Teatro Rival
16/11/2010






Em período de campanha eleitoral, não faltam aqueles candidatos que querem ser “a sua voz” nos poderes legislativo e executivo. Com a pluralidade, e especificidade, dos tipos, na tentativa de cobrir o maior número de público eleitor, opções para “médiuns” de “sua voz” enchem os programas eleitorais, além de emporcalharem as ruas.
O problema é que “minha voz é minha vida”: através daquilo que canto e conto invento um “eu” (um ser) e me sustento na existência, singularizo um “eu” no mundo. Ter voz, importa marcar, não é causar falatório: mas engendrar gestos de afirmação da vida – implicar-se com as palavras e as coisas do universo ao meu redor. Portanto, vale se questionar: quero dar minha voz, minha vida? E para quem?
Dar a voz (a única libertação) é perder a vida. Claro está que este desejo, tão caro aos candidatos, de ser “a sua voz” vem da nossa vocação (tão brasileira) à dissimulação: em, por exemplo, deixar todas e quaisquer decisões e responsabilidades nas mãos do governo (Estado), esvaziando-nos de comprometimentos.
Penso nisso enquanto ouço Cida Moreyra, no disco “Cida Moreyra canta Chico Buarque” (1993), com a lucidez musical que lhe é própria, interpretando a canção, de 1981, "A voz do dono e o dono da voz", de Chico Buarque.
No livro “Histórias de canções: Chico Buarque”, Wagner Homem registra que a canção, foi uma "resposta irada e irônica" à uma discussão entre Chico e sua gravadora de então.
Outra informação importante, oferecida por Wagner Homem, é a de que "a expressão 'o dono da voz' apareceu pela primeira vez nessa canção e rapidamente foi incorporada ao vocabulário da língua portuguesa. Era uma brincadeira de Chico com o lema 'The master's voice' (A voz do dono), da gravadora RCA Victor, que exibia um cachorrinho observando atentamente um gramofone".
Ao fechar a canção com o verso "o que é bom para o dono é bom para a voz" – canto paralelo (paródia, paráfrase) de "o que é bom para os Estados Unidos é bom para o Brasil", a assustadora e reveladora frase dita por Juracy Magalhães, ministro das Relações Exteriores do governo militar brasileiro – Chico, ironicamente, amarra a discussão lançando o problema para o ouvinte. Ou seja, esta lógica é lógica?
Afinal, quem pode mais: a voz do dono, ou o dono da voz? Se tanta gente quer ser “a sua voz” é “somente porque ‘sua vida está’ aqui na voz”.
Texto publicado no jornal A União, em 02/10/2010
Não esquecemos facilmente a voz de uma sereia. A primeira vez que ouvi Marya Bravo foi no Espaço Cultural José Lins do Rêgo, na capital paraibana. Marya fazia back vocal no show "Memórias, crônicas e declarações de amor", de Marisa Monte. Mas aquela moça, no fundo do palco, seus vocalizes, suas entradas nas horas certas, sua voz, enfim, despertaram minha atenção. Em rápida busca na internet, descobri que Marya era, ou foi, (ninguém mais, ninguém menos) a garotinha do famoso comercial da Cremogema. Sim: “cre cremo cremo cremogema”.Coordenação Geral: Júlio Diniz e Paulo Henriques Britto
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