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sexta-feira, agosto 20, 2010

Jorge Mautner

Jorge Mautner
Ecos da Cidade
Sala Funarte Sidney Miller 20/08/2010

Participação Leila Maria

quinta-feira, agosto 19, 2010

Extravaganza tropical

Depois de ser lançado como novidade/revelação, em geral, o artista (como qualquer profissional) precisa passar pela fase da (auto)afirmação. Foi assim, por exemplo, com Ney Matogrosso que, egresso do grupo Secos e molhados, se despiu da máscara para investir na voz e dizer a que veio: ser um dos nossos melhores intérpretes.
Guardadas as devidas proporções (contextuais, principalmente), o mesmo gesto acontece, agora, com Silvia Machete. Depois do mais que merecido sucesso do disco anterior (que rendeu CD e DVD ao vivo), a cantora, cujo epíteto de performática lhe cai como uma luva, quer mostra em Extravaganza (2010) que é mais do que uma entretecedora que canta: e consegue.
Feita nos palcos da vida, e nos picadeiros do mundo, Silvia Machete tem algo que canta nossa alma brasileira (tropical): um misto de timidez (versos em primeira pessoa) e espalhafato (deboche de si): simplesmente mulher. Uma voz feminina que canta, com coração valente, as paisagens femininas (frágeis, ou não).
Mesmo quando canta "Manja de reis", de Jorge Mautner e Nelson Jacobina - canção com teor homoerótico masculino, pela descrição do sexo oral, em que as personagens mudam de lugar durante a canção – a voz feminina Silvia, com malandragem peculiar, sustenta a malícia da cena cantada.
Usando boa palheta sonora e pictural do Brasil, as canções de Extravaganza valorizam bem a altura da voz de Silvia, com letras e melodias que, de certo modo, não deixam o universo circense ficar para trás. É o caso de "Sábado e domingo", de Domenico Lancellotti e Alberto Continentino. A canção trás um acompanhamento de (quase) fanfarra que remete o ouvinte às idas ao circo nos finais de semana.
O cheiro de pipoca paira no ar e nos arrasta (cansados de fazer todo dia tudo sempre igual) para o sábado e domingo do descanso, dos encontros e da recarga de energia. Aliás, ouvir (e assistir) Silvia Machete é recarregar as baterias do motor da alegria.
A metáfora do "desvio de rotina" é usada também para se referir a tempos mais feliz: para além do outono. Passado que, sem demora, retorna alegrando o sujeito da canção. Esperas e saudades se dissipam na certeza da notícia boa.
Resta extravasarmo-nos e torcer para que Silvia não perca de vista seu potencial lúdico e de (auto)ironia: que driblam com safadeza os corações caretas, e outros nem tanto.

Texto publicado no jornal A União-PB, em 17/08/2010

Entre outros, ouvi, vi e li, por estes dias:

= Show Brasileirinho - Comandado pelo Trio Madeira Brasil, com participações de Yamandú Costa, Tereza Cristina, Jorginho do Pandeiro, Marcos Suzano, Zé da Velha, Pedro Miranda, entre outros, o show é o grande encontro do choro contemporâneo. Vale muito a pena curtir o DVD.
= Show Extravaganza (Sílvia Machete) - Afirmação da beleza que é viver.
= Filme Aprendiz de feiticeiro - Booooobo.
= Filme O príncipe da Pérsia - Bons efeitos que remetem ao vídeo game inspirador do filme.
= Peça A loba de ray ban - Forte: o texto é cheio de citações, colagens. Apesar da encenação ser um tanto arrastada.
= Exposição Sérgio Rodrigues: Um designer dos trópicos - Boa amostra do trabalho deste grande artista. Caixa Cultural/RJ até 19/10.

quarta-feira, agosto 11, 2010

Silvia Machete

Silvia Machete
Extravaganza
Teatro Tom Jobim 10/08/2010

terça-feira, agosto 10, 2010

Sexo para ouvir

Desde que Rodrigo Faour verticalizou sua pesquisa (e interesse) sobre canção para o campo do sexo, somos brindados pelo seu ouvido atento, de quem coleciona e come música desde sempre, com raros objetos de desejo. De fato, Rodrigo exerce um papel fundamental e louvável, em um país que teima em esquecer sua história, no caso, sonora.

Depois de ter lançado o imprescindível livro História sexual da MPB, além de apresentar o programa de rádio e a séria de TV Sexo MPB, Rodrigo lança a coletânea de mesmo nome – Sexo MPB – com preciosidades que fazem despertar a libido de qualquer ouvinte afeito ao sabor do gesto cancional brasileiro: dengoso e malandro; solar e passional: tudo junto e agora.

Como a maioria das antologias, Sexo MPB tenta agradar diversos ouvidos e gostos, em uma mistura de ritmos que tem como ênfase o canto da hora da cama: o encontro dos corpos. Por isso, dias cinzentos de outono (as disjunções amorosas) convivem, tête-à-tête, com manhãs de luz (as conjunções afetivas). Aliás, a perspicácia do pesquisar está, justamente, em tornar tão convergentes diferentes miradas sobre as questões do corpo na canção: dar o mesmo tratamento a estilos e formas bem diversas.

As letras picantes e as melodias quentes (cheias de mormaço tropical) atravessam as 30 canções de Sexo MPB estimulando o interesse do ouvinte. Duplo, como dois corpos que se completam (se encaixam), o CD é dividido em “Canções sensuais”, em que o sexo é mais sugerido do que explícito, tratado com certa delicadeza – “Dois pra lá, dois pra cá”, na voz de Elis Regina; e em “Músicas safadinhas”, com o sexo exposto em sua malemolência (os famosos e gostosos “duplos sentidos”) e pletora de alegria – “Só gosto de tudo grande”, interpretada por Marinês, ou “Eu sou o cômico”, na voz de Zenilton; por exemplos.

Energias masculinas, femininas, neutras e demais se misturam e se devoram em uma festa (orgia) de sons e versos no ritmo dos corpos que curtem o barato total das canções. Em tempos de tanta caretice, quando as relações erótico-afetivas são cantadas em um tom que não chegam a afetar a pele das personagens, o trabalho de Rodrigo Fauor, em seu Sexo MPB, aponta que o sexo (a cantada que sanha e arranha o corpo) pede para ser lido, visto e ouvido naquilo que ele é: sexo, simples como fogo.

Texto publicado no jornal A União, em 31/07/2010

Entre outros, ouvi, vi e li, por estes dias:

- Filme Natimorto – Baseado no livro homônimo, um mergulho vertiginoso.
- Filme Toy story 3 – O desempenho e o aproveitamento das personagens são comoventes: muito bem feitos.
- Filme Sex and the city 2 – Um desfile bacana de tipos e modas.
- Filme O bem amado – O clima criado pelo diretor é incrivelmente intenso e pesca o voyeur. Marco Nanini, como sempre, arrebenta.
- Peça O que eu gostaria de dizer – Um espetáculo de ator e diretor. Construções conscientes de personagens.
- Peça Fala comigo como a chuva – Proposta cênica interessante. Mas o texto se perde em atuações confusas.
- Peça Calígula – A entrega de Thiago Lacerda à personagem é surpreendente. Muito além de qualquer expectativa, que, no meu caso, era nenhuma.
- Peça O capitão e a sereia – Linda homenagem aos cavalos marinhos de nordeste.
- Exposição Sergio Rodrigues um designer dos trópicos – Excelente amostra da obra do nosso grande designer de móveis.
- Show TumTumTum (Déa Trancoso) – Confesso que não a conhecia: uma surpresa encantadora, tamanhas simplicidade e competência.
- Show Música de brinquedo (Pato Fu) – A banda conseguiu levar para o palco (trabalho ensandecido) a magia e sonoridades do disco de mesmo nome. Bravo!

domingo, agosto 08, 2010

Pato Fu

Pato Fu
Música de Brinquedo
Teatro Nelson Rodrigues 07/08/2010

quarta-feira, agosto 04, 2010

Encontros Pernambucanos

Isaar
Geraldo Azevedo
Orquestra Filarmônica 28 de Junho
Teatro Nelson Rodrigues 03/08/2010

Mestre de cerimônias
Orquestra Filarmônica 28 de Junho
Isaar
Geraldo Azevedo

segunda-feira, agosto 02, 2010

Ciclo de Conferências

Ciclo de Conferências: Poesia, Letra e Música

3/8 - Antonio Carlos Secchin: "Chico Buarque: a poesia no chão"
10/8 - José Antonio Nonato Duque Estrada de Barros: "Noel Rosa, o letrista"
17/8 - Nelson Motta: "Vinicius e Chico, dois emblemas"
24/8 - José Miguel Wisnik "MPB e Tropicalismos"

ENTRADA FRANCA

ACADEMIA BRASILEIRA DE LETRAS
Av. Presidente Wilson 203, Castelo
Teatro R. Magalhães Jr.
Terças-feiras, às 17h30

sexta-feira, julho 30, 2010

Déa Trancoso

Déa Trancoso
TUMTUMTUM
Teatro de Arena - Caixa Cultural
29/07/2010
Mariana Baltar
Vânia Lucas
Cláudio Nucci / Maurício Féres / Tabajara Belo / André Siqueira
Beht Leivas / Danusa Menezes

terça-feira, julho 06, 2010

O escritor e a escrita

Livros com depoimentos, correspondências e entrevistas com escritores (ou não) surgem à mancheia. Porém, no livro “Diálogos oblíquos” (1999), verdadeiro primor diante de tantos livros “similares” que alimentam o nosso mau voyeurismo (apesar de dizer muito sobre nós), não bastassem as entrevistas, que nos permitem o contato com alguns dos criadores mais significativos de nossa recente história literária, Bella Jozef agracia o leitor com uma espécie de teoria da entrevista.
Essa coletânea de perguntas e respostas que 34 escritores latino-americanos desenvolveram, em épocas distintas, junto à ensaísta e professora Bella Jozef é, sem dúvida, uma fonte rara de pesquisa e deleite para todo leitor atento ao fazer literário.
Em “Diálogos oblíquos” o enfoque é a criação, suas margens e alcances. Através do confronto do artista com a obra, Josef estimula o pensamento sobre o conflito humano e sua representação pela literatura. A resposta para a pergunta “o que é um escritor latino-americano?” atravessa o livro e dispara outras perguntas e imersões filosóficas.
A desterritorialização do texto, apesar da nacionalidade do autor; as geografias do espaço; o condicionamento das circunstâncias sócio-políticas; o diálogo entre o ser e o mundo; a relação (de amor e ódio) com a palavra; o rompimento das fronteiras entre os países, principalmente pós anos 1960; a conservação da memória; a ruptura da inspiração rural e o caminho urbano; e como a literatura latino-americana é herdeira de todas as literaturas, são alguns dos temas tratados.
Sob a orquestração de Josef, o exilado Severo Sarduy afirma que nunca saiu de Cuba; o argentino Jorge Luis Borges diz que o escrito deve ser verdadeiro com a imaginação, já que a realidade referencial não satisfaz; e Octávio Paz teoriza sobre a inspiração.
Ao final, percebemos como determinados temas se repetem (a invenção de uma mitologia e as incidências do real, por exemplo) no imaginário latino-americano e, consequentemente, na literatura feita por aqui.
“Diálogos oblíquos”, com Manuel Puig falando da imposição do instante e Mário Vargas Llosa investigando o nascimento das personagens, entre outras pérolas, é fonte de sabedoria. Ler estes autores, cada um com suas (ir)regularidades, leva-nos a concluir que a literatura (latino-americana, ou não) é trabalho intelectual (tensionamento da dúvida), exaustivo e necessário, tanto para quem faz, quanto para quem lê e consome.

Texto publicado no jornal A União, em 17/07/2010


Entre outros, ouvi, vi e li, por estes dias:

= Show Voz e violão (Márcia Nascimento Gonçalvez) - Com voz segura e quente, Márcia enriquece canções raras e under: de Zeca Afonso, Raimundos, Cazuza e outros "marginais".
= Show Sweet Jardim (Tiê) - Todo terno, o show é uma boa tradução do disco de mesmo nome.
= Show Efêmera (Tulipa Ruiz) - Com atitude rock e totalmente demais!
= Show Certa manhã acordei de sonhos intranquilos (Otto) - SIM: ver Otto no palco é sentir (na pele) que a vida vale a pena.
= Filme Kick-ass - O filme mais inteligente do ano!!!
= Filme Le petit Nicolas - O melhor filme do ano!!!
= Filme I love you Phillip Morris - Humor ácido e mais uma prova do quão excelente ator Ewan McGregor é.
= Filme Patrick 1,5 - Bom e atual mote, mas com roteiro arrastado.
= Peça Genet: os anjos devem morrer - Diluição pura, apesar da honesta intenção.
= Musical Gota d'água - Arrebatador! A entrega dos atores; a música; e as canções que entraram para nosso cotidiano.

segunda-feira, julho 05, 2010

Otto

Otto
Certa manhã acordei de sonhos intranquilos
Circo Voador/RJ
03/07/2010

Foi uma experiência tão intensa que esqueci de fotografar
a única foto que tirei foi esta, quando Otto entrou.
Depois foi só acontecimentos;
afirmação da existência;
sim à vida.

segunda-feira, junho 28, 2010

Convite: Me roubaram uns dias contados


Editora Record e Livraria Museu da República
convidam para o lançamento do livro

Me roubaram uns dias contados,
de Rodrigo de Souza Leão

Dia: 02 de julho, sexta-feira, 19h

Debate com Franklin Alves Dassie, Leonardo Gandolfi
e Suzana Vargas.
Mediação: Ramon Mello

Livraria Museu da República
Rua do Catete, 153. Palácio do Catete
Rio de Janeiro/RJ - Tel: (21) 2556 5828

O Museu da República dispõe de estacionamento
e fica em frente à Estação Catete do Metrô.

quinta-feira, junho 24, 2010

Tiê

Tiê
Sweet Jardim
Teatro de Arena - Caixa Cultural/RJ
23/06/2010

sábado, junho 19, 2010

José Saramago


Em seu Diário, no dia 3 de Dezembro de 1935, escreveu Miguel Torga: “Morreu Fernando Pessoa. Mal acabei de ler a notícia no jornal, fechei a porta do consultório e meti-me pelos montes a cabo. Fui chorar com os pinheiros e com as fragas a morte do nosso maior poeta de hoje...” Hoje, agora há pouco, neste dia 18 de junho de 2010, chega-me pelo telefone a notícia de que morreu Saramago. Não tenho pinheiros nem fragas para meter-me entre eles e ir chorar minha profunda tristeza, mas posso, pelo menos, dizer que estou chorando a morte do maior ficcionista de Portugal, um dos meus mais queridos amigos...

Cleonice Berardinelli

segunda-feira, junho 14, 2010

A festa da fé

O xote, o xaxado e o baião, com suas derivações, sempre estiveram presentes na obra de Gilberto Gil. Vira e mexe, é possível identificar as matrizes do sertão nordestino impregnando as canções de Gil com sonoridades de puro encantamento e ritmo.
Fé na festa, novo disco de Gil, adensa estas miradas nordestinas utilizando os estratos melódicos/rítmicos e os temas das noites de céu em festa: noites de São João. A festa que, como o mundo, segue a pulsação e as variações impostas pelo tempo. Pesco "O livre atirador e a pegadora", um xote dengoso, como pretexto de minhas observações.
O sujeito da canção sente o clima sensual das noites frias de junho, mas expande seu canto para o comportamento dos brincantes (aqueles que vão, e fazem, à festa) dos festejos populares do Brasil inteiro. "Vale pro Rio, São Paulo, pra Bahia", canta.
O mote é o malfadado e desejado "vale-night" (outrora conhecido como "alvará de soltura" ou "alforria"). Ele é a solução para a agonia daqueles que querem curtir a festa, com liberdade, mas não querem ficar mal com seus parceiros (fixos). O "passaporte da alegria" atesta e formaliza a ideia de que "eu sou de ninguém, eu sou de todo mundo e todo mundo é meu também". Mas, óbvio, como toda formalidade, o vale (night or day) tem um prazo de validade, estabelecido pelos namorados.
Sem juízo de valor, ou qualquer falsa moral, o sujeito, meio confuso, canta (observa e registra) o novo modelo ético-erótico-afetivo estabelecido pelas pessoas na festa, em que a quantidade de "ficadas" ("muita performance, muita parada") despoleta, ou não, a qualidade das relações, tão quentes e frágeis quanto uma brasa de fogueira. Ou, como canta o sujeito melancólico da canção “Estela azul”, frágil como um balão de seda, porém, sem o stress das relações românticas, com suas pressões e cobranças intrínsecas.
O sujeito de “O livre atirador e a pegadora” não sabe mais como definir os casos eróticos: "Não é casal porque não são casados, não é um par porque logo são três, ou mais" e vaticina "amor pra eles é amor pletora". Nomes de bandas, tais como Timbalada, Babado Novo, Psirico e Calcinha Preta, viram substantivos e adjetivos que espelham e espalham a sensualidade pela noite afora.
Fé na festa, com Gil xaxando no barro, na capa, indicia as mudanças na paisagem das noites de São João e a fé na continuidade da festa. Memórias e sintomas se justapõem para concluir que afinal é preciso mudar para permanecer.

Texto publicado no jornal A União, em 13/06/2010

Entre outros, ouvi, vi e li, por estes dias:

= Ópera Il Trovatore - A montagem asséptica de Bia Lessa investe na palavra e no canto.
= Peça 3 horizontes - Um trabalho bem cuidado.
= Filme A single man - Asséptico e bonito. O final poderia ser diferente, apesar dos índices.
= Filme El secreto de sus ojos - Como o filme feito na Argentina é vigoroso!
= Filme Date night - Feito para o brilho dos protagonistas.
= Filme Plano B - Bobinho, mas desopilante.
= Filme Soul Kitchen - Humor, ação e atuações incríveis.
= Dança Mané gostoso - Boa amostra da malemolencia nordestina.
= Dança Intérieur nuit - Jean-Baptiste Andre se põe inteiro para registrar a angústia título.

sábado, junho 12, 2010

SEMINÁRIOS INTERNACIONAIS INTERSEMIÓTICOS VI

SEMINÁRIOS INTERNACIONAIS INTERSEMIÓTICOS VI:
Roland Barthes, do estruturalismo ao pós-estruturalismo.

Coordenação Geral:
Prof. Dr. Latuf Isaias Mucci

Dias 20 e 27 de JULHO de 2010 - UFF


Mais informações e Inscrições

segunda-feira, maio 31, 2010

Darwin, Mozart e a trilha sonora da mente

No momento em que o interesse pelos estudos sobre música e canção aumenta no Brasil, o livro de Daniel J. Levitin, “A música no seu cérebro – a ciência de uma obsessão humana”, lançado agora aqui, merece atenção e leitura sublinhada e crítica.

Diretor do Laboratório de Percepção, Cognição e Especialização Musicais da Universidade McGill, em Montreal, Canadá, Levitin vem desenvolvendo pesquisas referenciais sobre uma área pouco investigada: a relação íntima entre cérebro e música. O autor, sintomaticamente baseado na evolução darwiniana, parte da tese de que a música distingue o homem dos outros animais. E que a música é determinante na formação da linguagem, da cultura e do pensamento.

Para responder perguntas tais como o modo que o prazer (e o gosto) musical se inscrevem em nós, Levitin, fugindo das elucubrações subjetivas, vai desde a ressonância magnética de cérebros em contato com diferentes sons, e de artistas durante o trabalho, até medições da afinação de pessoas comuns e de cantores.

O professor não está sozinho na empreitada. Segundo ele mesmo afirma, além de pessoas já conhecidas no meio – Oliver Sacks e Robert Jourdain, por exemplo – há pelo menos 250 pesquisadores que hoje trabalham nisso ao redor do mundo. O que distingue Levitin é o corpus utilizado. Enquanto a maioria usa apenas a música erudita, ele investiga também, e isso torna o livro mais próximo do leitor comum, a música cotidiana, aquela que toca no rádio. A canção nossa de cada dia.

“A música no seu cérebro” trata, de forma generosa e acessível, sem perder o foco científico, a presença da música na vida, no humano e no cérebro. Aproveitando o conhecimento que adquiriu como produtor musical, cita exemplos que vão de Mozart a Eminem, para refletir sobre como as músicas doces, amargas e agridoces determinam quem somos e as nossas atividades.

Durante a leitura do livro de Levitin, vários fragmentos de leituras vêm à mente. Ele permite inferências e interferências que auxiliam no entendimento. Deve, assim, ser lido com pontuais ligações intertextuais. Citamos aqui pelo menos duas.

Quando o autor, músico formado pelo Berklee College, pensa sobre o modo que os compositores (neosereias na era da reprodução técnica) podem investir em dado aspecto, a fim de conseguir um determinado efeito no ouvinte, Levitin se aproxima das conclusões alcançadas por Octávio Paz, para quem o poeta utiliza o ritmo já existente no mundo e em si para compor. Paz nota que, mais que um acordo, há um acorde nos diálogos universais.

Em “O arco e a lira”, Paz sente e analisa o ritmo como conceito primordial do fazer poético. Ou, mais além, Paz fala do mundo como poema e, como tal, provido da repetição rítmica que é a invocação e a convocação do tempo original. Há um tempo interior e individual que movimenta o sujeito e influencia sua existência. Daí a atenção que Levitin oferece à respiração (estimulante), enquanto símbolo e signo do ritmo, daquilo que nos torna aptos à música, e que faz parte da natureza humana e foi/é fundamental para a evolução da espécie.

Sem ritmo não há poema, logo, não há vida. Levitin, por sua vez, postula claramente que “a formação e então a manipulação de expectativas está no coração da música e é realizada de um número incontável de maneiras”. Até porque, com o passar do tempo, nosso cérebro passa a “esperar” determinado som, cabendo ao artista produzi-lo.

O bom artista, portanto, é aquele que consegue ter a sensibilidade de captar a necessidade do ouvinte e, através dos recursos técnicos, criar a experiência musical desejada. Reforçando o conceito de poeta apresentado acima e defendido por Octávio Paz.

A outra referência, ainda para entender o “tempo primordial”, vem do pensamento de Peter Sloterdijk. Em seu “Esferas I”, este filósofo pós-nietzschiano pensa o ventre materno (microesfera) como esfera sonora pré-natal. A mãe canta a vida para o bebê. É aqui que, para Levitin, em contrapartida, o gosto musical é detonado. Nossas preferências musicais começam a ser formadas antes de nascermos, além de este período determinar a construção da qualificação musical.

Porém, Sloterdijk assinala que o desenvolvimento da capacidade crítica do espaço compartilhado leva o sujeito, enquanto adulto, a fechar os ouvidos. Dito de outro modo, temos aquilo que Levitin chama em seu livro de “ponto de corte”, ou momento para a aquisição de novos gostos na música.

“A música no seu cérebro” quer deixar claro, e consegue, que o ser humano gosta, porque precisa, de ser cantado e que a vida só faz sentido assim. Apesar de em alguns momentos carregar nas tintas, haja vista sua paixão pelos itens analisados, o autor transparece consciência e competência ao lidar com um objeto que, como Nietzsche vaticinou, é a afirmação da existência. Aliás, fechamos o livro com as palavras de Nietzsche, em carta a Peter Gast, ressoando em nossa caixa acústica interior: “A vida sem música é simplesmente um erro, uma tarefa cansativa, um exílio”. E perguntando-nos: há vida fora da música?

Texto publicado no jornal O Globo (Caderno Prosa & Verso), em 29/05/2010

Entre outros, ouvi, vi e li, por estes dias:

- Filme Olhos azuis – A fronteira (o não-espaço, o lugar da perda de identidade) muito bem apresentada.

- Filme Teta assustada – Roteiro e história extremamente originais.

- Filme Quincas Berra D’água – O Quincas do filme não é o Quincas do livro, mas igualmente bem construído (emocionante e bem humorado).

- Filme Chlóe – Um registrado da absurdidade para a qual o destempero emocional pode nos levar.

- Filme Os homens que não amavam as mulheres – Aterradora mirada sobre a insensibilidade humana (nossa) diante da alteridade.

- Filme Mary and Max – A história de uma amizade singularíssima. Lindo e arrebatador.

- Peça Sade em Sodoma – A imagética de Sade se dilui entre cenários e “atmosfera temporal” mal executados.

- Peça A gaiola das loucas – Os números de dança são impecáveis.

- Peça Avenida Q – A mais bem humorada, encenada e atuada peça dos últimos tempos.

- Exposição Press World Photo 2010 – Imperdível! Na Caixa Cultural-RJ.