Quão cruel podemos ser nas nossas relações? Este é o mote do novo espetáculo da Companhia de Dança Deborah Colker, que esteve em cartaz de A presença de fortes elementos narrativos, aliada à (quase) ausência dos suportes cênicos, essenciais nos espetáculos anteriores, causa “desconforto” em quem acompanha o trabalho de Colker. Aliás, o desejo de “contar uma história fechada” já esteve presente no espetáculo “Nó” (2005), mas agora é radicalizado.
“Cruel” começa com um palco nu – o único elemento cênico é um imenso lustre em formato de globo – onde tem lugar um baile, espaço de encontro entre os corpos e dos arquétipos comportamentais. Já aqui, percebemos uma personagem feminina que não encontra um parceiro para dançar e atravessa toda a coreografia sozinha, ensimesmada entre hesitações e avanços em direção ao “outro”.
Merece destaque ainda a curiosa trilha sonora, que mescla desde a serenata para cordas de Dvorák às batidas modernas.As relações domésticas, em que laços sangüíneos nos limitam, é outro ambiente investigado. Entra em cena uma mesa de cinco metros de comprimento, onde personagens do universo familiar executam à sua volta movimentos que traduzem desejo e traição, rancor e competição, silêncio e contato íntimo. O ato termina com facas – instrumento ritualístico e símbolo fálico – sendo atiradas, culminando com a presença da morte.
Na segunda parte, imensos espelhos giratórios servem aos personagens permitindo que confrontem seus limites físicos e psicológicos. Tais espelhos simbolizam tanto as portas místicas para um mundo paralelo, quanto as esferas onde vivemos, seja pelo narcisismo, seja pela multiplicação contemporânea das possibilidades de escolha. Como a mulher combalida pelas investidas no mundo, que, numa cena pungente, mas previsível, fecha o espetáculo.
Ao buscar uma narrativa que mostra o quão cruel podemos ser com nossos desejos, Deborah Colker peca ao apresentar um espetáculo “pronto” e fechado. Uma crueldade com o espectador.
* Texto publicado na coluna do jornal A União (10/05/2008).
Entre outros, ouvi, vi e li, por estes dias:
- CD Amigo é casa (Simone e Zélia Duncan) – As duas apresentam canções já interpretadas por elas e outros artistas. Mas as escolhas sonoras de Zélia Duncan atravessam todo o repertório do cd.
- Show Ao Vivo no Estúdio (Arnaldo Antunes) – Com performance, pra lá de original, Arnaldo mostra suavidade e clareza nas suas atuais interpretações, outrora rasgadas e "sujas" de ruídos.
- Filme Speed Racer – Mais uma vez, os irmãos Wachowski inaugural um novo visual para a telona.
- Filme Cassandra's Dream - Um Woody Allen com um pé (em falso) na tragédia grega.
- Exposição Arquitetura do medo (André Gardenberg) – A intenção de registrar "o medo" na contemporaneidade se dilui e algumas imagens são equivocadas.
- Livro As Dobras do Sertão (Josina Nunes Drumond) – Análise da dialética inconclusa de Grande sertão: veredas e sua transposição para a linguagem plástica de Imagens do Grande Sertão. Tudo focado nos mecanismos da construção neobarroca.

























Quero comentar neste primeiro texto de 2008 sobre o quanto é bom perceber que, como diz o manjado chavão “o tempo passa”, mas as relações verdadeiras permanecem e sobrexistem a quaisquer distâncias temporais e/ou espaciais.




