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segunda-feira, agosto 10, 2009

Coração galinha de leão

Com o material bruto para o making of de um dvd que não foi lançado, o diretor Fernando Grostein Andrade foi preciso ao montar um documentário leve e enxuto sobre Caetano Veloso. O filme "Coração Vagabundo" é apenas um delicado registro de um período na vida de Caetano. Não mais que isso. E isso não é pouco.
Para começar Fernando Grostein acerta o alvo ao apontar para universalidade da obra de Caetano exatamente no que ela tem de mais brasileiro. Suas canções carregam uma força imagética insuperável, e o diretor soube explorar isso com destreza, longe do óbvio. Com sensibilidade soube fundir e justapor imagem e som obtendo um resultado correto e eficaz. A magreza técnica das filmagens parece ter ajudado no conceito final da montagem e "Coração Vagabundo" seduz.
Há cenas de grande apuro estético como a tomada no metrô de Osaka ao som de "Neolithic man" e a saturação das imagens captadas nas rocambolescas ruas do Japão. Nestes momentos percebemos como a direção encontrou, talvez inconscientemente, a tradução e a transcriação da obra e do sujeito que "canta o mundo que roda". Sempre pautado sobre fragmentos de diálogos, shows e passeios públicos, "Coração Vagabundo" tenta revelar Caetano como "homem comum", coisa que, também sabemos, por tudo o que ele faz, pensa e diz, não o é.
Fugindo do formato clássico de documentário, aqui o diretor é "apagado". Só há o personagem e o universo deste. Mas não nos enganemos, o olhar por trás da câmera controla tudo e os "monólogos" de Caetano apontam para um ouvinte atento. Sem esquecer da força da personagem, o filme funciona nos termos emocionais atualíssimos. Cortes na hora certa. Falação "desleixada" no ponto.
A qualidade do som e da trilha sonora é incrível. Mesmo os registros mais antigos de Caetano tem bom tratamento final. Destaque para o sol que "arde" no Japão ao som de "Asa Branca". O roteiro é correto e sabe tirar proveito do personagem que dificilmente se deixa captar por inteiro, já que Caetano busca "entrar e sair de todas as estruturas" com mesma integridade.
A perspicaz mirada do diretor diante da obra - além do sujeito - de Caetano e a despretensão de ser definitivo ou definidor fazem de "Coração Vagabundo" um filme totalmente demais.

Texto publicado no Jornal A União em 08/08/2009

Entre outros, ouvi, vi e li, por estes dias:

= Peça Cachorro - Tratamento cuidadoso do universo de Nelson Rodrigues.
= Peça Continente negro - O cenário e a iluminação são incríveis! As nuances e sutilidades que atravessam as personagens é muito bem trabalhada.
= Peça Confronto - Mais uma sob a direção autoral de Domingos Oliveira. O resultado é bom, mas poderia ser menos panfletário.
= Exposição A arte de J. Borges / do cordel à xilogravura - Oportunidade incomparável de ver a reunião de um trabalho singularíssimo.
= Exposição Gary Hill - Taking time from plac - A capacidade de mistura instalação, poesia literária e visual é impressionante. Oi Futuro RJ.
= Exposição Dress Tents - É tenda, mas também é roupa e também é arte. Muito legal! Caixa Cultural RJ.
= Exposição World Press Photo 09 - Excelente seleção de fotografias. A maioria com legendas. O que seria da arte contemporânea se não fossem as legendas? (rsrs). Caixa Cultural RJ.
= CD Maria Gadú (Maria Gadú) - Tudo é muito bom, desde a embalagem, passando pela escolha do repertório e, claro, a voz.
= CD Luz negra (Fernanda Takai) - O show ficou muito bom, as regravações são personalísssimas!

quinta-feira, agosto 06, 2009

Piollin 30 anos

Espetáculo: A Gaivota - alguns rascunhos
Período: 05 a 09 de agosto de 2009
Horário: 20h
Local: Caixa Cultural - Teatro Nelson Rodrigues
Endereço: Av. República do Chile, 230, Rio de Janeiro (RJ)



Espetáculo: Vau da Sarapalha
Período: 12 a 16 de agosto de 2009
Horário: 20h
Local: Caixa Cultural - Teatro Nelson Rodrigues
Endereço: Av. República do Chile, 230, Rio de Janeiro (RJ)



Espetáculo: Silêncio Total
Período: 8 e 19; 15 e 16 de agosto de 2009
Horário: 17h
Local: Foyer da Caixa Cultural
Endereço: Av. República do Chile, 230, Rio de Janeiro (RJ)

segunda-feira, julho 27, 2009

O feminino em Garapa

Para ver o documentário "Garapa", de José Padilha, foi preciso reler "O Quinze", de Rachel de Queiroz e "Vidas Secas", de Graciliano Ramos. Lendo os livros, saltam aos meus sentidos Cordulina e Vitória. Sentido-as, vislumbro o feminino no filme.
Cordulina, personagem de Rachel, reúne as características de "mulher filha da fome". Desde a paciência com o marido que chega embriagado, passando pelo "conformismo" diante da arribação do filho Pedro, ou ainda a resignação com que consola os filhos sedentos e esfomeados, até a aflição que toma conta de si, ao ver o Duquinha "tomar choro" e o desespero quando da morte do filho Josias. O aperreio resultante da miséria, da fome e da seca faz dela uma mulher impaciente e birrenta, chamando toda a sorte de apelidos "pejorativos" com os filhos. Porém, essa "superfície dura" se junta a uma fragilidade que traz em si o germe do heroísmo. Mesmo entre lamúrias e mendicâncias forçadas pela situação, ela carrega uma dignidade capaz de não deixar seu caráter se abater. O único medo é de ficar sozinha, pois assim morreria mais cedo.
Vitória, personagem de Graciliano, é mulher de Fabiano. Também sofrida. Mãe inconformada com a miséria em que vivem. Sua facilidade com a língua é demonstrada quando, já no primeiro capítulo, após uma pergunta do filho, Fabiano fica irritado e manda o menino conversar com a mulher, pois essas coisas de pensamento, para um homem, não levavam a nada. Depois, quando Fabiano é preso, tem dificuldade em conseguir uma explicação para enganar a mulher, devido à esperteza dela. E quando baleia fica doente, a racionalidade de Vitória é maior que sua estima pela cadela.
No plano da visibilidade textual, enquanto Vitória tem um capítulo todo dedicado a ela e intitulado com seu nome, as informações sobre Cordulina estão diluídas ao longo do texto. Entre outros aspectos, as personagens se aproximam pela fé e pelo cuidado com os rebentos. Ambas sonham com algo melhor, mesmo que este melhor seja representado por uma cama igual a do seu Tomás da Bolandeira, no caso de Vitória.
Personagens de teor psicológico extremamente rico, Cordulina e Vitória merecem certamente outros olhares, quiçá mais eficazes. Seja pelo descaso de políticas públicas, seja pelo descaso dos deuses, elas significam a vida à base de garapa e poeira encontrada e estetizada, como não poderia deixar de ser, no documentário Garapa, de José Padilha.

Texto publicado no Jornal A União em 25/07/2009

Entre outros, ouvi, vi e li, por estes dias:


= Filme Coração Vagabundo (Fernando Grostein Andrade) - É um documentário bacana sobre o superbacana Caetano Veloso. Merece destaque a sensibilidade da edição ao "casar" lindamente imagens e canções.
= Filme A concepção (José Eduardo Belmonte) - Corajoso e ácido registro de um arco da juventude de Brasília. Atuações viscerais de Juliano Cazarré, Milhem Cortaz e Rosanne Holland.
= Exposição Milhões de Lula (Ricardo Stuckert) - O belo Castelinho do Flamengo abriga as boas fotografias que Stuckert fez durante a campanha de Lula para o segundo mandato. A paixão do povo é captada com paixão, sem pieguices.
= Show Áurea Martins e Emílio Santiago - Muito bom poder ver os dois juntos. Som do bom!
= Livro Olívio (Santiago Nazarian) - Ainda não sei se esta primeira obra do Nazarian tem algo bom de fato. De fato, apenas, percebi uma certa facilidade em criar imagens saturadas de referências fáceis, mas, nem por isso, é um livro fácil.
= Livro Remédio veneno: O futebol e o Brasil (José Miguel Wisnik) - Neste livro, de forma bem particular, como sempre, Wisnik discute sobre a cultura brasileira tendo o futebol e a mestiçagem como mote.

quarta-feira, julho 15, 2009

Teatro Municipal Rio - Festa de 100 anos

Figurinos de espetáculos

Sumi Jo e Orquestra Sinfônica




segunda-feira, julho 13, 2009

A crônica de Machado e Clarice

A palavra crônica vem do termo grego Kronos (tempo). Este gênero tem grande presença no Brasil. A crônica é a história escrita conforme a ordem do tempo, ou seja, de modo que os fatos narrados se refiram diretamente a ele. Na crônica, o tempo é o centro da narração dos fatos, mas estes não são narrados tal como aconteceram, mas tal como os recorda o cronista, que deve ser um hábil "artesão da experiência".
Mesmo com a proliferação de cronistas - na urgência de blogs, twitters, etc-, a crônica é tida como um gênero menor em relação aos outros. Em "Escrever para jornal e escrever livro", Clarice Lispector afirma que "num jornal nunca se pode esquecer o leitor, ao passo que no livro fala-se com maior liberdade, sem compromisso imediato com ninguém. Ou mesmo sem compromisso nenhum (...) não há dúvida de que eu valorizo muito mais o que escrevo em livros do que o que eu escrevo para jornais".
A atividade do cronista é narrar os fatos segundo um ponto de vista, sem se deter em nenhum, dando a eles certa "leveza" ao discutir núcleos problemáticos de uma sociedade. A "efemeridade" do suporte, seja o jornal impresso ou os espaços virtuais, faz com que a crítica também não atribua ao gênero a devida atenção.
Machado de Assis ironizou esta condição dizendo que "o folhetinista, na sociedade ocupa o lugar do colibri na esfera vegetal: solta, esvoaça; brinca; tremula; paira; espaneja-se sobre todos os caules suculentos, sobre todas as seivas vigorosas. Todo o mundo lhe pertence; até mesmo a política". Desprovida do rigor jornalístico das reportagens e do rigor literário dos romances, a crônica é, nas palavras de Machado, "uma fusão admirável entre o útil e o fútil".
Analisando a atuação dos dois escritores citados, enquanto Machado é um intérprete de um amanhã cada vez mais veloz e de uma cidade que começa a se partir, Clarice já está vivendo esta velocidade das informações e da fragmentação do Ser, numa sociedade que se torna cada vez mais "escrava" da imagem.
Evidente que para cada autor há uma modalidade de texto, o que dificulta precisar um gênero que acabou abarcando artigos, comentários, poemas em prosa, contos e relatos de viagem, entre outras coisas. Mas multiplicam-se os autores de crônicas e é preciso estar atentos para perceber quem faz da observação do ordinário o vislumbre de milagres. Ou seja, distinguir o deslocamento do real na ficção e vice-versa.

Texto publicado no Jornal A União em 10/07/2009

Entre outros, ouvi, vi e li, por estes dias:

= Filme A era do gelo 3 - O gelo fica na superfície, literalmente, e os personagens estão incrivéis. As cenas do esquilo Scratch continuam absurdas.
= Espetáculo Les Jardins D'Eden (Cia. Eolienne) - Técnicas circenses e coreografias que questionam a efemeridade da felicidade individual e coletiva de forma extremamente elegante e competente. A capacidade de diversificar os movimentos e as intenções e as aparentes diferenças temáticas entre um ato e outro são marcantes na obra.
= Espetáculo 9.81 (Eric LeComte) - Tecnologia e circo juntos numa performance de força e precisão técnicas. O conjunto visual é incrível!
= CD Pelo sabor do gesto (Zélia Duncan) - Sofisticação e cuidado no repertório continuam sendo a marca de Zélia. Descate para as versões em português de duas belas canções do belo filme Les Chansons d'Amour.

sábado, julho 11, 2009

Anima Mundi 2009



http://www.animamundi.com.br/

segunda-feira, junho 29, 2009

Muso Híbrido

"O jogo é fato mais antigo que a cultura". São com estas palavras que Johan Huizinga inicia o livro Homo Ludens e, a partir deste argumento, afirma que o jogo é uma categoria absolutamente primária da vida, tão essencial quanto o raciocínio (Homo Sapiens) e a fabricação de objetos (Homo Faber). E assim denomina o elemento lúdico como base do surgimento e desenvolvimento da civilização.
Huizinga caracteriza o jogo como uma "atividade voluntária", distante da "vida corrente" ou "vida real" e, consequentemente, uma atividade temporária, com finalidade autônoma, na busca de satisfação. Em outras palavras, o jogo é exercido dentro de certos limites de tempo e espaço, segundo regras livremente consentidas, mas absolutamente obrigatórias, dotado de um fim em si mesmo, acompanhado de um sentimento de tensão e alegria e de uma consciência de ser diferente de vida cotidiana.
A vida racional pode interferir nos sentidos de tal forma que ela extingue e contraria a tendência própria e particular deles. A automatização prejudica a receptividade dos sentidos pela atividade do pensamento, antecipando – preconceitos – o que os sentidos deveriam aguardar. Como resultado, temos o empobrecimento da sensibilidade pela imposição de forma no tempo/lugar errado. Por outro lado, a sensibilidade pode exuberar de tal maneira que sufoque a espontaneidade e a autoafirmação da razão. Aí o homem fica sem rumo e se perde numa multiplicidade sem ordem.
Para Friedrich Schiller, o impulso lúdico se efetua entre o impulso formal (mutável) - "parte da existência absoluta do homem ou de sua natureza racional, e está empenhado em pô-lo em liberdade" - e o impulso sensível (temporal) - "parte da existência física do homem ou de sua natureza sensível, ocupando-se de submetê-lo às limitações do tempo e em torná-lo matéria".
O jogo, assim, torna o homem completo, pois a alternância dos estados se articula no homem levando ele a jogar para (sobre)viver. Ou seja, o cultivo adequado de ambos os aspectos da natureza humana é que assegura o equilíbrio interativo que em sua dinâmica complementar fundamenta a unidade da realização cultural do homem. Ideia que corrobora com o pensamento de Huizinga.
Michael Jackson, com seu pan-multi-pluri corpo, indefinido, inconformado, black and white, macho e fêmea, menino e homem, simboliza uma (des)(h)umanidade que caminha para a consciência da não busca por essencialismos, pai de conflitos infrutíferos. O corpo de Michael Jackson é puro impulso lúdico, sem função aparente, mas despoletador de nossa incapacidade de compreensão do humano.

Entre outros, ouvi, vi e li, por estes dias:

= Peça Hamlet (Aderbal Freire-Filho) - Muitos gritos e caricaturas, pouca introspecção. Na vontade de inovar a peça soa um modelo gasto de montagem. Cenário e figurino são bons.
= Peça Regurgitofagia (Michel Melamed) - As ideias são excelentes. Angustiante como quando nos deparamos com nossas limitações.
= Peça Anti-Dinheiro Grátis (Michel Melamed) - Na tentativa de fazer uma anti-peça, Melamed acabou por anti-"agradar" seu público. Se ele não podia colocar a peça no palco (por motivos judiciais) poderia ter sido mais claro com quem esperava ver o espetáculo original.
= Peça Homemúsica (Michel Melamed) - Da "Trilogia brasileira" é a que tem melhor acabamento de direção e concepção.
= Filme A festa da menina morta (Mateus Nachtergaele) - Confesso que eu esperava mais - despudor. Nachtergaele mostra que aprendeu bem o ofício com os diretores com quem trabalhou. As cenas líricas cortando cenas mais dramáticas são uma excelente sacada.
= Filme Divã (José Alvarenga Jr.) - Os "tons pastéis" da fotografia são exagerados, mas tencionam a linearidade que a protagonista rejeita na vida.
= Exposição Virada Russa - Excelente oportunidade para ver raridades e obras fundadoras e fundacionais de novos tempos. Kandinski, Lariónov, Maliévitch, Chagall e outros até 23/08 no CCBB-RJ.

quarta-feira, junho 17, 2009

segunda-feira, junho 15, 2009

O Estrangeiro Jorge Mautner

A certa altura do disco "Eu não peço desculpa" Jorge Mautner sentencia: "Ou o mundo se brasilifica ou vira nazista". Esta expressão parece ser uma chave de entendimento da obra desse artista que soube sacar a relação amalgamada entre "Jesus de Nazaré e os tambores do Candomblé", pelo filtro da sombra do vulto de Zaratustra.
Assim, o livro "O filho do holocausto" é mais do que as memórias de infância e adolescência do "vigarista Jorge". O livro apresenta a trama total da gênese de uma obra impregnada pela dança das instabilidades do mundo. Nele, Mautner se permite ficar exposto aos raios da kriptonita e demonstrar como é possível entender a complexidade do Brasil, pela via da hibridização, ou amálgama, como ele prefere chamar, dos signos.
Como vampiro e supremo tarado, adepto da antropofagia oswaldiana, percebe-se que a obra de Mautner luta contra essencialismos com um amor flutuante acima do bem e do mal, mesmo seguido pela sombra do passado, e talvez por isso mesmo. É possível sentir lampejos de vida para a compreensão do demasiadamente humano no Brasil, onde a moral mantem-se por um fio dental. Pergunta-se: Maior liberdade ou maior repressão? Os dois, amalgamados. Samba jambo, samba japonês, feitiço indecente e vodu.
Jorge Mautner olha demais para o amor, mesmo sabendo, e talvez por isso também, que amor não é aquilo que a gente deseja que ele seja. Mautner ensina que viver sem grilo é possível, mesmo com a cricrilar da memória afetiva. Ao exemplo de Nietzsche em "Ecce homo", Mautner passa em revista suas inúmeras influências literárias e filosóficas e faz exaltações. Além de evocar sua chegada ao Brasil como filho do holocausto e da alegria de ter tido uma adepta do candomblé como babá. Tudo com linguagem bastante singular. Ele joga o anzol para pescar o sol e sabe (e como ele sabe!) que tudo que pesca é um rouxinol, que canta para causar um riso de amor.
No livro "O filho do holocausto", diante da emergência do sujeito, Mautner - profeta que sempre prega no deserto - experiencia o espaço incorporando a sabedoria do que é cotidiano e simples. Esconde as lágrimas negras, vez por outra, e tem a certeza da impossibilidade de ter paz no coração, por viver embriagado de paixão. Astronauta da saudade eletrônica, Jorge Mautner, sabedor de que a cor negra é um acúmulo de azuis, em "O Filho do holocausto", é um pensador contra a ideologia da agonia. "Belezas são coisas acesas por dentro / Tristezas são belezas apagadas pelo sofrimento", canta.

Texto publicado no Jornal A União em 13/06/2009

Entre outros, ouvi, vi e li, por estes dias:

= Filme Otto; Or, Up With Dead (Bruce La Bruce) - Imprescindível metáfora de nossos dias, em que um jovem (suposto) zumbi se questiona se vale a pena morrer quando já estamos mortos. Os recursos de sobreposições pornográficas dão o clima exato deste meta-filme.
= Filme Angels & Demons (Ron Howard) - A presença de Ewan McGregor entrega muita coisa. O filme vale pelas belas locações.
= Livro Culturas híbridas (Nestor Garcia Canclini) - A história da hibridização das culturas é contada e exemplificada em linguagem acessível.
= Livro Proteu ou a arte das transmutações (Luís Carlos de Morais Junior) - Pioneiro trabalho acadêmico sobre a obra de Jorge Mautner.

segunda-feira, junho 01, 2009

A agonia do cisne

Para Patrice Pavis "o performer é antes de tudo aquele que está presente de modo físico e psíquico diante do espectador". A afirmação é bastante categórica, mas serve para ilustrar um olhar sobre a performance "I’m not here ou A morte do cisne" de André Masseno.
De fato, a coreografia "A morte do cisne" foi criada é 1907 por Michel Fokine para a bailarina clássica-romântica Anna Pavlova. De 2004, "I’m not here ou A morte do cisne" – assim, com duas opções de título para que o espectador escolha uma, ou não – é a tentativa feliz de escapar dos podres poderes que teimam em querer aprisionar o corpo em movimentos estanques. André é ninfa, cisne, Ana e Michel: macho e fêmea esboroados.
Tudo é muito branco. Branco que inspira pureza e verdade, mas também frio e palidez da morte. O trabalho abre com balões de ar brancos cobrindo o chão do espaço cênico, no que se sugere uma festa que aconteceu, ou acontecerá. A dúvida cobre nosso olhar que é instante a instante desautomatizado pela presença física e psíquica do performer.
Dos balões que se enroscam no corpo em meio aos movimentos, aos outros que estouram enquanto Masseno tenta amarrá-los ao corpo, tudo é incerto e agônico. Porém, um bolo branco não deixa dúvidas de que estamos comemorando o aniversário da coreografia criada por Fokine para Pavlova. Há até um sacana "happy birthday" a la Monroe.
O espectador fica diante de um corpo cheio de informações, memórias fragmentadas e histórias conectadas com movimentos e pensares outros que não "apenas" os exigidos comumente tanto numa performance, quanto numa coreografia de balé clássico. O trânsito entre os movimentos corporais e sonoros e a palavra falada faz André Masseno repensar, adensar, e condensar referências e questionamentos que enriquecem sua obra.
Para se criticar algo é preciso conhecer o objeto alvo da crítica muito bem. Masseno enfrenta o desafio com rigor e apresenta uma homenagem que se confunde com uma revisão crítica. Quando ele questiona se o cisne em cena (apresentado por Pavlova) é o mesmo imaginado por Fokine, ele tenciona todo um mecanismo histórico de efeito crítico e intervenção estética. Quem está em cena? "I’m not here" dá pistas.
Não há personagens. Em "I’m not here ou A morte do cisne" André Masseno põe na roda criativa uma pomba-gira branca que nos arranha com a agonia da dúvida entre ser e estar (n)aquilo que se é, que quer ser ou que forças estranhas determinam que seja.

Texto publicado no Jornal A União em 30/05/2009

Entre outros, ouvi, vi e li, por estes dias:

= Filme Fälscher, die (Os falsários) - IMPERDÍVEL!!!
= Filme Star Trek - Efeitos e roteiro em perfeito equilíbrio.
= Filme Synecdoche, New York - Philip Seymour Hoffman somatiza nova Iorque com todas as repercussões que isso pode ter. Total esboroamento de arte e vida do personagem.
= Filme X-Men origins: Wolverine - Um belo presente para os fãs do personagem.
= Exposição Legado Sagrado - Excelente oportunidade para ver o trabalho etnográfico e artístico de reconstituição da história dos índios norte-americanos feito por Edward Curtis. Caixa Cultural RJ até 28/06.
= Show Os Matutos - Pesquisa sobre chorinho e canção é incrivelmente bem utilizada pelo grupo.
= Show Revirão (Jorge Mautner) - Um prazer imenso ouvir as canções e filosofia deste grande pensador da nossa cultura na canção.
= Show Orquestra Contemporânea de Olinda - Ótimo trabalho de percussão e pesquisa. Destaque para o "possuído" Gilú.
= Peça Quebra-quilos - Ótimo trabalho engajado do Coletivo de Teatro Alfenim sobre fatos da história do interior da Paraíba. É sempre muito bom ver Sôia Lira em cena.

segunda-feira, maio 18, 2009

Da tese ao livro

A maioria dos trabalhos acadêmicos fica restrita a um pequeno número de leitores, seja porque os assuntos são tratados de forma hermética demais e não encontra mercado, seja pela falta de divulgação destes trabalhos. Felizmente alguns conseguem sair dos muros acadêmicos. É o caso da tese de doutorado defendida por Lúcia Facco, sob o título "Era uma vez um casal diferente: a temática homossexual na educação literária infanto-juvenil" que acaba de ser lançada em livro.
Para quem ainda não conhece, Lúcia Facco é autora de "As Heroínas Saem do Armário" – sua dissertação de mestrado. O livro analisa cinco "romances lésbicos", e aponta que, diferente de ser uma subliteratura, tais textos são "paraliteratura", devido à marginalização imposta a eles. Outro livro publicado pela autora é "Lado B: História de Mulheres". Coletânea de contos com histórias inteligentes e sutis de mulheres que vivem seus amores por outras mulheres sem levantar bandeira e sem culpa.
Voltando ao lançamento de agora, em "Era uma vez um casal diferente" Facco discute, entre outras coisas, os (des)compromissos dos currículos escolares, que tendem a padronizar os alunos. A autora investiga tanto os cânones literários, quanto os livros paradidáticos utilizados especificamente nas aulas de literatura. Ela traça já nos primeiros capítulos o percurso das práticas de controle do sexo e sua repercussão.
Discutir um tema ainda polêmico e direcioná-lo a um público "em formação", quando, na maioria das vezes, são os educadores que precisam de educação, não deve ter sido tarefa fácil. Um projeto de peso e fôlego realizado por alguém que trabalha no ramo. A forma romântica com que Lúcia Facco direciona seu trabalho e a apresentação de uma ética quase perdida em nossos dias conseguem quebrar barreiras prováveis sobre o tema. "Dar às pessoas a oportunidade de conhecer mais a necessidade de mudar as relações de poder e dominação" é o objeto esperado e provavelmente alcançado.
Se em "As Heroínas Saem do Armário" Lúcia Facco criou uma personagem, na tese, agora livro, ela usa a primeira pessoa correndo todos os riscos. Talvez porque, como ela mesma expressou, "não dava para se colocar de fora daquilo que estava defendendo". Assisti à defesa da tese de Facco e aguardei que o trabalho merecidamente fosse lançado em livro. Não perdi por esperar. Excelente leitura para educadores - professores e pais.

Texto publicado no Jornal A União em 16/05/2009

Entre outros, ouvi, vi e li, por estes dias:

= Filme Se, jie (Desejo e perigo - Ang Lee) - A fotografia e o roteiro (mesmo longo demais) confirmam como Ang Lee é um grande diretor.
= Filme He's just not that into you (Ele não está tão a fim de você - Ken Kwapis) - Mais um filme de autoajuda e engraçadinho cheio de atores conhecidos.
= Exposição Ser Jovem na França - As sequências de Elina Brotherus (O espelho) e de Laurent Van Der Stockt (Os jovens) são o melhor desta exposição que esteve em cartaz na Caixa Cultural.
= Dança Mediatriz (Núcleo de Criação do Dirceu) - Proposta interessante, apesar de ter atos que parecem ainda em construção e precisam ser melhorados no resultado.
= Instalação Mono (Núcleo de Criação do Dirceu) - O público passeava entre espaços distintos que abrigavam três bailarinos nus. A intenção de estranhamento é alcançada tanto pelos objetos utilizados, quanto pelas atuações.

sexta-feira, maio 08, 2009

IV Colóquio Filosofia e Ficção


Informações e Programação:
http://br.geocities.com/coloquiofifi/index.html

terça-feira, maio 05, 2009

O ruído perfeito

"Zii e Zie", mais recente disco de Caetano Veloso, retoma a ideia de que "a tristeza é senhora, desde que o samba é samba". Os transambas/transrocks de "Zii e Zie" dão voz a um sujeito arranhado diante da precariedade da vida. A começar pela foto da capa. Uma imagem "turvada" da praia do Leblon. De um mar que é bonito "quando quebra na praia", mesmo clicado em um dia de chuva e feito de base para um cenário desbotado. Aliás, a ausência de sol atravessa as 13 faixas. Ruínas em proliferação, até quando reconstrói Clementina de Jesus.
O aparente contraste entre o vigor da guitarra de Pedro Sá e as letras carregadas de melancolia fica apenas na superfície, já que as inspirações vêm de bandas que inventaram novos modos de fazer rock, amargo e desalentado. "Base de Guantânamo" e sua ligação temática com "Haiti" mostra isso. Já o transrock "Perdeu", que abre "Zii e Zie", mostra alguém que "cresceu nas bordas da favela" e que está revoltado com as condições sociais impostas. Antes assim (traficante) do que viver pequeno e bom. Retorno de "O herói" (o homem cordial) que fecha o anterior disco de estúdio "Cê". Mais questões sobre os sujeitos sociais do Brasil.
Outro Caetano, cronista, passeia pelo Rio. "Lapa" reflete bem isso ao listar lugares e pessoas que fazem do bairro da Lapa um ponto singular de convergência de variadas tribos. O acompanhamento melódico reflete a intenção da letra. "Pelourinho vezes Rio é Lapa" é um dos melhores versos do disco, com sua condensação simbólica e imagética absurda e linda.
É possível mesmo afirmar que "Zii e Zie" é Caetano a procura do ruído perfeito. Mesmo quando regrava "Ingenuidade" com arranjo "mais limpo" e violão bossa nova há cortes de guitarra. A sensação é a de que há vários transrocks sendo executados ao mesmo tempo. Em vários momentos do disco há repetições de frases ou de sons há exaustão. Angústia em demasia. Como "o sol já tem muito o que fazer", como o sujeito diz a certa altura, o mofo se alastra e o sujeito, por não "acreditar em Deus", não tem, nem mesmo, o consolo espiritual. Mas a autoironia aparece aqui e ali, como flashes de luz possível. Sujeito "tarado ni tudo".
Se em algumas composições de Caetano a quantidade de palavras e versos parecia ultrapassar os limites melódicos, agora são os ruídos que extravasam. "Zii e Zie" não é um disco fácil. Diversos sons, como que sampleados, "dizem" coisas que as letras silenciam. A sonoridade dos transambas é complexa demais para cantar junto e Caetano continua "comendo" prefixos e sufixos de palavras, indo mais fundo e aproximando o seu "cantar vagabundo daqueles que velam pela alegria do mundo", num resultado estético sem sonho nem segredo.

Texto publicado no Jornal A União em 02/05/2009

Entre outros, ouvi, vi e li, por estes dias:

= Filme Monstros vs Alienígenas - Legal!
= Livro Leituras sobre música popular (Diversos) - Excelentes ensaios sobre a canção para leigos e iniciados na discussão do tema.
= Livro Leite Derramado (Chico Buarque) - Tô curtindo a narrativa bem feita do livro. Há muitos elementos meta críticos interessantes.
= CD Sem poupar coração (Nana Caymmi) - Lindo de doer!

quarta-feira, abril 22, 2009

Sereias II

Retomando o pensamento do texto anterior, o autocanto (aquele que nós próprios cantamos para nos constituir como sujeitos) pode ser observado como uma forte característica no individualismo moderno. A sociedade demonstra cada vez mais as inúmeras ambições individualizadas.
Aliado a isso surge nossa busca permanente por imunidades à dor, à solidão. Para Peter Sloterdijk, as esferas (espaços de convivência) que criamos são sempre tentativas de "sistemas imunológicos". Como a família, o Estado, etc, mas não estamos imunes ao trágico da vida. De fato, nossas "bolhas" estão sempre prontas para explodir.
Num mundo onde a visualidade é fundamental e o distanciamento da oralidade é bastante perceptível, num trânsito do acústico ao óptico, o homem parece cada vez mais condenado à errância – um ser sem domicílio fixo. Portanto, sujeito da mobilidade, como investiga Lúcia Santaella, no livro "Linguagens Líquidas na era da Mobilidade". Há a descrença nos grandes relatos – que outrora privilegiaram o universal, o atemporal – em detrimento do particular, do mutável e do casual. Tempos da descentralização da subjetividade. Porém, na busca por imunidade, surge, em contrapartida, a procura pelo silêncio, para o qual parece que não estamos preparados.
Kafka, por exemplo, afirmou ser até possível que alguém tenha escapado do canto das sereias, mas de seu silêncio, certamente jamais. No conto "O silêncio das sereias", Kafka recria a travessia de Ulisses e aponta porque ele não sucumbira, não só ao canto das sereias, como também, ao mais difícil, segundo ele, ao silêncio delas. O Ulisses de Kafka "confiava plenamente no punhado de cera e no emaranhado de correntes e, em inocente alegria quanto a seus meiozinhos, navegou em direção às sereias".
Mas, se o canto das sereias era mortífero, seu silêncio era aterrador. O não-canto nos destrói. E o que cantam as sereias? Completando o que já esboçamos no texto anterior, assim como em Homero elas cantam a Odisséia dentro da "Odisséia", as sereias cantam a vida dentro da vida.
Portanto, se o primeiro motivo da alegoria das sereias consiste em interpretar o triunfo de Ulisses como uma forma emergente de racionalidade sobre o mito, ainda precisamos pensar sobre o silêncio, num espaço cada vez mais cheio de ruídos e sons, que nos agradam porque nos cantam.

Texto publicado no Jornal A União em 18/04/2009

Entre outros, ouvi, vi e li, por estes dias:

= Peça Rock'n'roll - Elenco afinado, com uma direção nem tanto, mas o resultado merece ser visto, tanto pelo excelente texto de Tom Stoppard, quanto pela forma da abordagem do tema em si.
= Peça História de teatro e circo - A Cia. Carroça de Mamulengos segue firme com o propósito de manter as tradições do teatro mamembe, de forma alegre e politizada.
= Filme Tony Manero - Roteiro e atuações excelentes, mas as tomadas de câmeras, exageradamente soltas, perturba e desfoca a atenção.
= Livro Era uma vez um casal diferente (Lúcia Facco) - Resultado da tese de doutoramento, o livro apresenta um trabalho vigoroso sobre como tratar a diversidade sexual na escola, através da literatura.
= CD Zii e Zie (Caetano Veloso) - É Caetano em busca do ruído perfeito.

segunda-feira, abril 06, 2009

Sereias

No texto anterior, comentamos a importância da canção em nossa cultura. O que nos remete inevitavelmente ao episódio das sereias, presente no Canto XII da "Odisséia", de Homero. Nele, para não sucumbir ao canto das sereias Ulisses se mantém amarrado ao mastro de sua nau, mas com os ouvidos livres ao Canto. Já seus companheiros, enquanto remam, permanecem com os ouvidos tapados com cera.
Este trecho da "Odisseia" ocupa um espaço de particular importância na crítica literária. Seja pelas referências filosóficas por ele lançadas, seja pela força do mito em si. Adorno e Horkheimer e, mais recentemente, Peter Sloterdijk, sem deixar de mencionar Kafka, Blanchot e Todorov, são alguns dos que interpretaram o texto homérico.
Para Adorno e Horkheimer, Ulisses se autocondena à impotência e ao aprisionamento para poder gozar do canto e condena, simultaneamente, seus companheiros a renunciar ao gozo artístico para continuarem vivos. Adorno e Horkheimer apontam o preço que o sujeito racional paga para se constituir na sua autonomia e se manter vivo.
Diferentemente para Sloterdijk, o êxito de Ulisses não significa apenas um controle racional sobre os encantos mágico-míticos, mas a consagração dele como narrador de suas aventuras. Assim, Ulisses revela que pode haver, por meio do canto alheio e/ou do autocanto, uma autoconstituição do sujeito que não se confunde necessariamente com a renúncia ao próprio desejo, nem com a rigidez que resulta dessa renúncia.
Queremos, assim como Ulisses, escutar sobre nós mesmos. Mesmo que para isso criemos nós mesmos um canto, um autocanto, para nossos feitos nesta vida. Desde o seio materno temos esta necessidade de sermos "cantados". O canto funciona como um triunfo. É a fama almejada por Ulisses. Porém, Sloterdijk adverte que o canto prematuro destrói. O "perigo" é nos deixar ser arrastados por este canto.
Saindo do território da filosofia e voltando à canção, outra visão contemporânea do mito é apresentada por Adriana Calcanhoto, por exemplo. Em sua composição "Porto Alegre" (CD "Maré", 2008), um sujeito "amarrado no mastro tapando as orelhas" resiste ao encanto das sereias, para depois cair nos braços de Calipso, outra entidade sedutora da Odisseia. Parece que não há como fugir dos apelos do desejo. Circularidade do querer ser e estar no mundo. A dificuldade é resistir ou não. O que e quando.

Texto publicado no Jornal A União em 04/04/2009

Entre outros, ouvi, vi e li, por estes dias:

= Peça In On It - Excelente trabalho de preparação dos atores Emílio de Mello e Fernando Eiras. A iluminação de Maneco Quinderé oferece o clima (ora tenso, ora lírico) ao texto denso e complexo do canadense Daniel Maclvor, sobre uma relação densa e não menos complexa, de um casal que, enquanto um deles projeta uma peça teatral, o outro serve de espelho refratário para discutir a vida de ambos. A direção de Enrique Diaz consegue "tirar" dos dois atores em cena, todos as sutilezas dos personagens representados. A trilha também é correta e certeira. No Oi Futuro Rio até 28/06.
= Filme Deception (A Lista - Você está livre hoje?) - Um bom argumento, bons atores... mas com roteiro confuso (no mau sentido).
= Exposição Sereia Lab - Mais uma ideia interessante que precisaria de mais tempo e trabalho para alcançar o resultado propagado. Caixa Cultural até 03/05.
= Exposição Vertigem: Os Gêmeos - As peles amarelas das figuras humanas (?) e o coloridos das paisagens urbanas de Gustavo e Otávio Pandolfo demonstram o vislumbre de um universo latente e presente nas grandes cidades, levando à vertigem total do expectador, por meio de recursos simples mas bem utilizados. No CCBB Rio até 24/05.
= Show Artesanato da Canção (Luiz Tatit) - As canções bem humoradas e um violão bem tocado dão o tom certo ao show seguido de debate deste grande teórico da canção.
= CD Little Joy (Little Joy) - Ouvindo sem pararrr.

quinta-feira, abril 02, 2009

segunda-feira, março 23, 2009

É tudo poesia?

O documentário "Palavra (En) cantada", de Helena Solberg, tem como mote um tema nevrálgico dos cursos de Letras: a relação entre letra de música e literatura.
Mas acima disso, "Palavra (En) cantada" presta indireta homenagem a pesquisadores que desde o lançamento de o "Balanço da bossa e outras bossas" (1967), de Augusto de Campos, não se deixaram vencer pelas críticas de falso academicismo. Neste livro fundamental, o autor demonstra que certas canções apresentam procedimentos e estranhamentos típicos da poesia. Nesta mesma linha perseveraram importantes teóricos e críticos como Luiz Tatit (USP), Amador Ribeiro Neto (UFPB) e Júlio Diniz (PUC-Rio), este último, coordenador da pesquisa para o filme.
De fato, estes e outros pensadores da canção já demonstraram que nem toda letra é poesia, porém é preciso ter "olhos livres" e competência para diferenciar uma coisa da outra. Aliás, cabe apontar que canção não é nem melodia nem poesia, isolados um do outro, mas é, como sugere Tatit, canção é o "malabarismo" da letra com a melodia.
"Palavra (En)cantada" tem momentos de puro encanto, como quando a tela é tomada pelos textos de Daniel Arnaut, acompanhados pela voz de Adriana Calcanhotto, que canta os versos do poeta provençal do século XII. Ou as imagens da grande Hilda Hilst pouco antes de morrer. Há também imagens raras como trechos da encenação de "Morte e Vida Severina", de João Cabral de Mello Neto, no Festival de Teatro Universitário de Nancy, na França, em 1966, e um depoimento histórico de Caetano Veloso no Festival da Record, em 1967, logo após cantar "Alegria, Alegria".
É assim, sobrepondo e costurando performances e depoimentos de vários artistas, cancionistas e teóricos da canção, que Solberg encontra o roteiro para o filme. E acerta.
De resto, Helena Solberg e Marcio Debellian – responsável pelo argumento do filme – acrescentam à discussão acadêmica sobre os limites da palavra cantada, mais uma imagem possível para o Brasil: a força da nossa tradição oral. Viajando do repente nordestino ao rap das periferias das grandes cidades o documentário deixa claro que nosso país cultiva a palavra cantada como sua expressão artística maior.
"Palavra (En)cantada" apresenta um trabalho de pesquisa exemplar e muito bem aproveitado. É cinema, canção e poesia unidos para pensar a arte. Um importante registro de nossa cultura que tem tudo para agradar tanto aos acadêmicos quanto ao público em geral. O público de um país essencialmente musical.

Texto publicado no Jornal A União em 21/03/2009.
http://www.auniao.pb.gov.br/v2/index.php?option=com_content&task=view&id=21474&Itemid=55

Entre outros, ouvi, vi e li, por estes dias:
= Peça A insólita cozinha de Leonardo DaVinci - Monólogo que cresce do meio para o fim e apresenta uma visão poética da presença de Leonardo na construção do comportamento ocidental.
= Filme El baño del Papa (O Banheiro do Papa) - Emocionante. Mesmo que, vez ou outra, o diretor apele e beire o sensacionalismo.
= Mostra O cinema de Maya Deren - Impressionante como estes curtas dos anos 1940 ainda continuam ousados e modernos. Os recursos e soluções de Deren lançaram luz para questões que ainda hoje são discutidas nas montagens fílmicas.
= Mostra Brando - Reunião de bons filmes que mostram a trajetória do ator. Até 29/03 na Caixa Cultural Rio.
= Livro Elos de Melodia e letra: Análise Semiótica de seis canções (Luiz Tatit e Ivã Carlos Lopes) - Mais um trabalho que dá continuidade ao projeto de Luiz Tatit, em que a canção é o foco de análises e considerações sempre originais e competentes. Tatit e Lopes fazem seus estudos inspirados nas formulações do linguista L. Hjelmslev e do semioticista A. J. Greimas.
= CD Todo bom (Zabé da Loca) - Ouvir Zabé sempre me remete ao quintal da minha avó. Além disso, o cuidado que têm dado ao trabalho de Zabé é bom e respeitoso.

terça-feira, março 10, 2009

Cartão-postal

Em tempos de “Era Obama”, vale a pena lembrar o rap “O Herói”, composto por Caetano Veloso para o disco “Ce” de 2006. Em “O herói” quem “fala” é um militante que a princípio quer semear o “ódio racial”, e a “separação nítida entre as raças”, bem ao modelo da América do Norte. Porém, ele percebe que não pode ir adiante porque descobre que é, na verdade, o homem cordial que veio para “afirmar a democracia racial”.
Em entrevista, o compositor afirmou que “é como se fosse a trajetória de um ativista do movimento negro que, depois de se opor a todas as ilusões da harmonia racial brasileira, termina reafirmando-se como o homem cordial e instaurador da democracia racial. É como se ele atravessasse o processo inteiro e no fim chegasse a uma coisa a que só um brasileiro poderia chegar”. Antonio Risério, no inspirado e audacioso livro “A Utopia Brasileira e os Movimentos Negros”, aponta os riscos da transculturação do modelo americano de distinção racial em um país como o nosso. Ele afirma que “esta visão monocular – que vê a mestiçagem como embranquecimento dos pretos, mas nunca como escurecimento dos brancos – parece ser uma constante do racialismo”. Para este autor, “o ‘genocídio’ do negro não pode ser pensado sem o ‘suicídio’ do branco”.
Mas, voltando ao rap de Caetano, a narrativa de quem quis “fomentar o ódio racial”, é tão forte em termos de crítica social quanto “Haiti”. “Um olho na Bíblia, outro na pistola” aponta o herói, redefinindo-se. O “ódio” tem como sugestão principal o fato do herói velosiano ter nascido “num lugar que virou favela” e ter crescido “num lugar que já era”, enfatizando a marginalidade a que o herói-mulato é submetido. Além disso, os versos “por um triz não sou bandido / sempre quis tudo o que desmente esse país encardido” são reveladores de alguém que teve que se subverter aos preconceitos e expectativas da sociedade. Da sociedade colorida e encardida do Brasil.
Para Caetano, o movimento pela igualdade racial, quando chegar à sua plenitude, se não houver um desvio alienante, “vai reencontrar esses conteúdos brasileiros, por causa de nossa muito profunda miscigenação e da tradição de não manifestar o ódio racial”. É assim que em “O Herói” o mulato surge com a missão de “instaurar a democracia racial”. Nada mais justo em um país cujas raízes estão fincadas no hibridismo das raças.
Resta citar, para concluir, que o mesmo Caetano Veloso na canção “Os passistas” canta a beleza de dois mulatos, que fotografados, revelam-se como nosso “cartão-postal”.

Texto publicado no Jornal A União em 07/03/2009.

Entre outros, ouvi, vi e li, por estes dias:

= Exposição Rubem Grilo Xilográfico (1985 a 2009) - Importante amostra do trabalho de Rubem Grilo. Entre as peças, matrizes usadas pelo artista. Prestar atenção nos detalhes das figuras geométricas. Na Caixa Cultural, até 12 de abril.
= Filme Slumdog Millionaire (Quem quer ser um milionário?) - Mostra um país bem diferente da Índia televisiva. Bonito argumento, trilha sonora incrível, atuais competentes..., mas não merecia o Oscar.
= Filme The Day the Earth Stood Still (O Dia em que a Terra Parou) - Só as cenas finais pagam o filme.
= Filme Rachel getting married (O casamento de Rachel) - Um filme da era pós-eleição-Obama denso e cheio de personagens complexos, como a vida. O roteiro bem elaborado e as tomadas a la documentário enchem o filme de uma delicada e precisa introspecção.
= Filme Valkyrie (Operação Valquíria) - O melhor do filme é mostrar o óbvio: nem todos os "aliados" de Hitler eram nasistas.

segunda-feira, março 02, 2009

Presença de Milk e Vicente

A estreia do filme “Milk”, de Gus Van Sant, além de lembrar que depois de tantas lutas e algumas vitórias, as minorias ganharam mais espaço e voz, e que na busca de liberdade não há facilidades, também nos faz refletir sobre como esquecemos dos que realmente fizeram algo significativo por ela: a liberdade.
Harvey Milk (1930-1978) foi pioneiro ao relacionar a discussão dos direitos dos gays com, por exemplo, a luta pela igualdade entre brancos e negros, liderada por Martin Luther King. O filme apresenta o sacrifício de um homem convicto de que valia a pena lutar pelo direito à liberdade. Poucos de fato têm tamanho desprendimento e só pelo fato de no Brasil de hoje quase nada se conhecer da história de Milk, interpretado no filme por Sean Penn, valeria a pena ir ao cinema. Mas Van Sant, com a peculiaridade que lhe é devida, faz mais que isso. Ele recria uma época em que a efervescência cultural aliada a uma ingenuidade sedutora conseguia fazer a humanidade caminhar para frente.
À época de Milk, já vivíamos sob ditadura no Brasil, e a liberdade era aventada de forma clandestina. Numa dessas felizes coincidências, esteve em cartaz no Rio por estes dias a peça “O Assalto” (1969), de José Vicente. Nela, Victor rouba o banco onde trabalha e quer dar o dinheiro a Hugo, faxineiro do banco.
Haroldo Costa Ferrari e Fransérgio Araújo, ambos egressos do Teatro Oficina, encarnam respectivamente as personagens e emprestam o tom correto ao texto atualíssimo da peça, sob direção de Marcelo Drumonnd. O uso do poder como sedução, entrecortado por um tortuoso jogo de solidão e diferenças de classes, é o mote da peça, que pioneiramente trouxe aos palcos a questão gay naqueles anos de chumbo.
Mais preocupado em demonstrar a revolta contra o sistema e a hipocrisia, do que com a criatividade estrutural, José Vicente tematiza questões existenciais que parecem próximas às que motivaram, pelo avesso, as atitudes na vida pessoal de Harvey Milk. Assim, peça de José Vicente e o filme de Gus Van Sant nos lançam esperança quando sabemos que a luta por liberdade parece não ter fim, certos de que a presença intelectual dos dois acompanha qualquer discussão sobre o assunto, na vida ou no palco.
Milk e Zé Vicente, cada um ao seu modo, merecem a nossa atenção e das novas gerações. Se hoje é possível levar 3 milhões para a Av. Paulista e “sair do armário” ficou menos doloroso, devemos lembrar de quem fez isso antes de tudo “virar moda”.

Entre outros, ouvi, vi e li, por estes dias:

= Peça Hospital da Gente - Escrita a partir dos contos do livro "Contos Negreiros" de Marcelino Freire, a peça tem montagem-instalação engajada e inteligente.
= Peça Apocalipse Segundo Domingos Oliveira - Uma personalíssima visão do juízo final, com um Deus insatisfeito com o destino escolhido pelos homens. Vale a pena conferir esta boa amostra de uma "peça de diretor".
= Peça O estrangeiro - Incrível trabalho de luz (Maneco Quinderé) e trilha sonora (Marcelo H) para o texto de Albert Camus. O esforço cênico de Guilherme Leme tem resultado favorável para um texto que trata da perplexidade do homem diante de sua humanidade. Imperdível!
= Filme The Reader (O Leitor) - Denso e conciso, o filme é mais uma película pós-nazismo.
= Filme Vick Cristina Barcelona - Um Woody Allen refinado nas questões morais, mas com pouco entusiasmo final.
= Filme Be Kind Rewind (Rebobine, Por Favor) - Sensível homenagem à história do cinema, com bons momentos para rir e se emocionar.
= Filme Yes Man (Sim Senhor!) Um concentrado e "menos afetado" Jim Carey brilha mais uma vez num filme de "autoajuda" para "gente grande".

sexta-feira, fevereiro 13, 2009

Imperdível!!!

A revista FFW Mag! traz um suplemento com mais de 150 páginas sobre Carmen Miranda. São textos (Ana Maria Bahiana, Caetano Veloso, Hermano Vianna, Pedro Alexandre Sanches, etc) e fotografias incríveis num resultado impecável. Tudo muito bem cuidado em mais de 150 páginas (só o suplemento), incluindo as reproduções dos artigos em inglês. É realmente uma preciosidade em tempos da comemoração dos 100 anos de imortalidade de nossa Carmen.

Agora é correr para as bancas e garantir um dos 40.000 exemplares.
Revista e suplemento não podem ser vendidos separadamente.
Site da revista: http://www.spfw.com.br/mag.php
Está realmente imperdível!!!

quinta-feira, fevereiro 12, 2009

Uma peça de estética camp?

Medida por Medida, montagem de Gilberto Gawronski para o texto de William Shakespeare, traduzido por Bárbara Heliodora, em cartaz até março no Teatro I do CCBB do Rio de Janeiro, é um bom exemplo de “espetáculo de diretor”.
Coerente com sua carreira, Gawronski assume os riscos de montar uma peça clássica sem ficar preso em academicismos. Interpretado a partir da ótica queer, que, segundo Guacira Lopes Louro, autora de Um corpo estranho – Ensaios sobre sexualidade e teoria queer” é o estranho e o esquisito, Medida por Medida ganha elementos importantes para sua fruição.
Reduzi-la a uma "peça gay" - Gayspeare -, como foi aventado, é certamente um reducionismo. Ler a peça a partir da teoria queer, amplia-lhe os nuances. A proliferação de elementos diversos me levou a tal leitura.
Queer é também “o excêntrico que não deseja ser integrado”, daí identificarmos na peça o clima de ludicidade e sado-masoquismo que atravessa seus cinco atos. Como o chicote indefectível que Ângelo (Ricardo Blat) usa a todo o momento, além do perturbador figurino concebido em couros, correntes e afins.
Já a atuação do debochado Luis Salém como o Duque de Viena e a presença cênica do afetado Lúcio (Celso André), e mesmo a do romântico Cláudio (Gustavo Wabner), preso, em pose à la São Sebastião, numa cela que mais faz lembrar uma “gaiola” de boate gay, reforçam a atmosfera queer, já que, para Guacira, “o sujeito da sexualidade desviante” – homossexuais, bissexuais, transexuais – também é queer.

Não é estranho, portanto, que Gawronski tenha recorrido a um elenco todo masculino, mesmo para os papéis femininos. Tanto para nos remeter ao modelo elisabetano, quando mulheres não subiam ao palco, como para acentuar a intenção caricata e drag, incorporando o desconforto da ambiguidade queer. Tudo isso se contrapõe, ou nem tanto, às inúmeras referências religiosas, a contar do título (trecho de passagem bíblica).
Tal “mistura” mostra que o diretor optou por entregar ao público um imbricado jogo de luz e sombra neobarroco. Problematizando o dualismo das relações entre o privado e a ordem pública e para impor leveza ao destino trágico dos fatos, o diretor faz girar a hipocrisia humana. Tudo sublinhado pelo exagero queer das insinuações de corpos nus embalados por Madonna, Cyndi Lauper, etc., causando estranhamento e provocação.
Com suas escolhas, a direção não nega que ainda hoje há opressão do Estado sobre o indivíduo, mas aponta que quem faz as leis são os indivíduos. Gawronski compraz-se no suplemento e nos detalhes para dar um choque nas falsas honras que cercam os autores canônicos, sem se perder em digressões tolas, nem se deixar engolir pelo texto.

Texto publicado no site Mix Brasil em 06/02/2009
http://mixbrasil.uol.com.br/mp/upload/noticia/3_51_71158.shtml

Entre outros, ouvi, vi e li, por estes dias:
= Peça Hitchcock Blonde - Boas idéias, mas com resultado duvidoso. A tentativa de unir linguagens (cinematográfica e teatral) se perde no exagero do desejo de deixar tudo muito claro.
= Filme Doubt (Dúvida) - Fotografia, posicionamentos de câmera, (quase nenhuma) trilha sonora, atuações excepcionais e texto/roteiro precisos dão a este filme um clima absurdamente tenso e denso, para mostrar as incertezas que nos acompanham na surdina.
= Exposição Rico Lins: Uma gráfica de fronteiras - Coletânea de trabalhos do designer. Oportunidade de visitar uma exposição bem apresentada de um profissional que não se contenta com pouco. Até 15/03, na Caixa Cultural-Rio.
= Exposição Vik Muniz - O MAM-Rio abriga até 08/03 a exposição deste artista que aborda, de forma engajada (pelo material utilizado), mas sem panfletarismos, a significação e a importância da arte. As montagens de Vik Muniz ampliam e incomodam a percepção do nosso mundo contemporâneo.
= Exposição Roberto Burle Marx 100 anos: A Permanência do Instável - No Paço Imperial até 22/03 é possível ver como a obra deste paisagista vai muito além das fronteiras dos jardins. Pinturas, maquetes, tapeçarias, jóias e projetos diversos dão a amplitude do grande artista.

quinta-feira, fevereiro 05, 2009

Entre outros, ouvi, vi e li, por estes dias

Livro: Literatura Brasileira em foco/O eu e suas figurações - Reunião de ensaios dos professores do Curso de Especialização em Literatura Brasileira UERJ. Os textos versam sobre a escrita em primeira pessoa e têm revelância devido às atuais revisões teóricas e críticas do tema.

Cinema: O cinema de François Truffaut - Mostra que oferece boa oportunidade de (re)ver os filmes deste que é um dos grandes diretores que criou discípulos. Até 08/02 na Caixa Cultural.

Cinema: Madagascar 2 - Tudo soa a imagens já vistas em outros filmes do gênero. Uma mistura de Rei Leão com Selvagens.

Cinema: The Curios Case of Benjamin Button - Importante material de discussão filosófica sobre o tempo, o conto de F. Scott Fitzgerald recebe tratamento adequado nesta adaptação para o cinema. Destaque (sempre) para as atuações de Cate Blanchett e Tilda Swinton.

Exposição: Brasil Brasileiro - O CCBB reúne 2 séculos de pinturas que mostram como a paisagem do Brail impactou nossos artitas. A mistura de técnicas e a variedade de artistas, além de pinturas que entraram para a nossa história, valem uma visita cuidadosa. Até 05/05.

Exposição: Hélio Oiticica/Penetráveis - Quanta gente tenta e até hoje não consegue chegar perto das soluções espaciais de Hélio? É com esta pergunta-resposta que fiquei ao sair da exposição que reúne seis penetráveis deste artista, alguns montados pela primeira vez. Imperdível. Até 21 de junho no Centro Municipal de Arte Hélio Oiticica.

Exposição: Eternamente Dulcina - Merecida homenagem póstuma (parece que sempre será assim) a esta mulher que dedicou uma vida ao teatro. É possível ver figurinos e objetos de cena, além de um vídeo com depoimentos de artistas. Até 15/03 na Grande Galeria do Teatro Nelson Rodrigues.

Teatro: Suíte 1 - Mais um bom trabalho da Companhia Brasileira de Teatro, com texto de Philippe Minyana e direção de Marcio Abreu. Em cena, os interditos, os melindres, as reservas, os conflitos e a melancolia das relações interpessoias.

Teatro: Medida por Medida - Peça de William Shakespeare dirigida por Gilberto Gawronski. O diretor compraz-se no suplemento e nos detalhes para dar um choque nas falsas honras que cercam os autores canônicos, sem se perder em digressões tolas, nem se deixar engolir pelo texto. Imperdível! Até 01/03 no CCBB.

segunda-feira, janeiro 26, 2009

Sempre cantando

Quem não vai sentir saudade de dona Edith do Prato? É dela a voz que abre o indefectível disco Araçá Azul (1973) de Caetano Veloso.
Desde a primeira audição fiquei fascinado por aquela voz carregada de sertão e de mar. Fui atrás de mais informações sobre a dona daquela voz. E assim me despertei para a beleza do canto e da personalidade da mulher que entoava samba de roda, esse gênero “primitivo” cantado deste antes do surgimento do samba de fato.
Descobri sua imagem no filme Cinema Falado (1986), único filme dirigido por Caetano Veloso. Num belo momento, surgem imagens intercaladas, ora da senhora dona da voz e da precisão percussiva, ora de Rodrigo Velloso sambando como só se samba no Recôncavo Baiano.
A partir de então, descobri que o friozinho na espinha e o calor no coração que sinto toda vez que a ouço me acompanhariam para sempre. É sinestésico. Sua atitude de raspar a faca no prato, iconizando o talho dos anseios nordestinos, representa um recanto do Brasil que teima em existir e resistir. É um Brasil de veias expostas, tal qual a literatura de Guimarães Rosa é para mim. Festa e religião não institucionalizadas.
Porém, 2009 começou com a triste notícia da morte de Edith de Oliveira Nogueira, seu nome de batismo. Não fosse o único CD – Vozes da Purificação, produzido por Maria Bethânia, – e um pontual e pouco divulgado DVD, que leva o mesmo nome do CD, talvez ficássemos “apenas” com sua voz em Araçá Azul, no qual ainda divide com Caetano os vocais de "Sugar Cane Fields Forever", interpretando canções de domínio público.
Vê-la no DVD Vozes da Purificação cantando “Marinheiro só”, com seu rosto de uma dignidade sem igual e já com voz instável, sentada, como que no quintal de sua casa, numa cadeira rodeada pelas senhoras que formam o grupo Vozes da Purificação, da cidade de Santo Amaro, é uma experiência de contato imediato com este Brasil repleto de aconchego e desafetação quase perdidos.
“Sois nossa grande esperança, refúgio e consolação”, diz o Hino de Nossa Senhora da Purificação. Certamente, o canto e o riscado de dona Edith do Prato são sensações e imagens, hipnose e limpeza que insistiram em nos acompanhar.

Texto publicado no Jornal A União-PB em 24/01/2009

Entre outros, ouvi, vi e li, por estes dias:

= Peça Mercadorias e futuro – É sempre um deslumbre ver Lirinha (vocalista do Cordel do Fogo Encantado) em cena. Aqui ele busca encontrar um preço para a arte da melhor forma possível.
= Filme RocknRolla (Guy Ricthe) - Com narrador e fotografia a la film noir, o diretor atualiza o gênero e oferece uma bofetada em quem assiste ao filme.
= Filme Jack And Miri Make a Porno - Com excelentes e hilariantes sequencias o filme tem desfecho morno.
= Show Eu não sou nenhuma santa (Sílvia Machete) - No ano em que se comemora os 100 anos de nossa Carmen Miranda, Sílvia Machete representa e sustenta a força do mito, porém, acrescentando novos elementos, antropofagicamente.
= Livro Anjos caídos (Harold Bloom) - Ensaio despretensioso, mas preciso, sobre o imaginário da figura do anjo em nossas vidas. Desde os textos religiosos, passando por John Milton, Shakespeare... Bloom chega a conclusão de que os anjos caídos são todos os humanos.

quarta-feira, janeiro 07, 2009

2008 balancês

Nestes períodos de retrospectivas, em que pesamos o que foi bom, ou nem tanto, durante o ano, faço a minha parte e aponto o que mais me agradou.
Em música, dentre alguns excelentes trabalhos lançados em 2008, destaco “Sou/Nós” de Marcelo Camelo com suas experiências de guitarra e mistura de gêneros. Letras e melodias em que a solidão arrasta o eu-lírico por sonoridades e paisagens diversas. Entre os internacionais, mereceu atenção o CD de Sam Sparro. O queridinho dos antenados apresentou um trabalho maduro e de consciência crítica sobre música.
Na dança, entre algumas coisas realmente boas que vi, a melhor de todas foi sem dúvida “Ritornelo” de Renato Vieira. A consciência técnica e corporal dos bailarinos impressiona e a coreografia dialoga com o que há de mais atual nas discussões em torno da filosofia e da literatura.
Já no cinema o ano foi mesmo de “Batman – O Cavaleiro das Trevas”. Ou seria do coringa de Heath Ledger? Enfim, sem sua caverna escura, a “escuridão” esteve imbricada nas incertezas e no interior do homem-morcego. Houve ainda a animação “Wall-E”, filme para adulto com técnica impecável. E o cinema nacional inquietou com “Romance” de Guel Arraes e seus questionamentos sobre a representação do amor na contemporaneidade. Além de “Feliz Natal”, a estréia de Selton Mello como diretor, em que prova ter sabido tirar excelente proveito de seus trabalhos como ator.
Na literatura meus olhos se voltaram para “Ensaios Radioativos” de Márcio-André. O livro reflete um autor que se permite contaminar e filtrar crítica e poeticamente o universo ao seu redor. Também se voltaram para “Textos Sentidos” de Lau Siqueira, complexa mas não inacessível discussão sobre eu-lírico e autoria como objeto de jogo poético. E ainda para “Imagens & Poemas” de Amador Ribeiro Neto e Roberto Coura. Uma lindeza de livro-objeto que une a poesia “barrocidade” de Ribeiro Neto às boas imagens de Coura.
Por fim, muita coisa boa sempre fica fora do balanço, porém não posso encerrar sem falar do show “Sticky And Sweet” de Madonna. Muita tecnologia, até para ajudar a voz sofrida da cantora. Ver o Maracanã lotado e o povo banhado de chuva, suor e luz foi indescritível. Que venha muito mais...

Entre outros, ouvi, vi e li, por estes dias:

= Peça Terapia do riso – Um amontoado de clichês e tipos que, pelo excesso de apelos, resultam em lugar comum.
= Filme Estômago - Comer uma coxinha de galinha não será mais a mesma coisa, depois de ver este filme. Excelentes interpretações.
= Filme Bolt - Mesmo com qualidade de roteiro inferior aos recentes trabalhos da Disney, o filme vale pela atualíssima discussão dos limites entre o real e a ficção.
= Exposição Zoombido - 81 fotografias que Paulinho Moska realizou através do tijolo de vidro. As imagens deformadas de artistas conhecidos causam estranhamento no visitante. O resultado fica próximo ao que Francis Bacon buscava em seus "retratos deformados".