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segunda-feira, junho 28, 2010

Convite: Me roubaram uns dias contados


Editora Record e Livraria Museu da República
convidam para o lançamento do livro

Me roubaram uns dias contados,
de Rodrigo de Souza Leão

Dia: 02 de julho, sexta-feira, 19h

Debate com Franklin Alves Dassie, Leonardo Gandolfi
e Suzana Vargas.
Mediação: Ramon Mello

Livraria Museu da República
Rua do Catete, 153. Palácio do Catete
Rio de Janeiro/RJ - Tel: (21) 2556 5828

O Museu da República dispõe de estacionamento
e fica em frente à Estação Catete do Metrô.

quinta-feira, junho 24, 2010

Tiê

Tiê
Sweet Jardim
Teatro de Arena - Caixa Cultural/RJ
23/06/2010

sábado, junho 19, 2010

José Saramago


Em seu Diário, no dia 3 de Dezembro de 1935, escreveu Miguel Torga: “Morreu Fernando Pessoa. Mal acabei de ler a notícia no jornal, fechei a porta do consultório e meti-me pelos montes a cabo. Fui chorar com os pinheiros e com as fragas a morte do nosso maior poeta de hoje...” Hoje, agora há pouco, neste dia 18 de junho de 2010, chega-me pelo telefone a notícia de que morreu Saramago. Não tenho pinheiros nem fragas para meter-me entre eles e ir chorar minha profunda tristeza, mas posso, pelo menos, dizer que estou chorando a morte do maior ficcionista de Portugal, um dos meus mais queridos amigos...

Cleonice Berardinelli

segunda-feira, junho 14, 2010

A festa da fé

O xote, o xaxado e o baião, com suas derivações, sempre estiveram presentes na obra de Gilberto Gil. Vira e mexe, é possível identificar as matrizes do sertão nordestino impregnando as canções de Gil com sonoridades de puro encantamento e ritmo.
Fé na festa, novo disco de Gil, adensa estas miradas nordestinas utilizando os estratos melódicos/rítmicos e os temas das noites de céu em festa: noites de São João. A festa que, como o mundo, segue a pulsação e as variações impostas pelo tempo. Pesco "O livre atirador e a pegadora", um xote dengoso, como pretexto de minhas observações.
O sujeito da canção sente o clima sensual das noites frias de junho, mas expande seu canto para o comportamento dos brincantes (aqueles que vão, e fazem, à festa) dos festejos populares do Brasil inteiro. "Vale pro Rio, São Paulo, pra Bahia", canta.
O mote é o malfadado e desejado "vale-night" (outrora conhecido como "alvará de soltura" ou "alforria"). Ele é a solução para a agonia daqueles que querem curtir a festa, com liberdade, mas não querem ficar mal com seus parceiros (fixos). O "passaporte da alegria" atesta e formaliza a ideia de que "eu sou de ninguém, eu sou de todo mundo e todo mundo é meu também". Mas, óbvio, como toda formalidade, o vale (night or day) tem um prazo de validade, estabelecido pelos namorados.
Sem juízo de valor, ou qualquer falsa moral, o sujeito, meio confuso, canta (observa e registra) o novo modelo ético-erótico-afetivo estabelecido pelas pessoas na festa, em que a quantidade de "ficadas" ("muita performance, muita parada") despoleta, ou não, a qualidade das relações, tão quentes e frágeis quanto uma brasa de fogueira. Ou, como canta o sujeito melancólico da canção “Estela azul”, frágil como um balão de seda, porém, sem o stress das relações românticas, com suas pressões e cobranças intrínsecas.
O sujeito de “O livre atirador e a pegadora” não sabe mais como definir os casos eróticos: "Não é casal porque não são casados, não é um par porque logo são três, ou mais" e vaticina "amor pra eles é amor pletora". Nomes de bandas, tais como Timbalada, Babado Novo, Psirico e Calcinha Preta, viram substantivos e adjetivos que espelham e espalham a sensualidade pela noite afora.
Fé na festa, com Gil xaxando no barro, na capa, indicia as mudanças na paisagem das noites de São João e a fé na continuidade da festa. Memórias e sintomas se justapõem para concluir que afinal é preciso mudar para permanecer.

Texto publicado no jornal A União, em 13/06/2010

Entre outros, ouvi, vi e li, por estes dias:

= Ópera Il Trovatore - A montagem asséptica de Bia Lessa investe na palavra e no canto.
= Peça 3 horizontes - Um trabalho bem cuidado.
= Filme A single man - Asséptico e bonito. O final poderia ser diferente, apesar dos índices.
= Filme El secreto de sus ojos - Como o filme feito na Argentina é vigoroso!
= Filme Date night - Feito para o brilho dos protagonistas.
= Filme Plano B - Bobinho, mas desopilante.
= Filme Soul Kitchen - Humor, ação e atuações incríveis.
= Dança Mané gostoso - Boa amostra da malemolencia nordestina.
= Dança Intérieur nuit - Jean-Baptiste Andre se põe inteiro para registrar a angústia título.

sábado, junho 12, 2010

SEMINÁRIOS INTERNACIONAIS INTERSEMIÓTICOS VI

SEMINÁRIOS INTERNACIONAIS INTERSEMIÓTICOS VI:
Roland Barthes, do estruturalismo ao pós-estruturalismo.

Coordenação Geral:
Prof. Dr. Latuf Isaias Mucci

Dias 20 e 27 de JULHO de 2010 - UFF


Mais informações e Inscrições

segunda-feira, maio 31, 2010

Darwin, Mozart e a trilha sonora da mente

No momento em que o interesse pelos estudos sobre música e canção aumenta no Brasil, o livro de Daniel J. Levitin, “A música no seu cérebro – a ciência de uma obsessão humana”, lançado agora aqui, merece atenção e leitura sublinhada e crítica.

Diretor do Laboratório de Percepção, Cognição e Especialização Musicais da Universidade McGill, em Montreal, Canadá, Levitin vem desenvolvendo pesquisas referenciais sobre uma área pouco investigada: a relação íntima entre cérebro e música. O autor, sintomaticamente baseado na evolução darwiniana, parte da tese de que a música distingue o homem dos outros animais. E que a música é determinante na formação da linguagem, da cultura e do pensamento.

Para responder perguntas tais como o modo que o prazer (e o gosto) musical se inscrevem em nós, Levitin, fugindo das elucubrações subjetivas, vai desde a ressonância magnética de cérebros em contato com diferentes sons, e de artistas durante o trabalho, até medições da afinação de pessoas comuns e de cantores.

O professor não está sozinho na empreitada. Segundo ele mesmo afirma, além de pessoas já conhecidas no meio – Oliver Sacks e Robert Jourdain, por exemplo – há pelo menos 250 pesquisadores que hoje trabalham nisso ao redor do mundo. O que distingue Levitin é o corpus utilizado. Enquanto a maioria usa apenas a música erudita, ele investiga também, e isso torna o livro mais próximo do leitor comum, a música cotidiana, aquela que toca no rádio. A canção nossa de cada dia.

“A música no seu cérebro” trata, de forma generosa e acessível, sem perder o foco científico, a presença da música na vida, no humano e no cérebro. Aproveitando o conhecimento que adquiriu como produtor musical, cita exemplos que vão de Mozart a Eminem, para refletir sobre como as músicas doces, amargas e agridoces determinam quem somos e as nossas atividades.

Durante a leitura do livro de Levitin, vários fragmentos de leituras vêm à mente. Ele permite inferências e interferências que auxiliam no entendimento. Deve, assim, ser lido com pontuais ligações intertextuais. Citamos aqui pelo menos duas.

Quando o autor, músico formado pelo Berklee College, pensa sobre o modo que os compositores (neosereias na era da reprodução técnica) podem investir em dado aspecto, a fim de conseguir um determinado efeito no ouvinte, Levitin se aproxima das conclusões alcançadas por Octávio Paz, para quem o poeta utiliza o ritmo já existente no mundo e em si para compor. Paz nota que, mais que um acordo, há um acorde nos diálogos universais.

Em “O arco e a lira”, Paz sente e analisa o ritmo como conceito primordial do fazer poético. Ou, mais além, Paz fala do mundo como poema e, como tal, provido da repetição rítmica que é a invocação e a convocação do tempo original. Há um tempo interior e individual que movimenta o sujeito e influencia sua existência. Daí a atenção que Levitin oferece à respiração (estimulante), enquanto símbolo e signo do ritmo, daquilo que nos torna aptos à música, e que faz parte da natureza humana e foi/é fundamental para a evolução da espécie.

Sem ritmo não há poema, logo, não há vida. Levitin, por sua vez, postula claramente que “a formação e então a manipulação de expectativas está no coração da música e é realizada de um número incontável de maneiras”. Até porque, com o passar do tempo, nosso cérebro passa a “esperar” determinado som, cabendo ao artista produzi-lo.

O bom artista, portanto, é aquele que consegue ter a sensibilidade de captar a necessidade do ouvinte e, através dos recursos técnicos, criar a experiência musical desejada. Reforçando o conceito de poeta apresentado acima e defendido por Octávio Paz.

A outra referência, ainda para entender o “tempo primordial”, vem do pensamento de Peter Sloterdijk. Em seu “Esferas I”, este filósofo pós-nietzschiano pensa o ventre materno (microesfera) como esfera sonora pré-natal. A mãe canta a vida para o bebê. É aqui que, para Levitin, em contrapartida, o gosto musical é detonado. Nossas preferências musicais começam a ser formadas antes de nascermos, além de este período determinar a construção da qualificação musical.

Porém, Sloterdijk assinala que o desenvolvimento da capacidade crítica do espaço compartilhado leva o sujeito, enquanto adulto, a fechar os ouvidos. Dito de outro modo, temos aquilo que Levitin chama em seu livro de “ponto de corte”, ou momento para a aquisição de novos gostos na música.

“A música no seu cérebro” quer deixar claro, e consegue, que o ser humano gosta, porque precisa, de ser cantado e que a vida só faz sentido assim. Apesar de em alguns momentos carregar nas tintas, haja vista sua paixão pelos itens analisados, o autor transparece consciência e competência ao lidar com um objeto que, como Nietzsche vaticinou, é a afirmação da existência. Aliás, fechamos o livro com as palavras de Nietzsche, em carta a Peter Gast, ressoando em nossa caixa acústica interior: “A vida sem música é simplesmente um erro, uma tarefa cansativa, um exílio”. E perguntando-nos: há vida fora da música?

Texto publicado no jornal O Globo (Caderno Prosa & Verso), em 29/05/2010

Entre outros, ouvi, vi e li, por estes dias:

- Filme Olhos azuis – A fronteira (o não-espaço, o lugar da perda de identidade) muito bem apresentada.

- Filme Teta assustada – Roteiro e história extremamente originais.

- Filme Quincas Berra D’água – O Quincas do filme não é o Quincas do livro, mas igualmente bem construído (emocionante e bem humorado).

- Filme Chlóe – Um registrado da absurdidade para a qual o destempero emocional pode nos levar.

- Filme Os homens que não amavam as mulheres – Aterradora mirada sobre a insensibilidade humana (nossa) diante da alteridade.

- Filme Mary and Max – A história de uma amizade singularíssima. Lindo e arrebatador.

- Peça Sade em Sodoma – A imagética de Sade se dilui entre cenários e “atmosfera temporal” mal executados.

- Peça A gaiola das loucas – Os números de dança são impecáveis.

- Peça Avenida Q – A mais bem humorada, encenada e atuada peça dos últimos tempos.

- Exposição Press World Photo 2010 – Imperdível! Na Caixa Cultural-RJ.

terça-feira, maio 25, 2010

Arnaldo Antunes e Edgar Scandurra

Arnaldo Antunes e Edgar Scandurra
Peça MPB
Teatro dos Quatro
24/05/2010






segunda-feira, maio 10, 2010

Convite


Lançamento do novo livro de Lucas Viriato de Medeiros:

Contos de Mary Blaigdfield, a mulher que
não queria falar sobre o Kentucky (e outras histórias)


Restaurante Ettore do Leblon,

Rua Conde de Bernadotte, 26, lj.110

a partir das 19h

sábado, maio 08, 2010

Vanessa da Mata

Mulheres Brasileiras
Vivo Rio
07/05/2010


Participações: Dona Ivone Lara e Mart'nália

quarta-feira, maio 05, 2010

Carlinhos Brown Solo

Gravação do Programa Solo MPB
MPBFM

Teatro Poeira

04/05/2010


Apresentação Toni Platão

quinta-feira, abril 29, 2010

A urgência do instante

Dentre as efemérides da celebração pelos 50 anos de Renato Russo, o livro “Como se não houvesse amanhã” – coletânea de contos inspirados nas canções da Legião Urbana, organizada por Henrique Rodrigues – é uma boa homenagem ao cantor e compositor.
Todos os vinte contistas são, assumida e sensivelmente, fãs banda que ainda hoje mantém aficionados. A angústia produtiva e a inadaptação ao mundo, que atravessavam as canções também direcionam as tentativas de traduções interssemióticas do livro. Mesmo que as canções sejam uma referência distante, ou que versos apareçam diluídos nos textos, a lição de Renato foi introjetada.
Desde “Será”, de Daniela Santi, que abre o livro com lente hitchcockiana e persegue o amadurecimento prematuro, através de dramas sem motivos aparentes, de uma jovem estudante, até “Sagrado coração”, de Maurício de Almeida, de teor confessional, há algo que mina,
falta e jorra. Um remexer intenso e vazio nas caixas da memória.
O gozo erótico fica no plano escritural, pois a fisicalidade diegética está sempre fraturada. “Um corpo morto não goza”. Os sujeitos se paralisam diante dos convites e intimações da existência. Delírios, separações e sêmen no chão dão o tom.
A ausência de verdade, ou a proliferação exagerada delas, é uma das musas das canções da Legião Urbana. Buscar, dentro do sereno da madrugada, exaspera o querer do sujeito, como mostra o conto “Sereníssima”, de Ramon Mello. Há, aqui, um grito de alerta e a procura da palavra mais certa para dizer o indizível.
Este conto, aliás, é uma “ode” à canção popular. Muitas tessituras sonoras se cruzam, como os caminhos cruzados das personagens. A cama é tatame, o fracasso é relativizado pela inscrição do desejo amoroso e os atos são desenhados sobre acordos íntimos desbotados. O sujeito, exasperado, canta o eterno retorno do fim.
Para o bem e para o mal, o desespero, a ansiedade (adolescente) e o enfado diante do mundo provocam as ranhuras doídas e insofismáveis das canções da Legião Urbana e, consequentemente, dos contos. As personagens sem nomes próprios adensam o desejo de atingir o inconsciente do ouvinte-leitor e a intimidade é, por vezes, conseguida.
“Como se não houvesse amanhã”, com as irregularidades que marcam qualquer coletânea, é uma boa amostra sintomática de uma geração cuja certeza passa pela sabedoria de que algo se quebrou e está se quebrando.

Texto publicado no Jornal A União em 29/05/2010

Entre outros, ouvi, vi e li, por estes dias:


= Filme - Alice in the Wonderland - Não vi os créditos para as traduções de Augusto de Campos, mas o filme, um recorte bacana das histórias, é muito bem feito.
= Filme - Shutter Island - Mais um título brasileiro ridículo (Ilha do medo), para um filme bem armado.
= Filme - The box - Roteiro confuso para uma ideia forte.
= Filme - Did you hear about the Morgans? - Rende umas risadas aqui e ali.
= Filme - The men who stare at goats - Excelente e desbundado roteiro. Além das atuações brilhantes.
= Filme - Histórias de amor duram apenas 90 minutos - Um dos melhores filmes brasileiros de agora. Maduro, bem acabado e com enredo empolgante.
= Filme - Chico Xavier - Um roteiro de "novela das seis", mas que merece ser visto pela história de Chico.
= Filme - The road - Denso e pessimista (ao ponto).
= Filme - From Paris with love - Ação e humor (quase) em harmonia.
= Filme - The bounty hunter - Rende algumas risadas.
= Peça - Vicente celestino: a voz orgulho do Brasil - Impecáveis interpretações e um musical à altura do grande mestre.
= Peça - Dona Otília e outras histórias - Leve e precisa como um encontro casual em uma floricultura.
= Peça - Acorda, Zé! - Cenografia, figurino e atuações em perfeita sincronia.
= Peça - Fronteiras - Filosofia em cena.
= Dança - P.P.P. de Philippe Ménard - Performance aterradora fora a liquefação das certezas.
= Dança - Trittico do Balletto Dell'Esperia - Bonito de se ver.

segunda-feira, abril 26, 2010

Viradão Carioca 2010

Rita Ribeiro
24/04
18h
Praia do Leme





Sandra de Sá
24/04
20h
Praça XV





Paula Toller
24/04
22h
Cinelândia





Milton Nascimento
25/04
21h
Praça XV




segunda-feira, abril 05, 2010

Coleção Raízes da MPB

São 25 livros-CDs de compositores que representam
o nascimento da expressão musical brasileira,
contemplando suas biografias,
influências musicais e repertório.

Acesse:
http://raizesmpb.folha.com.br/

Já nas bancas!

quinta-feira, abril 01, 2010

Poemúsica ou Showversa

O Instituto Moreira Sales abrigou no recente 29/03 uma noite memorável, tanto para quem curte/estuda poesia, quanto para quem curte/estuda música e canção.
O evento Poemúsica reuniu Augusto de Campos, Cid Campos e Adriana Calcanhotto em uma celebração cerebral, corporal, visual e vocal da palavra feita canção.

Através de uma showversa, Augusto apresentou como as inovações da Poesia Concreta fizeram a cabeça sonora dos compositores contemporâneos brasileiros e vice-versa.
Augusto lembrou que a Poesia Concreta começou com música, pela ênfase no canto não "operístico" e pela substituição da declamação pelo que os concretistas chamaram de oralização.
Não é segredo para nenhum interessado no assunto que Webern, Schönberg, Berg, Cage e Varèse por exemplo, fizeram parte do paideuma dos concretistas. Mas Augusto destacou ainda a dicção de Lupicínio Rodrigues e Noel Rosa como "autores" básicos para a construção da filiação musical do movimento. Além de Billie Holiday, Dizzy Gillespie e Miles Davis, que fizeram da chegada de João Gilberto à cena cancional um júbilo de certezas.
Ou seja, Poesia Concreta pode sim ser ouvida, falada ou cantada. Contrariando alguns detratores de primeira ordem, Caetano Veloso, que segundo Augusto de Campos (em referência a uma fotografia em que Caetano aparece sombreado na cabeça de Augusto) "radiogravou" a intenção do poeta concretista ao cantar o poema "Dias dias dias" (1973) com a ênfase no som (polivocal) e nas citações metalinguísticas de Webern e Lupicínio.

Mais tarde, em 1975, Caetano reafirmaria a mirada sonora da Poesia Concreta ao gravar "O pulsar". Poema que regravaria outras vezes, inclusive ao vivo.
Sistematicamente, o trabalho de Cid Campos é a melhor tradução sonora da Poesia Concreta. O disco Poesia é risco, não me deixa mentir.
Mas, voltando a Poemúsica, os três poetas apresentaram a bela interpretação de "O verme e a estrela". Poesia de Pedro Kilkerry que está registrado no disco A fábrica do poema, de Adriana Calcanhotto. Aqui, graves e agudos se sobrepoem e dialogam buscando alcançar o eixo da mensagem de Kilkerry.

No momento Arnaut Daniel, Adriana cantou ao modo medieval uma bela canção - "Canção de amor cantar eu vim" - do poeta (conhecido pelas estruturas rítmicas e rímicas inventivas), fazendo a frequente questão - letra de música é poesia? - caducar. A sofisticação de Adriana deu a leveza exata à canção.Obviamente, Ezra Pound não poderia ficar de fora; e muito menos Herman Melville (com Calcanhotto tirado o "canto da baleia" do Cello).

"Sem saída" poema de Augusto, cantado por Calcanhotto no disco Maré, foi apresentado com citações e referências à "It's a long way", de Caetano Veloso. Afinal, sem saída é it's a long long long long way.

O momento Lewis Carrol, em que Augusto, Adriana e Cid apresentaram as traduções de Augusto, para a obra do escritor, foi a mais encantadora. No sentido de que a persona Partimpim de Adriana (quase) se fez presente. "O mocho e a gatinha" e "Canção da falsa tartaruga" foram interpretadas com cuidado estético e graça. Além de "Alface", tradução de Augusto para poema de Edward Lear.

Emily Dickson e Janis Joplin, entre outros, também foram lembradas e identificadas com a Poesia Concreta.

Por fim, ficou a confirmação de que a informação musical formou a poesia que pretendia ser “verbivocovisual” (expressão do Finnegans Wake, de Joyce).
Em um momento em que as produções (acadêmicas, ou não) sobre canção não param de aumentar, ouvir Augusto de Campos lembrar pontos (comodamento esquecidos) da história de nossa poesia e de nossa canção é fundamental e iluminador.
A união entre poesia experimental e música (para além da letra com a melodia) , oxalá, ainda renderá outros bons trabalhos e momentos como este do Poemúsica.
Quanto a Augusto, como ele próprio registrou, como disse Schönberg, “a melhor forma de entender a minha música é: esqueçam as teorias, o dodecafonismo, a dissonância e, se possível, a mim mesmo”.