Pesquisar neste blog

quarta-feira, maio 21, 2008

O Mar que É

O requinte e a suavidade de Adriana Calcanhotto são alguns dos atributos mais sensíveis de sua obra. Entre tantos outros identificáveis sob as ondas de sofisticação com as quais a artista imprime seu trabalho.
Agora é a vez de Maré, segundo disco de uma trilogia que tem o mar como tema. O primeiro foi Maritmo (1998).
São 11 faixas em pouco mais de 34 minutos no total.
O repertório é embalado por sons tranqüilos. Um mar que se apresenta íntimo para o navegante. Mas sem perder suas “ondas altas” como no acento country de “Um dia desses” - poema de Torquato Neto, musicado por Kassin; “Porto Alegre” (Péricles Cavalcanti), um calipso dedicado à personagem mitológica Calipso, sublinhado pelos vocalizes de Marisa Monte, insinuando as sereias que tentaram o homérico Ulisses. Ou ainda a pop “Mulher sem razão” (Dé Palmeira, Bebel Gilberto e Cazuza), gravada originalmente por Cazuza no álbum Burguesia (1989).
Como é
difícil atravessar o mar e deixar de ancorar em Dorival Caymmi, Adriana interpreta "Sargaço Mar", acompanhada apenas pelo violão de Gilberto Gil.
Co-produzido por Arto Lindsay, o disco tem ainda a poesia de Ferreira Gullar, “Onde Andarás” (com melodia de Caetano Veloso, de 1967), e de Augusto de Campos o poema interativo “Sem saída”, com seus labirínticos versos musicados por Cid Campos. Nesta faixa temos o arranjo luxuoso de Aldo Brizzi.
Também merecem destaque a primeira parceria de Adriana Calcanhotto com Arnaldo Antunes, na canção “Para lá”, que tem Rodrigo Amarante, ex-Los Hermanos, no piano. E “Seu pensamento”, parceria com Dé Palmeira, com uma única nota da guitarra de Kassin atravessando a música de ponta a ponta, mas sem enjoar, pois é pontuada pela voz tranqüila e exata de Calcanhotto, e por outros instrumentos.
Já “Teu nome mais secreto” é uma parceria de Adriana Calcanhotto com Waly Salomão (1943-2003), a quem o CD é dedicado, e tem o violão (o mesmo usado para tocar no disco Transa, de Caetano Veloso), de Jards Macalé.
Sem esquecer de “Três”, de Marina Lima e Antonio Cícero, e “Maré”, canção que abre e dá nome ao disco.

Se
Maritmo é a fusão entre “mar” e “ritmo”, resultando em um disco mais “dançante”, Maré é o “mar que é”, com adensamentos e implicações variadas. É curtir e esperar para ver aonde o mar cantado por Adriana Calcanhotto ainda irá nos levar. Sem pressa, pois, segundo ela, o terceiro disco da trilogia não tem previsão para sair.

Entre outros, ouvi, vi e li, por estes dias:

# CD Novas Bossas (Milton Nascimento e Trio Jobim) – A delicada mistura entre a voz de Milton, o som dos jobins e a Bossa Nova é incrível.
# Peça
Um homem célebre – Inspirado no conto homônimo de Machado de Assis, o musical decepciona. A construção das personagens é fraca e a direção confusa.
# Filme Indiana Jones and Kingdom of the Crystal Skull – Entre as inúmeras referências míticas, importa prestar atenção em Cate Blanchett. Sua personagem nos remete a Sêmele (mãe de Dioniso, na tradição grega). A cena final dela é supreendentemente linda.
# Exposição
Museu Carmen Miranda – Uma lástima perceber que uma figura tão importante para entendermos o Brasil tem sua “memória” tão mal preservada, apesar do esforço de quem coordena o Museu.
# Livro Escritos sobre teatro, de Barbara Heliodora – Organizado por Claudia Braga, o volume com mais de 900 páginas traz escritos (de 1944 a 1994) da mais importante crítica de teatro brasileiro da atualidade.

quarta-feira, maio 14, 2008

A nova coreografia de Deborah Colker*

Quão cruel podemos ser nas nossas relações? Este é o mote do novo espetáculo da Companhia de Dança Deborah Colker, que esteve em cartaz de 22 a 28 de abril no Theatro Municipal do Rio de Janeiro.
Com o apropriado nome de “Cruel”, o espetáculo quebra a expectativa dos acostumados às seqüências acrobáticas que, desde “Vulcão” (1994), caracterizam a Cia. E assim, se a coreógrafa mostra estar consciente de que as fronteiras da arte vêm se dissolvendo, ao conceber uma montagem híbrida, com movimentos do clássico e do urbano, corre o risco de, ao abrir mão de seu diferencial, perder o público conquistado.
A presença de fortes elementos narrativos, aliada à (quase) ausência dos suportes cênicos, essenciais nos espetáculos anteriores, causa “desconforto” em quem acompanha o trabalho de Colker. Aliás, o desejo de “contar uma história fechada” já esteve presente no espetáculo “Nó” (2005), mas agora é radicalizado.

“Cruel” começa com um palco nu – o único elemento cênico é um imenso lustre em formato de globo – onde tem lugar um baile, espaço de encontro entre os corpos e dos arquétipos comportamentais. Já aqui, percebemos uma personagem feminina que não encontra um parceiro para dançar e atravessa toda a coreografia sozinha, ensimesmada entre hesitações e avanços em direção ao “outro”. Merece destaque ainda a curiosa trilha sonora, que mescla desde a serenata para cordas de Dvorák às batidas modernas.
As relações domésticas, em que laços sangüíneos nos limitam, é outro ambiente investigado. Entra em cena uma mesa de cinco metros de comprimento, onde personagens do universo familiar executam à sua volta movimentos que traduzem desejo e traição, rancor e competição, silêncio e contato íntimo. O ato termina com facas – instrumento ritualístico e símbolo fálico – sendo atiradas, culminando com a presença da morte.
Na segunda parte, imensos espelhos giratórios servem aos personagens permitindo que confrontem seus limites físicos e psicológicos. Tais espelhos simbolizam tanto as portas místicas para um mundo paralelo, quanto as esferas onde vivemos, seja pelo narcisismo, seja pela multiplicação contemporânea das possibilidades de escolha. Como a mulher combalida pelas investidas no mundo, que, numa cena pungente, mas previsível, fecha o espetáculo.

Ao buscar uma narrativa que mostra o quão cruel podemos ser com nossos desejos, Deborah Colker peca ao apresentar um espetáculo “pronto” e fechado. Uma crueldade com o espectador.


* Texto publicado na coluna do jornal
A União (10/05/2008).

Entre outros, ouvi, vi e li, por estes dias:

- CD Amigo é casa (Simone e Zélia Duncan) – As duas apresentam canções já interpretadas por elas e outros artistas. Mas as escolhas sonoras de Zélia Duncan atravessam todo o repertório do cd.
- Show Ao Vivo no Estúdio (Arnaldo Antunes) – Com performance, pra lá de original, Arnaldo mostra suavidade e clareza nas suas atuais interpretações, outrora rasgadas e "sujas" de ruídos.
- Filme
Speed Racer – Mais uma vez, os irmãos Wachowski inaugural um novo visual para a telona.
- Filme
Cassandra's Dream - Um Woody Allen com um pé (em falso) na tragédia grega.
- Exposição
Arquitetura do medo (André Gardenberg) – A intenção de registrar "o medo" na contemporaneidade se dilui e algumas imagens são equivocadas.
- Livro As Dobras do Sertão (Josina Nunes Drumond) – Análise da dialética inconclusa de Grande sertão: veredas e sua transposição para a linguagem plástica de Imagens do Grande Sertão. Tudo focado nos mecanismos da construção neobarroca.

quinta-feira, maio 08, 2008

Geni e o Fenômeno

A esta altura, até os índios da aldeia mais afastada dos centros urbanos já sabem que Ronaldo foi flagrado num motel com três travestis.
Desde a famosa madrugada, a vida de nenhum dos envolvidos no caso tem sido “fácil”. Por um lado, Andréia é acusada de extorsão e sofre pressão de outros travestis que não querem perder clientes. Por outro, Ronaldo, além de “sujar” sua imagem pública, já perdeu alguns milhões em contratos e credibilidade.
Não cabe aqui a defesa de ninguém. A mídia já está exercendo este papel, e o de promotoria também. Porém, e além das incontáveis piadas – até o desconhecido frevo “Três travestis”, de Caetano Veloso, gravado por Zezé Motta em 1982, saiu do limbo – a questão é bem mais profunda.
Vem cá: E se fosse uma prostituta? Teríamos todo esse estardalhaço? De fato, o que incomoda nessa história toda é a presença do personagem travesti. Incomoda saber que o “fenômeno” foi seduzido por um “corpo montado”.
Como analisou lucidamente o jornalista Eduardo Peret (aqui), travestis são consideradas aberrações, pessoas doentes, sem identidade, "com o diabo no corpo". Ainda são vistas como "homens homossexuais que tentam ser mulheres". E continua: A travesti não é homossexual. Os gays de uma forma geral não querem se tornar mulheres. A travesti também não é transexual.
o que perturba e amedronta nossa mentalidade tacanha é esta indefinição conceitual. A androginia de uma “mulher com pau” ameaça, mina e trinca nossa perspectiva arcaica de sociedade. Não é nem “ele” nem “ela”, mas o elo entre os dois. Não sabemos nem como nos referir a esse elo (?).
Essa coexistência de significantes masculinos e femininos arranha a imagem do macho – esse travesti al revés (travesti ao contrário), como afirmou o ensaísta franco-cubano Severo Sarduy, ao analisar a figura do travesti na literatura. Porém, é também uma repulsa que suscita e subverte-se em atração e sedução para muitos. Ronaldo que o diga.
Figura da noite, seu corpo é dos errantes. Dos que buscam saciar desejos reprimidos.
Durante o dia, ela é feita pra apanhar. Ela é boa de cuspir.
Ficou claro que Andréia se “aproveitou” da situação. Mas Milene, a primeira esposa de Ronaldo, não se aproveitou ao ter um filho que lhe rende uma gorda pensão? Cicarelli não tirou o time de campo quando percebeu que não poderia engravidar? Uma ex-namorada dele vai faturar num filme pornô intitulado "Vivi Ronaldinha, minha primeira vez", "atuando" com um sósia do fenômeno. Serão estas benditas enquanto Andréia é a maldita?
Cada um deve saber onde melhor coloca o seu desejo. E tem todo o direito de fazer. Compreender isso requer singularidades e disposição que não cabem aqui. Inquieta, e muito, a hipocrisia do pensamento estreito que se expressa com furor nas ruas e nos jornais. Se houve ou se não houve sexo entre eles é o que menos importa.

Entre outros, ouvi, vi e li, por estes dias:

* CD Maré (Adriana Calcanhotto) – Sofisticado e conciso. Assunto para um próximo post.
* CD Candy Hard (Madonna) – Ela reinventa-se mais uma vez para adaptar-se ao mercado. Só que dessa vez não me disse muita coisa.
* Espetáculo Cruel (Cia. Deborah Colker) – Pelas especificidades, merece uma discussão mais demorada depois.
* Filme Iron Man – Ganha pelas atitudes politicamente incorretas do protagonista.
* Exposição Heaven to hell: belezas e desastres – Fotos do americano David LaChapelle.
* Livro Lendo Música – Reunião de ensaios sobre 10 canções da MPB, organizado por Arthur Nestrovski.

domingo, maio 04, 2008

O poeta está vivo, com seus moinhos de vento

Apesar da ameaça de chuva e dos problemas para liberação da orla até a véspera pela PM, o show em homenagem aos 50 anos que Cazuza faria em 2008 rolou na boa no feriado de 1º de maio, nas areias de Copacabana.

Eram esperadas 70 mil pessoas, porém foram cerca de 50 mil os que curtiram as músicas do ‘poeta do rock’ cantadas por Leoni, Sandra de Sá, Preta Gil, Zélia Duncan, Arnaldo Brandão, George Israel, Gabriel O Pensador, Angela RoRo, Paulo Ricardo, entre outros artistas.
O número de pessoas menor que o esperado não diminuiu a energia e a vontade de celebrar a obra de Cazuza. Nem o som, de qualidade sofrível, nem os incontáveis problemas com microfones, que insistiam em não funcionar, afastaram o público do local.
Quando Ney Matogrosso abriu as apresentações, apenas 15 mil pessoas estavam em frente ao Copacabana Palace. O cantor foi o único a se apresentar com banda própria, interpretando "O Tempo não Pára", seguida de "Por que a Gente é Assim?" e "Pro Dia Nascer Feliz". Três canções que estão em Inclassificáveis, seu mais recente trabalho.

Os artistas foram se sucedendo no palco e o público - formado em grande parte por jovens, muitos nascidos após a morte de Cazuza, em 1990 - quase quintuplicou num curto espaço de tempo. Isso deixa bem claro o quanto os versos do poeta ainda têm muito que dizer às novas gerações.
Um dos últimos artistas a se apresentar, Caetano Veloso deu uma versão ‘voz e violão’ para a delicada "Minha Flor, Meu Bebê". Ironicamente Caetano relata no livro Só as Mães São Felizes que, certa vez, Cazuza o acusou de tocar “violão mal pra caralho”. Depois, já sem o violão, e no melhor estilo roqueiro do disco , Caetano incendiou o público com “Maior Abandonado”.

Destaques também para as interpretações de Zélia Duncan, Ângela RoRo e Paulo Ricardo, cujas vozes e atitude de palco foram totalmente adequadas ao espírito das canções que apresentaram.
O show foi gravado e deverá sair em CD e DVD, com a renda revertida para a Sociedade Viva Cazuza, mantida por Lucinha Araújo, mãe do poeta.

Abaixo uma palinha do show:

quinta-feira, abril 24, 2008

Quando o amor vacila

“Todas as cartas de amor são ridículas”, diz um célebre poema de Fernando Pessoa. Então, o que esperar de uma peça teatral cujo texto foi concebido sobre as cartas que um homem apaixonado escreveu para sua amada? Muito pouco, se estas cartas não tivessem sido escritas pelo escritor formalista russo Victor Shklovsky.
Definida como “peça de câmara sobre a obra de Shklovsky, Elsa Triolet, Vladimir Maiakowsky e Lilia Brik”, mas sem um autor definido para o texto encenado, Não sobre o amor, do diretor Felipe Hirsch, tem a liberdade de manipular as citações da melhor forma a atingir a metáfora sobre a morte emocional de um homem exilado de sua pátria.
A cena é dividida entre a narração das “lembranças” de Shklovsky e acontecimentos produzidos em sua mente, terreno onde Alya toma forma. Alya representa “a juventude e a autoconfiança perdidas”. O personagem é uma metáfora porque, de fato nunca existiu. O verdadeiro alvo da paixão de Shklovsky era a escritora Elsa Triolet, quem pedia veementemente que ele não falasse de amor nas cartas que lhe enviava. Esta, aliás, é a razão do estranho título da peça.
Assim, amor e exílio, nostalgia e memória, realidade e forjamento, compõem os elementos dramáticos que resultam num inquietante desconforto. Reforçados pelas inusitadas marcações cênicas que levam Leonardo Medeiros e Arieta Corrêa, Shklovsky e Alya respectivamente, a subir pelas paredes. Além disso, compõem a encenação não-realista, projeções e o cenário minimalista (ao extremo) de Daniela Thomas, onde se supõe um quarto de hospedagem qualquer – com toda a impessoalidade.
Hirsch disse, em entrevista a revista Carta Capital: “Trata-se de um espetáculo muito delicado. O mais difícil da minha vida”. O que demonstra toda a precisão e o cuidado com que o diretor trabalha a obra.
Não Sobre o Amor é um belo exemplo de como atores com formação clássica, aliados a uma encenação sutilmente moderna e uma direção consciente e inspirada podem resultar em um espetáculo sensível e íntimo para qualquer público.

Não Sobre o Amor – Teatro III do Centro Cultural Banco do Brasil – até 04 de maio.

terça-feira, abril 15, 2008

Em busca do objeto "artístico"

Num dia desses de chuva, fomos ver a comentada e pretensiosa exposição Entre amigos & Amores, do fotógrafo Pedro Stephan.
Stephan é especializado na temática homoerótica, no Brasil e no exterior. Seus ensaios já ilustraram da revista francesa "Tetu Magazine", passando pelas alemãs "AK Magazine", "Siegessaeule" e "Du und Ich", às norte-americanas "Circuit Noize" e "La Vida", entre outras. Além das brasileiras "Sui Generis", G Magazine" e "DOM", por exemplo. Ele contribuiu para importantes trabalhos institucionais, desde cartazes da "Parada do Orgulho" à campanha de prevenção à AIDS. Tudo isso, de cara, demonstra a importância do seu trabalho.
No entanto, focando especificamente na sua exposição “fotográfica multimídia”, não percebemos nenhuma perspectiva artística e/ou estética. O visitante entra em uma sala escura onde, de pé, assiste à projeção, a partir de um datashow, de imagens registradas pelo fotógrafo, em diversos locais-clichê da vida gay carioca. Nada, além disso. Não há estranhamento, desvio, profusão de sentidos, ambiguidade, muito menos singularização do objeto em exposição.
Como afirma o cineasta Sergei Eisenstein, não é refletindo ou retratando a realidade tal como ela é que se consegue os melhores efeitos em arte. A exposição pode até ganhar em qualidade documental, no momento em que parte do público se identifica (de várias formas) com os momentos clicados. Porém, simultaneamente perde em concepção estética. Se é que havia alguma intenção de trabalho com o objeto artístico.
A proposta era compor um painel “realístico e atual” do cenário GLBTT (a cada dia esta sigla aumenta mais) no Rio de Janeiro. “Quero contribuir para desfazer os estigmas que pairam sobre os gays”, “quero também fazer com que os gays se vejam”, disse o fotógrafo. Ora, a partir do momento em que se expõe o gay em guetos, o resultado não é exatamente o inverso? A reiteração da estigmatização?
A produtora cultural Heloísa Buarque de Hollanda, que assina o texto de apresentação, por exemplo, afirma, com algum exagero, que "nesta exposição (...) há o mapeamento geopolítico dos espaços de socialização da comunidade homossexual carioca". Andréas Valentin, curador da mostra, também não poupa entusiasmo ao declarar que "este trabalho pioneiro é o resultado de uma pesquisa realizada ao longo de vários meses, tornando-se de grande importância como estudo antropológico de uma minoria estigmatizada e alvo de preconceitos e deboches". Parecem estar falando de outros trabalhos do fotógrafo, e não o slideshow em cartaz no Centro Cultural da Justiça Federal. Aliás, cabe registrar, ocupando pela segunda vez um espaço de exposição no Centro do Rio. O anterior foi no Centro Administrativo da Alerj, durante o Foto Rio 2007.
Como dissemos, há o “valor didático” e a capacidade de colocar o tema em debate. Porém estamos falando de um objeto que se propõe artístico. Em que a arte deve ser realçada. O “valor didático”, o tema, as intenções explicativas, etc e tal, deveriam, existindo, permanecer “diluídos” no objeto e não se sobrepor a este, como de fato acontece.
Por fim, parabenizo Pedro Stephan pelo apreciável trabalho documental e antropológico, desenvolvido em diversas áreas da comunicação. Mas, sobre a exposição, eu esperava mais. Muito mais.

Em tempo: "Entre Amigos & Amores – espaços de socialização GLS do Rio" fica em cartaz até 27/04 no Centro Cultural da Justiça Federal, Rio.

sexta-feira, abril 11, 2008

Delicadeza perdida

José Datrino, o profeta Gentileza, tornou-se conhecido a partir de 1980 por fazer inscrições sob um viaduto no Rio de Janeiro, onde andava com uma túnica branca e longa barba. Hoje ele faria 91. Em tempos da delicadeza perdida, a mensagem deixada pelo profeta ainda é um alerta para nós. Para quem não conhece, um pouco da sua história:
No dia 17 de dezembro de 1961, na cidade de Niterói, houve um trágico incêndio no "Gran Circus Norte-Americano". Neste incêndio morreram mais de 500 pessoas, a maioria, crianças.
Na antevéspera do Natal, seis dias após o acontecimento, Datrino acordou alegando ter ouvido "vozes astrais", que o mandavam abandonar o mundo material e se dedicar apenas ao mundo espiritual. O profeta pegou um de seus caminhões e foi para o local do incêndio. Plantou jardim e horta sobre as cinzas do circo em Niterói. Aquela foi sua morada por quatro anos.
Lá, José Datrino incutiu nas pessoas o real sentido da palavra Gentileza. Foi um consolador voluntário, que confortou os familiares das vítimas da tragédia com suas palavras de bondade. Daquele dia em diante, passou a se chamar “Profeta Gentileza”.
Após deixar o local que foi denominado “paraíso Gentileza”, o profeta começou a sua jornada como andarilho. A partir de 1970 percorreu toda a cidade. Era visto em ruas, praças, nas barcas da travessia entre as cidades do Rio de Janeiro e Niterói, em trens e ônibus, fazendo sua pregação e levando palavras de amor, bondade e respeito pelo próximo e pela natureza a todos que cruzassem seu caminho.
Em 29 de maio de 1996, aos 79 anos, ele faleceu. Com o decorrer dos anos, os murais do viaduto foram danificados por pichadores, sofreram vandalismo, e mais tarde cobertos com tinta de cor cinza. O apagamento das inscrições foi criticado e posteriormente organizou-se o projeto “Rio com Gentileza”, com o objetivo restaurar os murais das pilastras. Em maio de 2000, a restauração das inscrições foi concluída e o patrimônio urbano carioca foi preservado.
Aos que o chamavam de louco, ele respondia: - "Sou maluco para te amar e louco para te salvar".

domingo, abril 06, 2008

A nova performance do inclassificável

O desenvolvimento da performance como modalidade artística se deu durante a década de 1960 e é exatamente neste período que Ney de Souza Pereira estava iniciando suas intervenções na arte brasileira. Na década seguinte o teríamos como Ney Matogrosso e líder, em uma figura híbrida única, do grupo Secos e molhados – de vida (infelizmente) curtíssima, mas, sem dúvida, decisiva para o conceito performático que acompanharia Ney para sempre.
Ele sabe como ninguém causar controvérsia. Seja pela carga erótica com que alimenta suas apresentações, seja pela excelência nas escolhas de seu repertório musical, seja pela figura e voz inclassificáveis.
Importante sempre lembrar que muitos dos comportamentos tidos como modernos de alguns artistas de hoje rendem graças às portas escancaradas por ele.
Mesmo quando se dedica a (re)interpretar clássicos do cancionista nacional, como Cartola e Noel Rosa, não raro vestido de terno, ainda assim podemos identificar o desejo de criar uma persona, que possa melhor “traduzir” a mensagem que o artista quer transmitir.
Agora ele nos presenteia com o disco Inclassificáveis. São 16 músicas, majoritariamente inéditas, extraídas do roteiro do espetáculo de mesmo nome. No show ele mostra que, se “o tempo não pára” – canção que abre (quase aos berros) o disco –, os 66 anos de idade não afetaram nem sua voz nem a persona sexual carregadas de signos diversos.
A “entidade performática” criada por Ney Matogrosso, em seu novo trabalho, percebe, como homem contemporâneo, que é um homem, um bicho, uma mulher. Tudo ao mesmo tempo e agora. Ele é ainda febre que queima, o novo, o antigo, o que não tem tempo... como sugere a faixa “Mal Necessário” (Mauro Kwitko), regravação de faixa de seu disco Feitiço, de 1978.
O próprio nome do cd dá o tom e as pistas do que o ouvinte terá: letras que têm as perguntas ontológicas do ser como mote. Arnaldo Antunes, na música que dá nome ao disco, sugere “somos inclassificáveis”. Já o rock de Cazuza, Ezequiel Neves e Frejat pergunta “por que a gente é assim?” E a canção “Leve” (Iará Rennó e Alice Ruiz), aponta que “viver ou morrer / é o de menos / a vida inteira pode ser / qualquer momento / ser feliz ou não / questão de talento”.
As incertezas deste homem contemporâneo estão ainda presentes na regravação de “Novamente” (Fred Martins e Alexandre Lemos). “Quem sabe o que se dá em mim? / Quem sabe o que será de nós? / O tempo que antecipa o fim / Também desata os nós”, diz a letra.
“Coragem, Coração” (Cláudio Monjope e Carlos Rennó), talvez seja a letra mais objetiva dentre todas as outras, com sua temática sobre universo virtual e fakes. Cabe ressaltar ainda as brilhantes interpretações de “Ode aos Ratos” (Chico Buarque e Edu Lobo) e “Divino Maravilhoso” (Caetano Veloso e Gilberto Gil), que fecha o disco. Aliás, nada mais apropriado para um disco com esta temática do que o imperativo tropicalista “é preciso estar atento e forte”. Mas, sem dúvida, “Veja bem, meu bem” (Marcelo Camelo), que já havia sido gravada por Maria Rita, ganha uma interpretação ímpar e definitiva.
Ney Matogrosso manda, provoca, instiga e estimula o pensar sobre a (in)certeza de que somos inclassificáveis e de natureza mutante. Sem deixar de seguir o seu “Lema” (Carlos Rennó e Lokua Kanza) de “envelhecer com a mente sã, se renovando dia a dia, a cada manhã, tendo prazer” e “nem dar de não ‘se’ maravilhar, diante do mar e do céu da vida”, “perto de ser um Deus e certo de ser mortal”.
O cd não sai do disc play.

segunda-feira, março 31, 2008

Entrando na campanha

Passado o "boom da Aids" (anos 80), de acordo com O Globo de 30/03/2008, o número de casos de contaminação pelo HIV aumentou assustadoramente entre gays de 13 a 24 anos, nos últimos 10 anos.
Para especialistas, "os jovens perderam o medo da doença e deixaram de se prevenir". Uma rápida pesquisa em sites de encontros mostra que a procura por sexo sem camisinha é grande.
Um jovem de 21 anos entrevistado pela matéria e contaminado afirmou: "Eu queria me enturmar. Nas festas e baladas, todo mundo diz que a Aids é doença controlável como o diabetes ou qualquer outra". Outro disse que "hoje em dia tem o coquetel de graça" e que "ninguém morre de Aids no Brasil". Essa, infelizmente, não é a verdade.
A falta de (in)formação é visível, em todas as manifestações da sexualidade.
Por isso, é preciso conscientizar(-se).
Façamos nossa parte.

terça-feira, março 25, 2008

Tese sobre as relações de poder e dominação

A maioria dos trabalhos acadêmicos ficam restritos a um pequeno número de leitores, sejam porque os assuntos são tratados de forma hermética, dada as exigências da academia, seja porque falta a divulgação de tais trabalhos, confinados a serem apenas um amontoado de textos coletados nos Anais dos eventos.
Sabemos que alguns trabalhos notáveis muitas vezes perecem pela falta de espaço para atingir um público mais amplo. Oxalá isso não ocorra com a tese de doutoramento defendida semana passada (19/03), na UERJ, por Lúcia Facco.
Antes, para quem ainda não conhece o trabalho dela, uma rápida apresentação. Lúcia é autora de As Heroínas Saem do Armário (Edições GLS, 2004), sua dissertação de mestrado apresentada em formato ficcional. O livro analisa cinco romances escritos por lésbicas, e investiga que, diferente de ser uma subliteratura, tais textos são “paraliteratura”, devido à marginalização imposta a eles. Não há arcabouço crítico sobre estes textos, observa a autora.
Outro livro publicado por Lúcia é Lado B: História de Mulheres (Edições GLS, 2006). Trata-se de uma coletânea de contos com histórias sensíveis, inteligentes e sutis de mulheres que vivem seus amores por outras mulheres sem levantar bandeira e sem culpa.
Agora Lúcia defende sua tese Era uma vez um casal diferente: a temática homossexual na educação literária infanto-juvenil. Não tive acesso ao texto, o que poderia limitar meus comentários e/ou torná-los duvidosos, caso eu não tivesse presenciado a positiva avaliação feita pelos componentes da banca examinadora. Além disso, conheço os trabalhos anteriores de Lúcia Facco, o que, para mim, já serve como argumentação.
Neste mais recente trabalho, a autora discute, entre muitas outras coisas relacionadas ao assunto, os compromissos estáticos do currículo escolar, que tende a padronizar e unificar os alunos. Para tanto ela investiga dos cânones literários aos livros paradidáticos utilizados especificamente nas aulas de literatura. O que não impede que ela trace nos primeiros capítulos o percurso de violência, de discriminação, da cultura camp, etc, que permeia a vivência homoerótica.
Discutir um tema ainda polêmico e direcioná-lo a um público em formação, quando, na maioria das vezes, são os educadores quem precisam de educação, não deve ter sido tarefa fácil. Só por isso merece nossa atenção. Porém, não bastasse isso, a emoção que tomou conta da banca durante a defesa da tese mostra que o trabalho tem qualidade e merece ultrapassar os muros acadêmicos.
Se na dissertação As Heroínas Saem do Armário Lúcia Facco criou uma personagem, nesta tese usa a primeira pessoa correndo todos os riscos. Talvez porque, como ela mesma expressou, “não dava para se colocar de fora daquilo que estava defendendo”.
Aguardo ansioso que o trabalho vire livro e possa atingir seu objetivo que é, conforme as palavras da autora, “dar às pessoas a oportunidade de conhecer mais a necessidade de mudar as relações de poder e dominação”.

quarta-feira, março 19, 2008

Concursos

Estão abertas, até o dia 15 de maio, as inscrições para a 50a edição do Prêmio Jabuti.
Confira regulamento no site:

www.premiojabuti.org.br

---

Também estão abertas, até dia 31 de agosto, as inscrições para o 180 Concurso de Contos Luiz Vilela, promovido pela Fundação Cultural de Ituiutaba (MG).

Confira o regulamento no site:

http://www.fculturalitba.com.br/

---

E, até 31 de maio, as inscrições para 5ª edição do Contos do Rio, do Jornal O Globo.

Confira regulamento no blog do caderno Prosa & Verso.


segunda-feira, março 17, 2008

Quanta coisa...

Quem nunca ouviu o velho chavão “dinheiro não dá em árvore"? Fosse a mãe que não podia comprar uma bobagem que a gente pedia na infância, fosse no dia-a-dia... Mas esta idéia está sendo subvertida até o dia 04 de maio no foyer do Centro Cultural Banco do Brasil, aqui do Rio. É lá que está a suntuosa instalação O sonho da planta do escritório, dos suíços Gerda Steiner e Jörg Lenzlinger. Nela, a partir de uma planta viva sobre uma mesa de escritório comum, sai uma vasta folhagem, que preenche os 30 metros de altura e 12 de largura da maravilhosa rotunda do CCBB.
Para um olhar menos atento ou ainda para aqueles que têm preconceitos contra arte feita de material reciclado, tudo não passa de um amontoado de objetos. Mas basta dedicar uns minutos a mais para que o observador possa perceber a riqueza de detalhes e as delicadezas do projeto. Exatamente embaixo da grande árvore há acolchoados - de onde eu tirei esta foto - para que os visitantes possam se deleitar.
A instalação faz parte da exposição "Os Trópicos – Visões a Partir do Centro do Globo", com cerca de 130 obras de arte, entre antigas e trabalhos contemporâneos de países tropicais, vindas, na maioria, do Museu Etnológico de Berlim. É a oportunidade de ver as moedas Real, Euro, Dólar... metamorfoseadas ora em pétalas de flores tropicais, ora como enfeites de um mundo que precisa repensar urgentemente suas perspectivas e projetos de sustentabilidade sócio-ecológicas.
---
Mudando de linguagem artística, assistimos El Orfanato, de Juan Antonio. Com uma história muito bem “amarrada”, o roteirista Sérgio Sánches consegue ir ampliando a dimensão de suspense à medida que o filme se desenrola. Nada é dado por antecedência, apesar de em alguns momentos o espectador ter certeza do que estar por vir. As soluções imagéticas surpreendem. Mesmo sabendo que o enredo, nada original, se espelha claramente em Los Otros (2001) ou em The Dark (2005), etc.
Laura (Belén Rueda), o marido (Fernando Cayo) e o pequeno filho Simón (Roger Príncep) formam o núcleo protagonista, que se muda para um antigo casarão, onde funcionava um orfanato em que Laura passou a infância.
Tudo vai bem até que o menino passa a receber a visita de amiguinhos imaginários, que começam com brincadeiras até chegar a coisas mais sérias, culminando com o desaparecimento de Simón, quando toda a ação efetivamente engata.
O filme tem produção de Guillermo del Toro que, depois de ter perdido a mão em El Laberinto del Fauno (2006), consegue apresentar um trabalho em que a metafísica e o sobrenatural encontram a verossimilhança correta para prender o espectador.
---
Mudando novamente o campo temático, quero registrar a alegria que tive ao ouvir o álbum de Maria Bethânia e Omara Portuondo. Como é bom saber que apesar da turva geléia geral musical sempre é possível contar com o trabalho de artistas irrepreensíveis, tanto na técnica quanto na emoção.
Conheci Omara no grande dvd Buena Vista Social Club e a voz da cubana me encantou.
A idéia de juntar as duas divas partiu da cantora cubana quanto esteve setembro do ano passado em turnê no Brasil, e faz parte de seu projeto de gravar em dueto com grandes cantoras latinas para reafirmar os laços culturais do continente.
O resultado deste encontro é de uma delicadeza comovente e apaixonante. O repertório e a voz dessas duas dadivosas divas precisavam mesmo se juntar, como um raro presente aos ouvintes.
---
Falando em divas... Apesar de já estar circulando pela internet há duas semanas, 4 minutes, novo single do álbum “Hard Candy” de Madonna, está sendo lançado oficialmente hoje 17/03, pela sua gravadora.
A espera do lançamento de um novo álbum de Madonna, sempre envolve expectativas e especulações. Independente de gostar ou não de Madonna, o fato é que ela tem importância decisiva na história da música pop recente. Talvez sua música "pouco acrescente", como aponta o crítico Antônio Carlos Miguel, mas, como ele mesmo observa, "Madonna tem algo".
A primeira imagem que tenho de Madonna é do Girlie Show. Foi puro impacto para um moleque do brejo paraibano ver cenas de pura permissividade e afrontamento, contra os preconceitos e tabus imbecis que ainda teimam em enrugar a vida. Ela mostra que sabe manter, com mão de ferro, uma carreira que transita entre teatro, performance, show, vídeo, música e o diabo-a-quatro. Sempre lançando novos recursos visuais e coreográficos (imediatamente imitados), seus shows/cds/dvds trazem a marca da polêmica, que por vezes passeia do profano ao sagrado.
Com promessa de ser diferente (sempre) de tudo com que já flertou nos álbuns anteriores “Hard Candy” promete tornar, mais uma vez, Madonna como tema de muito papo por aí.

... sou nascido diferente. Eu sou é eu mesmo. Diverjo de todo o mundo...
(J. Guimarães Rosa)

sexta-feira, março 07, 2008

Estréia imperdível

Comentado aqui em janeiro, quando houve a pré-estréia, finalmente entra em cartaz neste fim de semana Dans Paris.
Terceiro longa-metragem do francês Christophe Honoré, o filme se apresenta como uma delicada e masculina investigação do amor fraternal. Delicada porque o diretor consegue obter unidade entre o frescor da juventude de Jonathan (Louis Garrel, de Os Sonhadores) e a depressão profunda de Paul (Romain Duris, de Albergue espanhol).
Masculina porque o filme tematiza as formas de se demonstrar carinho
dentro do universo masculino. É também sobre parceria e cumplicidade. Aceitação e recuo.
Paul acabou de sair de um casamento. Romântico, não sabe lidar com a perda e volta para a casa do pai (Guy Marchand), o chefe de família tão amoroso quanto desajeitado em demonstrar seus sentimentos. A tristeza de Paul contrasta com a alegria do irmão Jonathan, que resolve fazer de tudo para resgatar o irmão de seu estado melancólico, enquanto se mostra ao espectador.

As mulheres, sem que isso nunca seja depreciativo, são apenas coadjuvantes e/ou os estopins das inquietações. Assim, Em Paris (título brasileiro) resulta numa linda homenagem à Nouvelle Vague de François Truffaut, na forma da história de dois irmãos. Imperdível!

terça-feira, março 04, 2008

Prazer nos olhos e no coração

O encantador espetáculo Puro Brasileiro se revelou uma feliz surpresa, como opção teatral, este fim de semana, tendo em vista todos os alarmantes preconceitos de quem vai, hoje em dia, assistir a um musical de música caipira.
O humor típico das modas de viola e dos causos do sertão enche o espetáculo de uma alegria e leveza fascinantes. O roteiro percorre a trajetória da música caipira até a chegada do rádio, cobrindo um período que vai dos anos 20 aos 60. Ouvida por pobres e ricos, ela foi tão importante que chegou a ser apresentada no Cassino da Urca, freqüentado pelo poder e pela burguesia na década de 30.
A "viagem" passa pelas influências estrangeiras, pelo estigma criado por Monteiro Lobato com seu Jeca Tatu, pela atuação marcante e definitiva de Mazzaropi, e por vários outros exemplos. Aliás, o tom “didático” quase chega a quebrar o ritmo do espetáculo, mas nada que interfira efetivamente.
A riqueza das histórias é abrilhantada pelas interpretações corretas dos atores da Cia. Martim Cererê, de Goiânia, e pela direção de Marcos Fayad. Além dos músicos que fazem o acompanhamento ao vivo. A intimidade que os atores em cena têm com as histórias demonstra a pesquisa sobre o tema. O resultado são interpretações caprichosas.
Entre as canções apresentadas estão Caipira de Gravata (Zé Mulato), Desafio de Perguntas (Alvarenga e Ranchinho), O Sapo no Saco (Jararaca) e Puro Brasileiro (Cacique e Pajé). Sem contar canções que foram sucesso de Cornélio Pires, Tonico e Tinoco, Jararaca e Ratinho, Alvarenga e Ranchinho, o violeiro Tião Carreiro, as Irmãs Galvão, Cascatinha e Inhanha, etc.
Sem dúvida, a música do caboclo detalhou a geografia do Brasil rural. Da mesma linhagem de outro excelente musical – Sassaricando – e distante do caricato, Puro Brasileiro fica em cartaz até 09 de março, no Teatro de Arena da Caixa Cultural.
---
E a cidade maravilhosa completou 443 anos de fundação, dia 01 de março. Uma das comemorações do aniversário foi o show do furacão Elba Ramalho, nada menos que nos Arcos da Lapa.
Com repertório variadíssimo – Jackson do Pandeiro, Luiz Gonzaga, Flávio José, Paralamas do Sucesso, Gilberto Gil, Ivete Sangalo, Alceu Valença, Zeca Pagodinho, Tom Jobim, Dominguinhos – Elba Ramalho dançou e pulou por quase 2 horas, mostrando que a idade não chegou para ela.
Seu carisma e energia, como sempre, foram o tempero certo para um show impecável, que fez a "chinela chiar". Mas o show não foi só de fervo e frevo. Sua preocupação pela espiritualidade fez com que ela entoasse o “Pai nosso”, enquanto a banda executava Bob Marley e o público parecia em transe. De arrepiar!
---
Por falar em aniversário do Rio de Janeiro, está em cartaz até dia 27 de abril, no CCBB, a exposição Família Ferrez novas revelações. Fotos inéditas, documentos e álbuns de época de Júlio, Luciano e Gilberto Ferrez, fotógrafos que imprimiram qualidade na história da fotografia brasileira.
O visitante faz uma viagem no tempo e no espaço, sendo apresentado a aspectos urbanísticos e paisagísticos de diversas localidades brasileiras, países europeus e Senegal, em imagens de muito bom gosto e olhar crítico.
Porém, longe de celebrar o Rio, o olhar sobre a cidade nos trás uma certa tristeza ao percebermos o quanto perdemos. Demolições que não resultaram em nenhum benefício, abandono e descaso com um patrimônio arquitetônico tão rico e importante para a nossa história.
Enquanto aqui as construções históricas viram sucatas ou abrigo de marginalizados da mesma sociedade, na Europa estes locais abrigam museus, espaços culturas, lojas caras, etc e tal. E o pior: nós gastamos uma fortuna para ir lá, ver edificações que bem poderiam estar disponíveis por aqui. Mas por aqui prédios explodem, como aconteceu semana passada na Rua da Alfândega, no centro do Rio.
Mas como diz Riobaldo “esta vida é de cabeça-para-baixo, ninguém pode medir suas perdas e colheitas”. Vale a pena ver a exposição, sem pressa, para apreciá-la com calma.

segunda-feira, fevereiro 25, 2008

Rosa e tapete vermelho

O livro Quartas histórias foi lançado pela Editora Garamond em 2006 para homenagear os 60 e 50 anos da publicação de Sagarana e Grande Sertão: veredas, respectivamente. Mas ele é muito mais que isso. É uma amostragem do que está acontecendo de mais significativo na literatura brasileira contemporânea. Além de ser uma excelente leitura para este ano de 2008, centenário de Guimarães Rosa – autor das obras homenageadas – ele desperta a curiosidade dos mais jovens pela obra do grande escritor.
O livro é o resultado do desafio que o pesquisador e professor de literatura Rinaldo de Fernandes lançou a 40 escritores brasileiros: recriar contos de Sagarana ou trechos de Grande Sertão: Veredas. O resultado são textos curtos que não se limitam a imitar o texto rosiano, até porque ele é "em princípio inimitável", como destaca o organizador na introdução do volume. Mas amplia seu universo temático com alternativas criativas.
Em Quartas histórias o leitor tem a oportunidade de entrar em contato com um imaginário único de linguagem e apropriação do sertão. Sertão que não significa apenas um espaço geográfico, pois, como disse o escritor homenageado, “o sertão está em toda parte”. O sertão é tudo e está, na verdade, dentro e não fora dos homens.
Mesmo aqueles que não conhecem as histórias de Guimarães Rosa não sentirão dificuldade em acompanhar os contos do livro. Pela diversidade de escritores, cada um com seu estilo e invenção, o livro estabelece um diálogo entre diferentes aspectos do Brasil e da literatura de maneira independente.
Destaco como exemplo o conto “Caso na roça”, do poeta e ensaísta Amador Ribeiro Neto. Aqui os primos Ribeiro e Argemiro, protagonistas do conto “Sarapalha” – uma das histórias mais ricas de nossa literatura –, aparecem entre “ícones da cultura pop e referências ao mundo cyber”. Se no conto rosiano os primos sofriam pelo abandono de Luísa e por causa da malária, na recriação de Ribeiro Neto, usando como aliado o “processo de collage e pastiche neobarrocos”, eles são inseridos na experiência homoerótica dos desejos e (des)amores.
Há ainda que se destacar as belas gravuras de Arlindo Daibert, que ilustraram os livros de Guimarães Rosa. Assim, Quartas histórias, fazendo parte da recente enxurrada editorial que marca as comemorações, sejam das obras, sejam do aniversário de Guimarães Rosa, destaca-se pela qualidade singular que vai da escolha dos escritores até a capacidade inventiva de cada um. Leitura imperdível!!!
---
E o Oscar foi para No country for old men (“Onde os fracos não têm vez”), dos irmãos Joel e Ethan Coen. Acredito que merecido, apesar de não ter me empolgado por nenhum filme concorrente deste ano, mesmo com a qualidade que cada um tem. Fiquei feliz mesmo foi com a premiação do excelente Javier Bardem, como ator coadjuvante do filme vencedor, e a da disciplinada e talentosa Tilda Swinton, como melhor atriz coadjuvante por Michael Clayton ("Conduta de risco"). Aliás, interessante ver que nenhum dos atores premiados é americano (dois ingleses, uma francesa e um espanhol). No mais, nada de novo sobre o red carpet, que este ano ficou encharcado pela chuva. Cadê a Cher!?!?!... O Oscar tá muito certinho. E Oscar sem breguice perde 90% da graça, né verdade?
---
A propósito, destacado aqui no blog, no texto “Briga de espadas e muito grito”, sobre o Festival MixBrasil de Cinema 2007, o curta , do estreante Felipe Sholl, recebeu um dos Prêmios Teddy para filmes de temática gay, em Berlim. Parabéns, merecido!

segunda-feira, fevereiro 11, 2008

Muitos assuntos

Cometi a imprudência de ir a uma agência bancária pagar uma conta, numa segunda-feira, pela manhã. Não deu outra. Enfrentei uma fila interminável e confusa. Fiquei no rabo dela, sem nada para ler além do boleto de pagamento, o que me permitiu observar coisas ao redor.
Como falei, o lugar estava confuso, mas eis que, do nada, uma senhora começa, por conta própria, a arrumar o povo dentro daquelas listras amarelas. Quando ela pedia, toda solícita, alguns nem olhavam e nem se mexiam. Outros, olhando ou não, atendiam ao apelo. Alguns riam e questionavam “de que vale isso?”, no que ela deu a resposta que eu não esperava ouvir “para ficar mais bonito”. Isto mesmo, aquela senhora, no meio de tantas (muitas) pessoas, em uma fila de banco, quase meio-dia, estava preocupada em tornar o lugar mais organizado, “mais bonito”.
Pois não é que ela, além de deixar a fila em ordem, ainda agüentou o mau humor de alguns, retribuindo com um sorriso e um “muito obrigado”. Fiquei tão impactado com a presença daquela delicadeza perdida que precisava registrar. É um achado, é uma agulha no palheiro. Ou, como diriam alguns, uma "atitude de beija-flor", fazendo sua parte para manter a engrenagem da vida mais "bonita".
E por falar em beija-flor, por que será que eu não me surpreendi com a vitória da Beija-Flor, no carnaval do Rio? Não tenho nenhuma escola preferida, o que me permite olhar com imparcialidade o quanto até o carnaval está encaretando. Escrevo “até”, porque tenho observado isso na arte de uma forma geral. Penso que, a priori, a moda do discurso politicamente correto em arte só serve para deixá-la estagnada.
Mas enfim, a Beija-Flor fez um desfile técnico, lindo, perfeito! Nenhuma inovação, nenhuma ousadiazinha, nada que a fizesse correr risco. Assim, atendeu a todos os quesitos observados pelos jurados. Ganhou!
Mudando um tiquinho o rumo desse texto, mas sem deixar de falar em pessoas que embelezam a vida, este ano Guimarães Rosa completaria 100 anos. O Oi Futuro Rio começou a comemorar a data, neste fim de semana que passou, com uma série de leituras dramáticas feita pelo Grupo Hombu. Estive lá na sexta e fui presenteado com a leitura do conto “A terceira margem do rio”.
Particularmente, não consigo ler uma frase sequer de Rosa sem me emocionar. Não só pelo que escreveu, mas pela forma como escreveu. Com toda a propriedade de (des)estruturar, virar e mexer na língua portuguesa falada no Brasil. Foi o contato com os textos de Rosa que me convenceu de que trabalharia com Literatura.
Não vou fazer nenhum resumo, nem tampouco nenhuma análise do conto. Por mais que o leia, ou leia coisas escritas sobre ele, ainda não me sinto satisfeito em relação à dimensão estrutural e semântica desta lindeza. Sugiro que leiam. Aliás, Caetano Veloso e Milton Nascimento criaram uma linda canção homônima, em homenagem a “A terceira margem do rio”. Vale a pena ouvir.
A propósito, “Mirar e ver”, nome deste blog, para quem não sabe, é uma homenagem a Riobaldo, personagem do grande “Grande Sertão: Veredas”. No livro, ele sempre chama a atenção de seu interlocutor usando a expressão “mire veja”.

E não posso findar este post sem dar o crédito da imagem da semana. Trata-se do flagra do fotógrafo Custódio Coimbra, de O Globo, obtido ontem, durante a tempestade tropical que assolou/assustou o Rio de Janeiro. Incrível!

PS: Para comemorar o centenário de Guimarães Rosa, a partir da semana que vem encerrarei os posts sempre com um trecho curto do “Grande Sertão: Veredas”, para a gente se deliciar durante o ano que começa extra-oficialmente hoje, primeira segunda-feira depois do carnaval.

quarta-feira, janeiro 30, 2008

Cadê a dança que deveria estar aqui?

A Cia Corpos Nômades (SP) esteve no Rio para apresentar “Algum Lugar Fora do Mundo”. Sob direção e coreografia de João Andreazzi, o espetáculo propõe unir diversos segmentos da arte, como dança, teatro, vídeo, literatura e música. Já na abertura do espetáculo, que acontece já na sala de espera do teatro, o público entra no clima através da aproximação verbal e tátil com o elenco.
É sempre estimulante assistir a um espetáculo que usa o diálogo entre as diversas linguagens da arte como base criativa. Ainda mais quando no release afirma-se que os movimentos e atuações são inspirados em trechos das obras de Fernando Pessoa, Rimbaud, Baudelaire e Cocteau.
Porém, o que se vê é uma confusão de gêneros, sem um fio condutor que guie o espectador. Aliás, o público é convidado, por vezes intimado, a subir ao palco e entrar em cabanas de camping. Numa referência ao nome da encenação, em cada cabana – ou relicário, como diz o texto de apresentação –, acontecia um espetáculo particular. Algo realmente interessante, se fosse bem desenvolvido. Não foi o caso.
Para os que ficam na platéia, a impressão é de um amontoado de cenas isoladas que não resultam em um todo. A curtição fica só para os que entram nas cabanas e o curto espetáculo termina inesperadamente, com o público apreensivo sem saber se já era hora de aplaudir.
Não se sabe, ao final, qual é a proposta artística, apesar de se tratar de uma companhia de dança e algumas técnicas utilizadas neste campo serem realmente eficazes. Prova de quanto é complicado romper os limites que separam um gênero do outro.
Um espetáculo híbrido, tão caro a arte contemporânea, quando não é bem compreendido por quem o faz, resulta na perda do objeto e se esvai em simples sucessões aleatórias de cenas e imagens desconexas. E quando o objeto se perde, perde-se a arte.
O espectador-participante pode até fruir e deleitar-se na “vivência”, mas sairá do contato da mesma forma que entrou. Experimento artístico - justificativa comumente utilizada por muitos grupos para suas atuações - é o compromisso de ser sempre provisório e eternamente mutável, mas pautado na consciência e domínio das linguagens que se pretende dialogar. Desejo rever a Cia, que, pelo histórico, sempre procurou desenvolver um trabalho sério e de pesquisa.

Morreu esta semana o artista plástico Rubens Gerchman. Há 40 anos sua tela “A Bela Lindonéia”, também conhecida como “Gioconda do Subúrbio”, inspirou o bolero “Lindonéia”, composto por Caetano Veloso e Gilberto Gil e interpretado por Nara Leão, no disco-manifesto do movimento tropicalista.
“Lindonéia” faz referência à ditadura militar brasileira e às pessoas desaparecidas neste período. O olhar da moça na tela tenciona algo entre o susto e a irritação. "Um amor impossível - a bela Lindonéia - de 18 anos morreu instantaneamente".
Fica aqui o registro.
Aliás e a propósito, “Lindonéia” foi regravada agora, com novo arranjo, por Fernanda Takai (Pato Fu), em seu excelente disco solo "Onde brilhem os olhos seus". Vale a pena conferir!

quarta-feira, janeiro 23, 2008

Aniversário com Cinema e Teatro

No último fim de semana assistimos “Dans Paris”. Terceiro longa-metragem do francês Christophe Honoré, o filme é uma delicada e masculina investigação do amor fraternal.
É importante não se deixar enganar pelos primeiros minutos do filme, que mostram o fim de um relacionamento. A abertura incômoda é apenas a justificativa para o que vem a seguir: uma linda homenagem à Nouvelle Vague de François Truffaut, na forma da história de dois irmãos.
Paul (o ótimo Romain Duris, de “Albergue espanhol”) acabou de sair de um casamento. Romântico, não sabe lidar com a perda e volta para a casa do pai (Guy Marchand), o chefe de família tão amoroso quanto desajeitado em demonstrar seu amor. Paul passa a dividir o quarto com seu irmão Jonathan (o inspiradíssimo Louis Garrel, de “Os Sonhadores”), que se envolve facilmente em conquistas amorosas.
A tristeza de Paul contrasta com a alegria de Jonathan, que resolve fazer de tudo para resgatar o irmão de seu estado melancólico. É aí que o filme estabelece a questão do amor incondicional entre os dois, o que move toda a história. Mas não há nada de convencional nela.
O filme é sobre as relações dos homens entre si e as formas de se demonstrar carinho no universo masculino. Sobre parceria e cumplicidade. As mulheres, sem que isso nunca seja depreciativo, são apenas coadjuvantes. O que importa ao filme são os personagens masculinos e a sutil relação entre "a leveza da forma e a profundidade da palavra".

Outro programa legal no fim de semana foi assistir à peça “A Mandrágora”, montada pelo grupo TAPA, que fica em cartaz, a preços populares, no Teatro de Arena da CAIXA Cultural apenas até este final de semana.
O texto foi escrito em 1503 e publicado pela primeira vez em 1524, por Nicolau Maquiavel. Ele construiu uma trama em que a conquista amorosa, com suas urgências e exaltações, servem como pretexto para desenvolver um tratado prático e saboroso sobre estratégia política, sobre a arte de envolver, manipular, convencer e, por fim, conquistar um objetivo.
Trata-se da história do jovem florentino Calímaco, interpretado por Rodrigo Lombardi – uma boa surpresa para quem conhece apenas seus trabalhos na TV -, que por conta de uma aposta com seu criado Siro (Brian Penido Ross), conhece e passa a desejar furiosamente uma mulher casada, Lucrécia (Patricia Pichamone), que não consegue engravidar de seu marido, Messer Nícia (o excelente Guilerme Santanna). Para conquistá-la, Calímaco usa da ajuda de um embusteiro (Sergio Mastropasqua), de um frei sem escrúpulos (Charles Myara) e da mãe de Lucrécia (Suely Franco), fingindo-se de médico que prescreve um tratamento a base de mandrágora, uma planta afrodisíaca.
O eco da frase do próprio Maquiavel, "Os fins justificam os meios", ressoa durante toda a peça. A partir deste mote, surgem os estratagemas para enganar o tal marido. Percebe-se, pela reação da platéia, o quanto de cartase há em assistir alguém ser ludibriado. Acostumamo-nos com isso. O "meu" desejo deve estar acima de tudo. E tudo é válido para alcançá-lo. É claro que na peça tudo é "justificado" pela personagem ímpar do tal marido, que mais de um século depois poderá ser encontrado em várias comédias de Molière, como o "Burguês Ridículo", etc...
"A Mandrágora" é considerada um marco no teatro ocidental. Mesmo que o diretor Eduardo Tolentino tenha pesado a mão na chanchada, vale a pena conferir esta montagem de um grupo teatral que sempre prima pelas boas escolhas dos textos. Aliás e a propósito, Bárbara Heliodora também recomendou a peça em sua crítica semanal, em O Globo.

Dia 17/01 este blog completou seu primeiro ano no ar. Gostaria de agradecer muitíssimo àqueles que passam por aqui toda semana, ou de vez em quando, ou quase nunca, para dar uma conferida. Muito grato.
Sobre a questão de manter-se contemporâneo, mesmo com o passar do tempo, coisa que tenho pensado por estes dias... quero transcrever a resposta que a diva Rita Lee deu a Arnaldo Antunes quando perguntada “onde fica sua fonte rejuvenescedora”: Fico longe de shopping centers, não acredito em cremes de beleza, fujo de médicos, nunca votei no Maluf, não como cadáveres de animais e desconfio de quem fala muito em Jesus.
Pode ser!

segunda-feira, janeiro 14, 2008

2008 começou!!!

Depois das festas de fim de ano é hora de recarregar as energias nos dias de sol à pino do verão carioca. Passados os fogos - e os tiros - do Reveillon de Copacabana, o ano começou com o pé direito.
Fomos assistir ao show da cantora Rosa Passos, no Teatro Nelson Rodrigues. Nunca tinha visto ela cantar ao vivo. Gostava dos discos, porém depois do show virei fã. No repertório sofisticado teve músicas de Dorival Caymmi, Tom Jobim, Ary Barroso, João Gilberto (sua influência maior) e Djavan.
Com sua consciência melódica e vocal, Rosa Passos demonstra um dom para entortar melodias e improvisar vocalizações incríveis. Acompanhada por um trio de músicos no piano, contrabaixo e bateria, em uma afinidade e competência difíceis de se ver hoje em dia.
Rosa Passos é boa e sabe disso. Tanto é verdade que durante o show afirmou que para trabalhar com ela é preciso ser “no mínimo virtuoso”. Poucos artistas podem falar isso com tamanha propriedade. Pena que seja cada vez mais rara a vinda dela ao Brasil.

Por falar em virtuosos, o Teatro de Arena da CAIXA Cultural recebeu o show de Arrigo Barnabé, com a participação especial da Patife Band. Para quem não conhece, o som único de Arrigo é uma fusão das invenções da vanguarda erudita com os códigos diretos da cultura pop. Já a Patife Band, que abriu a noite, mistura punk rock e composição dodecafônica.
No repertório do show temas como “Sabor de Veneno”, “Diversões Eletrônicas” e “Orgasmo Total”. Só no bis o compositor apresentou a esperada e pedida “Clara Crocodilo”, uma suíte para 4 mãos, interpretada com o instrumentista Paulo Braga. Durante toda a apresentação o público teve contato com a conhecida ironia de Arrigo Barnabé, que fez Caetano Veloso exalta-lo na canção “Língua”, já em 1984. No meio da apresentação ainda surpreendeu com a interpretação, ao seu modo bem peculiar, de “Lama” (Aylce Chaves e Paulo Marques), sempre entre uns e outros goles de cerveja.

Boa (e inesperada) notícia para quem se interessa por literatura e/ou questões de gênero. Uma tese de doutorado, sobre a genealogia da identidade homoerótica brasileira, foi eleita pelo Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro (Iuperj) como o melhor trabalho acadêmico do ano, e virou livro recém-publicado pela Editora UFMG.
Trata-se de "@s outr@s cariocas – Interpelações, experiências e identidades homoeróticas no Rio de Janeiro, séculos XVII ao XX", do argentino Carlos Figari, que faz um amplo levantamento da história do homoerotismo no Brasil, mais especificamente no Rio de Janeiro. Segundo o autor, a questão, tal como a enxergamos, é uma construção social, cujo sentido, volúvel, se desenvolve ao longo da história.
Ao analisar como se constituiu o olhar europeu sobre os nativos e como o homoerotismo tinha sentidos na América e se manifestava de muitas maneiras, o trabalho de Figari - apesar do olhar mais acadêmico - se aproxima bastante de “Devassos no paraíso”, indispensável livro de João Silvério Trevisan.
Ao final o autor conclui lucidamente que "as políticas que estamos gerando hoje são políticas de gay de classe média". Para quem está de férias, vale a pena devastar as 588 páginas do livro.

Dica de verão:

- Está em cartaz até 20 de janeiro, no Teatro Nelson Rodrigues, a RetrosPeg!. É uma retrospectiva do excelente trabalho feito pela Companhia PeQuod, de teatro de animação. Vale muito a pena conferir.
- Beber bastante líquido e abusar do filtro solar, bonés e óculos de sol. Tem cada um mais féxiu
que outro por aí, mas preocupe-se menos com moda e mais com a qualidade das lentes. Sem proteção UV não serve pra nada. A incidência dos raios nocivos aumenta a cada ano. É preciso se cuidar.
- Arder mesmo, só se for de amor por alguém. No verão, pode!

quinta-feira, janeiro 03, 2008

Saudade até que é bom!

Quero comentar neste primeiro texto de 2008 sobre o quanto é bom perceber que, como diz o manjado chavão “o tempo passa”, mas as relações verdadeiras permanecem e sobrexistem a quaisquer distâncias temporais e/ou espaciais.

Estive na Paraíba, meu sublime torrão, extremo oriental e porta do sol deste país tropical, para as festas natalinas. Visitei minha mãe - esteio do meu ser, meu irmão – companheiro de vida, e demais familiares queridos. Além dos meus amigos incríveis, aqueles que são pra vida inteira. É muito bom rever pessoas que sabemos que a “simples” existência e presença delas em nossas vidas significam muito ou tudo para nós. Mesmo o fato de andar pelas ruas e ver rostos conhecidos é ótimo. O sotaque, o jeito paraibano de ser... Pena não ter podido ver todos que eu queria.
Em 2007 falei bastante aqui no blog, enquanto tentava dar minhas impressões sobre a vida ao meu redor, a respeito das relações fluidas da contemporaneidade. Mas é impressionante como na prática só o tempo, compositor de destinos, ensina o que pode e o que não pode ser. A vida na prática é sempre ao contrário do que se supõe.
As vezes a gente chega a desacreditar que relações afetivas sejam ainda possíveis, diante de tantas superficialidades, máscaras e violências. Mas não, mesmo que seja apenas no nosso universo particular, sei e acredito que o amor é real, nas diversas expressões. Apesar do sentido do termo ter se desgastado diante do mau uso.
Nada supera a imagem de minha mãe e meu irmão ao me recepcionarem, e depois ao se despedirem, no aeroporto. Nada tem mais calor que o abraço nos sinceros amigos. E também nada vale mais do que voltar para o Rio e receber o abraço daquela pessoa que eu escolhi, e que me escolheu também, como cúmplice do dia-a-dia.
A gente só leva da vida as relações que criamos, cabe a nós decidir que tipos teremos. Eu tenho felicidade das que criei, elas me alimentam.
Voltar àquelas paisagens, onde as acácias explodem em amarelo, e sentir que outrora eu era dali e agora sou estrangeiro, forasteiro do que vejo e ouço, faz-me refletir sobre o sentido de muitas coisas e sentimentos. Sobre o quanto damos importância para situações que não merecem e o avesso disso, por exemplo.
As vezes, o distanciamento lança luz às coisas da vida. Está tudo aceso em mim e estou cada vez mais ligado ao presente, à medida que percebo e compreendo as coisas todas ao redor. É muito bom retornar e perceber que nada ficou pendente. Tudo está no devido lugar. Aprendo a viver os dias, apenas um de cada vez. Isto pra mim é viver. Viver o presente é saber, entre outras coisas, entrar e sair de tudo na hora certa, sem correr o rico de magoar seja a quem for, nem a mim mesmo.

Sim, começo este novo ano com saudade de todos, mas em paz por estar de volta ao meu aconchego. Saudade até que é bom, é melhor que caminhar vazio. Aos que estão lá, onde nasci, me criei e sempre tive inspirações, afirmo apenas que seguirão bem dentro de mim, como um São João sem fim, queimando o sertão.
É isso, o Rio de Janeiro continua lindo. A vida continua - ela sempre continua, cabe a nós decidir como – e mais um novo ano, com muitas realizações, está só começando. Que em 2008, possamos entender que o tempo escorre num piscar de olhos e dura muito além dos nossos sonhos mais puros. Que o bom é não saber o quanto a vida dura, ou se estaremos aqui na primavera futura. Para assim, podemos brincar de eternidade agora, sem culpa nenhuma.
Todo dia é dia, toda hora é hora de saber que cada vez que damos um passo o mundo sai do lugar.
Felicidade Urgente para todos nós!