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quarta-feira, dezembro 12, 2012

I(nu)tensílios




A obrigação de ser feliz nos sufoca. O quente é ser alegre: barulhento na criação de efeitos especiais que nos dêem um pouquinho de felicidade. Sofrer e morrer, definitivamente, não está nos planos. Ninguém sofre mais do que um milésimo de segundo, quando muito. E qualquer indivíduo lúcido dirá que isso é o certo. Descartamos sujeitos e objetos com a mesma competência. Temos confundido a afirmação da vida com a denegação da dor, tão necessária – quanto a alegria – à nossa presença no mundo: à intensidade dos sentidos – das diversas pontas da estrela; dos muitos arcos que a íris do olho de Deus estampa. Afinal, matamos mesmo o Todo Poderoso, ou recalcadamente pulverizamos (fragmentamos) sua presença nas inúmeras bugigangas-próteses que enchem nossos lugares do afeto e têm produzido mais poluição (trava no movimento) do que consolo?
A intervenção estética de Elineide Alcântara complexifica a pergunta ao investir na fotografia nublada do incapturável, da fissura no ponto luminoso que nos (In)utiliza à vida. Cartografando os paliativos físicos – externos ao indivíduo – criados para dar sentido e vida em abundância, Elineide registra, em imagens e palavras, os penduricalhos, balangandãs (orteses) nossos de cada dia; pinça o comum, o simples, o excesso de absurdos, de espantos. De dentro da bolha ímpar que cada imagem e poema guardados em I(nu)tensílios representa há uma voz que sublinha o desnivelamento entre a vida que desejamos, nós (leitores: viventes) e a que temos vivido.
Há remédio para (quase) tudo e essa certeza movimenta comércios poderosos. Daí a urgência cíclica e permanente de criar no indivíduo o desejo de outras novas necessidades vitais: fórmulas, enfeites, muletas que, no mais das vezes, não conseguem ultrapassar a pele. Deste modo, pela potência de anonimato, o ciberespaço auxilia o indivíduo moderno na brincadeira de viver e se transformar em outros, que, na realidade, é ele mesmo. Ou seja, os fakes da internet são facetas (máscaras) do indivíduo que lhes cria. Indivíduo e fake (eu e o outro) não estão nem são dissociados.
O I do título deste livro, recuperando uma sintomática proliferação – Ipods, Ipads, Iphones –, em consonância com o nu, não deixa dúvidas: o desejo tem sido urdido pelo lado de fora, na ficcionalização de eus. O acúmulo de acessórios – porta-estandartes de nossas carências – no quarto da bagunça, no escaninho da memória, diz muito do caminho traçado. E o amor é hiper quântico, canta a voz que sai do fone fúcsia de ouvido. Sim, fúcsia. Temos um fone de cada cor, para combinar com cada tom de roupa, bolsa, cinto, humor.
As vantagens do mundo moderno, com suas tecnologias sempre à disposição do bem individual são inegáveis. Mas, e quando a cortina fecha? E quando o indivíduo está sozinho, no seu quarto, no fim do dia, e o mundo desaba? Há remédios para tamanha produção de presença de si? Eis por onde passeia o sujeito lírico de Elineide: montando e desmontando mundos internos. Ao contrário de uma apologia enviesada à dor, ao sofrimento, à lágrima, I(nu)tensílios canta os sintomas da solidão existencial irremediável, convidando o leitor a entrar no espelho: mergulhar na ficção – única vida possível?

sexta-feira, novembro 30, 2012

Ulysses

A princípio, o Ulysses compartimentado e fragmentado de José Rufino remete o espectador ao Ulysses de James Joyce, que, multiplicado em outros, descama-se para se restituir em Eu. Onde as sereias aparecem como visagens urbanas: "Wise Bloom eyed on the door a poster, a swaying mermaid smoking mid nice waves. Smoke mermaids, coolest whiff of all. Hair streaming: lovelorn".
Noutro momento, a monumentalidade da obra estendida no centro da nave central da Casa França-Brasil evoca o herói homérico, finalmente em repouso eterno, depois de tantos périplos. Ele é todo-memória. Foi para ele que as sereias cantaram: "'Todas as coisas sabemos, que Troia de vastas campinas, / pela vontade dos deuses, Troianos e Argivos sofreram, / como, também, quanto passa no dorso da terra fecunda'".
Noutro lance de pensamentos diante da obra, intuímos ser no Ulysses de Dante Alighieri - que nem chegou a ouvir as sereias - que reside o pulso do Ulysses de Rufino, cujo corpo vazado descansa em paz, pés virados para a saída, no fundo do útero-sarcófago amarelo-marinho, enquanto a alma vaga pelos infernos: "'Quando fugi dos feiticeiros encantos de Circe (...) Já éramos velhos alquebrados, eu e meus seguidores, quando chegamos enfim ao estreito que Hércules deu por limites ao mundo [estreito de Gibraltar] (...) Dessa terra nova contra nós investia um furacão (...) E o mar terminou por nos sepultar".
Afinal, e ao final do contato, o Ulysses de José Rufino protegido pelo prédio impregnado de histórias da Casa França-Brasil é uma tensão flutuante de camadas-sobre-camadas de referências, desejos, resíduos, escaninhos, naufrágios: canto e silêncios sirênicos.

quinta-feira, novembro 29, 2012

Esta Criança

Como é enriquecedor ver Renata Sorrah em cena! E ver e sentir as possibilidades que o trabalho (a técnica) e a paixão já imprimiram em sua potência-atriz. Tudo isso é valorizado na peça Esta criança. Ali é possível se emocionar a cada deslizamento feito por Sorrah de um personagem a outro.
Para isso agem também: o vigor do texto de Jöel Pommerat, brilhantemente traduzido por Giovana Soar, a direção de Marcio Abreu atenta às mudanças sutis das ações, o elenco em equilíbrio perfeito com as exigências de cada ato (Giovana Soar, Ranieri Gonzalez e Edson Rocha) e o cenário de Fernando Marés, que se protubera sobre a plateia, instigando o público a também estar em cena, ir além do buraco da fechadura, fazer parte das questões do palco, da vida: todos diante do espelho.
A direção de Marcio Abreu aproveita cada camada, o melhor e o mais cruel de cada situação-limite na promoção da liga entre as 10 pequenas peças dentro da peça, com a sensibilidade de quem sabe que "antes de existir alfabeto existia a voz / antes de existir a voz existia o silêncio / o silêncio".
É nos embates entre pais e filhos, os modos de criar a cria que o texto se move, cutucando feridas, iluminando recantos escuros. E a cada progressão de cena, a cada evolução de corpo e alma dos atores em cena, um riso e/ou uma lágrima no espectador. Tudo junto: cortes secos, relações prazerosamente dolorosas, extremamente íntimas e singulares, sem manuais. Porque assim é a vida: onde nos damos no melhor espetáculo que podemos, onde os sentidos de cada coisa são múltiplos e dói e é bom vivê-los em suas multiplicidades.
Que experiência enriquecedora sentir um só sentimento na plateia e no corpo-voz dos atores (os quatro em mergulho profundo): arte e humano em diálogo simbiótico. Assim é (foi, para mim) Esta criança, em cartaz no CCBB RJ até 27 de janeiro de 2013.

terça-feira, novembro 20, 2012

Carta de amor

"Deixe em paz meu coração / Que ele é um pote até aqui de mágoa" são versos que, se já traduziam o disco Oásis de Bethânia, reverberam no roteiro do show Carta de amor, apresentado dias 18 e 19/11, no Vivo Rio. A canção de Chico Buarque não está no set list, mas se presentifica como o fel que amarga, mas também alimenta o desejo de cantar. E Bethânia canta cada vez melhor. Com a potência vocal de dar inveja a qualquer noviça, e a carga de emoção que inibe qualquer artista que se dedique ao sacerdócio do canto.
“Ah, que ninguém me dê piedosas intenções, / Ninguém me peça definições! / Ninguém me diga: ‘vem por aqui’! / A minha vida é um vendaval que se soltou, / É uma onda que se alevantou, / É um átomo a mais que se animou. / Não sei por onde vou, / Não sei para onde vou / Sei que não vou por aí!”, declama.
Mas é no roteiro confuso do show - não é fácil entender as ligas entre as canções dentro de cada bloco - que reside a alma da persona encarnada por Bethânia em cena. As variações bruscas de ritmo e humor plasmam os sentimentos conflitantes de uma personagem que ama o que faz - "Quando eu soltar a minha voz / Por favor, entenda / É apenas o meu jeito de viver / O que é amar" -, mas está usando a voz para dar uma resposta direta à maldade alheia: "Se me ofendes / Tu serás o ofendido".
Talvez para agregar força a esta persona magoada (“Fera ferida”, presente no roteiro com estranho arranjo), Bethânia canta "Não enche". A canção do irmão, no modo como ele a canta, com as separações curtas entre as sílabas melódicas, o que imprime velocidade à canção, como um desabafo brutal, não fica à vontade nos alongamentos vocálicos da cantora. E ela tem dificuldade para finalizar os versos.
Mas se no caso de “Fera ferida” podemos identificar perdas na potência da mensagem da letra diante do arranjo inferior ao que a própria Bethânia já imortalizou no disco As canções que você fez pra mim, sob a sabedoria de Wagner Tiso, canções conhecidas e sempre esperadas pelo público fiel ganham novas e frescas versões, refrigerando o repertório mais passional da dona do dom.
Os pontos altos do show ficam por conta de "A dona do raio e do vento", auxiliada pelos efeitos da cenografia de Bia Lessa; o xote cheio de dengo criado para "A nossa casa", de Arnaldo Antunes e cia; a bela interpretação de "Quem me leva os meus fantasmas", canção de Pedro Abrunhosa, mais uma vez fechando um 1º ato de um show de Bethânia... Aliás, no 2º ato, quando as canções parecem mais íntimas à cantora, que deixa o teleprompter de lado e baila espontânea, o show encontra maior empatia com o público, que responde com aplausos e gritos depois do belo conjunto de sambas de rodas, ciclo iniciado e fechado com "Reconvexo".
E há a canção-poema que dá nome ao show: "Carta de amor", cuja mensagem dos versos virulentos e assustadoramente bem armados se ameniza quando a cantora declama: "Todas as cartas de amor são ridículas (...) só as criaturas que nunca escreveram cartas de amor é que são ridículas". Mais um dos conflitos vividos pela persona encenada.
O show é sim de "uma pessoa se entregando", transformando lágrima em canção. Tudo meticulosamente orquestrado pela consciência de palco de Maria Bethânia, que sabe usar cada inflexão e cada gesto a serviço do êxtase de seu público. "E é um só sentimento / Na platéia e na voz".

domingo, novembro 18, 2012

Gonzaga - de pai pra filho

Apesar de desgostar radicalmente do modo novelão de Gonzaga - de pai pra filho, um filme como esse é importante para mostrar que o Brasil não é apenas as questões que atingem o eixo RJ-SP. Há muitos mais.
Confesso que há horas em que eu
gostaria de mostrar aos meus amigos daqui (do Rio) o quão rico e complexo é lá. Fazer uma imersão, sem estigmas midiático-catastróficos, para que eles sentissem as especificidades do Nordeste e percebessem o quão tacanhos somos nas defesas por justiça e harmonia para todo o Brasil.
Luiz Gonzaga soube como ninguém sentir isso e traduzir em arte. Ele pinçou as células nervosas, os pontos luminosos do Nordeste e cantou e encheu de alegria, por dentro, o povo do Nordeste.
É uma pena que o filme se reduza ao óbvio, ao novelesco. Mas serve, do seu jeito, para aflorar questões pertinentes.
É uma pena também que as canções apresentadas no filme tenham se detido nas mais conhecidas.
De bonito, fica a canção-tema de Gilberto Gil: http://lendocancao.blogspot.com.br/2012/10/no-mundo-da-lua.html

sexta-feira, novembro 09, 2012

Filme para poeta cego

Fui assistir ao curta Filme para poeta cego cheio de expectativas. Afinal, sou um aficcionado pela poesia de Glauco Mattoso. E todas elas foram superadas.
De dominador (porque diretor), Gustavo Vinagre se permite ser dominado. Aceita os riscos e as regras do jogo do poeta. Este deslocamento de posição adensa e forja a figurativização do videobiografado Glauco Mattoso, que, por sua vez, poeta, não se deixa fotografar por completo: joga, cria, inventa.
A excelência no uso da câmera fixa e da voz (maior personagem) é de forte potência poética e também reflete, sem deixar de refratar, a persona Glauco Mattoso. No mesmo modo ser-não-ser que só esse poeta saber fazer. Gustavo capta isso e (re)monta o jogador que, em si sabendo vivente de um mundo intolerante, lança a intolerância na cara dos caretas.

segunda-feira, outubro 29, 2012

Dzi Croquettes em bandália


Como usuários da Língua Portuguesa, temos o privilégio de poder distinguir o "ser" do "estar". E é justamente porque sabem que estão Dzis que os atores do espetáculo Dzi Croquettes em bandália são Dzis e são croquettes.
Esta lucidez se apresenta no texto, quando logo no início um diz que "diferente dos Dzis, não nos drogamos, não bebemos e nem fazemos sexo". Esta aparente "limpeza", porém, ao invés de enfraquecer enche o espetáculo de verdade. A coragem e a entrega dos atores em cena, de se saberem prestando homenagem e se permitindo ser Dzi croquettes, são o que arrebata no espetáculo. Eles enfrentam todas as dificuldades temporais com vigor e tesão.
O corpo é o grande diferencial. Os Dzis tinham os corpos afetados pelo contexto da época, assim como os atores de agora. E isso diz muito, tudo, ou quase tudo de um grupo que radicalizou as normas do que é ser e estar nos trópicos.
Dado o novo jeito de corpo dos rapazes, em outro momento, alguém pergunta e sugere: "Por que você está aqui? Não pense que fazendo isso algum olheiro vai querer levar você para Malhação, só por causa de ser corpo?". O "isso" que ele destaca é exatamente a liberdade total. Afinal, como sabemos, a revolução libertária dos Dzis estava na rebelião antropofágica pelo corpo, nos modos de usar o corpo.
Se hoje falta a vivência em comunidade, sobra a vontade de ser de Pedro Valério, Leandro Melo, Franco Kuster, Thadeu Torres, Cleiton Morais, Udylê Prócopio, Sonny Duque, Kiko Guarabyra e Kostya Biriuk. Com a fundamental direção musical de Demétrio Gil.
Brasilidades, latinidades, africanidades, tropicalidades, rap (como atual força de contestação), cabem no roteiro brilhantemente montado, orquestrado, atuado e vivido por Ciro Barcelos. Do ponto de evocação à Maria Padilha até Carmen Miranda, passando pelo nosso teatro rebolado, o roteiro de Ciro alinhava signos do que somos, mas que o pseudo discurso politicamente correto teima em apagar, em prol de um também falso progresso das relações interpessoais. O Dzi coquettes continua a repudiar o reducionismo tacanho das possibilidades de ser e estar.
E como é bonito ver Ciro sobre a projeção de imagens de Lennie Dale dançando, ou os atores dando sequência a uma cena que parece sair da tela direto do túnel do tempo para afetar o coração de quem está no palco e na plateia. E como não se deslumbrar com o figurino criado por Cláudio Tovar? E não se emocionar com Bayard Tonelli declamando, transmutado na borboleta do texto, os seus versos: "Borboletas sangram / sofrem choram / E se desesperam // Mas nunca desistem de voar"?
E se alguém acha que não há sentido de ser ter a retomada e a valorização permanente daquilo que o Dzi Croquettes é, deixo a pergunta: Quem diria que depois da revolução promovida por eles nos palcos, como uma urgência clamada pelas ruas, estaríamos em 2012 assistindo a candidatos discutindo a legitimidade, ou não, de "kits gay"?
Se antes a resistência era contra a ditadura e suas atrocidades, agora é contra a caretice – resquício daquela. Encaretamos muito. E o espetáculo Dzi Croquettes em bandália está aí – atento e forte – para dizer sim ao sim, e não ao não. Se você quer experimentar isso, vá até janeiro ao Teatro do Leblon.

terça-feira, outubro 09, 2012

A era do gelo 4

Só agora assisti a A era do gelo 4. Quantas referências à literatura clássica universal. A Odisseia, por exemplo, parece ser a mola-mestre do roteiro. Aliás, um roteiro de causar vertigem, tamanho o número de quedas, giros e volteios. Manny encarna o Ulisses homérico, enfrentando várias intempéries no retorno para a amada esposa. E como não destacar as sereias tão bem retratadas em sua ambiguidade e essência belas-feras - monstros que iludem convidam, pelo canto, à ilusão e, consequente, à devoração? Nem o Scrat - personagem central e motor dos acontecimentos, como sempre - escapou delas, tornando-se ele próprio um scrat-sereia, em um jogo de cena muito bem feito.

sábado, setembro 29, 2012

Lygia Clark - Uma retrospectiva

A retrospectiva que o Itaú Cultural (SP) está exibindo com os trabalhos de Lygia Clark é visita obrigatória. É possível perceber ali a fundação e o fundamento do muito que ainda hoje é feito em arte, no Brasil.
Porém, fiquei me perguntando, vendo algumas obras em posição canônica e museológica, o que a artista diria, já que tal posição tende a negar radicalmente as experiências sensoriais que tais obras compreendiam.

 
 

Adriana Varejão - Histórias à margem

A exposição Histórias à margem (MAM SP) é uma ótima retrospectiva do trabalho da artista Adriana Varejão. Estão lá as pinturas que tematizam as várias camadas da História (mostrando com quantas superfícies e profundidades se
faz uma perspectiva histórica); as vísceras por trás (na frente) dos assépticos azulejos; e alguns pratos. Entre outras obras cheias de pulsões, fissuras e desejos.
Aqui um detalhe de "Prato com mariscos" que retoma a imagética do quadro de René Magritte em que uma impactante sereia invertida - parte de cima peixe, parte de baixo mulher - aparece como exemplar da radicalização do emudecimento sirênico-feminino: feita agora apenas ao desfrute sexual.