
Em Macho toys - n° 24, por exemplo, utilizando brinquedos do universo dos meninos (soldados, helicópteros e carros de guerra) em contato com o colorido das flores de plástico, Fábio Carvalho não feminiliza a imagem dos soldados de brinquedo, como pode pensar um visitante de primeira mirada.
Ao contrário, o artista restitui ao macho, ao colocá-lo, em suas virilidade e agressividade potentes, sobre pires de porcelanas, um poder que ele (o homem) outrora ostentava. Sim, houve um tempo em que colecionar porcelana era "coisa de homem" - emblema de poder: quanto mais florida a louça, mais rico era o dono - e isso não tinha, em princípio, relação com a orientação sexual.
O estranhamento em Macho toys vem, portanto, da intervenção semântica que Fábio Carvalho imprime nos conceitos culturalmente definidores de preconceitos e dores. A criação de um dispositivo de terceira margem - de frágil-vigor: a porcelana como suporte da agressividade - quer mais estimular a reflexão sobre os acordos íntimos e sociais daquilo que "serve para o homem" do que travestir o masculino em feminino.
Outro exemplo: em Dos que partem, aos que ficam (Santuário de ninfas II), Fábio Carvalho reproduz retratos de soldados da Primeira Guerra Mundial - imagens que os próprios soldados faziam uns dos outros antes da partida. Há aqui uma flagrante virilidade (composta pelo vestuário, pela pose do fotografado e pelo imaginário de quem olha) e, ao mesmo tempo, uma ingenuidade diante do terror iminente, que, emolduradas pelos decalques florais e transfer ouro do artista, complexifica as posturas, as definições nítidas do macho que pousa para outro macho que, por sua vez, capta a beleza do companheiro. Fábio Carvalho percebe, e trabalha sobre, essa dobradiça do desejo - o que pode e o que não pode ser -, desautomatizando o olhar do visitante.
Macho toys pode até ser lida como arte gay, mas isto seria uma redução tacanha das questões que a série apresenta. No fundo, amamos a mentira da maquiagem (das representações que construímos para nossa segurança). Quando floral e/ou florido, o homem se desassemelha do homem? Eis a pergunta que serpenteia a mente do visitante da exposição Macho toys.
Ao contrário, o artista restitui ao macho, ao colocá-lo, em suas virilidade e agressividade potentes, sobre pires de porcelanas, um poder que ele (o homem) outrora ostentava. Sim, houve um tempo em que colecionar porcelana era "coisa de homem" - emblema de poder: quanto mais florida a louça, mais rico era o dono - e isso não tinha, em princípio, relação com a orientação sexual.
O estranhamento em Macho toys vem, portanto, da intervenção semântica que Fábio Carvalho imprime nos conceitos culturalmente definidores de preconceitos e dores. A criação de um dispositivo de terceira margem - de frágil-vigor: a porcelana como suporte da agressividade - quer mais estimular a reflexão sobre os acordos íntimos e sociais daquilo que "serve para o homem" do que travestir o masculino em feminino.
Outro exemplo: em Dos que partem, aos que ficam (Santuário de ninfas II), Fábio Carvalho reproduz retratos de soldados da Primeira Guerra Mundial - imagens que os próprios soldados faziam uns dos outros antes da partida. Há aqui uma flagrante virilidade (composta pelo vestuário, pela pose do fotografado e pelo imaginário de quem olha) e, ao mesmo tempo, uma ingenuidade diante do terror iminente, que, emolduradas pelos decalques florais e transfer ouro do artista, complexifica as posturas, as definições nítidas do macho que pousa para outro macho que, por sua vez, capta a beleza do companheiro. Fábio Carvalho percebe, e trabalha sobre, essa dobradiça do desejo - o que pode e o que não pode ser -, desautomatizando o olhar do visitante.
Macho toys pode até ser lida como arte gay, mas isto seria uma redução tacanha das questões que a série apresenta. No fundo, amamos a mentira da maquiagem (das representações que construímos para nossa segurança). Quando floral e/ou florido, o homem se desassemelha do homem? Eis a pergunta que serpenteia a mente do visitante da exposição Macho toys.
Um comentário:
Leonardo!
Que texto sensível, inteligente, e bonito! Obrigado!! Fiquei emocionado.
Se você me autoriza, vai integrar a lista de textos críticos sobre o meu trabalho.
Foi um dos melhores já escritos sobre os Macho Toys.
abraços!
Fábio
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