A certa altura do disco "Eu não peço desculpa" Jorge Mautner sentencia: "Ou o mundo se brasilifica ou vira nazista". Esta expressão parece ser uma chave de entendimento da obra desse artista que soube sacar a relação amalgamada entre "Jesus de Nazaré e os tambores do Candomblé", pelo filtro da sombra do vulto de Zaratustra.Assim, o livro "O filho do holocausto" é mais do que as memórias de infância e adolescência do "vigarista Jorge". O livro apresenta a trama total da gênese de uma obra impregnada pela dança das instabilidades do mundo. Nele, Mautner se permite ficar exposto aos raios da kriptonita e demonstrar como é possível entender a complexidade do Brasil, pela via da hibridização, ou amálgama, como ele prefere chamar, dos signos.
Como vampiro e supremo tarado, adepto da antropofagia oswaldiana, percebe-se que a obra de Mautner luta contra essencialismos com um amor flutuante acima do bem e do mal, mesmo seguido pela sombra do passado, e talvez por isso mesmo. É possível sentir lampejos de vida para a compreensão do demasiadamente humano no Brasil, onde a moral mantem-se por um fio dental. Pergunta-se: Maior liberdade ou maior repressão? Os dois, amalgamados. Samba jambo, samba japonês, feitiço indecente e vodu.
Jorge Mautner olha demais para o amor, mesmo sabendo, e talvez por isso também, que amor não é aquilo que a gente deseja que ele seja. Mautner ensina que viver sem grilo é possível, mesmo com a cricrilar da memória afetiva. Ao exemplo de Nietzsche em "Ecce homo", Mautner passa em revista suas inúmeras influências literárias e filosóficas e faz exaltações. Além de evocar sua chegada ao Brasil como filho do holocausto e da alegria de ter tido uma adepta do candomblé como babá. Tudo com linguagem bastante singular. Ele joga o anzol para pescar o sol e sabe (e como ele sabe!) que tudo que pesca é um rouxinol, que canta para causar um riso de amor.
No livro "O filho do holocausto", diante da emergência do sujeito, Mautner - profeta que sempre prega no deserto - experiencia o espaço incorporando a sabedoria do que é cotidiano e simples. Esconde as lágrimas negras, vez por outra, e tem a certeza da impossibilidade de ter paz no coração, por viver embriagado de paixão. Astronauta da saudade eletrônica, Jorge Mautner, sabedor de que a cor negra é um acúmulo de azuis, em "O Filho do holocausto", é um pensador contra a ideologia da agonia. "Belezas são coisas acesas por dentro / Tristezas são belezas apagadas pelo sofrimento", canta.
Texto publicado no Jornal A União em 13/06/2009
Entre outros, ouvi, vi e li, por estes dias:
= Filme Otto; Or, Up With Dead (Bruce La Bruce) - Imprescindível metáfora de nossos dias, em que um jovem (suposto) zumbi se questiona se vale a pena morrer quando já estamos mortos. Os recursos de sobreposições pornográficas dão o clima exato deste meta-filme.
= Filme Angels & Demons (Ron Howard) - A presença de Ewan McGregor entrega muita coisa. O filme vale pelas belas locações.
= Livro Culturas híbridas (Nestor Garcia Canclini) - A história da hibridização das culturas é contada e exemplificada em linguagem acessível.
= Livro Proteu ou a arte das transmutações (Luís Carlos de Morais Junior) - Pioneiro trabalho acadêmico sobre a obra de Jorge Mautner.

Como vampiro e supremo tarado, adepto da antropofagia oswaldiana, percebe-se que a obra de Mautner luta contra essencialismos com um amor flutuante acima do bem e do mal, mesmo seguido pela sombra do passado, e talvez por isso mesmo. É possível sentir lampejos de vida para a compreensão do demasiadamente humano no Brasil, onde a moral mantem-se por um fio dental. Pergunta-se: Maior liberdade ou maior repressão? Os dois, amalgamados. Samba jambo, samba japonês, feitiço indecente e vodu.
Jorge Mautner olha demais para o amor, mesmo sabendo, e talvez por isso também, que amor não é aquilo que a gente deseja que ele seja. Mautner ensina que viver sem grilo é possível, mesmo com a cricrilar da memória afetiva. Ao exemplo de Nietzsche em "Ecce homo", Mautner passa em revista suas inúmeras influências literárias e filosóficas e faz exaltações. Além de evocar sua chegada ao Brasil como filho do holocausto e da alegria de ter tido uma adepta do candomblé como babá. Tudo com linguagem bastante singular. Ele joga o anzol para pescar o sol e sabe (e como ele sabe!) que tudo que pesca é um rouxinol, que canta para causar um riso de amor.
No livro "O filho do holocausto", diante da emergência do sujeito, Mautner - profeta que sempre prega no deserto - experiencia o espaço incorporando a sabedoria do que é cotidiano e simples. Esconde as lágrimas negras, vez por outra, e tem a certeza da impossibilidade de ter paz no coração, por viver embriagado de paixão. Astronauta da saudade eletrônica, Jorge Mautner, sabedor de que a cor negra é um acúmulo de azuis, em "O Filho do holocausto", é um pensador contra a ideologia da agonia. "Belezas são coisas acesas por dentro / Tristezas são belezas apagadas pelo sofrimento", canta.
Texto publicado no Jornal A União em 13/06/2009
Entre outros, ouvi, vi e li, por estes dias:
= Filme Otto; Or, Up With Dead (Bruce La Bruce) - Imprescindível metáfora de nossos dias, em que um jovem (suposto) zumbi se questiona se vale a pena morrer quando já estamos mortos. Os recursos de sobreposições pornográficas dão o clima exato deste meta-filme.
= Filme Angels & Demons (Ron Howard) - A presença de Ewan McGregor entrega muita coisa. O filme vale pelas belas locações.
= Livro Culturas híbridas (Nestor Garcia Canclini) - A história da hibridização das culturas é contada e exemplificada em linguagem acessível.
= Livro Proteu ou a arte das transmutações (Luís Carlos de Morais Junior) - Pioneiro trabalho acadêmico sobre a obra de Jorge Mautner.





















