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quarta-feira, junho 13, 2007

Avesso do avesso do avesso do avesso?

Estivemos em São Paulo neste feriadão de Corpus Christi e alguma coisa aconteceu com o meu coração, quando cruzei a Ipiranga e a Avenida São João.

Brincadeiras à parte, São Paulo é uma cidade linda, a Av. Paulista com seus postes enfeitados com vasos de flores, seus belos jovens deselegantemente discretos, seu bauru, seus museus, seus Campos... Ficarão guardados na memória, além do fato de ter encontrado amigos que até então eram apenas do universo virtual.
Sim, há uma dura poesia concreta em suas esquinas, ainda mais pra quem vem de outros sonhos felizes de cidades (João Pessoa e Rio). Mas há uma mística de cultura e civilização que ainda não tinha experimentado. Tudo bem, pode-se dizer que romantizo demais as coisas que vivo, mas esta é a minha lei e a minha questão.
A primeira parada foi no MASP, onde fiquei, pela primeira vez, frente-a-frente com o quadro A Canoa sobre o Epte, de Monet (paixão especial e singular), entre tantas outras obras.

Mais tarde foi a vez de caminhar pela Av. Paulista e parar noutros espaços de arte muito interessantes, como a nova Livraria Cultura. Ao chegar ao Itaú Cultural, fui surpreendido pela presença do poeta e professor, meu amigo e orientador de projeto acadêmico, Amador Ribeiro Neto, que foi de João Pessoa especialmente para o evento Encontros de Interrogação. Assistimos juntos ao debate da noite, no qual estavam presentes Daniel Galera, Márcio Souza, Luiz Costa Lima e o grande Glauco Mattoso.
A discussão tinha como tema os sentidos e os valores da Literatura. Ouvir Glauco Mattoso é sempre uma delícia. Muito pontual, ele não faz voltas para chegar a uma resposta. Talvez por isso o mediador – Nelson de Oliveira – tenha deixado sempre Glauco tecer suas considerações após os outros debatedores.

Glauco, Daniel e Márcio, no Itaú Cultural

Muito se discutiu sobre a relação escritor versus público (recepção), escritor versus crítica, sobre o que Glauco, militante no movimento “geração mimeógrafo”, falou lucidamente: “Me recuso a ser criticado por alguém que não tenha o mínimo de conhecimento métrico e teórico”, apontando o dedo para a ferida da chamada “crítica literária” do Brasil, que discute muito mais temas e sociologias do que a estrutura dos textos, a arte literária em si.
Para quem conhece a obra, sabe que Glauco Mattoso é dono de um rigor métrico e estético que chega a perfeição. E se recusa a publicar em uma grande editora (e ficar ausente da mídia), porque, segundo ele, não quer ter seus textos cortados ou modificados, como "um copidesk de jornal". Sem meias palavras, lembrou abertamente um caso particular dessa ordem, na editora Brasiliense. Enfim, fiquei encantado ouvindo uma pessoa com uma bagagem teórica e prática como Glauco falar.
O debate questionou ainda a onda de biografias e autobiografias, levantando-se a indagação: Será que alguém que escreveu uma carta (objeto privado – teoricamente) gostaria de vê-la publicada? O que faz de uma carta, por exemplo, uma obra literária? O autor contemporâneo está retratando o seu contexto?
No dia seguinte visitamos o Museu da Língua, que até setembro apresenta a exposição Clarice Lispector – A hora da estrela (fiquei bobo em saber que temos um espaço como aquele aqui no nosso Brasil); a Pinacoteca do Estado; o Mercado Municipal; a torre do Edifício Banespa (vista incrível); e etc e tal.
Sobre o avesso do avesso do avesso do avesso? Acho que preciso voltar lá novamente e ser mais um paraioca passeando por sua garoa, numa boa!

Ah, sim, fomos à 11ª Parada GLBT, mas sobre isso escrevi um texto pro blog Transitar, caso queira ler:
http://verboemmovimento.blogspot.com/


PS: as fotos (exceto a do quadro) são do Carlos.

terça-feira, junho 05, 2007

Encontro com Caetano Veloso

Quem me conhece sabe que Caetano Veloso, além de ser (suas canções) corpus para minha pesquisa acadêmica, é para mim uma das figuras mais instigantes de nossa arte e que não consigo ficar indiferente quando o assunto é sua obra. Por isso não poderia deixar de registrar aqui no blog o meu encontro com ele, explico:
Dia 22 de maio ele participou do “Encontros O Globo – Especial Música”, no auditório do jornal O Globo, onde respondeu perguntas dos jornalistas Antonio Miguel e Cora Rónai, do ''Globo'', do cenógrafo Hélio Eichbauer e da platéia.
Eichbauer fez longas perguntas, repletas de citações, desde Pound a Sousândrade, que Caetano elogiou como “ensaios condensados”. Uma delas falava da “dádiva da maturidade” e terminava com a interrogação: “Como acontece a música?”.
— Há muitas dádivas... A paternidade em primeiro lugar... A experiência com os muitos lugares, tempos e pessoas... Sou grato pela minha vida. Mas por outro lado há a experiência da decadência, a outra face dessa moeda... Quando passei a usar óculos, aos 45 anos, foi uma tragédia para mim. Depois me acostumei. Levou dez anos, mas me acostumei. Com tudo isso, a música sai às vezes melhor, às vezes maculada por coisas como a perda da visão.

Mas, como sempre, Caetano foi chamado para dar opinião sobre TUDO, desde a atitude de Roberto Carlos ao proibir a biografia – É impossível eu me sentir bem com uma proibição, me incomoda saber que estão recolhendo livros, disse Caetano; até sobre a política do Presidente Lula: É um luxo no Brasil, por ser um dos quatro presidentes eleitos pelo voto direto que exerceram seus mandatos até o final, ele, Gaspar Dutra, Juscelino Kubitschek e Fernando Henrique Cardoso... Mas ele não é muito mais do que isso... Ele se mostrou hábil na capacidade de se manter no poder, disse.

Sobre a “Tropicália no poder”, por causa da presença de Gilberto Gil como Ministro da Cultura, comentou: — A chegada de Gil ao ministério (da Cultura) não está entre as conquistas mais relevantes do tropicalismo — respondeu Caetano. — Eu não queria que ele fosse ministro. Não me anima estar próximo do poder oficial. Disse a Gil que ele se tornaria o Lula do Lula, um símbolo de um símbolo... Daria um colorido a mais para o que Lula representa... Bastaria Gil estar ali, mas ele fez coisas, como os Pontos de Cultura e também o reconhecimento da reprodutibilidade da obra cultural nos novos tempos. Nesse pequeno aspecto, é levemente tropicalista.

Quanto às influências literárias citou Augusto dos Anjos, Bandeira, Drummond, Cecília Meireles e João Cabral e Sousândrade. Afirmando que não se considera poeta no sentido específico do termo.
Ele se empolgou mais ao falar do processo de produção de seu mais recente CD: , mostrando que as concepções dos arranjos nasceram no violão, apesar de desde o início ser pensado para ser tocado por uma banda, e aproveitou para anunciar sua intenção em gravar outro álbum com Pedro Sá (guitarra), Ricardo Dias Gomes (baixo) e Marcelo Callado (bateria):
— Gosto muito de como Pedrinho faz levadas de samba na guitarra. Quero juntá-lo com Davi Moraes, que também tem coisas boas nessa linha.

Sobre gravadoras, piratarias e download:
— As gravadoras estão acabando da forma como as conhecemos. A mudança tem aspectos excitantes, outros preocupantes, mas na essência não muda nada para os criadores, que continuam fazendo música. O compartilhamento de músicas é muito bom... Mas meu filho baixa basicamente música popular em inglês, o que já predominava na indústria.

E lançou seu olhar sobre a ordem mundial quando Eichbauer descreveu um cenário de inferno capitalista traçado por Ezra Pound:
— Apesar das previsões sombrias do meio ambiente e da disparidade de poder entre grupos de nações, acredito no futuro... O excesso da perspectiva científica desfaz a humana, que é espiritual. Pode ser que um asteróide destrua tudo, ou que as máfias dominem o mundo... Mas prefiro pensar que o Brasil tem a possibilidade de criar uma nova experiência de vida humana e fará isso.

Valeu muito a pena ficar pouco mais de uma hora na fila, só para vê-lo de perto e, além de perceber a lucidez de suas afirmações, ouvi-lo tocar e cantar: Odeio, Outro, Ta combinado, Força estranha, Minha voz minha vida, entre outras belas mostras da capacidade criativa e inventiva deste velho baiano, um fulano, um caetano, um mano qualquer.
Pena não aproveitarem melhor sua presença, através de perguntas mais pertinentes à sua produção artística.

terça-feira, maio 22, 2007

A saída está na poesia!

Escrever sobre Ariano Suassuna é escrever sobre um bom humor irresistível, sobre seu grande talento literário (do qual destaco Uma mulher vestida de sol) e da enorme influência exercida sobre várias gerações, além, claro, de sua ranzinzisse crônica – na resistência contra a “desfiguração da identidade cultural” e a defesa da ancestralidade erudita nascida das manifestações populares.
É sobre este Suassuna escritor e pensador que assistimos – dia 18/05 – a peça Ariano, em cartaz no CCBB, do Rio de Janeiro, até 15 de junho. A montagem faz parte das homenagens pelos seus 80 anos.
Com autoria do jornalista paraibano Astier Basílio e Gustavo Paso e sob direção deste, a peça narra uma saga poética (começando pela marcante morte de seu pai), em que o jovem Ariano, interpretado pelo pernambucano Gustavo Falcão, segue em busca do Reino de Acauã, uma referência à Fazenda Acauã, onde o escritor nasceu, no interior da Paraíba.
Há uma reverência ao conjunto de criações do autor de O auto da compadecida, vemos o Ariano-personagem às voltas com seus adversários ou com suas criaturas de teatro e romance – quase todos retirados da admirável mitologia nordestina, sem esquecer do sebastianismo (Dom Sebastião é interpretado por Jorge Luís Cardoso), tão presente na obra do criador de Chicó (Ney Motta) e João Grilo (Maurício Baduh).
Misturando referências biográficas de Suassuna com personagens de sua obra, a peça segue a estrutura da Divina Comédia, de Dante Alighieri, com três atos, Sol (representando o inferno) Sangue (purgatório) e Sonho (paraíso).
Obviamente, uma peça com muitos atores – o talentoso Gustavo Falcão lidera um elenco de 14 atores, da Cia Epigenia Arte Contemporênea – tem lá uns personagens mal interpretados, mas nada que ofusque a totalidade e a magia criadas pelo texto, cenário e iluminação.
A saída está na poesia” é uma frase sempre dirigida ao Ariano quando o personagem se encontra diante dos dilemas levantados, mais uma poética e metalingüística solução, encontrada pelos autores da peça, para homenagear o autor da frase:

A gente tem uma tendência a querer que o tempo da história coincida com o tempo de nossa biografia. O progresso moral da Humanidade é muito lento.”

Numa cultura desmemoriada, como a nossa, Suassuna exerce um papel importante, mesmo que com conceitos questionáveis.
Fica registrado que há homenagens e Homenagens. Ariano é uma Homenagem apaixonada, inteligente – com todos os recursos intertextuais do texto e da encenação – e merecida, feita ao autor de A pedra do reino, o nosso Quixote sertanejo!

segunda-feira, maio 14, 2007

Música em cena II & III

II
"No cinema, a música cria uma tensão com a imagem, uma sensação imprescindível”

É com este conceito que Arnaldo Antunes participa de algumas trilhas de filmes, tais como “Benjamim”, “Bicho de sete cabeças”, “Dois perdidos numa noite suja”, entre outras, e por isso foi convidado para se apresentar no Música em Cena – 1º Encontro Internacional de Música de Cinema, no último dia 11 de maio, no Canecão, e dividir a noite de apresentações com André Abujamra, outro fazedor de trilhas e o oscarizado (duas vezes, por: “Brokeback Mountain” e “Babel”) Gustavo Santaolalla e a sua Banda Bajofondo.
A noite começou com o André Abujamra que, contrariando as expectativas, apresentou mais músicas de seu cd, do que as trilhas já produzidas para filmes – como “Domésticas” – tendo como participação especial Paulinho Moska, na vez de interpretar a sua “O Mundo”, sucesso na voz de Ney Matogrosso e Pedro Luis e a Parede.
Depois foi a vez do Arnaldo Antunes, artista que, com a mesma qualidade e consciência, consegue transitar por várias linguagens da arte (merecerá muitas outras discussões aqui no blog). Intercalando canções de seu mais recente cd “Qualquer” e canções feitas para filmes, como, além das já citadas, “Mil e Uma”, “Tema de Antônio”, etc. Fiquei particularmen
te feliz por ele ter cantado, com sua voz mono, enfatizando mais o texto do que a melodia, a bela “2 perdidos”: ta fazendo frio / nesse lugar / onde eu já não caibo mais / e já não caibo em mim.

E veio a grande atração da noite, para muitos, o fantástico Gustavo Santaolalla. Foi muito emocionante ouvir o tema de “Brokeback Mountain”, filme que é um divisor de águas pra muita gente, conheço algumas histórias lindas, surgidas a partir deste filme, ou melhor, de suas reverberações, e que abriu discussões mais sérias e efetivas sobre como a arte trata o amor homoerótico. O impressionante é que a trilha é tocada “apenas” pelo Santaolalla, como bem atentou o Carlos, no filme parecia que havia uma orquestra, tão grande é sua competência com o violão.
Marisa Monte foi convidada por ele e cantou “Infinito particular” (...vem cara me retrate / não é impossível / eu não sou difícil de ler / faça sua parte...), entre outras canções.
A noite encerrou-se com a excelente Banda Bajofondo, que tem Santaolalla como líder e integrante, cujo som surge da mistura do tango com música eletrônica.
Uma oportunidade ímpar de ver artistas tão admirados por mim, numa única noite!!!








III

O Música em Cena se encerrou ontem (13/05) com o concerto “A Música do Cinema Brasileiro”, com a Orquestra Petrobras Sinfônica regida por Julio Medaglia (um dos papas do tropicalismo, fazendo arranjos geniais para "Não identificado", "Coração materno", "Domingo no parque", etc), no Theatro Municipal do Rio de Janeiro.
No Programa: “O descobrimento do Brasil”, “Orfeu”, “A ostra e o vento”, Dona flor e seus dois maridos”, “Abril despedaçado”, etc.

PS: O Gustavo Santaolalla e outros integrantes da sua Banda Bajofondo estavam lá, assistindo.

quarta-feira, maio 09, 2007

Música em cena I

Para falar sobre um concerto de Ennio Morricone, acredito que bastava lembrar que este ano ele recebeu um Oscar honorário pelo conjunto de sua obra – que inclui trilhas para Cinema Paradiso, Os Intocáveis, A Missão e Era uma Vez na América, entre muitos outros – e postar aqui o programa da noite, mas houve mais...
O evento no Theatro Municipal do Rio de Janeiro (05/05/2007) começou com a apresentação dos organizadores e a leitura de um discurso do Ministro da Cultura Gilberto Gil que, com gripe, foi lido pelo ator José Wilker.
No discurso sobre o 1º Encontro Internacional de Música de Cinema, Gil fez um apanhado da obra de Ennio Morricone, com alusões às investigações de John Cage, músico experimentalista, além de exaltar a importância da música no universo cinematográfico com um levantamento histórico do tema na produção cinematográfica do Brasil, relembrando as transformações impulsionadas pela inserção da “sétima arte” por aqui, citando a canção de Noel Rosa que diz: “O cinema falado é o grande culpado da transformação”, lembrando ainda a canção-exaltação “Cinema novo”, dele – Gil – com Caetano Veloso.
Houve uma tentativa de vaias abafadas pelos aplausos. Vejamos a versão, para isso, publicada pelo Estado de São Paulo:

"A figura mitológica do mais clássico dos compositores para cinema foi reduzida à de um "tropicalista italiano" no discurso do ministro Gilberto Gil, que não compareceu ao concerto alegando doença, encarregando a tarefa ao ator José Wilker. Motivo de riso e perplexidade geral, o interminável pronunciamento extrapolou o suportável, agravado pelo tom arrogantemente alto da voz de Wilker. Fez por merecer o princípio de vaia que tomou da platéia. Mas não vamos desperdiçar tempo e espaço com comentários sobre a intenção de polêmica implícita no discurso. A música de Morricone dispensa essas farofadas." Lauro Lisboa Garcia

Discordo de Garcia, ainda mais quando ele fala de “polêmica implícita”, pois, além de, como bem me apontou o Carlos, vaiar o Gil significar, na cabeça estreita de alguns, vaiar o Lula, isso restringe a capacidade inegável de concisão histórica elaborada pelo Ministro no texto lido, por Wilker.
Enfim, depois, acompanhado da Orquestra Petrobras Sinfônica, Morricone mostrou ao que veio. O concerto se dividiu em duas partes:

Primeira parte: Os intocáveis; Era uma vez na América; A lenda do pianista do mar; H2s; Os sicilianos; Metti una sera a cena: 2 temi; Maddalena; Três homens em conflito; Era uma vez no oeste; e Quando explode a vingança.

Intervalo: A hora de esbarrar com as celebridades presentes: Camila Pitanga, Julia Lemmertz, Wagner Moura, Letícia Spiller, Cristiani Torloni e etc e etc...

Segunda parte: A batalha de Argel; Investigações de um cidadão acima de qualquer suspeita; Sostiene Pereira; A classe operária vai ao paraíso; Pecados de guerra; Queimada; O deserto dos tártaros, Ricardo III; e A missão.

Devido aos insistentes aplausos e pedidos de bis, Morricone retornou três vezes ao palco e regeu trilhas já apresentadas. Por fim ele mesmo tirou suas partituras do púlpito para não dar margem a outros pedidos do público.
Uma noite mais que demais.

quarta-feira, maio 02, 2007

A representação do paraíso II

Dias 23 e 24 de abril, aconteceu o Colóquio Rumos Literatura, dentro do programa Rumos Itaú Cultural, aqui no Rio. Dentre outros assuntos debatidos, a questão “o que torna um autor cânone” merece destaque, para mim, talvez porque depois de (re)visitar Camões eu tenha ido (re)visitar Homero e Eça de Queiroz, cânones da nossa Literatura Universal, explico:
No Canto V, da Odisséia, Ulisses que se encontrava tristonho, mesmo vivendo em uma ilha paradisíaca com a bela Calipso que lhe prometera a imortalidade, prefere voltar para Ítaca, sua terra e onde está sua família, e começa a construir uma jangada para o retorno (óbvio que faço aqui uma leitura bastante reducionista).
Ogígia, ilha de Calipso, é um lugar prazeroso, os campos Elíseos da terra. Porém apesar da vitalidade, resultante da boa vida, do corpo de Ulisses, sua alma não tem paz. Ele prefere sua terra à imortalidade do corpo e ao prazer sem fim, ou seja,
é melhor envelhecer seu corpo ao lado da sua mulher, a querida Penélope, na pedregosa Ítala, fugindo da morte psíquica.
Em contrapartida, Eça de Queirós, baluarte do Realismo português, publica em 1897 o conto A perfeição, uma “adaptação” para o formato de conto, feita a partir do Canto V, do texto homérico. O conto, como define Júlio Cortazar, com algumas controvérsias, está para a fotografia, por sua narrativa curta, focada em poucos personagens e num determinado tempo e espaço, com total utilização estética da limitação, eliminando as situações intermediárias, assim como o romance está para o cinema.
Ogígia, - “de crescimento admirável, a vinha os pimpolhos estende / da gruta côncava em torno, a vergar com o peso dos cachos. / Água mui clara promana de quatro nascentes vizinhas, / que juntas surdem, mas abrem caminhos por partes diversas. / Prados macios em torno se viam, com aipo e violeta, / cheios de viço. Até um deus imortal que ali viesse, por certo se admiraria com tal espetáculo, na alma folgando.” - é a representação do ideal a ser alcançado.
Porém, influenciado pela estética simbolista, que nega a anterior da busca alucinada pela forma perfeita trazendo ao homem uma realidade mais subjetiva, Eça nos sugere que é a procura da felicidade, com todas as dificuldades e vulnerabilidades que torna o homem feliz, chegando a sugerir também que a perfeição cansa.

Ao declarar: “Morro de saudades da morte”, o Ulisses queirosiano demonstra que sente falta das coisas do quotidiano comum e que foram esquecidas pela busca de uma vida perfeita. Uma das intenções de Eça de Queirós, como de alguns intelectuais de sua época, é chamar a atenção para a superação da visão racionalista e mecanicista do universo. O símbolo implica na expressão indireta de um significado que é impossível dar diretamente, que é essencialmente indefinível e inesgotável, ficando claro o porquê de Eça de Queiroz resgatar o texto de Homero.Ulisses, abandona a perfeição de um mundo físico ideal e vai à busca da essência do ser humano, aquilo que ele tem de mais profundo e comum: a alma e as inquietações dela. A perfeição está nas angústias e prazeres do dia-a-dia, nas imperfeições da vida comum? Isto é, é o caminhar que torna a vida perfeita, em detrimento do chegar? Será isso que estes dois cânones da nossa Literatura Universal quiseram nos mostrar?
Talvez essa seja uma das características de um cânone: levantar questões que não se limitam no tempo e espaço, levantar questões universais.

Em tempo: Voltando ao campo literatura, é preciso absorver, mas também é preciso discutir o cânone, isso em todos os campos do saber, foi esta inquietação e a visão crítica que fizeram Haroldo e Augusto de Campos reposicionarem, não só Gregório de Matos, mas também Sousândrade e Pedro Kilkerry, na história da nossa Literatura Brasileira.

terça-feira, abril 24, 2007

A representação do paraíso







































Surgiu uma vontade – não sei de onde – de reler o Canto nono d’Os Lusíadas, de Luís de Camões, poeta que viveu no século XVI, então resolvi postar aqui no blog minhas impressões.
O Canto nono narra, ao longo dos seus 760 versos decassílabos, o regresso à pátria e a recompensa de Vênus aos navegadores lusitanos: Cansados, eles se recolhem às naus e preparam a volta à pátria. A deusa resolve premiar os heróis depois de tantas lutas e sacrifícios (v. 18 e ss.) com prazeres divinos: a Ilha dos Amores (v. 51-87).
Percebo a exaltação às realizações dos navegadores lusitanos e a descrição dos transtornos impostos a eles pelos mouros, com Vênus, auxiliada por Cupido, preparando-lhes uma ilha paradisíaca onde as mais belas ninfas esperarão por eles. Camões, fazendo uso da fanopéia (
levando-nos às imagens que são compostas/propostas pelas palavras ou pelo/no corpo da palavra, segundo Ezra Pound), apresenta-nos o local como um verdadeiro paraíso, seja ecológico (v. 55-63), seja erótico (v. 68-83).
Os marinheiros divisam por entre os ramos das árvores as cores dos tecidos das vestes das ninfas, as quais deliberadamente vão se deixando alcançar. Outras são surpreendidas no banho e correm nuas por entre o mato, enquanto alguns jovens entram vestidos na água. Umas fingem fugir, outras não, e deixam-se cair aos pés de seus perseguidores, numa clara demonstração do jogo erótico-amoroso. É ainda o cio vencendo o cansaço depois de brigarem horas a fio, como canta Djavan, na letra de Faltando um pedaço.
Retomando o paraíso de Maomé, em que sete mil (há variantes do mito) virgens esperam pelo herói, para mim, Camões supera tal ideal, visto que os heróis do seu poema não precisam morrer fisicamente para desfrutarem de orgasmos imortais (v. 88-89).
Durante minha leitura, lembrei que Sérgio Buarque de Hollanda escreve no seu Raízes do Brasil que para aqueles que vivem em um Paraíso “o ideal será colher os frutos sem plantar a árvore”, vivendo em projetos ilimitados de tempos vastos e abundantes, ignorando barreiras. Não é por acaso que mesmo indiretamente, a idéia do Paraíso perpassa todo inventário literário desde Camões.
Entendo, assim, o episódio da Ilha dos Amores como o espaço da utopia, pois é esta natureza edênica a representação do projeto humano de encontrar a “terra prometida”. A Ilha dos Amores, que se configura numa premiação, é, por fim, a representação do paraíso, da glória e da palma, é o louro para aqueles que se esforçam.

Findei minha leitura nada singular com questões fervilhando pois, no contexto contemporâneo de profunda inversão de valores, quando há verdadeiramente o fim das utopias canônicas, pergunto: Quem, ou o que, substituiu o lugar do herói? Quem, ou o que, merece/mereceria os prazeres de Vênus? Ou ainda, quem está desfrutando de tais prazeres hoje-agora?

terça-feira, abril 17, 2007

Lúdico e Rebelião

Pseudônimos, heterônimos, anonimato e toda forma de máscara retórica existem à mancheia no universo literário. Os motivos são muitos, eles se estendem desde a escrita política clandestina à pornografia.
Quero comentar o heterônimo Adriana Partimpim, intérprete que dedica seu trabalho, preferencialmente, ao público infantil, criado pela Adriana Calcanhotto.
Calcanhotto fez uso de vários símbolos do universo infantil, por exemplo, como a utilização de máscaras infantis e/ou coloridas para diferenciar-se de seu heterônimo e revelou que Partimpim é como o pai dela a chama desde criança.
A máscara por si só já aponta para uma transformação ou disfarce, pois com seu simbolismo primitivo e antigo, a máscara tem a força de encarnar naquele que a usa o “espírito” representado por ela.
Em entrevista, Partimpim esclarece que seu objetivo ao lançar o cd, em 2005, foi o de “mudar o mundo” e nada melhor do que começar pelas crianças.
Um heterônimo nitidamente feminino e que adora cantar para/com as crianças, ora emprestando voz a elas, ora àqueles que com elas vivem; ora levando-as ao mundo mágico das fábulas – Formiga bossa nova – e da poesia, ora conscientizando-as para questões universais e essenciais à constituição do ser – Saiba.
Dentre as dez faixas do disco destaco a Canção da falsa tartaruga, uma música de Cid Campos para a tradução feita por Augusto de Campos da canção da falsa tartaruga, do livro Alice no país das maravilhas, de Lewis Carroll.
A ligação de Calcanhotto com a literatura é bastante estreita, haja vista a interpretação de poemas musicados como: A fábrica do poema, de Waly Salomão, musicado por Calcanhotto, O verme e a estrela, do simbolista Pedro Kilkerry, musicado por Cid Campos e O outro, do poeta português Mario de Sá-Carneiro, musicado por Calcanhotto, entre outros exemplos.
Certamente Calcanhotto empresta a Partimpim essa vivência, para que ela possa criar seu próprio “país das maravilhas” ou seu “mundo melhor”, mundo em que o lúdico não é sinônimo de alienação, mas de rebelião, de conscientização.
Destaco ainda Formiga bossa nova, música de Alain Oulman sobre o poema Velha fábula em bossa nova, do português Alexandre O’Neil. O poema reconstrói a famosa fábula de La Fontaine A cigarra e a formiga, com o canto da cigarra, que até queria ser “minuciosa” como a formiga, mas não pode negar sua natureza – aliás, ninguém pode.
O disco tem ainda interpretações exemplares para Saiba, de Arnaldo Antunes, e Fico assim sem você, de Abdullah e Cacá Moraes.
Fica claro que, para Partimpim, a criança não é o futuro do planeta, como afirma o clichê social, mas sim, é o presente, pois através de sua conscientização hoje teremos sempre um mundo melhor.
Para o adulto, Adriana Partimpim desperta a nostalgia, dentre outros sentimentos, ao re-significar o passado, através do resgate de canções, livros, fábulas... re-significando também, para as crianças do presente, introduzindo estas na sociedade, pela arte feita com qualidade estética.
Sendo de sagitário, e sempre me emocionando com a interpretação de Partimpim, encerro este post com a letra da canção Ser de sagitário, de Péricles Cavalcanti.

Você metade gente
e metade cavalo
Durante o fim do ano
cruza o planetário

Cavalga elegância
Cabeça em pé de guerra mansa
Nas mãos arco e flecha
Meu coração
Aguarda e acompanha
seu itinerário
Até o fim do ano
ser de sagitário

Você metade gente
e metade cavalo

terça-feira, abril 10, 2007

A pingolândia e o amor (ainda) possível

Comentários sobre a sexualidade dos pingüins têm aparecido à mancheia, como assunto de jornal.
No cinema, o documentário francês “A Marcha dos Pingüins”, por exemplo, foi o vencedor de um Oscar em sua categoria, contando a jornada para o acasalamento e nascimento da espécie na Antártida.
Há também o exemplo de “Happy Feet”, vencedor do Oscar de melhor filme de animação, com a história de Mano, um pingüim imperador que não sabe cantar, tornando-se O diferente, entre seus semelhantes, mas acolhido num grupo, também de "diferentes", de outra espécie de pingüins.

Uma história verídica aconteceu no zoológico do Central Park, em Nova York. É lá que moram Roy e Silo, dois pingüins machos, juntos há mais de seis anos em uma relação monogâmica e com muito sexo. Os veterinários já tentaram oferecer fêmeas aos dois, mas eles as recusaram e, na falta da possibilidade de um ovo para procriarem, os dois adotaram uma pedra e ambos a chocaram.
Os veterinários decidiram dar-lhes um ovo e após 34 dias, nasceu Tango, uma filhote cuidada com todo carinho pelo casal.Transposta para o universo da arte, “And Tango Makes Three” é o nome do livro baseado nessa história real.
Porém, como nem tudo são flores, pais americanos revoltados fizeram o livro ser retirado da seção infantil da biblioteca de Savannah, em St. Joseph, no estado de Missouri, por sua temática homoerótica que, acreditam tais pais, as crianças pequenas ainda não estão preparadas para lidar.
De qualquer forma, o livro vem sendo bem aceito em outras partes do mundo onde foi lançado e ajuda crianças pequenas a entenderem que a diferença está em todos os lugares, sem exceção. Afinal, como afirma Ken Hanes, no prefácio do seu livro “Guia prático para a vida gay”, “milhões de crianças sofrem terrivelmente porque seus pais, na maior parte dos casos, não sabem nada sobre o fato de alguém ser gay. As verdades sobre a vida gay permanecem fora da esfera de competência da maioria dos pais. E aqueles poucos que têm conhecimento dessa realidade gay quase nunca admitem conversar francamente com seus filhos sobre o assunto.”
É nesta onda que foi lançado aqui no Brasil o livro “Gus & Waldo: o livro do amor”, de Massimo Fenati, com primeira edição publicada na Grã-Bretanha em 2006, traduzido para nós por André Fischer (editor executivo do site Mix Brasil).
A narrativa está centrada na história de amor, entre os personagens-título, ambos cansados de viverem sozinhos. Depois de um furtivo encontro, num shopping, eles não conseguem mais se desgrudar, até que surgem as diferenças entre eles e, com medo de terem chegado ao fim da excitante relação, procuram o Dr. Khama Leão, terapeuta de casais.
Sem dúvida alguma é um inteligente mote para tratar das relações monogâmicas. Pois, em um momento em que o sexo descompromissado com questões mais profundas do Ser parece querer suprir os vazios do Homem contemporâneo, Gus e Waldo, provam, pela contramão dessa onda, que amar pode dar certo e se apaixonar pela mesma pessoa todos os dias e ter por ela o mesmo tesão de sempre é algo possível, mesmo esbarrando nos impasses da nossa vida líquida, desde que os dois queiram e eles querem muito.
Tal mensagem, com uma bela e pontual ilustração, capaz de agradar não só aos infantes, mas principalmente aos adultos mais exigentes, serve para as crianças de todas as faixas etárias, mesmo, talvez principalmente, para as que cronologicamente não são mais crianças.

terça-feira, abril 03, 2007

Ah as malditas comparações!

Sexta-feira passada, Carlos e eu fomos assistir à peça “A hora e a vez de Augusto Matraga”, adaptação do conto de mesmo nome de João Guimarães Rosa. Ao final saí com a sensação de que havíamos assistido a um bom espetáculo, mas com a sensação de que faltou alguma coisa. Sei que toda adaptação é difícil, ainda mais quando é para uma linguagem diferente de arte. Por isso não se deve fazer comparações, mas...
“A hora e a vez de Augusto Matraga” é considerado por muitos críticos a mais importante produção do escritor em Sagarana, tanto por sua estrutura narrativa quanto pelo tratamento da luta entre o bem e o mal, e todo o questionamento decorrente de uma tomada de consciência do homem optando por uma dessas forças.
Isso, de alguma forma, está presente na peça e de maneira muito interessante do ponto de vista das soluções cenográficas elaboradas por Carlos Alberto Nunes, dos figurinos de Ney Madeira e do projeto de luz de Renato Machado – desde a metáfora da personagem Mimita (flor despetalada), passando pela surra que Nhô Augusto leva (um pedaço de carne é “amaciado” em cena), até a luta final.
No texto de Rosa, o próprio narrador questiona o conceito de realidade e ficção na literatura, muitas vezes caracteriza como folclóricas as histórias que conta, inserindo nelas quadrinhas populares e dando-lhes um tom épico. Na peça, o texto é narrado e interpretado e as quadrinhas cantadas por todos os personagens em cena, numa fragmentação que realmente funciona.
Há, no conto, três movimentos nodais que impingem a ação e bem marcados na peça, sob a direção de André Paes Leme:

1º Movimento – Augusto como figura do mando, perverso, brutal, desregrado, mundano, demoníaco e assassino;
2º Movimento
– Metáfora da queda financeira, moral (perda da mulher para Ovídio), peia que leva do Major Consilva e queda física;
3º Movimento
– Homem do bem, metáforas e signos da religião cristã;

Fica claro, mesmo com estas pequenas observações acima, que interpretar uma personagem como Matraga – “Matraga não é Matraga, não é nada. Matraga é Esteves. Augusto Esteves (...)” – é um processo desafiador para qualquer ator. São muitas as nuanças, sutilezas, subjetividades e subtextos presentes e característicos da obra rosiana.
Como disse Rosa
“O sertão é o terreno da eternidade, da solidão”, e é exatamente esta “solidão” que falta à interpretação de Vladimir Brichta. O espectador mais consciente da linguagem rosiana fica esperando pelas transformações internas da personagem, aliás tais movimentos só são perceptíveis no todo da peça, numa clara mostra de que o processo de construção da figura dramática, para Brichta, ficou na superfície.
Há momentos, aqui e ali, de maior empenho do ator, mas o “homem” cuja história de redenção e espiritualidade, cuja história de conversão e de passagem do mal ao bem, da perdição à salvação, esse eu não vi em cena.

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Em tempo, não posso deixar de lembrar que assisti à bela e melhor resolvida – por parte da interpretação de Nanego Lira (Primo Ribeiro), Soia Lira (Ceição), Servílio Gomes (Jiló) e Everaldo Pontes (Primo Argemiro) e sonoplastia do músico Escurinho – montagem de “Vau da Sarapalha”, uma adaptação do conto "Sarapalha", também de Sagarana, com direção de Luiz Carlos Vasconcelos, do Grupo Piolim-PB.

sexta-feira, março 23, 2007

Fruição e Senso Crítico

Eu estava preparando um texto sobre outro assunto, para postar aqui no blog, mas depois que assisti ontem à estréia do monólogo Federico Garcia Lorca: Pequeno Poema Infinito, e diante de tamanha beleza e de uma interpretação tão segura e delicada, eu não poderia ficar quieto. Pelo contrário, fiquei extremamente inquieto e perturbado com tudo que vi e senti durante a apresentação.
Segundo o texto de divulgação:“A peça foi criada a partir de uma conferência de Lorca, Como Canta Uma Cidade de Novembro a Novembro, realizada em 1933, em que o poeta falou de sua terra natal, Granada. Através da descrição do movimento contínuo das estações do ano, do folclore musical, das tradições do povo e das paisagens, Lorca revela suas mais marcantes experiências como artista e cidadão granadino.”
Confesso, talvez pela formação acadêmica que, se nos deixa sensíveis por um lado, torna-nos “insensíveis” por outro, fazia tempo que eu não experimentava uma sensação de inquietude tão profunda, no entanto consciente, diante de uma obra de arte.
Nos tempos em que se tenta discutir o que é o belo e/ou porque temos medo do belo, o ator, José Mauro Brant (foto) e seu diretor, Antonio Gilberto, conseguiram a medida certa do belo, sem medos ou arremedos, no soturno da obra de um artista grande e complexo como Lorca.

Com um bom currículo (está em cartaz também com o musical Aracy Cortez: A rainha da praça Tiradentes, que também já vimos, Carlos e eu), o ator conseguiu fluir num texto de pouco mais de uma hora – tratando de poesia, teatro, vida, folclore e costumes granadinos... –, sem perder as singularidades e sutilezas do personagem, os movimentos sutis, referenciando a introspecção e a melancolia de alguém sempre cutucado pela morte e a entonação vocal (ele canta e conta piano durante o espetáculo).
O roteiro tem uma visão, digamos, bem brasileira dos textos de Lorca, sem o "peso dramático" que teria caso fosse escrito por um espanhol, oferecendo leveza às densidades dramático-introspectivas do texto composto por inversões sintáticas interessantes, cobrando do ator maior trabalho de marcação, seja na luz algo transcendental de Paulo Cesar Medeiros, seja na cenografia de Ronald Teixeira.

Me emocionei alguns vezes, ri outras tantas, confesso que foi algo de catarse mesmo, de pura e nada simples fruição.
Claro que foi visível algum nervosismo, vez por outra. Afinal era a estréia!
Todavia foi, sem dúvida alguma, algo extremamente tocante, seja pelo poder de causar a fruição do espectador, seja por realmente ter qualidade artística para calar qualquer crítica mais fria.
Por fim ficou ressoando em mim, dentre tantos questionamentos, estas palavras do Lorca, vivenciadas brilhantemente pelo ator José Mauro Brant: "O Teatro é a poesia que se levanta do livro e que se faz humana..."

sexta-feira, março 16, 2007

Literatura Homoerótica

Ainda não havia sido escrito nenhum texto específico sobre Literatura aqui no blog, mas, como esta semana comemoramos o dia da poesia (14 de março - por isso este belo poema de Augusto de Campos Rosa para Gertrude ilustrando este post), resolvi revisar e sintetizar um texto meu já publicado, sobre Literatura Homoerótica.
A primeira questão que nos inquieta é se realmente a literatura (e a arte no geral) precisa ser classificada em homoerótica, panfletária, feminina etc e tal. Acredito que sim, mas só para fins didáticos e de pesquisa, pois a literatura homoerótica, para firmar-se como literatura, acredito, precisa estar dentro e junto – apresentando todas as singularidades da boa escrita – e não separada e periférica, como um resultado ao contrário da “luta” de alguns engajados.
Tratar da Literatura Homoerótica ainda é tão complicado e difícil quanto a discussão sobre o desejo homoerótico em si, hajam vistos os preconceitos, mesmo de acadêmicos, que ainda giram em torno do assunto. Denílson Lopes, em seu livro O homem que amava rapazes e outros ensaios
, afirma que a literatura gay não é aquela que retrata apenas o cotidiano sexual dos indivíduos com inclinação homoerótica, mas, principalmente, é aquela que transforma em arte a experiência do “sair do armário”, atitude que implica sérias conseqüências, longe dos estereótipos sociais e midiáticos.
A maioria dos estudiosos sobre o assunto concorda que o Brasil iniciou-se no campo da literatura homoerótica com Bom-Crioulo (1895), do cearense Adolfo Caminha. Desde então, apesar das severas críticas de alguns segmentos da sociedade e das rejeições do mercado editorial, fazem parte da produção literária brasileira, textos gays e lésbicos.
Isso se intensifica nas idéias e pensamentos libertários da contracultura dos anos 60/70, mas é a partir das décadas de 80/90, quando a “homossexualidade” deixa de ser considerada doença, pelo Conselho Federal de Medicina, com a luta dos movimentos gay-lésbicos, em defesa dos diretos destes, que acontece o impulso para a propagação dessa literatura.
Foucault, ao tratar desse assunto em Um diálogo sobre os prazeres do sexo, afirma que com o repúdio da cultura cristã sobre o homoerotismo, a literatura homoerótica “concentra sua energia no próprio ato sexual”, pois não se permitiu ao indivíduo homoeroticamente inclinado elaborar um sistema de corte, “uma vez que lhes foi negada a expressão cultural necessária a essa elaboração”. Já Jurandir Costa Freire, em A inocência e o vício
, diz que “a AIDS realçou definitivamente o arcaísmo cultural da noção de homossexualidade”, mas certamente também marcou a proliferação de escritos sobre o tema.
E Severo Sarduy, em “O Barroco e o Neobarroco”, leva-nos a concluir que o erotismo praticado pelos indivíduos homoeroticamente inclinados é um símbolo do jogo com o objeto perdido, haja vista a violação da finalidade, estabelecida pela visão clássica (judaico-cristã), para os corpos. Desse modo, o erotismo praticado pelos gays afirma uma incerteza, abrindo espaço para a contradição com os padrões da “normalidade” estabelecida.
A presença da temática homoerótica na literatura brasileira é bastante forte: Glauco Mattoso, Caio Fernando Abreu, Raul Pompéia, Valdo Mota, Roberto Piva... Sem esquecermos os inúmeros poemas e contos gays (muitos de qualidade duvidosa, como em qualquer tipo de literatura) que saltitam o tempo todo, tanto em sites direcionados ao público gay, ou não.
Por fim, acredito que é importante saber como a arte pode contribuir para uma visão mais sutil das relações afetivas entre “iguais” e como a discussão sobre o homoerotismo pode contribuir na compreensão da arte contemporânea.


Em tempo: Acabei de ler A cidade e o pilar (1948), de Gore Vidal, um dos primeiros romances do amor masculino da literatura norte-americana. Romance cujo núcleo central é o amor entre dois jovens que, para um deles, se transforma em obsessão na vida adulta.
O livro não levanta bandeira, nem faz apologia ao amor gay e exatamente por isso, trata o tema de forma normal impingindo a normalidade que o assunto requer.


segunda-feira, março 12, 2007

Ainda Babel

Por Carlos Eduardo dos Santos

Talvez não haja mais o que falar sobre um filme depois que ele perde o Oscar. Pode parecer chutar cachorro morto. Porém, desde que Babel estreou por aqui, em meados de janeiro, por mais de uma vez eu e Leo nos deparamos com uma situação estranha. Era como se as críticas ou observações que líamos fizessem uma leitura do filme considerando-o como um produto feito para passar no Brasil ou no Marrocos. Como se fosse um filme para ser lido por nossas sensibilidades, a partir do nosso ponto de vista das situações.

Evidente que por esse ângulo haverá uma compreensão bem diferente, embalada principalmente por nossas emoções ao nos ver retratados em algumas situações, em especial as dos mexicanos.

Porém ficamos particularmente curiosos de saber o que nossos irmãos latinos da América do Norte pensam da representação deles e de seu país, mais uma vez estereotipada, a lá Speed Gonzales. Sim porque o México, quando a câmera cruza a fronteira, é o dos sujos, feios, pobres, e totalmente passionais. Pessoas que não agem como seres pensantes e sim como vulcões emocionais.
Nos USA as ruas são certinhas, bem calçadas, e ainda é dia. É só cruzar a fronteira que cai a luz e o que vemos - através dos olhos das crianças brancas que vão no banco de trás do carro da babá mexicana - são prostitutas, lugares decadentes, gente estranha.
Na festa, o sobrinho mexicano (Gael Bernal) da babá - sorrindo sadicamente no meio de bando de crianças - mata um frango de modo bárbaro sob o olhar aterrorizado do menino americano. Aliás, este é um dos grandes problemas de
Babel: o ponto de vista da câmera. É o ponto de vista de quem está achando tudo estranho. No México são as crianças, no Marrocos são os americanos, e no Japão é a própria platéia porque fomos "educados" pelas lentes ocidentais a ver sempre os orientais como "estranhos".
Mas ainda no México vemos o sobrinho da babá dirigir como um louco, bêbado, um carro caindo aos pedaços e furar a barreira da fronteira, com crianças a bordo, sem medir conseqüências dos atos. Tal como a babá, que irresponsavelmente havia largado suas obrigações e carregado duas crianças numa aventura. Mas afinal "eles" não raciocinam mesmo...
Nossa leitura abranda todos estes estereótipos porque vemos romanticamente como a força das paixões, das pessoas verdadeiras que agem dominadas por seus impulsos. Idéia que agrada muito ao público latino desde Carmen.
Porém, cabe lembrar para quem, e para qual mercado afinal foi feito o filme. E lembrar também em quem vota nele para o Oscar.
Em sã consciência, alguém acredita que um americano (ou europeu) ao ver aquelas imagens do México vai se lembrar que aquele é um dos países mais dinâmicos do mundo, com uma capital moderníssima, uma indústria que tem dado banho na nossa, uma sociedade desenvolvida? Ou vai lembrar daquelas figuras de poncho e sombrero, dormindo sentadas nas calçadas tais como num desenho do Ligeirinho. Vai lembrar da folclorização de Frida, de toda a filmografia americana que insiste em mostrar os mexicanos ora como um povo alegre que vive dançando e bebendo, ora como pessoas perigosas, ou ora como integrantes de um grande bordel. Afinal vários filmes americanos já mostraram os ianques cruzando a fronteira do México para buscar sexo (até Brokeback Mountain).
A imagem cristalizada pelo cinema americano - e que em alguns aspectos Babel reforça - é de que o mexicano é um povo preguiçoso, bêbado, sanguinário, bandido, violentamente passional e sem caráter.

E as imagens da violência, pobreza e atraso do Marrocos? A impressão é de que a câmera assume um postura de documentário, vasculhando a miséria humana, de vidas sem perspectiva, presas a seu destino. Uma família isolada e sem valores, uma aldeia insalubre onde o médico ineficiente é substituído pela fumaça da curandeira, uma polícia estúpida e violenta. Aliás, bem ao contrário da polícia americana que é mostrada firme porém humana (dá até cobertor para a babá detenta).
Por conta de criar uma situação dramática relacionada com outras histórias, os autores reforçaram um estereótipo de povo que mata sem motivo, como se vocacionados ao terrorismo. E não há tempo nem intenção de qualquer explicação (sociológica, antropológica ou não) para o que acontece.
Quanto a história da menina japonesa - sem dúvida a melhor, ao mostrar
a personagem muda "conversando" com todos (até por celular) mas se comunicando com poucos - também é temperada com o estereótipo na forma de mostrar o povo japonês. Aliás, em termos de cinema, os orientais são indiscutivelmente o próprio sinônimo para exótico e estranho. Chineses, japoneses, vietnamitas, mongóis, tibetanos, etc, todos são misturados num mesmo caldeirão de exotismo. Não há filme recente passado em Tóquio que não tenha uma profusão absurda de letreiros luminosos, zilhões de pessoas atravessando ruas, altíssima tecnologia, e gente com roupas e cabelos estranhos. Um vocabulário cinematográfico paupérrimo, sem dúvida. Mas são com lugares-comuns desse tipo que se escrevem centenas de roteiros.
Lembro especialmente o oscarizado roteiro de "Encontros e Desencontros", dirigido por Sophia Coppola e estrelado por Bill Murray. Celebradíssimo pela crítica, o filme é uma sucessão de piadinhas preconceituosas que Murray faz dos "estranhos" japoneses e seus costumes "exóticos". Confesso que na época que assisti, saí do cinema enjoado.

Mas o que mais me chama atenção em Babel é o papel dos americanos. Em primeiro lugar são representados por dois atores de beleza apolínea perdidos na desolação do deserto, entre turistas gordos e velhos, e uma população local de gente suja, feia, e de pele queimada e enrrugada. Parecem dois anjos perdidos num inferno. Quem sabe uma referência a Orfeu resgatando Eurídice do Hades?
Em segundo lugar o fato de que os americanos não dão um tiro sequer no filme. Eles são ora pessoas indefesas no Marrocos, ora policiais eficientes na fronteira.

Ouvi um comentário que a arrogância do personagem de Brad Pitt (totalmente justificada uma vez que tenta desesperadamente socorrer sua mulher num local que não tem absolutamente nenhum recurso) é rechaçada pela integridade do marroquino que não aceita o dinheiro dele. Francamente, é uma solução dramática muito antiga, que acaba parecendo mais aquela história da empregada doméstica que é pobre mas é "limpinha".

Mas, de toda forma, quando sobem os créditos a idéia que ficou clara pra mim é que para leitura dos mercados americano e europeu, Babel é uma mostra dessa realidade terrível que povoa o mundo lá fora. Penso na reação do americano que mal distingue um país do Norte da África de uma nação do Oriente Médio. Penso no quanto a "tragédia que se abate sobre os pobres e inocentes turistas do filme" não ajuda senão a apoiar, ao menos fazê-los se manter indiferentes a que se continue a invadir países "bárbaros". No quanto a atitude irresponsável da babá e o sobrinho bêbado alimenta as idéias de xenofobia e as restrições à entrada de imigrantes nos USA.
Provavelmente não foi nisso que pensaram os autores (diretor e roteirista), ambos latinos. A idéia de mostrar a incomunicabilidade entre os habitantes desse planeta funciona. Mas a escolha dos personagens e situações - a meu ver - foi um erro que compromete todas as boas intenções.

quinta-feira, março 08, 2007

Impressões de um Escândalo

Foi impossível não ir assistir a Notas Sobre um Escândalo com a idéia de que ouviria comentários imbecis, como, por exemplo, os soltados nas salas de projeção onde era exibido o Brokeback Mountain.
Não há, pelo menos pra mim, comparações estruturais e formais entre os dois filmes, no entanto, ambos falam, numa superficial leitura, sobre solidão, (des)lealdade e amor homoerótico, ou não? Por mais que o excelente roteiro, assinado por Patrick Marber (o mesmo de Closer), tente desviar a atenção, o filme trata disso.
O interessante foi ouvir os sorrisos encantados com a excelente construção da personagem de Judi Dench. Sim, eu também ri várias vezes. Outro fato interessante é que em nenhuma crítica sobre o filme há piadas como: “é um filme sobre uma sapatão psicopata”, ao contrário das várias críticas que reduziram Brokeback a um filme sobre “Cawboys gays”. Todas elas, e com grande justiça, elogiam as interpretações tanto de Cate Blanchett, como de Judi Dench.
Nossa platéia (quiçá alguns críticos) está mudando? Serão os efeitos Brokeback? Duvido muito. Na verdade, a primeira impressão resultante é que numa sociedade hetero-burguesa-machista-totalirária e hipócrita, como a nossa, o homoerotismo feminino é melhor “aceito”. Será?
Brokeback incomoda porque “normaliza”, sem estereótipos, um sentimento que, de todas as maneiras, a sociedade tenta manter periférica. Mas, Notas, de certo modo, não tenta fazer isso também, apesar de reforçar o estereótipo da sapatão? De todo modo, as diferenças entre os filmes são inúmeras, Brokeback Mountain é um filme sobre o qual ainda se falará muito, apenas estou tentando entender a posição da platéia e da crítica diante deles.
Por fim, para mim, Notas Sobre um Escândalo mergulha fundo numa assustadora e escamoteada natureza humana. Tudo poderia resultar num filme pesado, cansativo e chato. Porém, o que temos é uma apresentação sutil, mas assustadora, de um “problema” muito comum entre nós, mortais e modernos, ou seja, é muito mais fácil e confortável viver uma “vida” imaginária, alimentando os nossos comportamentos infantis, quando muito pré-adolescentes (e a internet tem favorecido tal atitude), do que crescer e encarar as dores e as delícias de sermos adultos.

(Sobre o mote do “complexo de Peter Pan” temos, ainda em cartaz, o filme Little Children, que recebeu a terrível tradução de Pecados íntimos).

segunda-feira, março 05, 2007

Tempo da Delicadeza

Desde que começou o ano já assisti a três musicais, dois no teatro: Sassaricando e Cauby! Cauby!; e um no cinema: Dreamgirls. Todos na onda do memorialismo que tem atingido todas as linguagens da arte.

Sassaricando, comandado pelas atuações preciosas de Eduardo Dussek e Soraya Ravenle, com sua intenção primeira de percorrer os temas abordados pelas marchinhas dos carnavais cariocas (quiçá brasileiros) de outrora, acentua o papel de cronistas dos seus criadores. Elas tanto cuidam dos casos de amor, quanto dos problemas de moradia, das profissões, da guerra, dos transportes, da política, da comida e da bebida, dos modismos, da cidade e nunca deixam de ser deliciosas, mesmo quando politicamente incorretas. É um espetáculo para cantar junto, sair pela rua ainda cantando, remetendo-nos aos tempos dos carnavais de rua e suas inversões quase bakhtinianas.

Cauby! Cauby!, com a interpretação de Diogo Vilela, conta a trajetória da carreira de um homem que, controvérsias a parte, pertence ao universo musical do Brasil. Quando fui convidado para ir assistir ao espetáculo, fiquei pensando como seria interpretar alguém que, por si só, já é uma caricatura de si mesmo. Mas Diogo realmente consegue manter os trejeitos e marcadores até o fim, mesmo quando ninguém queira tal fim. É emocionante ver as senhoras acenando tchau para Vilela como se ele “fosse” Cauby. Bons tempos o da delicadeza!!!
Destaco ainda a magnífica presença da cantriz Marya Bravo, ela merece um espetáculo só pra ela. Como disse Carlos, aquela voz pode tudo!

Dreamgirls é um filme que soa como um filme antigo reunindo vários filmes antigos. Gostei do filme. Ele tem momentos aqui e acolá de emoção verdadeira, aliás é buscando fisgar o espectador pela emoção, que o diretor Bill Conton peca pelo exagero. Essencialmente, o personagem de Jamie Foxx me fez lembrar a história de Elvis Presley, dos Jackson Five e de Tina Tunner, entre outros, que tiveram de sucumbir às “atrocidades do bem” de seus produtores e empresários no início da carreira (aliás até nosso Cauby teve seu “padrinho”). Só não entendi porque a Jennifer Hudson concorreu, e ganhou, ao Oscar na categoria de melhor atriz coadjuvante. Para mim, a sua personagem é a espinha dorsal da história. Talvez tenha sido para não ofuscar o “brilho” de Beyonce Knowles.

Enfim e por fim, fica a impressão de que é mais fácil mimeografar o passado que imprimir o futuro. Estas fugas para um passado mais delicado e com promessas de felicidade futura, que anda impregnando a arte, nas suas várias linguagens, faz-nos, por lapsos de momentos, superar a fragmentação descontrolada da nossa vida presente. Não sei em que momento, mas perdemos algo que tem causado todos estes sustos (se é que alguém ainda se assusta) dos tempos modernos. Sem dúvida, é sim, mais fácil mimeografar o passado que imprimir o futuro. E isso é triste!

sexta-feira, março 02, 2007

O primeiro melhor filme de 2007

2007 nem começou direito, sim, pois só agora passou o carnaval, e já temos um filme com tudo para ser o melhor desse ano: Borat – O Segundo Melhor Repórter do Glorioso País Cazaquistão Viaja à América. (Borat, Cultural Learnings of America for Make Benefit Glorious Nation of Kazakhstan EUA, 2006).
Como o enorme e irônico título deixa claro, o personagem principal, idealizado e interpretado por Sacha Baron Cohen, também roteirista do filme, apresenta a viagem de um repórter de TV do Cazaquistão enviado aos Estados Unidos para uma série de reportagens sobre o modo de vida deste rico e poderoso país.
O filme tem conceito documental. Desde o início, quando Borat começa apresentando sua terra e sua família, percebe-se o tom do discurso que será sustentado durante o filme. A partir de então, somos bombardeados por uma série de situações, as mais inusitadas possíveis.
Em tempos de “politicamente correto”, com a sua conseqüente chatice e marasmo, erroneamente assimilados pela arte (o alardeado Babel sendo um exemplo disso, com uma conclusão em que se reitera a hegemonia americana e “folcloriza” as demais nações), Borat está na contra-mão.
Deficientes, negros, gordos, gays, mulheres etc e tal são ridicularizados o tempo todo, num "desperdício" de imagens e diálogos resultando numa condensação de informações e discussões inteligentes . Destaque para a cena em que o presidente Bush é “exaltado” às avessas no meio de um rodeio no interior dos Estados Unidos; para o momento em que Borat participa de uma parada gay sem saber do que se trata, apenas porque ali, os homens se beijavam, conforme é comum na sua terra; e para a briga que Borat tem com seu diretor. É com, digamos, “ingenuidade e deslumbre de colonizado”, que Borat consegue dar leveza às ácidas críticas e autocríticas do filme.
O roteiro consegue tratar de uma boa quantidade de temas políticos e sociais sem perde o fôlego. No filme, e isso é o mais importante, há o “ridículo pelo ridículo”, causando um esvaziamento absoluto dos conceitos impostos, o que, sem dúvida, gera uma inquietação em quem vê, mas, caso quem está assistindo ao filme se permita, gera também inúmeras reflexões sobre o modo como estamos levando a vida.
Certamente é um daqueles filmes pra gostar ou odiar. Eu gostei muito! Ri muito, ri de mim mesmo, muitas vezes, coisa difícil em épocas tão complicadas quanto a que nossa sociedade está vivendo, em que agimos de forma cada vez mais carrancuda e individual.

quarta-feira, fevereiro 14, 2007

A outra face da moeda

O estudo de uma moeda de prata de dois mil anos, revelou que Cleópatra, imortalizada na tragédia de Shakespeare e, no cinema, por Claudette Colbert (1934), Vivien Leigh (1945) e Elizabeth Taylor (1963), tinha a testa estreita, o queixo pontudo, os lábios finos e o nariz adunco, portanto, segundo a capa de O Globo e os estudiosos de numismáticos, era feia. Mas feia pra quem?
Esta moeda com a face da rainha egípcia levanta a questão da subjetividade que sempre permeou a discussão sobre o belo. Curiosamente, a maioria dos historiadores, não fala da aparência física dela, mas são unânimes ao falarem de seu poder de sedução.
Pela imagem da moeda percebemos, sem dúvidas, que ela não se enquadra nos padrões do grupo que define o que é belo para o nosso mundo coletivo.

Contemporaneamente, “o gostar” e “o ser belo” abriu-se a um leque de possibilidades, talvez porque ninguém precise(?) reprimir mais seus desejos. Tudo parece ser tão fácil. Mas não é, e a busca pelo “corpo perfeito” e pelo “físico da hora”, engendrada por mulheres e homens, homos, héteros, etc e tal, mostra a dificuldade e tristeza dos que preferem se enquadrar, levando-nos ao uso, como sempre usamos, das máscaras sociais. E o que é pior, levamos o personagem pra cama.

Sabemos que nenhuma beleza física resiste a efemeridade do tempo, mesmo com todos os recursos dermatológicos modernos, mas porque ainda cultuamos a busca do “corpo perfeito”? Talvez seja isso um dos mitemas da nossa sociedade?!

Não estou, nem quero fazer, apologia à “feiúra”. É importante sim, ter um corpo saudável e “bonito”. Mas confesso que me agrada a “beleza” aliada a uma postura individual e sutil, é o belo como resultado do saudável, e não o contrário.

Na verdade, ou pelo menos na minha verdade, o que atrai são as “anormalidades” individuais e não a massificação cega, surda e muda. Fico inquieto com essas idas e vindas que a mídia “impõe” em nossos conceitos e paradigmas. O mito Cleópatra não será abalado com a queda deste mitema, mas esta é a função da mídia, construir, matar e reconstruir mitos para nosso deleite (?).

Só ouvindo “Salão de beleza”, do Zeca Baleiro, para pensar e relaxar(?):

(...)Mundo velho e decadente mundo
Ainda não aprendeu a admirar a beleza
A verdadeira beleza
A beleza que põe mesa
E que deita na cama
A beleza de quem come
A beleza de quem ama
A beleza do erro puro do engano da imperfeição(...)