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sexta-feira, fevereiro 22, 2013

Translunar paradise

Fica a dica: Quem gostou do filme "Amor" vai amar a peça "Translunar paradise", em cartaz no CCBB-RJ.
Parece que, como canta Arnaldo Antunes, "a coisa mais moderna que existe nesta vida é envelhecer".
Na contra-mão do elogio à juventude eterna e dos amores líquidos, tanto o filme quanto a peça tematizam o envelhecer, o ficar junto até o fim.
Na peça, inspirado no poema "A Torre", de W.B. Yeats, o grupo inglês Theatre Ad Infinitum apresenta através do gesto e da música ao vivo o arco da promessa de um amor e suas dores e delícias compartilhadas - a perda do filho, o trauma da guerra, o primeiro toque, as danças cheias de riso.
O trabalho corporal dos atores em cena é primoroso, o uso das máscaras serve muito bem à intenção do diretor, as soluções cênicas são admiráveis - tão simples e tão ricas de sentidos - e a trilha sonora é pontual e precisa. A luz é cirurgicamente bem executada, assim como a movimentação dos atores.
Tudo resulta em um complexo jogo lúdico sobre a dor e o amor. Irresistível.

sexta-feira, janeiro 11, 2013

O Globo da morte de tudo

Finalmente fui ontem ver O globo da morte de tudo, de Nuno Ramos e Eduardo Climachauska, na galeria Anita Schwartz, Gávea.
Com dois globos da morte, que, conectados, sugerem o 8, símbolo do infinito, a estrutura circundada por estantes de grandes proporções contendo de-um-tudo impacta pelas referências à enormidade de balangandãs que acumulamos ao longo da vida.
A peça-performance, já que em determinado dia os globos foram acionados fazendo as coisas todas ao redor tremelicar, cair (em parte) e despedaçar, trata "da ideia de dádiva, de dar, de entregar, de perder, de jogar fora, de deixar morrer, de reconfigurar", comentou Nuno Ramos.
Cada parede de prateleiras tem uma categoria de organização: 'Cerveja', com objetos da vida mais imediata e cotidiana; 'Nanquim', objetos associados à morte; 'Porcelana', objetos ligados ao luxo; e 'Cerâmica', as coisas arcaicas e ancestrais.
O uso dos globos, do infinito, pelos motociclistas fez a vida imediata, a morte, o luxo e o arcaico entrarem na mesma frequência infinitesimal, misturando-se, sem, contudo, acontecer a diluição de uma categoria na outra.
Ruído e trepidação, som e sentido, firme e frágil, líquido e em pedaços, antes e depois: o globo da morte de tudo. Até 17 de fevereiro.

quarta-feira, janeiro 09, 2013

O som ao redor



O som ao redor é um acontecimento cinematográfico! Porque ‘conta’ as histórias através de imagens, e sons; porque prima em criar climas a partir de contextos que chegam à naturalidade, quase despretensiosa, do cotidiano vazio; porque tem um roteiro cujas muitas pontas se tocam e se amarram, quase sem querer, querendo, eroticamente; porque suas personagens (seus atores) entendem e traduzem no corpo, na voz a estética (vida mais real) da expressividade hipermidiática da ausência de silêncio; porque é cruel, cru, duro, a partir da ironia em que o expectador se sente (des)confortável; porque pergunta se , de fato, estamos evoluindo, progredindo; porque não aponta ‘soluções’, foca nas tensões multifacetando as causas, efeitos e respostas; porque esmiúça sem pudor as microfísicas dos poderes; porque totemiza tabus; porque anda sobre o fio teso da pseudo troca de turno entre o coronelismo e a milícia, abordando a promiscuidade entre rural e urbano, individual e coletivo, ingênuo e sabido, simples e complexo; porque entende, quase desleixadamente, a não-imunização das relações atuais: explodindo esferas que se julgam fechadas (salvas) e no fundo se revelam espumosas, imbricadas; porque mostra que aquilo que se supunha unidade está contaminada até a medula por cenários simultâneos;  porque capta o Brasil braseiro; porque sabe que “a íris do olho de deus tem muitos arcos” e ‘mata’ Deus ao amplificar o humano demasiado humano; porque recupera pós-metafisicamente o pluralismo pré-metafísico das ficções do mundo; porque traduz à perfeição a virtualidade da hipermídia, a ampliação das unidades de sentido; porque entende a paranoia de se viver em esferas-espumas, sob a frequente presença – estimulante e entediante – do perigo.

segunda-feira, dezembro 31, 2012

Sons de 2013



Para quem curte, uma lista aleatória dos sons que (me) tocaram em 2012
e que continuarão (me) tocando em 2013 e depois:
 
Abraçaço - Caetano Veloso: Talvez o mais direto e menos metafórico (no que diz respeito às mensagens) dos três discos até agora lançados com a Bandacê. Os sujeitos cancionais criados por Caetano se ressentem e cantam a solidão, o intertido e suas convicções político-estéticas-afetivas. Um discaço! Para ouvir

Treme - Gaby Amarantos: Gaby é a erupção do vulcão (de led e aparelhagem) gerado pela cena sonora do Pará. Unindo tradição (vozes da floresta) com tecnologia e mirada de mercado, Gaby abre caminho para que os viciados ouvidos brasileiros se voltem para outras luminosas e amplas direções. Para ouvir

Tudo esclarecido - Zélia Duncan: Um disco que lança luz sobre a obra singular de Itamar Assumpção. Aqui, a voz elegante de Zélia e as soluções de produção são a cama sonora precisa para as dores e alegrias poéticas de nosso pretobras. Para ouvir

Tropicália lixo lógico - Tom Zé: não bastassem a vitalidade e o tesão que Tom Zé demonstra ao cumprir sua função-cancionista, este disco seminal defende sua complexa tese do tal "lixo lógico" de modo lúdico, como o grande analfatótele-tropicalista que ele é. Para ouvir

Metal Metal - Metá Metá: Talvez, ao lado do disco de Tom Zé, o disco mais inventivo de 2012. O trio formado pelo compositor e violonista Kiko Dinucci, a cantora Juçara Marçal e o compositor e saxofonista Thiago França traduz em canção a antropofagia oswaldiana: transmutam em totem o tabu de misturar tradição (extratos sonoros dos orixás) e modernidade (novas sonoridades para os mitos). Para ouvir

The moon 1111 - Otto: Reinventando-se, como um moleque solto e livre pelas ruas da cidade, Otto oferece ao ouvinte um disco solar e desigual. Sempre mais interessado em "dizer" através da percussão (do ritmo), Otto compõe um disco para ser curtido aos poucos, posto que cheio de filigranas. Para ouvir

Feitiço caboclo - Dona Onete: Por si, Dona Onete é um motor da luz, da malemolência-tabu tropical-brasileira. Ela concentra as sabedorias de uma grande mãe com o coração carregado de vontade de ser sapeca: canto e mambo criolo, caboclo, misto, amalgamado, gamado no desejo de ser feliz do jeito-que-é. Sem lamentações, só canção. Para ouvir

 A revolta dos ritmos - Moraes Moreira: O cancionista mostra que está mais novo (baiano) que nunca. Os sujeitos das canções do disco cantam as forças que alimentam o poeta (cantor) e a poesia (canção). Moraes faz de sua inquietação particular uma "aula" (nada didática, luminosa) sobre brasilidade - diferença e mistura - sonora. Para ouvir

O deus que devassa mas também cura - Lucas Santtana: Com sons eletrônico-orgânicos, Lucas tem causado pane nas definições de cancionista. Rompendo as fronteiras entre as artes, misturando imagens sonoras, paisagens poéticas e performances vocais, o trabalho de Lucas Santtana é o que de mais antenado há em canção. Para ouvir

 Rita Lee - Reza: Zombeteira, sambando na cara dos caretas, Rita continua sendo ela. O disco cheio de autoreferências divaga sobre temas importantes para o Brasil (mundo) contemporâneo: liberdade religiosa, velhice, feminilidade. De um modo que só quem é Rita Lee sabe fazer. Para ouvir

 Sotaque carregado - DJ MAM: O título do disco já diz muito do trabalho deste DJ ornado de cocar. O empenho no amalgamar floresta, negritude e asfalto faz do disco um libelo à brasilidade, à festa. Além de reafirmar que é no corpo brasileiro que o afrobeat de Fela Kuti ainda tem encontrado melhor tradução. Para ouvir

domingo, dezembro 16, 2012

quarta-feira, dezembro 12, 2012

I(nu)tensílios




A obrigação de ser feliz nos sufoca. O quente é ser alegre: barulhento na criação de efeitos especiais que nos dêem um pouquinho de felicidade. Sofrer e morrer, definitivamente, não está nos planos. Ninguém sofre mais do que um milésimo de segundo, quando muito. E qualquer indivíduo lúcido dirá que isso é o certo. Descartamos sujeitos e objetos com a mesma competência. Temos confundido a afirmação da vida com a denegação da dor, tão necessária – quanto a alegria – à nossa presença no mundo: à intensidade dos sentidos – das diversas pontas da estrela; dos muitos arcos que a íris do olho de Deus estampa. Afinal, matamos mesmo o Todo Poderoso, ou recalcadamente pulverizamos (fragmentamos) sua presença nas inúmeras bugigangas-próteses que enchem nossos lugares do afeto e têm produzido mais poluição (trava no movimento) do que consolo?
A intervenção estética de Elineide Alcântara complexifica a pergunta ao investir na fotografia nublada do incapturável, da fissura no ponto luminoso que nos (In)utiliza à vida. Cartografando os paliativos físicos – externos ao indivíduo – criados para dar sentido e vida em abundância, Elineide registra, em imagens e palavras, os penduricalhos, balangandãs (orteses) nossos de cada dia; pinça o comum, o simples, o excesso de absurdos, de espantos. De dentro da bolha ímpar que cada imagem e poema guardados em I(nu)tensílios representa há uma voz que sublinha o desnivelamento entre a vida que desejamos, nós (leitores: viventes) e a que temos vivido.
Há remédio para (quase) tudo e essa certeza movimenta comércios poderosos. Daí a urgência cíclica e permanente de criar no indivíduo o desejo de outras novas necessidades vitais: fórmulas, enfeites, muletas que, no mais das vezes, não conseguem ultrapassar a pele. Deste modo, pela potência de anonimato, o ciberespaço auxilia o indivíduo moderno na brincadeira de viver e se transformar em outros, que, na realidade, é ele mesmo. Ou seja, os fakes da internet são facetas (máscaras) do indivíduo que lhes cria. Indivíduo e fake (eu e o outro) não estão nem são dissociados.
O I do título deste livro, recuperando uma sintomática proliferação – Ipods, Ipads, Iphones –, em consonância com o nu, não deixa dúvidas: o desejo tem sido urdido pelo lado de fora, na ficcionalização de eus. O acúmulo de acessórios – porta-estandartes de nossas carências – no quarto da bagunça, no escaninho da memória, diz muito do caminho traçado. E o amor é hiper quântico, canta a voz que sai do fone fúcsia de ouvido. Sim, fúcsia. Temos um fone de cada cor, para combinar com cada tom de roupa, bolsa, cinto, humor.
As vantagens do mundo moderno, com suas tecnologias sempre à disposição do bem individual são inegáveis. Mas, e quando a cortina fecha? E quando o indivíduo está sozinho, no seu quarto, no fim do dia, e o mundo desaba? Há remédios para tamanha produção de presença de si? Eis por onde passeia o sujeito lírico de Elineide: montando e desmontando mundos internos. Ao contrário de uma apologia enviesada à dor, ao sofrimento, à lágrima, I(nu)tensílios canta os sintomas da solidão existencial irremediável, convidando o leitor a entrar no espelho: mergulhar na ficção – única vida possível?