de crítica e avaliação do comportamento humano em tempos “pós-modernos”, tencionado também pelo encontro de vários gêneros e estilo
s musicais.
Na primeira faixa, de Lenine e Duncan, que dá título ao disco, os versos “todo mundo quer ser de novo o novo / O ovo de pé, o estouro” fica clara a intenção irônico-reflexiva do eu-lírico em relação ao narcisismo galopante de nossa época. Senão lembro também dos versos “todo mundo quer ser da hora / tem nego sambando com o ego de fora”. “Ego” está dentro da palavra “nego” e é onde, metaforicamente, deveria ficar. Porém, dado o contexto atual, o eu-lírico observa a inversão de posição.
Há ainda uma forte presença, essencialmente nas letras, da fanopéia de Pound, ou seja, as imagens criadas dão o tom esperado. É só observar a letra de “Mãos atadas”, de Simone Saback, dedicada à sempre presente Cássia Eller.
Para os que buscam a passionalização, as letras de “Inclemência”, “Eu não sou eu” e “Não” vão além da expectativa, com composições impactantes.

Particularmente gosto de “Carne e Osso”, de Duncan e Moska, na qual os versos, “A alegria do pecado / às vezes toma conta de mim” e “Perfeição demais / me agita os instintos / quem se diz muito perfeito e é tão bom não ser divina”, questionam a humanidade do divino e a divindade do humano, de maneira bem humorada.
Destaco também a letra de “Benditas”, de Mart’nália e Duncan, e os versos “bom é não saber o quanto a vida dura / ou se estarei aqui na primavera futura / posso brincar de eternidade agora / sem culpa nenhuma. E a canção “Vi, não vivi”, de Itamar Assumpção e Christiaan Oyens. Além, claro da música de Itamar Assumpção para o poema “Dor elegante”, de Paulo Leminski.

Esta semana Zélia Duncan lançou o DVD com o show homônimo. Está tudo lá, e muito mais, entre regravações e novidades, com algumas modificações aqui e ali nos arranjos, próprias para apresentações ao vivo, mais com a interpretação sem medo do risco sempre perceptível.
E no DVD destaco “Milágrimas”, canção absurdamente linda e comovente de Itamar Assumpção e Alice Ruiz, interpretada com a participação especialíssima de Alenis Assumpção, filha de Itamar, cujo verso “A cada mil lágrimas cai um milagre”, que, se a princípio soa cafona, exorciza qualquer baixo-astral.
Mas minha canção preferida, a que já embalou alguns bons momentos de reflexão interior, e a que, acredito, define bem a concepção deste trabalho é “Distração”, de Duncan e seu inseparável parceiro de trabalho Christiaan Oyens. Transcrevo a letra:

Se você não se distrai, o amor não chega / A sua música não toca / O acaso vira espera e sufoca / A alegria vira ansiedade / E quebra o encanto doce / De te surpreender de verdade
Se você não se distrai, a estrela não cai / O elevador não chega / E as horas não passam / O dia não nasce, a lua não cresce / A paixão vira peste / O abraço, armadilha
Se você não se distrai, / Não descobre uma nova trilha / Não dá um passeio / Não ri de você mesmo / A vida fica mais dura / O tempo passa doendo / E qualquer trovão mete medo / Se você está sempre temendo / A fúria da tempestade
Hoje eu vou brincar de ser criança / E nessa dança, quero encontrar você / Distraído, querido / Perdido em muitos sorrisos / Sem nenhuma razão de ser
Olhando o céu, chutando lata / E assoviando Beatles na praça / Olhando o céu, chutando lata / Hoje eu quero encontrar você

Enfim, Pré-pós-tudo-bossa-band, CD (estúdio), ou DVD (show ao vivo) é antes de tudo uma proposta de parceria com a vida, para aproveitar dela o que de melhor pode oferecer. Aponta que mesmo as coisas e situações “más” tem importância dentro da engrenagem, basta estar distraído para não deixar o acaso sufocar e atento a sua filosofia individual.
E haja adjetivos para "qualificá-lo".

terça-feira, junho 19, 2007

deusa pagã maravilha!!!

A série Errática - Poema ao Vivo, evento de leituras e performances que recriaram – no espaço real – o diálogo poético de linguagens desenvolvido na revista eletrônica Errática, em seis apresentações quinzenais, sob curadoria de André Vallias e Eucanaã Ferraz, no CCBB do Rio, já terminou.
Fiquei me devendo comentar os encontros que mais gostei: entre Adriana Calcanhotto e Eucanaã Ferraz; Arnaldo Antunes e Elke Maravilha; Jorge Mautner e André Valias. Todos artistas que admiro, pois cada qual
demonstra extrema lucidez em seu projeto individual de arte.
Dentre esses pinço Elke Maravilha e explico.
Confesso que fui mais por causa de Arnaldo Antunes (escrevo sobre ele outro dia). Mas foi Elke quem me surpreendeu e arrebatou com sua presença devastadora.
Quando criança, lembro daquela figura “estranha” como jurada do Cassino do Chacrinha. Sempre me chamava a atenção e eu ria com seu jeito todo próprio de se expressar. O tempo foi passando e ficando cada vez mais difícil vê-la na TV.
Hoje, conhecendo melhor sua história, sei que com seu estilo inovador e único, já na década de 6O despontava como símbolo de transgressão e liberdade. No Errática, Elke me impressionou pela força que sua presença impõe – pomba-nossasenhora-gira no palco – seu lado mais conhecido.
Mas a surpresa maior foi assistir uma deusa pagã declamando poemas em russo, francês, inglês, alemão e grego, além de algumas línguas indígenas. Depois
ousando traduções livres, demonstrando extrema erudição e sensibilidade, consciência política e humana, especialmente nos comentários que teceu sobre diversas questões do Humano, entremeados por experiências de sua vida.
Os textos variaram desde Homero, passando por Lorca, Drummond, Borges, desse leu o belo Fragmentos de um Evangelho Apócrifo:

“Desventurado o pobre em espírito, porque debaixo da terra será o que agora é na terra.
Desventurado o que chora, porque já tem o hábito miserável do pranto(...)
Feliz o que não insiste em ter razão, por ninguém a tem ou todos a tem.
Feliz o que perdoa aos outros e o que se perdoa a si mesmo(...)

Não odeies a teu inimigo, porque se o fazes, és de algum modo seu escravo. Teu ódio nunca será melhor que tua paz.
Se te ofender tua mão direita, perdoa-a; és teu corpo e és tua alma e é árduo, ou impossível, fixar a fronteira que os divide(...)
Não jures, porque todo juramento é uma ênfase.
Eu não falo de vingança nem de perdões; o esquecimento é a única vingança e o único perdão(...)
Felizes os amados e os amantes e os que podem prescindir do amor.

Felizes os felizes.”

E, emocionada (precisando parar duas vezes) declamou a melancólica letra de Assum Preto, de Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira:

Tudo em vorta é só beleza
Sol de Abril e a mata em frô

Mas Assum Preto, cego dos óio
Num vendo a luz, ai, canta de dor
Tarvez por ignorança
Ou mardade das pió
Furaro os óio do Assum Preto
Pra ele assim, ai, cantá de mió
Assum Preto veve sorto
Mas num pode avuá
Mil vez a sina de uma gaiola
Desde que o céu, ai, pudesse oiá

Assum Preto, o meu cantar
É tão triste como o teu
Também roubaro o meu amor
Que era a luz, ai, dos óios meus
Também roubaro o meu amor
Que era a luz, ai, dos óios meus.

Foi uma noite "maravilha" tanto pelos textos lidos, como pela forma como eles foram lidos e comentados.

Num tempo em que muitos se tornam caricaturas de se próprios, Elke Maravilha deu exemplo de que, por mais que a máscara da personagem esteja apegada à cara, é possível se desvencilhar dela.
Encerro com o justo texto-homenagem que Itamar Assumpção e Wally Salomão fizeram para a ela:

Elke Maravilha

Elke mulher maravilha
Uma negra alemã um radar
Um mar uma pilha
Elke mulher maravilha
Uma branca maçã avatar
Um luar uma ilha
Elke mulher maravilha
Uma deusa pagã um sonar
Um altar uma trilha
Elke mulher maravilha
Uma prenda Ogã um pilar
O ar mãe e filha

quarta-feira, junho 13, 2007

Avesso do avesso do avesso do avesso?

Estivemos em São Paulo neste feriadão de Corpus Christi e alguma coisa aconteceu com o meu coração, quando cruzei a Ipiranga e a Avenida São João.

Brincadeiras à parte, São Paulo é uma cidade linda, a Av. Paulista com seus postes enfeitados com vasos de flores, seus belos jovens deselegantemente discretos, seu bauru, seus museus, seus Campos... Ficarão guardados na memória, além do fato de ter encontrado amigos que até então eram apenas do universo virtual.
Sim, há uma dura poesia concreta em suas esquinas, ainda mais pra quem vem de outros sonhos felizes de cidades (João Pessoa e Rio). Mas há uma mística de cultura e civilização que ainda não tinha experimentado. Tudo bem, pode-se dizer que romantizo demais as coisas que vivo, mas esta é a minha lei e a minha questão.
A primeira parada foi no MASP, onde fiquei, pela primeira vez, frente-a-frente com o quadro A Canoa sobre o Epte, de Monet (paixão especial e singular), entre tantas outras obras.

Mais tarde foi a vez de caminhar pela Av. Paulista e parar noutros espaços de arte muito interessantes, como a nova Livraria Cultura. Ao chegar ao Itaú Cultural, fui surpreendido pela presença do poeta e professor, meu amigo e orientador de projeto acadêmico, Amador Ribeiro Neto, que foi de João Pessoa especialmente para o evento Encontros de Interrogação. Assistimos juntos ao debate da noite, no qual estavam presentes Daniel Galera, Márcio Souza, Luiz Costa Lima e o grande Glauco Mattoso.
A discussão tinha como tema os sentidos e os valores da Literatura. Ouvir Glauco Mattoso é sempre uma delícia. Muito pontual, ele não faz voltas para chegar a uma resposta. Talvez por isso o mediador – Nelson de Oliveira – tenha deixado sempre Glauco tecer suas considerações após os outros debatedores.

Glauco, Daniel e Márcio, no Itaú Cultural

Muito se discutiu sobre a relação escritor versus público (recepção), escritor versus crítica, sobre o que Glauco, militante no movimento “geração mimeógrafo”, falou lucidamente: “Me recuso a ser criticado por alguém que não tenha o mínimo de conhecimento métrico e teórico”, apontando o dedo para a ferida da chamada “crítica literária” do Brasil, que discute muito mais temas e sociologias do que a estrutura dos textos, a arte literária em si.
Para quem conhece a obra, sabe que Glauco Mattoso é dono de um rigor métrico e estético que chega a perfeição. E se recusa a publicar em uma grande editora (e ficar ausente da mídia), porque, segundo ele, não quer ter seus textos cortados ou modificados, como "um copidesk de jornal". Sem meias palavras, lembrou abertamente um caso particular dessa ordem, na editora Brasiliense. Enfim, fiquei encantado ouvindo uma pessoa com uma bagagem teórica e prática como Glauco falar.
O debate questionou ainda a onda de biografias e autobiografias, levantando-se a indagação: Será que alguém que escreveu uma carta (objeto privado – teoricamente) gostaria de vê-la publicada? O que faz de uma carta, por exemplo, uma obra literária? O autor contemporâneo está retratando o seu contexto?
No dia seguinte visitamos o Museu da Língua, que até setembro apresenta a exposição Clarice Lispector – A hora da estrela (fiquei bobo em saber que temos um espaço como aquele aqui no nosso Brasil); a Pinacoteca do Estado; o Mercado Municipal; a torre do Edifício Banespa (vista incrível); e etc e tal.
Sobre o avesso do avesso do avesso do avesso? Acho que preciso voltar lá novamente e ser mais um paraioca passeando por sua garoa, numa boa!

Ah, sim, fomos à 11ª Parada GLBT, mas sobre isso escrevi um texto pro blog Transitar, caso queira ler:
http://verboemmovimento.blogspot.com/


PS: as fotos (exceto a do quadro) são do Carlos.

terça-feira, junho 05, 2007

Encontro com Caetano Veloso

Quem me conhece sabe que Caetano Veloso, além de ser (suas canções) corpus para minha pesquisa acadêmica, é para mim uma das figuras mais instigantes de nossa arte e que não consigo ficar indiferente quando o assunto é sua obra. Por isso não poderia deixar de registrar aqui no blog o meu encontro com ele, explico:
Dia 22 de maio ele participou do “Encontros O Globo – Especial Música”, no auditório do jornal O Globo, onde respondeu perguntas dos jornalistas Antonio Miguel e Cora Rónai, do ''Globo'', do cenógrafo Hélio Eichbauer e da platéia.
Eichbauer fez longas perguntas, repletas de citações, desde Pound a Sousândrade, que Caetano elogiou como “ensaios condensados”. Uma delas falava da “dádiva da maturidade” e terminava com a interrogação: “Como acontece a música?”.
— Há muitas dádivas... A paternidade em primeiro lugar... A experiência com os muitos lugares, tempos e pessoas... Sou grato pela minha vida. Mas por outro lado há a experiência da decadência, a outra face dessa moeda... Quando passei a usar óculos, aos 45 anos, foi uma tragédia para mim. Depois me acostumei. Levou dez anos, mas me acostumei. Com tudo isso, a música sai às vezes melhor, às vezes maculada por coisas como a perda da visão.

Mas, como sempre, Caetano foi chamado para dar opinião sobre TUDO, desde a atitude de Roberto Carlos ao proibir a biografia – É impossível eu me sentir bem com uma proibição, me incomoda saber que estão recolhendo livros, disse Caetano; até sobre a política do Presidente Lula: É um luxo no Brasil, por ser um dos quatro presidentes eleitos pelo voto direto que exerceram seus mandatos até o final, ele, Gaspar Dutra, Juscelino Kubitschek e Fernando Henrique Cardoso... Mas ele não é muito mais do que isso... Ele se mostrou hábil na capacidade de se manter no poder, disse.

Sobre a “Tropicália no poder”, por causa da presença de Gilberto Gil como Ministro da Cultura, comentou: — A chegada de Gil ao ministério (da Cultura) não está entre as conquistas mais relevantes do tropicalismo — respondeu Caetano. — Eu não queria que ele fosse ministro. Não me anima estar próximo do poder oficial. Disse a Gil que ele se tornaria o Lula do Lula, um símbolo de um símbolo... Daria um colorido a mais para o que Lula representa... Bastaria Gil estar ali, mas ele fez coisas, como os Pontos de Cultura e também o reconhecimento da reprodutibilidade da obra cultural nos novos tempos. Nesse pequeno aspecto, é levemente tropicalista.

Quanto às influências literárias citou Augusto dos Anjos, Bandeira, Drummond, Cecília Meireles e João Cabral e Sousândrade. Afirmando que não se considera poeta no sentido específico do termo.
Ele se empolgou mais ao falar do processo de produção de seu mais recente CD: , mostrando que as concepções dos arranjos nasceram no violão, apesar de desde o início ser pensado para ser tocado por uma banda, e aproveitou para anunciar sua intenção em gravar outro álbum com Pedro Sá (guitarra), Ricardo Dias Gomes (baixo) e Marcelo Callado (bateria):
— Gosto muito de como Pedrinho faz levadas de samba na guitarra. Quero juntá-lo com Davi Moraes, que também tem coisas boas nessa linha.

Sobre gravadoras, piratarias e download:
— As gravadoras estão acabando da forma como as conhecemos. A mudança tem aspectos excitantes, outros preocupantes, mas na essência não muda nada para os criadores, que continuam fazendo música. O compartilhamento de músicas é muito bom... Mas meu filho baixa basicamente música popular em inglês, o que já predominava na indústria.

E lançou seu olhar sobre a ordem mundial quando Eichbauer descreveu um cenário de inferno capitalista traçado por Ezra Pound:
— Apesar das previsões sombrias do meio ambiente e da disparidade de poder entre grupos de nações, acredito no futuro... O excesso da perspectiva científica desfaz a humana, que é espiritual. Pode ser que um asteróide destrua tudo, ou que as máfias dominem o mundo... Mas prefiro pensar que o Brasil tem a possibilidade de criar uma nova experiência de vida humana e fará isso.

Valeu muito a pena ficar pouco mais de uma hora na fila, só para vê-lo de perto e, além de perceber a lucidez de suas afirmações, ouvi-lo tocar e cantar: Odeio, Outro, Ta combinado, Força estranha, Minha voz minha vida, entre outras belas mostras da capacidade criativa e inventiva deste velho baiano, um fulano, um caetano, um mano qualquer.
Pena não aproveitarem melhor sua presença, através de perguntas mais pertinentes à sua produção artística.

terça-feira, maio 22, 2007

A saída está na poesia!

Escrever sobre Ariano Suassuna é escrever sobre um bom humor irresistível, sobre seu grande talento literário (do qual destaco Uma mulher vestida de sol) e da enorme influência exercida sobre várias gerações, além, claro, de sua ranzinzisse crônica – na resistência contra a “desfiguração da identidade cultural” e a defesa da ancestralidade erudita nascida das manifestações populares.
É sobre este Suassuna escritor e pensador que assistimos – dia 18/05 – a peça Ariano, em cartaz no CCBB, do Rio de Janeiro, até 15 de junho. A montagem faz parte das homenagens pelos seus 80 anos.
Com autoria do jornalista paraibano Astier Basílio e Gustavo Paso e sob direção deste, a peça narra uma saga poética (começando pela marcante morte de seu pai), em que o jovem Ariano, interpretado pelo pernambucano Gustavo Falcão, segue em busca do Reino de Acauã, uma referência à Fazenda Acauã, onde o escritor nasceu, no interior da Paraíba.
Há uma reverência ao conjunto de criações do autor de O auto da compadecida, vemos o Ariano-personagem às voltas com seus adversários ou com suas criaturas de teatro e romance – quase todos retirados da admirável mitologia nordestina, sem esquecer do sebastianismo (Dom Sebastião é interpretado por Jorge Luís Cardoso), tão presente na obra do criador de Chicó (Ney Motta) e João Grilo (Maurício Baduh).
Misturando referências biográficas de Suassuna com personagens de sua obra, a peça segue a estrutura da Divina Comédia, de Dante Alighieri, com três atos, Sol (representando o inferno) Sangue (purgatório) e Sonho (paraíso).
Obviamente, uma peça com muitos atores – o talentoso Gustavo Falcão lidera um elenco de 14 atores, da Cia Epigenia Arte Contemporênea – tem lá uns personagens mal interpretados, mas nada que ofusque a totalidade e a magia criadas pelo texto, cenário e iluminação.
A saída está na poesia” é uma frase sempre dirigida ao Ariano quando o personagem se encontra diante dos dilemas levantados, mais uma poética e metalingüística solução, encontrada pelos autores da peça, para homenagear o autor da frase:

A gente tem uma tendência a querer que o tempo da história coincida com o tempo de nossa biografia. O progresso moral da Humanidade é muito lento.”

Numa cultura desmemoriada, como a nossa, Suassuna exerce um papel importante, mesmo que com conceitos questionáveis.
Fica registrado que há homenagens e Homenagens. Ariano é uma Homenagem apaixonada, inteligente – com todos os recursos intertextuais do texto e da encenação – e merecida, feita ao autor de A pedra do reino, o nosso Quixote sertanejo!